sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Famoso por sua participação política: Cão ‘rebelde’ volta a participar de manifestação na Grécia - ANDA

Famoso por sua participação política: Cão ‘rebelde’ volta a participar de manifestação na Grécia

‘Loukanikos’, o cão que é já uma celebridade com direito a blogue e vídeos, voltou ontem a marcar presença na manifestação dos funcionários públicos gregos.'Loukanikos' a ladrar contra as forças policiais gregas (Foto: Yannis Behrakis/Reuters)

‘Loukanikos’, o cão salsicha, voltou ontem (5) a marcar o seu lugar na linha da frente de uma manifestação diante das forças policiais. O cão anarquista acompanhou as dezenas de milhares de funcionários gregos que se manifestaram, em dia de greve do setor público, em Atenas e Salónica.

À margem da manifestação em Atenas, que juntou 18 mil pessoas, forças anti-motim lançaram gás lacrimogêneo contra as dezenas de jovens com capuz que atiravam pedras e garrafas.

‘Loukanikos’ alinhou mais uma vez pelos manifestantes. A sua presença habitual nos protestos já o tornou numa celebridade, com direito a blogue e destaque midiático.

Cães que vivem nas ruas não são sacrificados
Ele é um dos muitos cães de rua da capital grega. Ao contrário do que acontece em outros países, na Grécia as autoridades não sacrificam os cães de rua. Tratam-nos, dão-lhes vacinas, e voltam a soltá-los, após a inserção de microships e colocação de coleiras com um número de identificação e um número de telefone para onde se deverá ligar caso causem problemas.

“Na maioria dos países europeus, resolvem o problema (dos cães de rua) com eutanásia. Mas a cultura grega é contra isso. A nossa lei procura antes ir no sentido da reabilitação dos cães. As pessoas aqui tomam conta deles e amam-nos. São como que os cães de toda a gente”, referiu Anna Makri, dirigente dos serviços municipais de Atenas para os animais de rua.
Fonte: Expresso
Retirado: http://www.anda.jor.br/

Curtir or not curtir - por Passa Palavra

Curtir or not curtir
Será que só podemos falar das manifestações quando estas são sensatas? Não seria tão imperioso relatar estas coisas, assim como denunciar a burocratização interna dos movimentos ou a assimilação das lutas pelo capitalismo? Por Passa Palavra

Na sexta-feira, 30 de setembro, fui a uma manifestação contra a privatização do Elevador Lacerda, planos inclinados e estações de ônibus em frente à Prefeitura de Salvador.

Pelo que me disseram, mais de 3 mil pessoas colocaram “curtir” neste chamado de mobilização autônoma pelo Facebook, no qual não haveria bandeiras de partidos ou sindicatos.A mobilização estava marcada das 16 às 21h! As 17h, quando achei que não chegaria mais ninguém e estava me entretendo com um mendigo gritando e meia-dúzia de crianças apitando, os primeiros manifestantes começaram a surgir, levantando-se das mesas do café ao redor, do ponto de ônibus, e sentaram-se em frente à praça da Prefeitura, uma dezena de pessoas, talvez 15, tal como deveria ser a idade da maioria dos militantes.

Sem panfletos, competiam com o artista palhaço Gugu-Dadá, que estava cantando para o público de 6 crianças (que já haviam largado os apitos) a música: “tá morto, morto, morto… morreeeeuu”.

Bom, agora iria começar, pensei… os manifestantes já somavam umas quatro dezenas…

Então, após uma breve conversa com o palhaço Gugu-Dada, este “cedeu” um de seus instrumentos de trabalho e, por R$ 40,00, os manifestantes que não tinham panfletos já possuíam um megafone.

Neste, as primeiras frases remetiam às revoltas no Egito e na Líbia, e como precisamos fazer o mesmo em Salvador, mobilizar e conscientizar o povo.

As falas alternaram entre a necessidade da cidade mais negra fora de África ter uma prefeita mulher e negra, passando por evocações do poder popular e como a soberania emana do povo, ao fato do prefeito estar querendo limitar o direito de propriedade ao propor uma lei na qual os donos de som automotivo não original teriam que pagar uma taxa à prefeitura pela poluição sonora.

O primeiro (e único) momento de (pré) tensão ocorreu quando os quarenta militantes resolveram sentar-se na escadaria que dá acesso à Prefeitura. Neste momento um contingente da Polícia Militar aproximou-se para aparentemente impedir tal ação. Um militante sugeriu que o cordão fosse feito acima da escadaria, e o Sargento Aurélio que “só queria que fosse aqui ó” (nos primeiros degraus) acatou. Vitória dos militantes!

O megafone continuava a vociferar: “Você que trabalha, como todo mundo aqui, vem participar do protesto” (neste momento, olhei para trás e havia na praça uma pessoa que catava latinha olhando impávida e, ao fundo, o palhaço Gugu-Dadá).Chegadas as 18h, ou seja, duas horas após o momento marcado para o início da mobilização, juntaram-se outras pessoas, como alguns artistas, três militantes de bicicleta do “Massa Crítica” (que estavam a uns 30 metros da escadaria em que reuniam-se os demais)…

Às 18h30 fui embora…
*******

Fui embora, mas os fatos e significados da manifestação não saíram tão facilmente de mim.A primeira coisa que salta à vista é apenas 40 a 70 pessoas (considerando os demais artistas que chegaram e posteriormente mais pessoas de bicicleta) terem comparecido a uma manifestação de que 3 mil haviam “curtido” o seu chamado pelo Facebook. Onde estariam os 2.960 outros “militantes virtuais”?

Uma amiga perguntava-se em voz alta:
“Será uma tendência dos novos militantes acharem ser realmente possível creditar o “curtir” do Facebook a confirmação de presença nos atos? Será possível transpor para o mundo real, sobretudo quando falamos em organicidade de ação política, a mesma instantaneidade do mundo virtual?
Também aqui em Santos-SP existe a dificuldade em realizar ações; os novos militantes cibernéticos, os jovens militantes universitários e os libertários de plantão apresentam demasiada desconfiança em relação a processos organizativos mais racionais e objetivos, sob o pretexto de serem autônomos (é fácil ser autônomo num simples clicar de tecla…).
Parece que dizer-se autônomo significa ser contra organização, planejamento de ações e ‘ser contra partidos e bandeiras’. Também em Santos muitos nutrem certo fascínio pelas redes sociais; todavia, as ações foram levadas adiante efetivamente por uma meia dúzia de pessoas, menos por aqueles que disseram ‘curtir’ no Facebook.”


Não se trata, aqui, de voltar ao debate sobre o papel do partido em Lênin, a necessidade de uma organização centralizada democraticamente que faça o papel de reunir, e guiar, as revoltas, tampouco discutir qual o significado de autonomia e libertário, ou o que vem a ser espontaneidade para Rosa.

Mas quando se multiplicam os eventos militantes no Facebook e Twitter e não há a devida correspondência na vida real, não estaria ocorrendo um esvaziamento das causas e uma reificação das ferramentas empregues?

As analogias apressadas e ingênuas das rebeliões no norte da África e no Oriente Médio calam-se completamente sobre a necessidade de organização real e o grau de envolvimento dos militantes com a causa da luta.

Em artigo sobre o esvaziamento das mobilizações convocadas via redes sociais virtuais em Camarões, Dibussi Tande nos mostrava como havia ali a confusão fatal entre essas ferramentas (como Facebook e Twitter) e a sua estratégia ou o seu objetivo (a reforma política e a mudança de instituições no país).

Malcom Gladwel, por sua vez, procurou demonstrar que, para certo grau de ativismo que envolva riscos e o sair da zona de conforto de frente à tela do computador há a necessidade de vínculos sociais fortes e de organização e não os frágeis laços que ligam os militantes virtuais. Essas ferramentas em rede teriam grande potencial para formas de ativismo de baixo risco, como fazer barulho e protestar por algo que torne a ordem social existente mais eficaz; mas, na perspectiva de mudanças sistêmicas, demonstrariam grandes dificuldades, pois faltaria aí a organização prévia, o trabalho de base, mapeamentos, planos, treinamentos, reuniões políticas, núcleo de ativistas, divisão de tarefas, pensamento estratégico. As idealizações do ativismo on line tendem a não levar em conta estas expressões materiais e concretas do ativismo off line.Há quem considere as ferramentas como as causas das revoluções e não como catalisadores de um processo organizativo de luta. Por esta leitura, os zapatistas, nas montanhas e selvas de Chiapas, são apenas uma guerrilha informacional em uma guerra de palavras e pouco se entende sobre os processos organizativos que levaram, por exemplo, as lutas pelos direitos civis dos negros nos EUA (muito bem relatada pelo militante e historiador Howard Zinn [1]) ou de como eram recrutados e treinados os militantes da Frente Sandinista de Libertação Nacional (narrado belissimamente por um de seus militantes, Omar Cabezas [2]).

Recentemente tive a oportunidade de lecionar uma disciplina sobre Ciência, Tecnologia e Sociedade para alunos da Engenharia da Computação. No trabalho final pedido, e que deveria versar livremente sobre os impactos, latentes e manifestos, das novas tecnologias nas sociedades contemporâneas, foi sintomático o fato de quase metade dos alunos escreverem sobre os potenciais revolucionários e libertadores das novas tecnologias (citando a Líbia, a Tunísia e o Egito) – e poucos falarem sobre as formas de vigilância, manipulação e contra-insurgência propiciadas pelos meios virtuais – e a outra quase metade dissertar sobre a solidão sentida no cotidiano, a despeito de terem centenas de amigos em redes sociais e de jogos.

Como observou o jornalista bielorrusso Evgeny Morozov: “Associar as tecnologias da comunicação em rede a uma nova oportunidade para os oprimidos de todo o mundo é um argumento infantil e incorreto, pois não leva em consideração que os próprios dirigentes que são os alvos destas revoltas usam a Internet para fins políticos muitíssimo sofisticados. Usam-na precisamente para controlar, perseguir, prender e reprimir. Pode acontecer que durante um infinitésimo momento o povo tome o poder no Twitter. Mas é um momento efémero. Participar nas redes sociais não é resistir, não é organizar, não é libertar-se; é o contrário, é entregar-se ao sistema de maneira orwelliana. A Rede é um panóptico digital. E nós não somos os vigilantes, somos os vigiados”.

Sem desconsiderar as potencialidades concretas de comunicação em rede, rápida e em massa propiciadas pelas ferramentas sociais na internet, da mesma forma em que se confundem amigos reais e virtuais, não se estaria confundindo militância virtual com a real?

Notas
[1] Você não pode ser neutro num trem em movimento - Uma história pessoal dos nossos tempos. Howard Zinn. Editora L-Dopa, Curitiba.
[2] A montanha é algo mais do que uma imensa estepe verde. Omar Cabezas. Editora Expressão Popular, São Paulo.
Fonte: http://passapalavra.info/

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

"Memória & Ruptura", novo teaser do "Hardcore 90 - Uma História Oral"

"Memória & Ruptura", novo teaser do "Hardcore 90 - Uma História Oral"


Fonte: http://www.hardcore-memoria.blogspot.com/

[Canadá] Declaração comum: Solidários face à repressão política - por ANA

[Canadá] Declaração comum: Solidários face à repressão política Com a prisão de dois homens e duas mulheres durante a manifestação anticapitalista do 1º de maio de 2011, a CLAC (Convergência de Lutas Anti-Capitalistas) realizou uma coletiva de imprensa em frente ao palácio de justiça de Montreal. Uma declaração assinada por mais de trinta grupos foi feita pública (leia abaixo). Este comunicado denuncia a repressão e a construção de perfis políticos e reafirma a solidariedade entre os diferentes grupos sociais e políticos face ao esquadrão policial, chamado GAMMA, que criminaliza nossos movimentos.

A enquete preliminar dos 4 acusados e acusadas terá lugar de 11 a 12 de dezembro de 2011. Eles e elas estão presos sob condições que restringem seus direitos de manifestar e não terão o direito de se comunicarem entre si.

Solidários face à repressão política
Nós denunciamos firmemente a última ofensiva repressiva do Serviço de Polícia da Cidade de Montreal (SPVM) que visa criminalizar, intimidar e isolar os muitos grupos militantes além da formação de uma polícia política (esquadrão GAMMA) sob a égide da divisão de crimes organizados da SPVM.

Que esta nova iniciativa seja premeditada de longa data ou que seja uma outra bravata à confusão de gêneros própria às forças policiais, enfim, essa não é nossa principal preocupação. Nós sabemos muito bem que o perfil dos atores políticos não começaram com o esquadrão GAMMA (Vigilância das Atividades e dos Movimentos Marginais e Anarquistas) e não terminará com sua abolição, tanto como sabemos que o esquadrão Eclipse não visa tanto as “gangues de rua”, mas sim mais os “jovens de cor”.

Num contexto de endurecimento do capitalismo e de acentuação da marginalização dos movimentos sociais e de grupos políticos, é essencial e urgente se mobilizar frente ao ataque contra nossas comunidades. Se se deixa que se ataque a um grupo em particular, eles terão o campo livre para criminalizar o conjunto dos movimentos sociais. Frente a essa estratégia de dividir para conquistar, nós devemos nos unir!

Nosso direito de associação, de manifestação e de expressão não é apenas legal, mas legítimo!

Nosso direito à dissidência, nós não a imploramos, nós a utilizamos quotidianamente!

Observamos que:
• Os dirigentes econômicos e políticos se escondem atrás de um sistema pseudo-democrático em falência para se enriquecerem a uma velocidade exponencial;
• Essa elite parasitária deve justificar suas políticas anti-sociais aumentando a repressão;
• Os diferentes corpos da polícia agem como um baluarte contra a mobilização e à revolta da população frente a um sistema injusto;
• Além de proteger conscientemente os abusos das autoridades, os diferentes corpos da polícia agem como atores políticos da SPVM para desestabilizar os movimentos sociais;
• Nós denunciamos todo o jogo político da SPVM e de outros corpos policiais.
• Nós denunciamos toda a criminalização e estigmatização da dissidência e de nossas opiniões.
• Nós denunciamos toda a forma de construção de perfis políticos, sociais e raciais.
• Nós denunciamos toda tentativa de achaque aos nossos movimentos.

Assinando essa declaração, nós nos engajamos da mesma forma em não colaborar, de qualquer maneira que seja, com as forças da ordem nas suas táticas de divisão, de manipulação de perfis políticos, de delação e de desolidarização aos movimentos políticos.

Uma declaração divulgada por iniciativa da CLAC-MTL (Convergência de Lutas Anti-Capitalistas).

Assinada por 35 organismos, além de 20 advogados e advogadas e professores e professoras.

Montreal, 20 de setembro de 2011.

www.clac-montreal.net

Tradução > Tio TAZ

agência de notícias anarquistas-ana
Nas folhas novas
Ressurgm esperanças
É Primavera.
Vera Lucia Godoy Correia

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A fantasia do novo e a terrível formação permanente - por Isleide Fontenelle

A fantasia do novo e a terrível formação permanenteEm reportagem veiculada pela Folha de S.Paulo (25/set/2011), somos informados sobre um centro de artes que funciona em Los Angeles (EUA), cujo diploma é garantia certa para “uma vida de salários astronômicos nas maiores empresas do ramo”. Dados da reportagem mostram que, se uma das grandes vantagens da escola é a maneira como seus talentos são garimpados por grandes empresas e estúdios cinematográficos; isso estaria de alguma forma atrelada ao fato do centro ter, entre seus professores, ex-alunos e profissionais de grandes corporações que permitem aos estudantes receberem “as mais recentes técnicas e tendências”.

Reportagens como essa vem se somar a muitas outras que a mídia repercute em torno da importância da criatividade e da inovação na sociedade contemporânea. Vivemos uma inflação discursiva em torno desses conceitos e inovar se tornou um novo imperativo social. Mas qual a novidade que esse discurso traz, dado que a inovação sempre foi considerada central para o processo produtivo capitalista? Penso que podemos compreender tal discurso a partir da noção de controle, ou seja, dos desafios do capitalismo atual em dominar uma forma de saber que, em princípio, não está disponível para ser incorporada como mercadoria.

O nascimento do management esteve associado a um processo de extração do saber humano, que foi reescrito sob uma forma racionalizada e, portanto, controlada, nos termos de uma Administração Científica que ficou mais comumente conhecida como Taylorismo. Ao longo de todo o século XX, o que tivemos, do ponto de vista das reestruturações produtivas, foram versões mais ou menos modificadas que partiram desse “programa” inicial. E que, por sua vez, se tornou a ilustração perfeita daquilo que o filósofo francês Michel Foucault definiu como “sociedades disciplinares”, marcadas por sistemas de confinamento e de vigilância permanente. Aqui, havia um monopólio do capitalismo sobre os meios de extração e reprodução do saber operário.

Mas foi um outro filósofo francês, Gilles Deleuze, que na esteira dos escritos de Foucault, afirmou, na década final do século XX, em seu livro Conversações (Editora 34, 1992) que “sociedades disciplinares é o que já não éramos mais”. A elas sucederam as “sociedades de controle” que, segundo o filósofo, são definidias por uma mudança tecnológica e marcam a passagem do confinamento da era da fábrica para o controle contínuo e a comunicação instantânea, que compõem a nova lógica da empresa. Entenda-se que, aqui, Deleuze pensa a fábrica em seu sentido original: “indivíduos em um só corpo, para a dupla vantagem do patronato que vigiava cada elemento na massa, e dos sindicatos que mobilizavam uma massa de resistência” (p.221). A lógica da empresa, por outro lado, ilustra um novo modelo no qual há um desmembramento entre produção e gestão, sendo a produção relegada a fábricas terceirizadas com trabalho mal remunerado; enquanto o novo management trata de cuidar, apenas, dos processos de inovação nas formas do design e da comunicação publicitária.

É interessante a terminologia dada por Deleuze a essa nova etapa das sociedades capitalistas, visto que uma das características centrais desse novo modelo é, justamente, a crise no sistema de controle do trabalho tal qual conhecíamos desde o Taylorismo. Entendo que o filósofo quis marcar que, evidentemente, o controle não se extingue, mas que passa a operar sob novas bases. E esse é um ponto fundamental para explicar essa inflação discursiva em torno dos conceitos de criatividade e inovação nos nossos dias.

Se atentarmos para o que André Gorz escreveu em O Imaterial (Annablume, 2005), fica evidente o papel que a inovação ganha nesse novo estágio do capitalismo. Centrando sua análise na revolução informacional e nos desafios que ela coloca para o capitalismo atual, Gorz lembra como, no seu início, tal revolução visava reduzir custos de produção. Tendo atingido esse objetivo, a fim de evitar a queda no preço das mercadorias, a próxima etapa foi incrementar qualidades imateriais a tais produtos a fim de que se pudesse extrair deles “rendimentos simbólicos de monopólio”, ou seja, um sobrepreço mediante o caráter de antecipação ou exclusividade no oferecimento de produtos e serviços que pudessem se destacar por seu design ou marca publicitária. A partir desse momento, a obsolescência programada passa a ter um papel central, e a inovação permanente começa a ganhar, então, a dimensão atual que tem. Ou seja, não se trata, apenas, de produzir novidades em um ritmo cada vez mais frenético mas, principalmente, “transformar a invenção em mercadoria, e pô-la no mercado como um produto de marca patenteada” (p.42).

Mas o saber não se presta a ser uma mercadoria qualquer e tendo o desenvolvimento produtivo gerado tal contradição no âmago do próprio capitalismo, esse buscou incorporar o saber sob a forma da inovação, operarando em uma fronteira extremamente instável, a partir da qual o processo de invenção possa ser avaliado e regulado. São muitas as consequências possíveis a serem analisadas a partir desse novo estágio da busca da incorporação do saber pelo capitalismo e Gorz adverte que seu ponto de chegada aponta para um capitalismo de barbárie ou para a sua superação.

Mas gostaria de finalizar apontando de que maneira isso já tem gerado consequências nas instituições que, nas sociedades disciplinares, foram consideradas as depositárias do saber (escola, universidade). É justamente esse desafio que se apresenta na reportagem mencionada no início deste texto pois, se por um lado as organizações já não conseguem suportar o processo acelerado e intermitente de gerar, nos seus limites internos, a próxima grande ideia que possa ser incorporada como mercadoria; por outro, o universo acadêmico é cada vez mais demandado a dar conta dessa fúria capitalista pela inovação, produzindo apenas um saber que possa se tornar mercadoria. Voltando ao conceito de “sociedade de controle”, quando procurou dimensionar os seus impactos, Deleuze advertiu que nesse novo modelo social a educação seria “cada vez menos um meio fechado, distinto do meio profissional – outro meio fechado”. Segundo o filósofo, ambos desapareceriam “em favor de uma terrível formação permanente, de um controle contínuo se exercendo sobre o operário-aluno ou o executivo-universitário” (p.216). É justamente disso que se trata, pois na lógica da empresa – e da inovação permanente – nunca se termina nada: os atuais discursos de gestão, focam no “novo trabalhador” como capital de si mesmo e na sua permanente necessidade de formação; enquanto, no contexto acadêmico, impõe-se um sistema de avaliação e de empresarização dos saberes que resulta em uma lógica similar aos novos modelos de gestão do capital. Do mesmo modo que o “homem do controle” funciona em um feixe contínuo, atualizando-se permanentemente a fim de manter-se valorizado no mercado, o universo acadêmico tem sido, cada vez mais, pressionado a “atualizar-se” de acordo com os novos critérios da transformação do saber em mercadoria. Não por acaso, um dia depois da reportagem mencionada no início deste texto, a Folha de S.Paulo (26/set/2011), nos informa sobre uma Fundação que distribui bolsas para que os alunos deixem de frequentar a universidade e fiquem dois anos desenvolvendo seus projetos “pessoais” de pesquisa em um lugar da Califórnia (EUA). Os idealizadores do projeto defendem que a criatividade pode emergir mais facilmente fora dos muros e das regras da academia e juram que não estão em busca de ganhar dinheiro com a inovação que resultará dessas mentes inventoras. Filantropo, o mentor do projeto visa questionar o modo como se ensina, pois ele está preocupado com a queda da inovação tecnológica que vem ocorrendo nas universidades do mundo inteiro…
***
Isleide Fontenelle é formada em Psicologia, com Doutorado em Sociologia pela USP.
Fonte: http://boitempoeditorial.wordpress.com/

SP: Festa da Combat Rock, neste Sábado dia 08/10!

Festa da Combat Rock, neste Sábado dia 08/10!
Saudações amigos/as!

Dia 8 de outubro, sábado, vai acontecer uma festa da loja Combat RockDiscos, no Club Sattiva Bordô !

Show com a banda post punk Segundo Inverno ( pré-lançamento do primeiro cd! ).

Dj’s convidados: Renato + Chris Anúbis + Fernão + Lyn ’77 + Morpheus + Floyd.

No som/pista muito Post Punk, New Wave, Punk ’77, Anos ‘80/’90, GothicRock e mais!!

E ainda pequenos especiais dos The Cramps, TSOL e Depeche Mode !

Sorteio de cds da nova coletânea “De Profundis” + Dvd’s de clipes,somente para nomes que estiverem na lista de desconto !

Mais informações:
08 de outubro – sábado – 23h
Club Sattiva Bordô
Pça: Franklin Rooselvet, 82, centro.
Info: Tel: 6487-8813 ( Próximo dos metrôs Anhangabaú, República e São Bento )
Preço: $15,00 na porta H/M Lista de desconto $10,00 H/M .
Mande seu (s) nome ( s ) para : combatrockloja@gmail.com
Organização: Combat Rock Discos ( Galeria Nova Barão – Barão deItapetininga,37 – Rua Alta, loja 66 )
Apoio: Chris Anúbis/Convenção das Bruxas e 80’s Records.

[Espanha] Reivindicam sabotagem de milho transgênico em Badajoz - por ANA

[Espanha] Reivindicam sabotagem de milho transgênico em BadajozReivindicamos a sabotagem de um campo de milho transgênico experimental a céu aberto na província de Badajoz. Durante a segunda semana de agosto de 2011, um número desconhecido de pessoas destruiu parte de um campo experimental de sementes de milho transgênicos da Pioneer. A área localizada entre as cidades de Valdivia e Zurbaran havia sido solicitada pela empresa para experimentar a céu aberto com as seguintes variedades de milho OGM: 1057, milho 59122, milho NK603, sem saber ao certo o que estava realmente sendo cultivado. Este campo é um dos três solicitados este ano pelas empresas Monsanto e Pioneer para experimentar com milho transgênico.

Esta ação é uma pequena resposta à imposição de organismos geneticamente modificados (OGM) pelas empresas de biotecnologia e o Estado. Desde que os OGM começaram a ser experimentados, aprovados e comercializados massivamente, seus criadores e promotores afirmaram que estes OGM seriam capazes de acabar com a fome ou salvaguardar a saúde humana, assim como a possibilidade de uma agricultura mais limpa e mais eficiente. Nada mais longe da verdade.

Estes OGM são impostos em um contexto de: grandes corporações que lutam pelo controle de monopólio de sementes e produtos químicos, monoculturas, a poluição genética, o desaparecimento de pequenos e médios agricultores, a liquidação das economias locais, o desaparecimento de variedades nativas, grandes redes de distribuição, de resíduos e poluição da água, a expulsão das comunidades rurais... em suma, no contexto do modelo capitalista.

Estes OGM não são compatíveis com outras formas de produção e organização social baseadas na recuperação de uma agricultura mais tradicional, que satisfaça às necessidades do povo, não de mercados, e que não estoure os limites dos ecossistemas, juntamente com a vontade de escapar da ilusão de associar felicidade e consumo. Modelos claramente necessários em um mundo faminto e aquecido, devido à sua submissão ao mercado e ao totalitarismo dos Estados. Portanto, esses OGM não vêm para cumprir as bondades que dizem ser capaz de fazer, mas representam outra torção ao modelo agro-industrial, que será, entre outras coisas, a completa expropriação do povo de sua capacidade de se alimentar por si mesmos. Para a decisão final de homologação e posterior comercialização de OGM, o Estado criou a Comissão Nacional de Biossegurança, deixando em suas mãos a aprovação.

Dentro da comissão há sete representantes científicos, muitos deles ligados à indústria de biotecnologia e ao lobby pró-transgênicos, sendo este setor científico que leva a voz nesse comitê. Este corpo se deve à indústria, não à biossegurança, evidenciado pelo número crescente de contaminação genética no cultivo de trigo ou milho. Em regiões inteiras do estado, a contaminação genética nas culturas, como antes citado, está assegurada. Fora de nossas fronteiras, estes OGM têm sido responsáveis por todos os tipos de desastres, como o desmatamento, fome, intoxicação, alergias e outras doenças devido ao consumo, bem como uma série de restrições para as comunidades rurais e agricultores por empresas de biotecnologia, para não mencionar massacres reais causados pela produção e uso de produtos químicos necessários para este modelo agro-industrial, onde os transgênicos são sua última expressão. Dizer não aos transgênicos é dizer não para os males e injustiças que citamos, é dizer não à imposição, não a artificialidade da vida, não a esta loucura de progresso.

A ação contra os OGM é uma luta legítima de todas as pessoas, sintoma de seu senso comum, assim como de sentir a necessidade de uma mudança social profunda, resultado de estar consciente do perigo que corre a terra (e tudo o que merece a pena) nas mãos do capitalismo. Aqueles que semeiam e promovem transgênicos colhem resistências.

Assinam e reivindicam: campesinos de Extremadura em luta.

Extremadura, setembro de 2011

Individualidades campesinas em luta.

agência de notícias anarquistas-ana
Escorre o sol
Salgando meus lábios
Passo a passo
Rodrigo Vieira Ribeiro

A América cruel - por Jonathan Schell

A América cruelTem havido muitos sinais, recentemente, de que os EUA estão mergulhando fundo num padrão de crueldade. É difícil dizer por que uma coisa dessas está ocorrendo, mas parece que isso tem a ver com uma fé crescente na força como a solução de quase todos os problemas, seja em casa ou fora. O entusiasmo por matar é um sintoma inequívoco de crueldade. Isso é especialmente perturbador quando não são apenas os quadros do governo, mas pessoas comuns que se engajam nessas efusões.

Os debates da campanha presidencial são desenhados para dar aos candidatos uma oportunidade deles se expressarem aos eleitores. Mas as platéias, também, algumas vezes tornam seus pontos de vista conhecidos. Isso aconteceu nos debates republicanos ocorridos entre 7 e 12 de setembro, em dois episódios que foram bastante noticiados. No da NBC, do dia 7, Brian Williams perguntou ao governador do Texas, Rick Perry, se em algum momento durante seu mandato, no qual foram executadas 234 pessoas condenadas à pena de morte (que agora subiu para 235) ele “lutou para conseguir dormir à noite, com a ideia de que algum desses condenados pode ter sido inocente”.

Perry tem dormido bem. O Texas, ele disse, tem um sistema judicial muito “bom”. Então, partiu para um certo tipo de desafio. Disse ele: “se você vier ao nosso estado...e matar...um de seus cidadãos...você será executado”. A plateia aplaudiu entusiasticamente.

Williams, claramente surpreso com a manifestação, seguiu em frente perguntando a Perry o que ele tinha feito para que a sua resposta tivesse levantado aplausos. O governador foi impassível e repetiu o seu desafio: “Nossos cidadãos...tornaram claro o motivo, e eles não querem cometer esses crimes contra os nossos cidadãos, e se você o fizer, enfrentará a justiça final”.

Que esses não eram os únicos sentimentos possíveis em relação a execuções penais tornou-se claro rapidamente depois disso. Um movimento de massas, não apenas nos EUA mas nos países ao redor do mundo, levantaram-se, sem sucesso, contra a execução no Estado da Georgia, de Troy Davis, cuja condenação por assassinato há vinte anos tinha sido posta em dúvida por nova evidência, inclusive a retratação de sete de nove testemunhas. Uma petição assinada por mais de 600 mil pessoas foi apresentada à comissão de execução penal, que deixou a execução seguir adiante.

No debate republicano do dia 12, houve outra expressão pública de entusiasmo pela perda da vida no Texas. Wolf Blitzer, da CNN perguntou ao deputado do Texas, Ron Paul, que militou contra o projeto para a saúde apresentado pelo Presidente Obama, qual seria a resposta médica que ele daria se um jovem que tivesse decidido não contratar um plano de saúde entrasse em coma.

Paul respondeu: “É a isso que a liberdade diz respeito: assumir seus próprios riscos”. Ele parecia estar dizendo que se o jovem morresse isso seria problema dele.

Houve palmas na plateia.

Blitzer pressionou: “Mas deputado, você está dizendo que a sociedade deveria deixá-lo morrer?”. Grita alguém na plateia: “Sim!”. E a multidão segue batendo palmas, em apoio.

Uma das características que esses eventos têm em comum é a crueldade. A crueldade é a prima irmã da injustiça, ainda que seja diferente. A injustiça e seu oposto, a justiça – talvez o padrão mais comumente utilizado para julgar a saúde de um corpo político – são critérios por excelência, e se aplicam acima de tudo a sistemas e suas instituições. A crueldade e seus opostos, gentileza, compaixão e decência, são mais pessoais. São qualidades pessoais que têm, no entanto, consequências políticas. Um senso de decência de um país se situa acima de sua política, fiscalizando e estabelecendo limites frente aos abusos. Uma sociedade injusta deve reformar suas leis e instituições. Uma sociedade cruel deve reformar a si mesma.

Tem havido muitos sinais, recentemente, de que os EUA tem mergulhado fundo num padrão de crueldade. É difícil dizer por que uma coisa dessas está ocorrendo, mas parece que isso tem a ver com uma fé crescente na força como a solução de quase todos os problemas, seja em casa ou fora. O entusiasmo por matar é um sintoma inequívoco de crueldade. Ele também apareceu depois da morte de Osama Bin Laden, que mobilizou uma estrondosa celebração ao redor do país. Uma coisa é acreditar na necessidade infeliz de matar alguém; outra é revelar isso. Isso é especialmente perturbador quando não são apenas os quadros do governo, mas pessoas comuns que se engajam nessas efusões.

Em qualquer involução no sentido da barbárie pode-se estabelecer dois estágios. Primeiro, os demônios são apresentados – testados, se houver. Segundo, vem a reação – seja a indignação e a rejeição ou outra aceitação [da indicação do demônio], até mesmo o prazer com a coisa. A escolha pode indicar a diferença entre um país que está restaurando a decência ou um outro, que está afundando num pesadelo. Foi um dia escuro para os Estado Unidos aquele em que a administração Bush ordenou secretamente a tortura de suspeitos de terrorismo. Nesse dia, a civilização dos EUA caiu num buraco. Mas afundou ainda mais baixo quando, tendo os fatos dos crimes se tornado conhecidos, o ex-presidente Bush e o ex vice-presidente Cheney abraçaram publicamente o mal feito, como o fizeram em sua recente tour de divulgação de seus respectivos livros. À impunidade que já desfrutaram eles acrescentaram a insolência, como se desafiando a sociedade a responder ou a, de outra parte, entrar em cumplicidade tácita com seus abusos.

E ainda assim houve pouca reação. Numa outra afundada no buraco, o Presidente Obama, mesmo tendo ordenado o fim da tortura, decidiu na direção contrária, ao impedir qualquer responsabilização pelas patifarias, e de fato afastou qualquer punição em geral. Ele sequer buscou, digamos, algo equivalente a uma Comissão da Verdade como ocorreu na África do Sul, após o fim do apartheid.

Há muitos outros sinais de que o caminho ladeira abaixo está bem estabelecido. Nossa justiça criminal busca a injustiça. A pena de morte desafia padrões de decência aceitos em qualquer país civilizado. O encarceramento de mais de dois milhões de americanos – a maior proporção per capita no mundo – é um reflexo assustador de um país que parece saber que não há outro remédio para as doenças sociais que não a punição. As condições das prisões são temerosas. Atul Gawande, da The New Yorker, apresentou um quadro vasto e terrível do sistema prisional, com técnicas de isolamento que, muitos acreditam, equivalem à tortura. Os prisioneiros podem ser mantidos em solitárias por anos, em pequenas celas, sem janelas, nas quais permanecem por 23 horas por dia.

Muitos prisioneiros – assim como o senador John McCain, que foi mantido prisioneiro durante a Guerra no Vietnã do Norte – reportaram que tamanho isolamento é mais angustiante e destrutivo do que a tortura física. “Isso quebra o nosso espírito e enfraquece a nossa resistência mais efetivamente do que qualquer outra forma de mau trato”, disse McCain. Em muitos casos, o confinamento solitário leva à desintegração mental. Um artigo no Jornal da Academia Americana de Psiquiatria e Direito diz que “o confinamento da solitária ...pode ser tão estressante clinicamente como a tortura física”. A diferença entre uma jaula e uma solitária pode ser maior do que a diferença entre a liberdade e a jaula, mesmo que essa punição possa ser imposta apenas administrativamente, por diretores de presídios.

Em 2010 mais de 25 mil detentos foram mantidos nessas condições.
Um deles – confinado não no sistema de prisão regular, mas em instalações militares – é Bradley Manning, o recruta de 23 anos, suspeito de vazar documentos para o WikiLeaks. Embora prisioneiro modelo, ele foi mantido por anos numa prisão de segurança máxima, enquanto era sujeito ao confinamento de 23 horas, impedido de se exercitar, sob vigilância permanente e, por um tempo, mantido nu. Na época, ele não tinha sido acusado de crime algum.

Gawande estabelece uma conexão entre o abuso dos estadunidenses em casa e a tortura de suspeitos estrangeiros na “guerra contra o terror”. “Com pouca preocupação ou resistência”, escreve, “temos despachado milhares de nossos próprios cidadãos para condições que horrorizariam nossa Suprema Corte há um século. Nossa vontade de nos desfazer desses padrões para os prisioneiros americanos tornou fácil o descarte das Convenções de Genebra proibindo tratamento similar de prisioneiros de guerra estrangeiros”.

Também se pode estabelecer uma conexão entre esses abusos e as atuais diretrizes das decisões orçamentárias, nas quais, como na prontidão para denegar assistência em saúde aos moribundos, uma impiedosa vontade de se desfazer das pessoas em sofrimento de qualquer ajuda que possam receber é evidente. A lista de cortes, alcançados ou propostos na agenda da direita é longa demais para enumerar, mas exemplos recentes, incluindo a assombrosa obstrução de assistência às vítimas do recente furacão Irene e da tempestade Lee, além de outros programas, foram cortados; a oposição a que se amplie o seguro desemprego, a derrota do Dream Act, o qual poderia dar às crianças dos imigrantes um caminho para a cidadania, a oposição ao gasto do estado com o programa de assistência em saúde para as crianças (S-CHIP, na sigla em inglês), assim como do Head Start, e por aí vai. Parece que ninguém é infeliz o suficiente para ser isento ou isenta do corte orçamentário, ao passo que, ao mesmo tempo, ninguém é feliz o suficiente para ser inelegível para ter corte nos impostos. Decisões orçamentárias não envolvem pena de morte, embora para muitos elas sejam questão de vida ou de morte.

A crueldade de uma sociedade não pode ser quantificada mais do que o pode a sua reserva de decência. Nem tampouco pode ser legislada, embora ambas possam estar manifestas na legislação. Por tudo isso, não pode haver dúvidas de que decisões básicas, que antecedem qualquer lei e são provavelmente mais importantes, são silenciosamente tomadas nos corações e mentes de milhões. Se elas seguem um caminho, um movimento de milhões, de repente, aparentemente do nada, aparece para protestar fortemente contra uma execução injusta. Quando vão pelo outro caminho, você acorda um dia para ouvir, com um frio na espinha, uma sala cheia de gente comemorando o assassinato de centenas de seus concidadãos.

Jonathan Schell é correspondente do The Nation, membro Doris Shaffer no The Nation Institute e dá um curso sobre o dilema nuclear na Universidade Yale. É autor de The Unconquerable World: Power, Nonviolence and the Will of the People, [O Mundo Inconquistável: Poder, Não-Violência e a Vontade do Povo] - uma análise do poder popular – e de The Seventh Decade: The New Shape of Nuclear Danger [A Década de Setenta: A Nova Forma do Perigo Nuclear].

Tradução: Katarina Peixoto
Fonte: http://www.cartamaior.com.br

Anacleto Reinaldo, o "Chumbo Grosso" da Paraíba - por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Haiti, país ocupado - por Eduardo Galeano

Haiti, país ocupado
Consulte qualquer enciclopédia. Pergunte qual foi o primeiro país livre na América. Receberá sempre a mesma resposta: os Estados Unidos. Mas os Estados Unidos declararam sua independência quando era uma nação com 650 mil escravos, que continuaram sendo escravos durante um século, e em sua primeira Constituição estabeleceram que um negro equivalia às três quintas partes de uma pessoa.

E se a qualquer enciclopédia você pergunta qual foi o primeiro país que aboliu a escravidão, receberá sempre a mesma resposta: a Inglaterra. Mas o primeiro país que aboliu a escravidão não foi a Inglaterra, e sim o Haiti, que ainda continua expiando o pecado por sua dignidade.

Os negros escravos do Haiti haviam derrotado o glorioso exército de Napoleão Bonaparte e a Europa nunca perdoou essa humilhação. Haiti pagou à França, durante um século e meio, uma indenização gigantesca, por ser culpado por sua liberdade, mas nem isso bastou. Aquela insolência negra continua doendo nos brancos donos do mundo.
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De tudo isso, sabemos pouco ou nada.

Haiti é um país invisível.

Só alcançou fama quando o terremoto do ano de 2010 matou mais de 200 mil haitianos.

A tragédia fez com que o país ocupasse, fugazmente, o primeiro plano dos meios de comunicação.

O Haiti não é conhecido pelo talento dos seus artistas, magos da chatarra (ferro velho) capazes de converter o lixo em beleza, nem por suas façanhas históricas na guerra contra a escravidão e a opressão colonial.

Vale a pena repetir uma vez mais, para que os surdos escutem: Haiti foi o país fundador da independência da América e o primeiro que derrotou a escravidão no mundo.

Merece muito mais do que a notoriedade nascida de suas desgraças.
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Atualmente, os exércitos de vários países, incluindo o meu (observação do tradutor: trata-se do Uruguai, e o nosso, o Brasil), continuam ocupando o Haiti. Como se justifica esta invasão militar? Alegam que o Haiti põe em perigo a segurança internacional.

Nada de novo.

Ao longo de todo o século 19, o exemplo do Haiti constituiu uma ameaça para a segurança dos países que continuavam praticando a escravidão. Já o havia dito Thomas Jefferson: do Haiti vinha a peste da rebelião. Na Carolina do Sul, por exemplo, a lei permitia prender qualquer marinheiro negro, enquanto seu barco estivesse no porto, pelo risco de que se pudesse contagiar com a peste antiescravista. E no Brasil, essa peste se chamava haitianismo.

Já no século 20, o Haiti foi invadido pelos marines, por ser um país inseguro para seus credores estrangeiros. Os invasores começaram por apoderar-se das alfândegas e entregaram o Banco Nacional ao City Bank de Nova Iorque. E já que estavam, ficaram 19 anos.
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A passagem da fronteira entre a República Dominicana e o Haiti se chama El mal paso.

Talvez o nome seja um sinal de alarme: você está entrando no mundo negro, da magia negra, da bruxaria…

O vudu, a religião que os escravos trouxeram da África e se nacionalizou no Haiti, não merece chamar-se religião. Desde o ponto de vista dos proprietários da Civilização, o vudu é coisa de negros, ignorância, atraso, pura superstição. A Igreja Católica, onde não faltam fiéis capazes de vender unhas dos santos e penas do anjo Gabriel, conseguiu que esta superstição fosse oficialmente proibida em 1845, 1860, 1896, 1915 e 1942, sem que o povo tomasse conhecimento.

Mas já desde alguns anos, as seitas evangélicas se encarregam da guerra contra a superstição no Haiti. Essas seitas vêm dos Estados Unidos, um país que não tem piso 13 em seus edifícios, nem fila 13 em seus aviões, habitado por civilizados cristãos que acreditam que Deus fez o mundo numa semana.

Nesse país, o pregador evangélico Pat Robertson explicou na televisão o terremoto de 2010. Este pastor de almas revelou que os negros haitianos haviam conquistado a independência da França a partir de uma cerimônia vudu, invocando a ajuda do Diabo desde o fundo da selva haitiana. O Diabo, que lhes deu a liberdade, mandou o terremoto para cobrar a conta.
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Até quando continuarão os soldados estrangeiros no Haiti? Eles chegaram para estabilizar e ajudar, porém levam sete anos desajudando e desestabilizando este país que não os quer.

A ocupação militar do Haiti está custando às Nações Unidas mais de 800 milhões de dólares por ano.

Se as Nações Unidas destinassem esses recursos à cooperação técnica e à solidariedade social, Haiti poderia receber um bom impulso ao desenvolvimento de sua energia criadora. E assim se salvaria de seus salvadores armados, que têm certa tendência a violar, matar e espalhar enfermidades fatais.

O Haiti não precisa que ninguém venha multiplicar suas calamidades. Tampouco precisa da caridade de ninguém. Como bem diz um antigo provérbio africano, a mão que dá está sempre por cima da mão que recebe.

Mas o Haiti necessita sim de solidariedade, médicos, escolas, hospitais e uma colaboração verdadeira que faça possível o renascimento de sua soberania alimentar, assassinada pelo Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e outras instituições filantrópicas.

Para nós, latino-americanos, essa solidariedade é um dever de gratidão: será a melhor forma de dizer obrigado a esta pequena grande nação que em 1804 nos abriu, com seu contagioso exemplo, as portas da liberdade.

(Este artigo está dedicado a Guillermo Chifflet, que foi obrigado a renunciar à Câmara dos Deputados do Uruguai quando votou contra o envio de soldados ao Haiti).

* Texto lido ontem pelo escritor uruguaio na Biblioteca Nacional quando da mesa de debates “Haiti e a resposta latino-americana”, da qual participaram ainda Camille Chalmers e Jorge Coscia.

(*) Eduardo Galeano é um escritor uruguaio. Artigo publicado originalmente no jornal argentino Página12. Tradução: Jadson Oliveira
Fonte: http://www.fazendomedia.com/

Mural em solidariedade aos estudantes mobilizados e ocupados no Chile - por ANA

Mural em solidariedade aos estudantes mobilizados e ocupados no Chile[De passagem pelo Chile, integrantes do coletivo brasileiro “Arte Libertária” realizaram do lado de fora do Instituto Nacional em Santiago um mural (imagem em anexo) em solidariedade aos estudantes chilenos em luta por qualidade e gratuidade no ensino naquele país.]

Faz pouco mais de 5 meses estourou no Chile um novo momento social que iniciou-se com o setor da educação, mas que se expandiu a outros âmbitos da sociedade.

São marchas semanais com presença de 100 mil, 200 mil pessoas.

O Chile durante a ditadura de Pinochet viveu um processo de implementação do Neoliberalismo, entre outras coisas a privatização da educação, desde então as Universidades Públicas são pagas, há financiamento de escolas de ensino básico privadas, onde as crianças e jovens não pagam.

Porém aí está o problema, a privatização da educação gerou um endividamento de estudantes e seus pais, já que eles tinham que ser a garantia do financiamento (os financiamentos são estatais ou privados).

Além disso, a educação é super conservadora e católica.

Tudo isso veio a estourar em 2006 na Rebelião dos Pingüins (os alunos de ensino médio de lá, que tem que usar terninho e gravata), onde algumas conquistas foram realizadas, mas não a gratuidade universitária e a melhoria da qualidade de ensino básico.

As negociações realizadas pelos dirigentes não abarcaram todo o movimento, mas fez com que o movimento dos pingüins se silenciasse por um tempo.

Mas o silêncio nem sempre quer dizer o fim! E em maio deste ano, os estudantes secundaristas novamente levantaram sua voz, se fizeram escutar por todos os cantos do Chile. Foram colégios tomados e ocupados, panelaços, marchas com a presenças de estudantes, pais, professores, apoiadores, familiares, enchendo novamente as ruas do Chile e de Santiago de esperança e rebeldia.

Há jovens do ensino médio e pais em greve de fome. Mostrando que apesar da jovem idade compreendem muito bem a realidade em que estão vivendo.

Vale lembrar que o Estado e a polícia chilena também respondem com grande violência, tirando a força os estudantes dos colégios, dispersando as marchas com os carros de jatos de água química, batendo com a maior violência que se pode imaginar e não imaginar nestes estudantes. Aqui também lembramos a morte de Manuel Gutiérrez Reinoso estudante de 16 anos assassinado pela polícia chilena quando acompanhava uma marcha estudantil!

Isso nos incentivou a propor e a pintar um mural junto com alguns estudantes e agora companheiros do Instituto Nacional de Santiago, em solidariedade e em apoio a luta que está longe fisicamente da gente, mas que a sentimos em nossos corações.

Por uma educação livre até a revolução social!

Viva os estudantes secundaristas mobilizados, as ocupações e a fuerza de quem não se faz silenciar!

A solidariedade não reconhece fronteiras!

Arte Libertária

artelibertaria.wordpress.com

agência de notícias anarquistas-ana
folhas voando —
minha avó sempre fazia
previsões de chuvas
Rosa S. Clement

Professores cearenses: Coronel Cid Gomes e seus capangas - por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Novo ataque à fábrica Flaskô - por Passa Palavra

Novo ataque à fábrica Flaskô

Juiz quer leiloar uma máquina importante da produção. TV Flaskô
Aqui na Flaskô estamos com um novo problema. O juiz quer fechar a fábrica, leiloando uma máquina importantíssima para a produção. Vamos fazer um ato dia 7 de outubro contra isso, em Sumaré, às 5h. Apareçam aqui.


Fonte: http://passapalavra.info/

Chomsky apoia movimento Ocupa Wall Street!

Chomsky apoia movimento Ocupa Wall Street
"Os valentes e honrados protestos que continuam em Wall Street deveriam servir para chamar publicamente a atenção da sociedade sobre esta calamidade (provocada pelo setor financeiro) e conduzir a um dedicado esforço para superá-la e conduzir a sociedade para um caminho mais saudável", diz o linguista e ativista em uma mensagem de solidariedade com o movimento de ocupação de Wall Street.

Qualquer um que tenha os olhos abertos sabe que o gangsterismo de Wall Street – das instituições financeiras em geral – infligiu graves danos ao povo dos Estados Unidos (e ao mundo). E deveria saber também que tal coisa foi ocorrendo progressivamente nos últimos trinta anos na medida em que aumentou de modo radical seu poder no comando da economia e com isso seu poder político.

Deste modo foi posto em marcha um círculo vicioso que concentrou uma imensa riqueza, mas o poder político ficou nas mãos de um diminuto setor da população, uma fração de 1%, enquanto o resto foi se convertendo cada vez mais no que passou a se chamar de “precariado”, pessoas que tratam de sobreviver em uma precária existência. Além disso, as horríveis atividades dessa pequena parcela da população são realizadas com uma impunidade quase completa: não só mediante o “too big to fail” (muito grande para quebrar), mas também com o “too big to jail” (muito grande para ir para a cadeia).

Os valentes e honrados protestos que continuam em Wall Street deveriam servir para chamar publicamente a atenção da sociedade sobre esta calamidade e conduzir a um dedicado esforço para superá-la e conduzir a sociedade para um caminho mais saudável.

Fonte:http://www.sinpermiso.info/textos/index.php?id=4466
Tradução: Katarina Peixoto
Retirado: http://www.cartamaior.com.br/

Carestia - por Juliana Borges


Fonte: http://peledaterra.blogspot.com/

O Cassino Global em Crise: Quatro dos maiores bancos mundiais estão em risco de falência? - por Oscar Ugarteche e Leonel Carranco

Quatro dos maiores bancos mundiais estão em risco de falência?
Levando em conta a situação que os bancos norte-americanos e europeus têm passado, destaca-se o nome de quatro bancos que poderão estar à beira da falência ou de ser salvos novamente pelos governos nacionais, já que são “demasiado grandes para falir”. Os seus nomes são: Bank of America, Crédit Agricole, Commerszbank e Societé Générale.

A má situação do Bank of America
O Bank of America, - o banco mais importante dos Estados Unidos em ativos e empréstimos – está passando por graves problemas financeiros em tal grau que pode ser comprado pelo JP Morgan, conforme anunciou em 23 de agosto de 2011 o Wall Street Journal através do seu blogue 24/7 Wall St. [1] com base em rumores que estão ganhando força dentro da praça financeira norte-americana. A transação de compra seria feita com a ajuda do governo norte-americano o qual desembolsaria cerca de 100 bilhões de dólares.

O blog do WSJ refere que o Business Insider calcula que o Bank of America necessitará entre 100 e 200 bilhões de dólares para reforçar as suas contas [2]. Isto significa uma falência técnica do Bank of America, mas como se viu na primeira crise bancária de 2008-2009, os grandes bancos não vão à falência, fundem-se porque são demasiado importantes para falir.

Notemos que o Bank of America no seu informe do segundo trimestre publicou as maiores perdas da sua história num montante de 9,127 bilhões de dólares. Estas perdas estão associadas, em grande medida, com hipotecas de segunda geração.[3] Trata-se de hipotecas que foram boas mas que se deterioraram pelo elevado desemprego e pelas más remunerações norte-americanas, em especial a partir de 2008.

No início do ano o preço das acções do Bank of America era de 14,19 dólares e em 22 de setembro (no fechamento da bolsa), - um dia depois da declaração de Bernanke sobre a gestão da política monetária dos Estados Unidos [4] -, o preço das ações foi de 6,06 dólares o que significa uma queda de 57,3% em cerca de nove meses, sem deixar de mencionar que no dia 8 de agosto houve uma forte queda, de 20,32%, causada pela baixa do rating da dívida dos Estados Unidos.

O preço de 6,06 dólares por ação significa que os investidores não acreditam no preço das ações dos livros de contabilidade do Bank of America (21,45 dólares), dado publicado no segundo informe do balancete financeiro deste banco. Isto é, os investidores crêem que o verdadeiro preço das ações do Bank of America vale menos de um terço do que os livros de contabilidade deste banco dizem.

Jonathan Weil, colunista da Bloomberg, disse que o mercado percebe que “mais de metade do valor da empresa que está nos livros é falso, por que os ativos estão sobrevalorizados ou os passivos subestimados, ou por uma combinação dos dois” [5].

A má situação financeira do Bank of America levou-o a tomar a decisão de começar a vender ativos que, segundo o banco, lhe são complementares. Entre estas decisões está a venda de uma carteira de investimentos imobiliários por um valor de um bilhão de dólares assim como outra de hipotecas vendida por 500 milhões de dólares à empresa estatal de hipotecas Fannie Mae. Também vendeu o TD Bank Group um negócio de cartões de crédito avaliado em 8,6 bilhões de dólares [6]. Os dois últimos anúncios foram a 30 de agosto quando vendeu as ações que possuía do Banco de Construção da China por um valor de 8,3 bilhões de dólares [7], e o segundo é a muito possível venda da sua participação na Pizza Hut por um montante de 800 milhões de dólares. [8]

Warren Buffet no resgate
No dia 25 de agosto, e tendo como ambiente uma maior desconfiança dos investidores na solidez financeira deste banco, Buffet, um dos mais poderosos investidores do mundo, participou no resgate do Bank of America comprando ações preferenciais (que não se vendem a qualquer um) num valor de 5 bilhões de dólares [9], o que representa aproximadamente 6,5% do capital social do banco [10]. Isto levou a que as ações aumentassem 20% de 25 a 29 de agosto mas este momento de subida mudou a 30 de agosto registando-se uma queda de 13,6% em relação ao preço de fechamento de 2 de setembro. O saldo geral do impacto da injeção de capital por parte de Buffet a 2 de setembro foi um aumento de 3,8% do preço das ações.

Este fato mostra-nos que o maior banco dos Estados Unidos está passando por grandes problemas financeiros, muito ligados à sua carteira de investimentos imobiliários. Recordemos que há dois processos relacionados com este tema, um da parte da AIG e o montante pedido é de 10 bilhões de dólares [11] e o outro por parte da Agência Federal de Financiamento à Habitação (FHFA, segundo as suas siglas em inglês) num montante de 24,8 bilhões de dólares [12].

O peso do Bank of America
O valor dos ativos do Bank of America no primeiro trimestre de 2011 foi de 2,3 trilhões de dólares enquanto que em derivados foi de 72,7 trilhões de dólares. Uma gestão de valores em derivados equivalente a 32 vezes o montante dos seus ativos [13]. Este banco representa aproximadamente 22,6% do mercado de derivados e 17% do total dos ativos bancários dos Estados Unidos.

Se compararmos o valor dos ativos do banco em 2010 com o Produto Interno Bruto da zona euro, teríamos que os ativos do Bank of America em 2010 representam 88% do PIB da França e 68% do PIB da Alemanha. O valor destes ativos é de 7,4 vezes o PIB da Grécia, 9,9 o PIB de Portugal, 1,1 o da Itália e 1,6 vezes em relação ao de Espanha.

Os problemas do Goldman Sachs e da UBS
A 15 de setembro de 2008 foi dada a notícia da falência do Lehman Brother's; novamente a 15 de setembro, mas deste ano, surgiam duas notícias muito importantes no âmbito financeiro. A primeira do encerramento do que foi o mais importante hedge fund do Goldman Sachs e a segunda das perdas declaradas pelo banco suíco UBS, as quais ascendem ao montante de 2 bilhões de dólares.

O Goldman Sachs anunciou o encerramento, entenda-se como uma falência, do seu hedge fund Alpha Global [14], que fora catalogado como a jóia da coroa daquele banco [15]. Este fundo tinha perdido, durante este ano, 12% do seu valor16, o que representava uma segunda queda em quatro, uma vez que em Setembro de 2008 teve uma queda de 22%17, sendo um dos acontecimentos que iniciou o caminho para a Grande Recessão [18].

A esta notícia somou-se a de que um operador estabelecido em Londres e pertencente ao banco UBS tinha incorrido numa fraude que provocara perdas do banco no montante de 2 bilhões de dólares [19], algo que relembra a fraude no banco francês Societé Générale em janeiro de 2008 num montante de 5 bilhões de dólares [20].

A fraude de 2 bilhões de dólares, segundo a versão do banco UBS, levanta dúvidas sobre como o operador pôde ultrapassar os controles internos num montante de tal tamanho. Se este montante em vez de ser perdas fossem lucros então, como menciona o editor principal da CNBC John Carney, não lhe estariam a chamar desonesto mas teria ascendido a vice-presidente ou diretor geral de algum departamento do banco suíço [21]. Tduo isto levanta a interrogação: Quantas destas fraudes haverá na banca mundial? Recordemos Barinas, falecido em 1994 numa operação análoga em que os controles internos não funcionaram [22].

Os problemas do Commerzbank
À situação de deterioração do Bank of America não é estranha o banco alemão Commerzbank – o segundo mais importante da Alemanha – que está passando por graves problemas financeiros, mas diferentemente do banco norte-americano, o Commerzbank tem problemas pela sua elevada exposição em valores emitidos pelos países europeus altamente endividados.

No início do ano o preço das acções do Commerzbank era de 5,636 euros e a 22 de setembro (no fechamento) o preço das acções foi de 1,56 dólares o que significa uma queda de 72,3% durante este ano. É importante mencionar que a 10 de agosto este banco anunciou que os seus lucros do segundo trimestre, comparados com os do primeiro, tinham caído 93% devido aos problemas que tem a sua carteira de investimentos relacionados com a dívida soberana da Grécia. [23]

A alquimia dos bancos alemães
Um dos problemas que a desregulação financeira e a contabilidade criativa trouxeram, foi o de esconder os problemas financeiros de qualquer empresa, temos exemplos clássicos disso no Long-Term Capital Management e no Enron que faliram em 1998 e 2001, respectivamente.

Yalman Onaran escreveu um importante artigo na Bloomberg intitulado “Global bank capital regime at risk as regulator spar over rules” [24], onde fala sobre os problemas existentes nos bancos europeus e norte-americanos, para que eles cumpram as normas escritas em Basileia III. Destaca-se o caso da banca alemã onde existe um elevado uso dos valores híbridos (também conhecidos como “silent participations”), os quais se contabilizam como dívida e capital ao mesmo tempo mas que estruturalmente são passivos. Estes valores híbridos em certas ocasiões chegam a representar 50% do capital das entidades financeiras dentro da Alemanha; temos um caso concreto no banco Landesbank Hessen-Thuering que foi retirado em 2010 dos testes de stress devido a ter um elevado montante de capitais híbridos.

No caso do banco Commeszbank estes valores estão contabilizados como ativos. [25] É importante mencionar que durante a crise bancária de 2008 este banco vendeu ao governo alemão 2,75 bilhões de euros em valores híbridos que foram convertidos em ações. [26] Isto é os alquimistas do governo alemão a partir da contabilidade creativa e da engenharia financeira (parecidos neste caso com a pedra filosofal) fizeram uma transmutação de um valor que pela sua estrutura espresenta um passivo numa ação financeira convertendo empréstimos em entradas de capital.

A França e a sua banca com problemas
Depois da baixa de qualificação dos Estados Unidos por parte da Standard and Poor's, a pergunta é: Qual país é o próximo? Os rumores começaram a surgir de que o seguinte seria a França. No dia 10 de agosto de 2011, as ações francesas foram afectadas pelo rumor de uma possível baixa do triplo AAA27 na notação financeira da dívida do governo francês por parte da Moody's mas isto não aconteceu, nesse mesmo dia tanto a Moody's como a Standard and Poor's vieram ratificar o nível de qualificação [28].

Estes rumores levaram a que, no dia 24 de agosto, o governo francês tenha anunciado um plano para reduzir o seu déficit fiscal. O plano consiste num aumento das receitas em 10 bilhões de euros por meio de aumentos de impostos assim como cortes nas isenções e incentivos fiscais que estavam a ser utilizados para estimular o crescimento económico. [29] A França finalizou o ano de 2010 com um déficit fiscal no valor de 7% do PIB,30 enquanto que a sua dívida actual é de 86,7% e a privada externa de 208% [31].

Ao problema da notação da dívida pública francesa há que somar-se a má situação da sua banca privada. Em 14 de setembro a Moody's anunciou a baixa da notação dos bancos Societé Générale e Crédit Agricole e pôs em revisão a notação do BNP Paribas; estes são os três mais importantes bancos dentro do país. A causa do rebaixamento da notação financeira deve-se à deterioração financeira provocada pelas dívidas soberanas que mantêm nos seus balancetes, principalmente à dívida grega. [32] Entre 3 de janeiro e 22 de setembro deste ano o preço das ações do BNP Paribas caiu 53,2% o Société Générale 63,4% e o Crédit Agricole 57%.

As demissões no setor bancário
A 12 de setembro, Brian Moynihan, diretor geral do Bank of America anunciou o corte de 30 mil postos de trabalho em nível internacional [33], isto com base no seu plano de reestruturação chamado “New BAC” apresentado em abril deste ano para tentar aumentar a rentabilidade e o capital deste banco [34]. Enquanto que os bancos europeus anunciaram 67 mil demissões entre janeiro e agosto deste ano, dos quais 50 mil foram da banca do Reino Unido [35]. Então temos que durante este ano, (janeiro-setembro) a banca europeia e norte-americana cortaram 97 mil empregos.

Estes números fazem-nos recordar duas situações já vividas, a primeira foi a demissão de 116 mil trabalhadores do setor bancário durante a crise financeira do ano 2001. A segunda tem a ver com a demissão de 130 mil pessoas entre janeiro e outubro de 2008. Recordemos que nesse ano, mas no dia 15 de setembro, o banco de investimentos Lehman Brother's declarou-se em falência, fato que detonou uma crise bancária e a sua consequente recessão econômica.

Considerações finais: Os bancos candidatos à falência, à fusão ou a serem novamente salvos
Tendo em conta a situação que os bancos norte-americanos e europeus têm passado, destaca-se o nome de quatro bancos que poderão estar à beira da falência ou de ser salvos novamente pelos governos nacionais, já que são “demasiado grandes para falir”. Os seus nomes são: Bank of America, Crédit Agricole, Commerszbank e Societé Générale. Os últimos dois bancos apresentaram uma importante queda do preço das suas ações, nos nove meses deste ano, 72,3% e 63,4%, respectivamente.

Quando os preços das ações têm quedas de dois dígitos, começam a soar os alarmes nos investidores e ainda mais quando se apresenta a situação de uma tendência de forte baixa.

Recordemos que a agência de rating Moody's anunciou a 21 de setembro o corte da notação da dívida de curto prazo de três dos mais importantes bancos dos Estados Unidos: Bank of America, Citigroup e Wells Fargo [36].

A forte queda dos preços das ações do setor bancário nos Estados Unidos e na Europa é muito parecida com a crise bancária desencadeada pela falência do Lehman Brother's em setembro de 2008.

Três anos depois desta data, encontramo-nos novamente em vésperas de uma nova crise bancária e, portanto, financeira a nível internacional, assim o assinala a empresa PIMCO, a qual é a maior a nível internacional na comercialização de títulos. [37]

(*) Trecho do artigo “Estamos perante a segunda crise bancária? - Notícias da crise 2011” de Oscar Ugarteche [38] e Leonel Carranco [39], que foi publicado no site do Observatório Económico da América Latina (obela.org). Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

NOTAS
[1] Disponível em http://247wallst.com/2011/08/23/jp-morganmay-take-over-bank-of-america/
[2] Disponível em http://www.businessinsider.com/bank-ofamericas-stock-collapse-2011-8?op=1
[3] Bank of America, Supplement information, Second Quarter 2011, Disponível em http://phx.corporateir.net/External.File?item=UGFyZW50SUQ9MTAwNDAzfENoaWxkSUQ9LTF8VHlwZT0z&t=1
[4] Ver: http://www.federalreserve.gov/newsevents/press/monetary/
[5] Disponível em: http://www.bloomberg.com/news/2011-07-21/curse-the-geniuses-who-built-bank-of-america-jonathanweil-1-.html
[6] Disponível em: http://www.businessinsider.com/bank-ofamericas-fire-sale-2011-8
[7] Ver: http://www.reuters.com/article/2011/08/30/usbankofamerica-ccb-idUSTRE77S2MO20110830
[8] Ver: http://www.bloomberg.com/news/2011-09-22/bankof-america-said-to-seek-800-million-in-sale-of-pizza-hutfranchise.html
[9] Ver: http://www.marketwatch.com/story/buffetts-bofainvestment-is-the-new-tarp-2011-08-25?dist=countdown
[10] Ver: http://www.marketwatch.com/story/sorry-warrenbank-of-america-still-stinks-2011-08-30?link=MW_story_investinginsight
[11] Ver: http://www.nytimes.com/2011/08/08/business/aig-tosue-bank-of-america-over-mortgagebonds.html?pagewanted=all
[12] Ver: http://www.bloomberg.com/news/2011-09-02/barclays-bank-of-america-are-sued-by-fhfa-overmortgage-backed-securities.html
[13] “Office of the comptroller of the currency , OCC´s Quarterly report on bank trading and derivatives activities first quarter 2011”. Disponível em http://www.occ.treas.gov/topics/capitalmarkets/financial-markets/trading/derivatives/dq111.pdf
[14] Este hedge fundactuava no comércio quantitativo o qual utiliza modelos computacionais altamente sofisticados para aproveitar rápidamente as oportunidades nos mercados.
[15] Ver: http://www.cnbc.com/id/44549144
[16] Ver: http://www.eleconomista.es/mercadoscotizaciones/noticias/3379250/09/11/ocaso-de-un-hedgefund-goldman-sachs-echara-el-cierre-global-alpha.html
[17] Ver: http://www.reuters.com/article/2011/09/16/usgoldmansachs-hedgefund-idUSTRE78F28Y20110916
[18] Ver: http://www.bloomberg.com/news/2011-09-16/goldman-s-global-alpha-reaches-its-omega-moment-theticker.html
[19] Ver: http://www.businessweek.com/news/2011-09-18/ubschief-gruebel-dismisses-calls-to-resign-after-trading-loss.html
[20] Ver: http://www.elpais.com/articulo/internacional/policia/britanica/acusa/broker/UBS/contabilidad/falsa/delito/fraude/elpepuint/20110916elpepuint_10/Tes
[21] Ver: http://www.cnbc.com/id/44533146
[22] Ver: http://redordead.wordpress.com/2009/08/15/thevictorian-remixes-the-demise-of-barings-bank-a-lesson-inrisk-management-internal-controls-and-regulations/
[23] Ver: http://www.marketwatch.com/story/commerzbankprofit-falls-93-on-greek-impairment-2011-08-10
[24] Ver: http://www.bloomberg.com/news/2011-08-19/globalbank-capital-regime-at-risk-as-regulators-spar-over-rules.html
[25] Ibidem
[26] Ver: http://www.ft.com/intl/cms/s/0/b44410e0-6010-11e0-abba-00144feab49a.html#axzz1X3q1aSC2
[27] Disponível em http://www.marketwatch.com/story/fornext-rating-downgrade-sp-may-look-at-france-2011-08-10?dist=afterbell
[28] Disponível em: http://www.bloomberg.com/news/2011-08-10/french-aaa-credit-affirmed-by-standard-poor-s-moody-samid-market-rout.html
[29] Disponível em: http://www.reuters.com/article/2011/08/24/france-budgetidUSLDE77N04F20110824
[30] Disponível em: http://epp.eurostat.ec.europa.eu/cache/ITY_PUBLIC/2-26042011-AP/EN/2-26042011-AP-EN.PDF
[31] Ver: http://www.usdebtclock.org/world-debt-clock.html
[32] Ver: http://www.theage.com.au/business/worldbusiness/french-banks-downgraded-by-moodys-20110914-1k95o.html
[33] Ver: http://www.nytimes.com/2011/09/13/business/ceopromises-cuts-at-bank-ofamerica.html?_r=1&ref=layoffsandjobreductions
[34] Ver: http://www.charlotteobserver.com/2011/09/02/2574344/bank-of-america-layoffs-could.html
[35] Ver: http://www.bloomberg.com/news/2011-08-23/european-bank-job-bloodbath-surpasses-40-000-as-ubscuts-workforce-by-5-.html
[36] Ver: http://www.marketwatch.com/story/moodys-cutscitigroup-to-p-2-affirms-p-1-2011-09-21?link=MW_home_latest_news
[37] Ver: http://www.bloomberg.com/news/2011-09-22/elerian-says-world-is-on-eve-of-next-financial-crisis-oversovereign-debt.html
[38] Oscar Ugarteche – Economista peruano e investigador do Instituto de Investigações Econômicas da Universidade Nacional do México (UNAM)
[39] Leonel Carranco - Colaborador do Observatório Econômico da América Latina da UNAM.
Fonte: Carta Maior

Palestina e Israel por trás da cortina de fumaça - Sérgio Storch

Palestina e Israel por trás da cortina de fumaçaO presidente da Autoridade Palestina pediu na semana passada, à Assembleia Geral das Nações Unidas, o reconhecimento do Estado Palestino. Embora a imprensa venha dando vasta cobertura a esse momento histórico, pouco se dabate sobre a complexidade do que está em jogo e a dificuldade das partes interessadas chegarem a um denominador comum. Eis uma lista das principais perguntas cujas respostas parecem importantes até mesmo para leitores bem informados:

Por que Israel não aceita o Estado Palestino?
Pesquisas de opinião (disponíveis no site da Iniciativa de Genebra), evidenciam que a maioria da população israelense está convencida da criação do Estado Palestino, e entende que o momento está chegando. Não será uma derrota para Israel, como mostra essa lista de 50 razões para Israel dizer sim, compilada por uma coalizão de ONGs pacifistas israelenses e palestinas. Há manifestações nas ruas de Israel denunciando a intransigência do governo Netanyahu.

O Estado Palestino já foi previsto no acordo de Oslo, graças ao qual Itzhak Rabin e Yasser Arafat ganharam o prêmio Nobel da Paz, há 18 anos. Esse acordo foi uma declaração de intenções, em que ficou estabelecida a aceitação mútua da solução Dois Estados para Dois Povos. Há uma minoria que o recusa, e que tem posição forte no atual governo. Se o primeiro ministro ceder, ele perderá a liderança da coalizão de direita que lhe dá sustentação, que poderá cair nas mãos de seu aliado e rival interno — Avigdor Lieberman, da extrema direita. Portanto, o impasse deve-se não a Israel não aceitar o Estado Palestino, e sim às contradições da política interna israelense (leia mais em Outras Palavras sobre a coalizão de direita que está no governo israelense). O argumento utilizado pelo primeiro-ministro na ONU, que leva o presidente Obama a apoiá-lo por medo de perder votos judaicos nas eleições de 2012, é que a criação do Estado Palestino não pode ser unilateral, e que só poderá se dar através de negociações diretas.

E por que então não fazem as negociações diretas?
Sim, houve negociações diretas diversas vezes. As primeiras foram no ano 2000, em Camp David, patrocinadas por Bill Clinton. Não houve tempo hábil para concluí-las, em vista da mudança de guarda na presidência dos Estados Unidos, que George W. Bush assumiu em janeiro de 2001. A experiência de negociações e o enfrentamento das questões mais complexas levou os negociadores a se encontrarem novamente em 2002, na chamada Iniciativa de Genebra, que serve de base para tudo que veio a ser negociado posteriormente (ver detalhes em Paz Agora).

Outra rodada aconteceu em 2008, mas foi interrompida por nova mudança de governo — agora em Israel. Como a coalizão agora no poder tem rabo preso com setores interessados na construção de habitações nos assentamentos em territórios ocupados por Israel, Netanyahu colocou dificuldades para as negociações. Exigiu algo que nunca havia sido requerido antes: que a Autoridade Palestina reconhecesse o Estado de Israel como um Estado judeu.

Tal condição pode ter implicações em relação ao destino dos refugiados palestinos, um tema que faz parte das negociações. O governo israelense também boicotou o diálogo ao retomar e acelerar as construções nos assentamentos e em Jerusalém Oriental, o que é visto pelos palestinos como ato hostil. Portanto a exigência de Netanyahu e o seu comportamento em relação à construção nos assentamentos resultaram na paralisia das negociações, apesar dos esforços exercidos pelos Estados Unidos e pelo Quarteto (EUA, Rússia, ONU e União Europeia), para que elas acontecessem. A Autoridade Palestina, pressionada por sua sociedade, não teve outro recurso a não ser recorrer à ONU.

O que estará envolvido nas negociações?
As negociações deverão estabelecer as fronteiras entre o Estado de Israel e o Estado Palestino, já tendo por base o princípio aceito por todos de que a base serão as fronteiras anteriores à guerra de 1967 — vencida por Israel, que então ocupou a Cisjordânia e Gaza. Há ajustes a serem feitos nas fronteiras através da troca de terras, para garantir as condições de segurança para ambos os estados, e para conciliar dois pontos do conflito: a exigência dos palestinos de que tenham território contínuo que viabilize sua economia, versus a necessidade dos israelenses reduzirem o ônus social e econômico de levar de volta para o Estado de Israel os colonos que residem nos assentamentos. Do total de 300 mil colonos, as negociações poderão exigir o deslocamento de cerca de 100 mil, reduzindo muito a dimensão do problema.

Um outro ponto de negociação foi o motivo principal para as negociações de uma década atrás não terem tido sucesso: o status de Jerusalém. É exigência palestina que Jerusalém Oriental seja parte do Estado Palestino. Parte da sociedade israelense entende que Israel não pode abrir mão de ter Jerusalém unificada. Há outras questões também complexas, como a da desmilitarização do Estado Palestino, a questão dos refugiados e a questão dos direitos sobre a água. A negociação de todas essas questões não deve ser motivo para postergar a criação do Estado Palestino.

Israel não tem razão de temer que os palestinos não o reconheçam?
Sim. A sociedade israelense tem uma imagem negativa dos árabes: entre outras coisas, acredita-se em Israel que os árabes não cumprem acordos. As declarações reiteradas de grupos radicais como o Hamas e o Hezbollah (do Líbano), apoiados pelo Irã, de que Israel não tem direito a existir, levam o povo israelense a temer a possibilidade de novos confrontos que visem à sua destruição. Essas declarações são utilizadas pela direita israelense para sustentar o medo de grande parte da população, que tem fundamentos históricos. O governo israelense explora essa tendência, estereotipando os árabes e, em particular, os palestinos, inclusive na educação escolar. Há estudos de pacifistas israelenses que evidenciam, nas cartilhas elementos, que levam a temer os povos árabes. Do lado palestino, ocorre algo semelhante: ensina-se desde a escola que os judeus são malignos. E a maior parte dos palestinos só conheceu judeus em uniformes militares.

E como esse medo pode ser vencido?
Primeiramente com informação. Muitos judeus desconhecem as mudanças que ocorreram nas últimas décadas, e mantêm impressões que tinham fundamento muito tempo atrás. Por exemplo, não é sabido que em 2002 a Liga Árabe, liderada pela Arábia Saudita, lançou a Iniciativa Árabe de Paz, oferecendo a Israel o reconhecimento de todos os países árabes em contrapartida ao fim da ocupação. Foi uma guinada histórica em relação à posição explícita de recusa ao Estado de Israel, representada pelos nãos da Conferência de Cartum, em 1968: “não ao reconhecimento, não ao diálogo, não á paz”. Além disso, a geopolítica mudou com a ascensão do Irã, que é temido pelos países árabes. Israel deixou há muito de ser visto como o inimigo principal, e dois países, Egito e Jordânia, já têm acordos bilaterais com Israel desde a década de 70.

Em segundo lugar, o conhecimento mútuo: há inúmeras iniciativas conjuntas de israelenses e palestinos para vencer o medo recíproco, através de ações culturais , especialmente na música e no cinema. A mais conhecida é uma orquestra sinfônica formada por jovens judeus e árabes, fundada por um dos maiores músicos israelenses, Daniel Barenboim, e pelo maior intelectual palestino, Edward Said, já falecido.

Em terceiro lugar, a ação política conjunta. Por exemplo, a ONG de direitos humanos nos territórios ocupados, B´Tselem, é formada por israelenses e palestinos, e é a mais importante no Oriente Médio. Muitos israelenses são também solidários em ações de resistência não-violenta à ocupação, como a ação retratada no filme “Budrus”.

A exposição recíproca dos dois povos tem contribuído para mudar a imagem que um tem do outro. É um processo que levará algumas gerações, e que um Estado Palestino reconhecido e que reconheça Israel contribuir para aprofundar.

Aqui há um papel importante que outros países poderão desempenhar: desenvolver o diálogo entre suas comunidades judaicas e as comunidades árabes, para que se conheçam e transmitam a seus amigos que vivem em Israel e na Palestina impressões que levem a superar os preconceitos. O Brasil é um país que conta com as melhores condições para desempenhar esse papel.

Por que o Estado Palestino não foi criado antes?
A identidade palestina era ainda pouco nítida quando a ONU aprovou, em 1947, a criação de dois estados, um judeu e um árabe, na terra então chamada Palestina. A região estava sob mandato britânico desde o fim do império otomano, derrotado na Primeira Guerra Mundial. O estado árabe então aprovado não chegou a se constituir. O estado de Israel, ao se constituir e declarar independência, foi atacado, em 1948, por exércitos de sete países árabes. Foi uma guerra cruenta, vencida por Israel, que ocupou parte dos territórios que tinham sido designados para o novo estado árabe. Dois países árabes tomaram a parte remanescente do que deveria constituir o novo estado: a Jordânia tomou a Cisjordânia e o Egito tomou a faixa de Gaza. O novo estado árabe, que seria um estado palestino, não foi então criado, e os palestinos passaram a ser um povo sem terra, disperso pelos países árabes e no resto do mundo.

Pode-se considerar que a luta por um Estado Palestino teve início apenas a partir de 1964, com a criação da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). E somente em 1993, após a primeira Intifada – levante palestino nos territórios ocupados — tiveram início a negociação e conhecimento recíproco, com a solução Dois Estados para Dois Povos. Até então a OLP tinha em seu estatuto o objetivo de destruir Israel.

Quem teve culpa por essa demora?
Ambos os lados. Israel, por motivos alegadamente de segurança, adotou uma política habitacional para estender suas fronteiras. Essa política foi praticada por governos dos vários partidos, e minou a confiança dos palestinos no cumprimento do acordo de Oslo. Essa política habitacional tornou-se conveniente, pois permitiu atender à demanda de habitação para as novas ondas migratórias, especialmente a de mais de um milhão de judeus que não tinham podido até então sair da União Soviética, e que emigraram após a queda da URSS, em 1989.

Do lado palestino, a humilhação de viverem sob ocupação, com as várias violações de direitos humanos daí decorrentes, levou à radicalização de parte de sua população e ao início de uma série de atentados terroristas, que passaram a fustigar a população israelense, cujo medo passou a realimentar a ansiedade por mais segurança.

A atribuição de culpas a apenas um dos lados é uma forma simplista de entender um conflito complexo como esse, caracterizado por uma espiral de injustiças e violência que não têm uma única causa, a não ser a causa já remota, que se encontra na segunda década do século 20, quando ingleses e franceses dividiram entre si toda aquela região (Líbano e Síria para os franceses, Jordânia e Palestina para os ingleses), e praticaram a política de dividir para dominar, da mesma forma que os ingleses fizeram na Índia, onde o conflito explodiu na mesma época, após a Segunda Guerra Mundial.

Mas não há como resolver?
A solução já passou por várias etapas, e pode estar muito próxima. Ambos os lados estão cansados de conflitos, e a cada ano é aparentemente menor a quantidade de pessoas em ambos os lados que favorecem a intransigência. Os jovens de ambos os lados desejam vidas normais. O ressentimento mútuo é alimentado pela opressão da ocupação e pelas reações terroristas. Hoje pode-se dizer que há maior conflito interno em cada um dos lados do que o conflito que os separa. Em Israel, os radicais que estão no atual governo, que foram reforçados pela imigração russa, tendem a dar lugar para governos mais moderados (e pode ser que o impasse na ONU provoque um rearranjo na coalizão de poder). Na Palestina, os radicais (não só no partido religioso Hamas mas também em facções seculares) também perdem espaço para aqueles que optaram pela resistência não-violenta.

Pode ser que incidentes provocados por radicais de algum dos lados acabem provocando uma nova espiral de violência, ou mesmo uma guerra. A criação do Estado Palestino é o caminho para ambos os lados poderem escapar disso e passarem a oferecer vida normal para seus cidadãos.

Tudo já foi discutido, e o que ambos os lados precisam encontrar agora são saídas honrosas para poder prosseguir nas negociações dos detalhes. O maior problema de cada um está no front interno. Em Israel, o governo de direita, que inclui um segmento claramente fascista — mas já contestado, como vimos, nas manifestações sociais pela recuperação do estado de bem estar social, destruído com políticas neoliberais. Na Palestina, a disputa de poder entre o partido nacionalista Fatah e o partido religioso Hamas.

A exigência mais forte dos palestinos é a criação do seu Estado com continuidade territorial, pois a expansão dos assentamentos israelenses penetrou fundo nos territórios ocupados, com estradas protegidas e que os árabes não podem utilizar, criando uma situação que pode ser chamada de apartheid (nos territórios ocupados, não em Israel, como muitos imaginam acontecer). Os palestinos querem que seu estado não seja um conjunto de áreas separadas por estradas israelenses. Por isso, exigem as fronteiras anteriores a 1967. Mesmo assim, a separação entre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza é impossível de contornar, a não ser através de uma autoestrada que passe por território israelense.

O que os israelenses mais exigem?
Os israelenses precisam minimizar a transferência para Israel dos israelenses que hoje residem nas terras que serão devolvidas. É uma população de 300 mil pessoas, o que envolve um esforço muito grande, que Israel não poderá fazer em tempo curto. Israel quer minimizar esse número para cerca de 100 mil, e isso depende do traçado das fronteiras que separarão os dois Estados. Eles sabem que não conseguirão manter Jerusalém unificada, mas os interesses da especulação imobiliária continuam produzindo novas construções nessa área. Serão negociações detalhistas, pois no atacado as grandes questões já foram tratadas.

Porém, o ponto que mais divide a sociedade israelense hoje é a suposta necessidade de uma garantia formal de que Israel seja aceito como um Estado judeu. Isso implicaria o abandono explícito do chamado direito de retorno dos refugiados palestinos, posição que a Autoridade Palestina não pode assumir de direito, pois os setores radicais interessados em derrubar os moderados insuflariam uma revolta popular que desestabilizaria as conquistas já alcançadas pelos palestinos. É o principal nó da questão, do qual Netanyahu não abre mão, mas no qual a maior parte da sociedade israelense acredita que deva haver flexibilidade.

E o tal do sionismo, o que é?
O sionismo é a ideologia que levou à criação do Estado de Israel, e que preconiza que ele seja um Estado seguro para todo o povo judeu espalhado pelo mundo. Foi uma resposta dada no final do século 19 à história de dois milênios em que os judeus raramente tiveram direitos iguais aos de seus vizinhos, nos países que habitavam. Todos os judeus gozam do “direito ao retorno” para Israel. O sionismo não é inerentemente expansionista nem antiárabe. Se Israel fosse apenas a cidade de Telaviv, o sionismo se praticaria com o direito de retorno a esse outro Israel. Muitos confundem isso com a opressão que Israel exerce hoje sobre os palestinos, seja na ocupação da Cisjordãnia ou no bloqueio à faixa de Gaza. Essa opressão é reconhecida e combatida também por pessoas que se consideram sionistas (usa-se o termo “sionismo de esquerda”, que está também associado à busca de uma sociedade israelense igualitária).

O fim da ocupação e a criação do Estado Palestino são uma condição imprescindível para que o sionismo seja reconhecido mundialmente como um nacionalismo semelhante a diversos outros, que resultaram em estados nacionais hoje considerados normais, a exemplo da Alemanha e da Itália. São condição para que Israel deixe de ser estigmatizado como um país opressor e violador do direito internacional, e seja reconhecido como um país normal e pelas contribuições que tem dado para o desenvolvimento social, cultural, científico e tecnológico da humanidade, fortalecido pela economia do seu vizinho Estado Palestino. Já há muita cooperação entre as sociedades israelense e palestina — por exemplo, na área da saúde — e as oportunidades de desenvolvimento conjunto são imensas. Faz parte do documento Iniciativa Israelense de Paz, produzido por lideranças civis e militares israelenses fora do governo, a proposta de um desenvolvimento regional integrado.

Talvez Netanyahu não seja capaz de dar o passo de estadista para que esse potencial se viabilize (leia um artigo que reflete o pensamento da oposição israelense). Se não for, a plasticidade da democracia israelense permite prever que essa coalizão de direita comandada por Netanyahu poderá ser substituída, por novos arranjos entre os partidos ou em novas eleições, por um governo mais inteligente e mais flexível. Neste momento alguns passos têm que ser dados para que todos saiam da ONU com boas respostas para seus públicos internos. E a história continua… Outro Israel é possível…

* Sérgio Storch é consultor em Planejamento, ativista de diversas causas ligadas à transformação social. Escreve, em Outras Palavras, a coluna Outro Israel é Possível.
Fonte: www.outraspalavras.net

Vergonha: O Egito e seu complexo de cordeiro - por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff