sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Deputada Luiza Erundina fala sobre a censura do dono da Rádio Bandeirantes - por O Limpinho

Deputada Luiza Erundina fala sobre a censura do dono da Rádio BandeirantesO Limpinho reproduz entrevista concedida ao jornalista André Rossi, publi-cada no sítio da Revista Fórum.

Na quarta-feira da última semana, dia 9, a deputada Luiza Erundina (PSB-SP) foi impedida de conceder uma entrevista à Rádio Bandeirantes, para o programa Manhã Bandeirantes, de José Luiz Datena, por ordens superiores da direção da rádio e emissora de televisão.

Segundo a deputada, a solicitação de entrevista foi encaminhada pela produção do programa, que momentos antes da hora marcada para a conversa por telefone ligou para sua assessoria cancelando o combinado. Erundina falaria na ocasião sobre o Projeto de Lei n° 55/2011, que institui referendo popular para aprovar ou não reajustes nos vencimentos de parlamentares e presidente da República.

Ao saber o motivo pelo qual a entrevista havia sido cancelada, a assessoria da deputada procurou a direção da Bandeirantes e ouviu diretamente do presidente João Carlos Saad que o veto era “uma resposta aos ataques que a deputada vinha fazendo à Rede Bandeirantes”.

A reportagem de Fórum entrou em contato com a parlamentar para saber sobre o caso. Entenda:

Em contato com o presidente da emissora, quais justificativas foram passadas para o veto da entrevista?
Acredito que essa medida foi inferida por conta da minha iniciativa em 2010 quando apresentei um requerimento junto à Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) da Câmara, para a realização de audiências públicas com o objetivo de debater a renovação de concessões públicas de rádio e TV. Ele me acusou de perseguir a Bandeirantes e disse que, por mim, a rede já estaria fechada. Disse também que se eu tratava a Band daquela maneira, não deveria querer dar entrevistas a eles.

O que esse veto representa?
Considero isso um atentado à democracia. Eles falam tanto em liberdade de expressão e coíbem uma representante do povo e uma parlamentar que tem a responsabilidade de zelar pelo interesse público, como tratava meu projeto de lei. Tudo aquilo que o mandato me permitir encaminhar para tentar criar um mecanismo de consulta à sociedade sobre a renovação de uma concessão pública eu farei. Não faço mais que minha obrigação.

Como você enxerga a relação do veto com o papel público da emissora?
Nada é mais do interesse público do que acompanhar o serviço concedido pelo Estado em nome do povo. Os grandes meios de comunicação no Brasil não admitem qualquer intromissão em seu oligopólio, o que contraria a discussão sobre o marco legal das comunicações no Brasil, tema que já está na agenda da sociedade. Mesmo assim, esse setor não conta com nenhuma participação da sociedade civil.

O caso ganhou muita repercussão nos últimos dias...Repercutiu muito nas mídias virtuais e redes sociais. Foi uma questão muito importante, pois tratava de um referendo para reajustes de subsídios de parlamentares e membros do governo. Esse tema, ainda mais com esse veto, implodiu esse debate na sociedade.

Via Blog do Miro
Fonte: http://limpinhocheiroso.blogspot.com/

[Espanha] Festival de Cinema Anarquista de Barcelona - por ANA

[Espanha] Festival de Cinema Anarquista de BarcelonaFestival de Cinema Anarquista, em Barcelona, quinta-feira, 31 de março e sexta-feira 1 de abril, no Antic Teatre.]

Aqui estamos, novamente pensando e conversando entre nós, assistindo a uma série de eventos que acontecem nesta cidade; a maioria não nos inclui, não têm nada a ver com o que somos. Shows comerciais e publicidade variados; compra, venda, repete, obedece.

Mas aqui somos nós mesmos e escapamos, se apenas por um tempo, de toda essa marabunta comercial que assalta-nos em cada esquina da cidade. Queremos sentar, desta vez sem pressa, e contar histórias que aconteceram ou que nunca irão acontecer; histórias que falam por si, ou histórias que deixam a porta aberta para a imaginação. Queremos conversar, encontrar cumplicidade, encontrar pessoas, ser, como nós gostamos de fazer, de forma anti-autoritária, combativa e criativa.

Nós ainda estamos fechando o programa, portanto, se você tem um filme, curto ou documentário, que gostaria de ver projetado no festival, nos avise! Estamos à procura de material que trate sobre os anarquistas e anarquismo, que tenha inspiração anarquista ou que fale sobre lutas anti-autoritárias ou que seja simplesmente anárquico.

Envie-nos uma sinopse do filme, registrando a duração e formato (VHS, DVD etc.) para: cineanarquistabcn@gmail.com

Mais infos: http://fcab.tk/

agência de notícias anarquistas-ana
apaga a luz
antes de amanhecer
um vagalume

Alice Ruiz

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A consciência, o único ‘capital’

A consciência, o único ‘capital’Maharaj freqüentemente aparece com a declaração de que a consciência seria o único ‘capital’ com o qual nasce um ser consciente. Isto, ele diz, é apenas a situação aparente. A situação real, contudo, é que o que nasce é a consciência, a qual necessita de um organismo para manifestar-se, e que este organismo é o corpo físico.
O que dá sensibilidade – capacidade para sentir sensações, para responder a estímulos – ao ser consciente? O que distingue uma pessoa que está viva daquela que está morta? Seria, certamente, o sentido de ser, o conhecimento de estar presente, consciência, o espírito vitalizador que anima a estrutura física do corpo.
É a consciência, sem dúvida, que se manifesta em formas individuais e dá a elas uma existência aparente. No ser humano, através de tal manifestação, surge o conceito de um eu separado. Em cada indivíduo, o Absoluto se reflete como Consciência, e, assim, a Consciência pura torna-se Consciência de si mesma, ou consciência.
O universo objetivo é um fluxo contínuo, constantemente projetando e dissolvendo inumeráveis formas. Sempre que uma forma é criada e a vida é infundida (Prana), a consciência (Chetana) surgirá, simultânea e automaticamente, pela reflexão da Consciência Absoluta na matéria. A consciência – isto deve ser claramente entendido –é um reflexo do Absoluto na superfície da matéria, produzindo um sentido de dualidade. Como diferente disto, a Consciência, o estado Absoluto, é sem início e fim, sem a necessidade de qualquer apoio a não ser ela mesma. A Consciência torna-se consciência apenas quando tem um objeto sobre o qual refletir-se. Entre a pura Consciência e a Consciência refletida como consciência, diz Maharaj, há um intervalo que a mente não pode cruzar. O reflexo do sol na gota de orvalho não é o sol!
A conciência manifesta é limitada pelo tempo, visto que desaparece logo que a estrutura física que habita chega ao fim. Todavia, de acordo com Maharaj, ela é o único ‘capital’ com o qual nasce um ser sensível. E a consciência manifesta, sendo sua única conexão com o Absoluto, torna-se o único instrumento pelo qual o ser sensível poderá esperar obter uma liberação ilusória do ‘indivíduo’ que acredita ser. Sendo um com sua consciência e tratando-a como seu Atma, seu Deus, ele poderá conquistar o que considera inacessível.
Qual a real substância desta consciência desperta? Obviamente, deve ser a matéria física, pois, na ausência da forma física, não poderá sobreviver. A consciência manifesta pode existir apenas enquanto sua residência, o corpo, for mantida sadia e em condição habitável. Embora a consciência seja um reflexo do Absoluto, ela é limitada pelo tempo e pode ser sustentada apenas pelo alimento material, incluindo os cinco elementos, o que o corpo físico é. A consciência reside em um corpo saudável e o abandona quando ele decai e está pronto para morrer. O reflexo do sol pode ser visto apenas em uma gota de orvalho limpa, não em uma enlameada.
Maharaj diz freqüentemente que nós podemos observar a natureza e funcionamento da consciência em nossa rotina diária de sono, sonho e vigília. No sono profundo, a consciência se retira para um estado de repouso, por assim dizer. Quando a consciência está ausente, não há nenhum sentido de existência ou presença de si mesmo, e menos ainda a existência do mundo e seus habitantes, ou de alguma idéia de escravidão ou liberação. Isto é assim porque o próprio conceito de “eu” está ausente. No estado de sonho, uma partícula de consciência começa a agitar-se – não se está ainda plenamente acordado – e então, em uma fração de segundo, naquela partícula de consciência, é criado um mundo inteiro de montanhas e vales, rios e lagos, cidades e vilas, com construções e pessoas de várias idades, incluindo o próprio sonhador. E, o que é mais importante, o sonhador não tem qualquer controle sobre o que as figuras sonhadas estão fazendo! Em outras palavras, um novo mundo vivo é criado em uma fração de segundo, fabricado como resultado da memória e da imaginação meramente por um simples movimento naquela partícula de consciência. Imagine, portanto, diz Maharaj, o extraordinário poder desta consciência, uma mera partícula que pode conter e projetar um universo inteiro. Quando o sonhador acorda, o mundo de sonhos e as figuras sonhadas desaparecem.
O que acontece quando o sono profundo e também o estado de sonho terminam, e a consciência aparece novamente? O sentimento imediato, então, é o da existência e presença, não de um ‘eu’, mas presença como tal. Logo, contudo, a mente assume e cria o ‘eu’ – conceito e consciência do corpo.
Maharaj diz-nos repetidamente que estamos tão acostumados a pensar de nós mesmos como corpos tendo consciência, que achamos muito difícil aceitar ou mesmo entender a situação real. Na realidade, é a consciência que manifesta a si mesma em inumeráveis corpos. É, portanto, essencial perceber que nascimento e morte são apenas o início e o fim de uma corrente de movimentos na consciência, os quais são interpretados como eventos no espaço e no tempo. Se pudéssemos entender isto, deveríamos também compreender que somos puro ser-Consciência-felicidade em nosso estado original imaculado, e, quando em contato com a consciência, somos apenas a testemunha dos (e totalmente separados) vários movimentos na consciência. Este é um fato evidente porque, obviamente, nós não podemos ser o que percebemos; o percebedor deve ser diferente do que ele percebe.

"Sinais do Absoluto"
Fonte: http://editoraadvaita.blogspot.com/

Tariq Ali: A alegria do Egito com a saída de Mubarak

Tariq Ali: A alegria do Egito com a saída de MubarakCom a partida de Mubarak, a idade da maturidade política está de volta ao Egito e ao mundo árabe. Uma noite alegre no Cairo. Que felicidade estar vivo, ser egípcio e árabe. Na Praça Tahrir estão a cantar: "O Egito está livre" e "Vencemos!"

Por Tariq Ali*

A saída de Mubarak (e a recuperação para o Tesouro Nacional do saque de U$40bi), sem quaisquer outras reformas, já seria sentida em toda a região e no Egito como um imenso triunfo político.

Novas forças entrarão em movimento. Uma nação que testemunhou o milagre da mobilização de multidões e a força do soerguimento da consciência popular, não será fácil de esmagar, como a Tunísia está provando.

A história árabe, apesar das aparências, não é estática. Logo após a vitória de Israel em 1967, que marcou a derrota do nacionalismo secular árabe, um dos nossos grandes poetas, Nizan Qabbani, escreveu:

Crianças árabes
Sementes em gestação do futuro
Vocês arrebentarão nossas correntes
Anularão o ópio em nossas cabeças
Matarão as ilusões.
Crianças árabes
Não leiam sobre nossa geração sufocada.
Somos um caso perdido,
Tão imprestáveis quanto a casca de uma melancia.
Não leiam sobre nós,
Não nos imitem,
Não nos aceitem,
Não aceitem nossas ideias,
Somos uma nação de patifes e trapaceiros.
Crianças árabes,
Chuva de primavera,
Sementes em gestação do futuro,
Vocês são a geração que superará a derrota.

Como ele ficaria feliz se pudesse ter visto sua profecia cumprida.

A nova onda de oposição em massa aconteceu em um momento quando não há partidos nacionalistas no mundo árabe e isso ditou as táticas: gigantescas assembléias em espaços simbólicos, impondo um desafio imediato à autoridade – como a dizer, estamos mostrando nossa força, não queremos testá-la porque não estamos organizados para isso, nem preparados.

Mas se vocês nos massacrarem, lembrem-se que o mundo todo está assistindo.

Essa dependência da opinião pública global é comovente, mas é também um sinal de fraqueza.

Tivessem Obama e o Pentágono ordenado que o exército egípcio esvaziasse a praça – não importa quão alto fosse o preço – os generais teriam obedecido às ordens, mas teria sido operação muito arriscada para eles, assim como para Obama.

Teria provocado uma ruptura entre o alto comando e os soldados e oficiais de baixa patente, muitos com suas famílias nas demonstrações e conscientes que a multidão estava do lado certo. Incitaria um levante revolucionário que nem Washington nem a Irmandade Muçulmana – o partido do cálculo frio – desejavam.

A demonstração da força popular foi suficiente para nos livrar do ditador.

Por sua conta, ele só sairia se os EUA decidissem tirá-lo do governo. Depois de muito vacilar, foi o que fizeram. Por não ter outra opção. Mas a vitória foi do povo egípcio, com sua inesgotável coragem e capacidade de suportar os sacrifícios.

E assim tudo terminou mal para Mubarak e seus cúmplices.

Há duas semanas atrás, o vice Suleiman fracassou ao liberar seus brutamontes na tentativa de retirar os manifestantes da praça: foi mais um prego no caixão.

A maré montante das massas egípcias, os trabalhadores entrando em greve e os juízes participando das demonstrações nas ruas, a ameaça de uma multidão nas praças ainda maior na próxima semana, tornaram impossível para Washington se aferrar a Mubarak e seus companheiros.

O homem a quem Hillary Clinton chamou de “amigo leal”, na verdade “fraterno”, foi despejado.

Omar Suleiman, amigo de longa data do Ocidente, foi escolhido como vice-presidente por Washington, e endossado pela União Européia, para supervisionar uma transição tranquila.

Suleiman foi sempre visto pelo povo como um torturador corrupto e brutal, um homem que não somente dá as ordens, mas participa do processo.

Um documento WikiLeaks revela a opinião elogiosa de um antigo embaixador americano sobre Suleiman: ele não é “melindroso”. Na terça-feira passada, o novo vice presidente advertiu a multidão que se não se desmobilizassem espontaneamente, o exército entraria em ação: um golpe talvez fosse a opção final.

Era, mas contra o ditador que eles apoiaram por 30 anos. O único modo de estabilizar o país. Não poderia haver outro caminho para a “normalidade”.

O mundo árabe retorna à idade da maturidade política. Seus povos estão cansados de serem colonizados e espezinhados.

Neste momento, a temperatura política cresce na Jordânia, na Argélia e no Iêmen.

* Tariq Ali é jornalista e escritor
Publicado originalmente no guardian.co.uk; traduzido por mhrrs

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Carta a um amigo tunisiano, por Antônio Negri

Carta a um amigo tunisiano, por Antônio Negri
Caro A.,

Realmente, quando há vinte anos você era meu aluno na Universidade de Paris 8 (Nanterre), não poderíamos imaginar que a revolução tunisiana tivesse características semelhantes e levantado problemas constitucionais
análogos àqueles da conturbação social e política no centro da Europa. À época, estudávamos juntos a expulsão da classe operária das minas de fosfato do sul tunisiano, o início de grandes ondas de migração interna e externa, e o lento processo de transformação que a terceirização da produção de tecidos coloridos europeus determinava em teu país. Tu te extenuavas em mostrar-me a potencialidade produtiva de teu país, além, anoto, da atividade têxtil ou da indústria do turismo ou dos serviços petrolíferos (que só mais tarde atingiram certa expansão). Tudo se encaminhou terrivelmente e com pressa. Vinte anos faz balbuciávamos sobre a globalização e hoje aí está, a ponto que a Tunísia se tornou uma província da Europa e, portanto, do mundo. Vinte anos faz, apenas começávamos a perceber a transformação do trabalho industrial ao imaterial/cognitivo e hoje a Tunísia conhece uma superabundância da última figura da força-trabalho.

E ainda, depois de vinte anos, assinalamos a transformação terrível que o neoliberalismo impôs sobre e através aquelas mudanças da figura do mercado e da natureza da força-trabalho: o fim do sistema salarial clássico, e com isso uma desocupação mortífera da massa e uma insustentável precarização — 35% da população jovem são força-trabalho cognitiva, mas só 10% trabalham; e mais, na Tunísia, se produziram e acumularam a destruição da primazia do Welfare [estado de bem-estar social], desigualdades regionais ferozes, efeitos desastrosos do processo migratório (concluídos ou interrompidos), o bloco dos investimentos externos etc.

No final, esses últimos vinte anos nos deram a consolidação de uma ditadura mafiosa, uma corrupção insustentável e um sistema repressivo cruel e torpe (torpe por secundar e legitimar pelo medo ocidental de uma ameaça islâmica, cruel porque foi pura e simplesmente dominação de classe, exploração e opressão dos poderes corruptos contra os trabalhadores e a gente honesta).

Que fazer, me perguntas, a hora veio em que o conhecimento da exploração é insurgente e o desejo de liberdade se rebela? A insurreição criou novas forças: como usá-la, como movê-la contra os velhos inimigos e contra os novos que rapidamente aparecerão?

Caro professor, me escreves, lembra quando ironizávamos sobre os iluministas que concorriam a prêmios com projetos sobre as novas Constituições da Córsega ou da Polônia ou ainda para a Carolina [estado dos EUA]? Por que então não discutimos (nessa vez sem rir) sobre os conteúdos de uma nova Constituição da Tunísia, não tanto porque aqui não haja quem seja capaz de fazê-lo bem, (embebido de reflexões solitárias sobre a conspiração, a cultura política política global que aqui em todo caso circula, — decerto mais do que na Itália — a angústia do tumulto e a glória da vitória) mas porque falar da Tunísia, dos novos direitos, das garantias a definir, é hoje também falar da Europa, caso algumas de suas regiões também se libertem dos despotismos atuais!

Meu amigo, companheiro A., não me convenceste [em redigir um projeto de constituição] — que ironia teus juízos não mais me vincularem como de hábito, estou convencido que não nos podemos substituir ao que os protagonistas fazem e propõem. É verdade, no entanto, que o teu problema é quase geral, que uma nova constituição da liberdade não é só um problema tunisiano mas de todos os homens livres. Enfio-te goela baixo então algumas reflexões, a fim de abrir uma discussão, um fórum em que muitos possam participar. Para começar, insisto sobre alguns pontos, que me parecem mais importantes do que outros, para qualificar qual coisa possa ser hoje uma democracia verdadeira — ou mesmo uma “democracia absoluta”, que já à época, faz vinte anos, tínhamos predileção.

1) Aos velhos poderes (legislativo, executivo, judiciário), que é necessário purgar e restaurar com vigor, debaixo de um contínuo e acrescido controle do poder legislativo, vamos incluir ao menos outros dois órgãos de governo democrático, um que aja no “setor midiático” e outro que aja sobre “bancos” e as “finanças”.

Em primeiro lugar, portanto, não é mais possível imaginar um regime democrático em que não haja a possibilidade de obrigar a informação, a comunicação e a construção da opinião pública a respeito da verdade, da liberdade, do valor da multidão. A importância extrema que tiveram as iniciativas na internet durante a insurreição será preservada como uma possibilidade contínua de exercício. Essas práticas serão sacadas da excepcionalidade e traduzidas num exercício de contínuo controle democrático. Mas não basta: as velhas mídias serão também pregadas a um controle social que as livrem de blocos impositivos do poder executivo e dos partidos políticos.

Assim, há um só modo de afirmar essa figura democrática: o direito de expressão é libertado do poder do dinheiro. A pluralidade da informação não pode representar o caminho para a sua capitalização, e vai garantida pela soberania popular a fimde multiplicar a discussão, o confronto de opiniões, as decisões. O direito de expressão não se assegura somente ao indivíduo, mas também se direciona ao exercício coletivo, excluindo toda pretensão capitalista de exploração e toda tentativa de assujeitá-lo. O direito de expressão se afirma como potência constituinte, aberta à legitimação do comum.

2) Os “bancos”, as “finanças”, foram transformadas durante o desenvolvimento do capitalismo em um poder à parte, controlado pelas elites industriais e políticas. No neoliberalismo ainda seu controle foi determinado e as finanças se tornaram totalmente independentes, fundando no nível global a legitimidade de sua intervenção. Na Tunísia, como tu diceste, na passagem à democracia está em jogo também uma progressão da forma de controle capitalista sobre a vida civil. O capital financeiro já está aparecendo de maneira mais agressiva. Na comunicação, enquanto a censura está definitivamente desaparecendo, novas formas de controle se apresentam.

O problema é por conseguinte aquele de bloquear esse processo, de transformar os bancos em serviço público, de modo que a alocação de fundos financeiros e a elaboração das políticas de investimento sejam decididas em comum. Os instrumentos das finanças devem colocar-se a serviço da multidão. É claro que isto implica a construção de poderes democráticos para os programas financeiros, coordenados às atividades legislativa e executiva, e logo poderes monetários expurgados daquela independência postiça e hipócrita do Banco central — que serve como instrumento do capital global. Este é um caminho difícil de percorrer.

Achamo-nos não só contra os banqueiros nacionais como também os interesses globais do capital. Mas é um caminho que se deve percorrer com grande determinação — prudentemente, mas com determinação. Assim, de fato, se lança uma pedra primeira para uma sublevação global contra o neoliberalismo e o capitalismo financeiro, uma sublevação mais madura!

O New York Times se deu conta imediatamente: “a small revolution” [uma pequena revolução], como aquela tunisiana, pode inflamar não só o norte da África, mas o mundo árabe como um todo. É preciso, por isso, ter em mente, ao abordá-la, que um autocrata pode fazer concessões (ao povo mas sobretudo aos bancos e às empresas multinacionais) mais facilmente do que poderia fazer um líder democrático porém fraco — como aquele que ao fim os tunisianos elegerão. Eis porque o prognóstico americano. Eis a consequência de nossa hipótese: não é possível hoje imaginar uma revolução democrática que não realize, antes de qualquer outra operação, uma nacionalização dos bancos, uma reapropriação dos lucros, ao que se deve seguir a instauração de um direito comum. Somente assim a potência da multidão pode constituir-se.

Ao fim da qual se faz essa agência financeira, democraticamente gerida, que pode propiciar um Welfare à população tunisiana, contra a precariedade, estabelecendo uma renda garantida, a possibilidade de uma educação completa e de uma assistência de saúde adequada a cada cidadão. Hoje não há liberdade que não passe pelo comum. Expressivamente a ditadura privatizou tudo o que na Tunísia podia fazê-lo — é preciso portanto retomá-lo.

Caro A, só sobre o comum e sobre a gestão comum depende agora o futuro de vossa geração e de vossos filhos. Certo, o desastre que herdaste não se cancela de um golpe só — assim que as nuvens que seguem a insurreição se dissipem, serão [o comum e a gestão comum] a prioridade ao redor da qual se concentrar e decidir. Mas o dispositivo de um governo constituinte não pode senão proteger o comum. Não largar a proposta do comum (esta é também a tua preocupação, companheiro A.) aos islâmicos. É sobre uma falsa propaganda do comum que desenvolve a atividade deles.

3) O terceiro ponto se refere à forma de governo. Como tu dizes, a revolta tunisiana foi social, nasceu da inteira sociedade que trabalha. Ben Ali tinha compreendido bem que não podia, acima de tudo, permitir à revolta social expressar-se politicamente e cada político sabia que nessa desocupação da juventude estava a bomba relógio pronta a explodir. Por quê?

A juventude — força-trabalho cognitiva — é hoje a verdadeira classe trabalhadora do pós-industrial. Porque é força-trabalho cognitiva, esta juventude não é impotente; antes, tem os meios de superar essa frustração que tem paralisado os estamentos mais pobres e antigos da população. A cultura da impotência foi quebrada com a força das ruas da Tunísia.

Então, essa juventude deve manter aberto o processo revolucionário, transformando a insurreição na máquina de governo constituinte. Não pode deixar nas mãos das velhas elites (nem socialistas nem democráticas nem islâmicas) as transformações da constituição do país. De outro lado, os tunisianos tem menos necessidade hoje de uma nova constituição do que de um processo constituinte alargado ao país inteiro — inclusive as forças armadas, os juízes, a universidade. O poder legislativo e a governança necessárias para repor em movimento o país devem ser diretamente exercitados pelos jovens e pelos grupos revolucionários, organizados em todos os lugares e nos quais seja possível e urgente.

Mas tudo isso se pode fazer se puder evitar, pelo maior tempo possível (segundo aqueles projetos iluministas de constituição democrática do qual falávamos, esse tempo não podia ser inferior a uma década), a fixação de formas de representação estável. A agilidade do poder global, de seus bancos, de suas instituições centrais, é verdadeiramente grande: não terão dificuldade, esses senhores, de achar (e pagar) alguns socialistas ou alguns islâmicos para determinar o equilíbrio a favor deles! A insurreição foi ágil e deve achar tanta agilidade quanto ao mover-se contra o poder global e sua emanação mediterrânea, que já estão se concentrando contra o perigo extremo da insurreição tunisiana e sua expansão ao Magreb [norte da África]. Recordamos (não era a propósito a sua preocupação, companheiro A.?): se não construirmos comitês de ação constituinte, serão os islâmicos que, radicais ou moderados, retomarão a política nas mesquitas. Entretanto, mais será a política democrática e constituinte, quanto mais for laica…

Tchau, continuemos a trocar informações. Respiram-se ares novos e, em algum tempo, por todo lugar. Esperando pela Argélia!

Toni Negri.
P.S.: Se abres os jornais econômicos ocidentais, estão aqueles que, à direita, primeiro de tudo conversam sobre a queda dos títulos da dívida soberana tunisiana, da parte das agências de cálculo. A [agência de consultoria financeira] Moody´s já depreciou o título da dívida soberana tunisiana e mudou a avaliação de estável à negativa. Sobre o mesmo argumento, à esquerda, lamenta-se essa decisão porque, ao contrário, insiste-se sobre o fato que também a insurreição é… produtiva. O fim da dominação mafiosa sobre a indústria tunisiana deveria permitir uma retomada do crescimento. Mas de qual crescimento? Da pobreza, da precariedade?

Quanto à etiqueta política, à direita se multiplicam as ameaças. Atenção, cidadãos tunisianos, porque se exagerais, o exército está já a postos para a repressão. Exatamente o mesmo exército que vos ajudou a libertar-se de Ben Ali — continuam os comentadores da direita. Não aumentais o medo do vazio. Mas à esquerda, exaurido um primeiro momento de alegria, que coisa se pede agora? A hora que Ben Alì se foi, o país saberá reconstruir o seu aparato de Estado e conduzir uma transição pacífica para a Democracia? Só isto pede a esquerda?

Na realidade, de um lado e do outro, a preocupação é tão grande quanto a surpresa. Tornar-se-á a transição da Tunísia à democracia um exemplo, um laboratório, para todo o mundo muçulmano? Mas se é só isso que se quer, é realmente pouco novo; antes, é realmente velho: é simplesmente um novo colonialismo.

Caro A., não nos assustamos em pensar uma nova constituição, um novo processo constituinte, novos instrumentos da potência democrática dos cidadãos. No Magreb, na Argélia, na Tunísia e mais ainda no Egito, se está num momento de grande e profundo desenvolvimento de uma democracia construída de baixo. Contrariemos a pequeneza repressiva dos comentadores americanos e europeus.

P.P.S. Releio esta minha carta antes de mandá-la, estamos em 28 de janeiro, o Egito queima.

Antônio Negri, filósofo político e militante da Universidade Nômade, uma das lideranças do Operaísmo italiano e do movimento Autonomista nos anos 1960 e 1970 na Itália, é autor, dentre outros, de Império, Multidão, Poder Constituinte, Anomalia Selvagem e Cinco Lições sobre o Império, todos com tradução em português.
Fonte: http://www.outraspalavras.net

Manifestantes celebram queda de Mubarak em Londres

Manifestantes celebram queda de Mubarak em LondresCenas de júbilo na bi-centenária praça Trafalgar em Londres mimetizam o carnaval popular visto no Egito na noite de sexta-feira, depois da deposição do ditator. Segundo os organizadores, outras 33 cidades do mundo abrigaram manifestações como essa em Londres. O evento foi filmado e deve virar um DVD a ser enviado para o Egito. "Que felicidade de se estar vivo, ser um egípcio e um árabe. Na praça Tahrir eles estão cantando 'O Egito está livre' e 'Nós vencemos'” , comemora Tariq Ali.

Wilson Sobrinho - Correspondente da Carta Maior em Londres
LONDRES - A maior rebelião popular testemunhada em gerações foi celebrada em Londres nesse sábado por milhares de manifestantes que simbolicamente reduziram a metros os 3,5 mil quilômetros que separam a praça Trafalgar, no coração da capital inglesa, e a praça Tahrir, o epicentro do terremoto político que atraiu todas atenções do planeta pelas últimas três semanas.

Organizada desde antes da deposição do ditador Hosni Mubarak como um protesto em apoio à tentativa do povo egípcio de expurgá-lo do poder, a manifestação acabou por mimetizar as cenas de celebração vistas nas ruas egípcias e o carnaval popular que se seguiu ao anúncio de que Mubarak havia se dado por vencido após dezoito dias de intensa pressão popular e trinta anos à frente do governo.

Quando o relógio indicou meio-dia, hora programada para o início das atividades, não mais que três centenas de ativistas haviam chegado. Clarões imensos na praça eram preenchidos por turistas alheios ao evento organizado pela Anistia Internacional. A pergunta inevitável era “haveriam os militantes e simpatizantes sido desmobilizados pela queda de Mubarak?” Salil Shetty, secretário geral da Anistia, chegou até mesmo a verbalizar publicamente a preocupação no palco montado na praça.

Porém, portando cartazes consertados de improviso para adaptar protesto em celebração, os ativistas foram chegando aos poucos. Uma criança de aproximadamente quatro anos, curiosa com a movimentação, perguntava para sua mãe qual o motivo da alegria. “É que eles acabaram de se livrar do líder malvado que tinha no país deles”, respondeu a mãe, tentando recolocar o calçado no pé da filha que ainda se divertia com os cada vez mais raros espaços livres na praça.

A explicação era plenamente satisfatória para uma criança, mas estava longe de descrever o internacionalismo e a diversidade da manifestação. O que se viu na manhã deste sábado no centro de Londres foi uma miríade de demandas, de grupos políticos e da sociedade civil. De ONGs a partidos trotskistas; de sindicados de classe a grupos demandando a independência de Burma; de movimentos feministas do Irã a membros ingleses da coalizão pacifista contra guerra. Muitos árabes de diferentes nacionalidades, mas muitos ingleses também.

Shetty foi o primeiro a se pronunciar. “Eu fui perguntado se isso era um protesto ou uma festa”, disse, fazendo uma breve pausa. “São ambos”, concluiu, lembrando que a queda do ditador é apenas o primeiro passo para a construção da democracia no Egito. “Agora vemos possibilidades de um novo Egito, não apenas para muçulmanos, mas para cristãos e outras religiões”, comemorou o secretário da Anistia antes de pedir um minuto de silêncio em homenagem aos mortos, feridos e desaparecidos da revolução.

Por aproximadamente uma hora uma dezena de sindicalistas, ativistas e líderes de movimentos sociais intercalaram-se no palco. Onde quer que os discursos usassem a palavra Palestina, gritos e palmas seguiam-se. De outro lado, as maiores vaias e gritos de desaprovação vieram nas duas vezes em que o nome do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair foi mencionado ao microfone.

Os discursos eram intercalados com vídeos de depoimentos de pessoas ao redor do mundo declarando apoio e solidariedade à luta do povo egípcio. Uma dessas gravações, capturada em Londres, possivelmente na semana passada em uma manifestação que reuniu algumas centenas de pessoas em uma passeata até a embaixada egípcia, trazia um senhor de aproximadamente 50 anos falando sobre como ele estava confiante no “nascer de um novo país”. Repentinamente ele embarga a voz e perde o controle e passa a chorar. No momento seguinte, uma senhora da mesma idade sai aos prantos e correndo do meio da multidão, amparada por alguém que parece ser sua filha.

No palco, os discursos seguiam. “Estamos aqui em solidariedade ao povo da Algéria, do Iêmen, da Palestina, que ainda estão lutando por justiça, por paz”, disse o representante do sindicato nacional dos jornalistas. “Como jornalista fui ensinado a ser imparcial. Mas eu também fui ensinado que nenhum jornalista precisa ser imparcial quando se trata de liberdade de expressão e justiça”, argumentou Peter Murray.

De tempos em tempos, gritos em árabe eclodiam em meio a massa. Especialmente quando árabes estavam no palco, como a ativista Amira Ben-Gacem, da Tunísia. “Estamos pedindo o básico: liberdade e democracia. E Tunísia e Egito, hoje, estão começando a democracia do marco-zero. Temos a habilidade necessária, temos as pessoas, temos a educação, podemos chegar lá. Temos todos os recursos necessários”, disse ela, prevendo que em uma década os países árabes provarão ao mundo que podem ser livres e democráticos.

Quase ao final do evento, quando boa parte das pessoas começava a dispersar, tendo Bob Marley como trilha sonora, uma família egípcia, enrolada em bandeiras do país, atraía a atenção dos fotógrafos. Abraçados, eles sorriam e celebravam em um nível que, por mais internacionalista que a manifestação fosse, poucos ali poderiam compartihar e compreender completamente.

As cenas de júbilo na bi-centenária praça inglesa agregam ao “currículo” desse espaço popular que foi palco do nascimento do movimento operário inglês nas últimas décadas do século XIX; onde o povo britânico celebrou a vitória sobre o fascismo e o nazismo na Segunda Guerra mundial; por onde desfilou o movimento pacifista dos anos 1960; onde milhares reuniram-se para pedir soluções pacíficas para os conflitos no Iraque e no Afeganistão.

Segundo os organizadores, outras 33 cidades do mundo abrigaram manifestações como essa em Londres. O evento foi filmado e deve virar um DVD a ser enviado para o Egito.

Reação oficial
A poucos metros de Trafalgar, ainda na sexta-feira, o primeiro-ministro britânico David Cameron reagiu ao anúncio do fim do regime de Mubarak com um pronunciamento fleumático que durou menos de um minuto. Cameron disse tratar-se de uma “preciosa oportunidade” para o país norte-africano caminhar rumo a um regime democrático de “governo civil” e destacou a postura “brava e pacífica” do povo egípcio.

“Como um [país] amigo do Egito, iremos ajudar de todas as maneiras que pudermos”, declarou o líder conservador, à porta da residência oficial, aproximadamente 90 minutos depois do anúncio da renúncia de Mubarak. O líder de oposição Ed Milliband, do Partido Trabalhista, também parabénizou a “vitória alcançada” pelo povo egípcio.

Bem mais contundente foi a reação do historiador, ativista e escritor britânico Tariq Ali. Há uma semana ele enfrentava uma fria tarde londrina na caminhada-protesto entre a embaixada americana e a egípcia e vociferava contra os governos ocidentais que “há 30 anos suportam esse regime”.

Menos de 20 minutos após o anúncio da queda do governo em Caio, um artigo de Ali aparecia na capa da edição online do diário The Guardian. “Uma noite de alegria no Cairo”, lia-se na primeira frase. “Que felicidade de se estar vivo, ser um egípcio e um árabe. Na praça Tahrir eles estão cantando 'O Egito está livre' e 'Nós vencemos'” , escreveu Ali, ativista desde os anos 1960.

Ali sustenta no artigo que a queda do regime apenas aconteceu em função de uma fratura na hierarquia militar, com membros de patentes mais baixas ficando ao lado dos manifestantes, impedindo ordens superiores de usar força para esvaziar a praça Tahrir. “A era da razão na política está retornando ao mundo árabe. O povo está cansado de ser colonizado e oprimido”.

E, assim como as bandeiras que coloriam a praça repetindo que muita coisa ainda está por vir, ele lembrou da Jordânia, da Algéria, do Iêmen.

Wilson Sobrinho é jornalista e correspondente da Carta Maior em Londres
Fonte: Carta Maior

Egito livre – a semente de um futuro melhor – por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Egito livre! Uma vitória de um povo!

Mubarak tem a cadeira e o povo egípcio o poder! Por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

“Todos somos Khaled Said”: juventude lidera revolução - por Amy Goodman

“Todos somos Khaled Said”: juventude lidera revoluçãoO setor da população egípcia composto por uma pujante juventude é o que está liderando a revolução. O Movimento Juvenil 6 de abril formou-se no ano passado em apoio aos trabalhadores têxteis em greve na cidade egípcia de Mahalla. Uma das fundadoras do movimento, Asmaa Mahfouz, que acaba de completar 26 anos, publicou um vídeo no Facebook no dia 18 de janeiro, dias depois de a revolução tunisiana ter derrubado o ditador do país. Asmaa disse: “Estou fazendo este vídeo para lhes dar uma simples mensagem. Queremos ir à Praça Tahrir dia 25 de janeiro. Iremos ali para exigir nossos direitos humanos fundamentais.

“Em homenagem a Christoph Probst, Hans Scholl e Sophie Scholl”, diz um cartaz na parte superior do muito visitado blog do dissidente egípcio Kareem Amer. E continua: “Decapitados no dia 22 de fevereiro de 1943 por terem se atrevido a dizer não a Hitler e sim à liberdade e à justiça para todos”. O cartaz do jovem blogueiro recorda o valente grupo de ativistas antinazista que se autodenominaram Rosa Branca. Este grupo redigiu e distribuiu secretamente seis panfletos denunciando as atrocidades nazistas. Em um deles declararam: “Não nos calaremos”. Sophie e seu irmão Hans Scholl foram capturados pelos nazistas, julgados, condenados e decapitados.

Kareem Amer, que esteve quatro anos preso no Egito por escrever em seu blog, desapareceu das ruas do Cairo após abandonar a Praça Tahrir com um amigo, segundo o site cyberdissidentes.org. O grupo supõe que Amer encontre-se agora entre as centenas de jornalistas e ativistas de direitos humanos detidos pelo regime do ditador egípcio Hosni Mubarak, e acaba de lançar uma campanha para exigir sua liberação.

Kareem Amer desapareceu um pouco antes de Wael Ghonim ter sido libertado. Ghonim é um executivo do Google de 30 anos de idade que ajudou a administrar a página do Facebook que teve um papel decisivo na organização dos protestos de 25 de janeiro no Egito. A página se chama “Todos somos Khaled Said” em homenagem a um jovem assassinado pela polícia em Alexandria em junho de 2010. Uma foto do cadáver de Khaled Said apareceu na Internet. Tinha sinais de golpes brutais na face. Ghonim viajou ao Egito para participar dos protestos, foi preso de forma secreta pelo governo egípcio durante 12 dias. O canal de televisão Dream 2 entrevistou-o após sua libertação. Na entrevista, Ghonim desmoronou e rompeu em pranto quando viu as fotos de muitos dos que foram assassinados nos protestos. “Estamos lutando por nossos direitos e por nosso país. Não sou um herói. Estava somente utilizando o teclado e a internet. Nunca coloquei minha vida em perigo. Os verdadeiros heróis são os que estão aí fora”.

A libertação de Ghonim fez com que a multidão que exige o fim do regime de 30 anos de Mubarak na Praça Tahrir aumentasse. Tahrir, que significa “libertação” em árabe, é o corpo e a alma do movimento democrático no Egito, mas não é o único lugar onde se reúne gente corajosa contrária ao regime. Enquanto escrevo esta coluna, está se instalando um novo acampamento em frente ao Parlamento egípcio e seis mil trabalhadores estão em greve no Canal de Suez. Enquanto a consolidada ditadura afirmava estar fazendo concessões, suas tropas de choque desatavam uma onda de violência, intimidação, prisões e assassinatos.

O setor da população egípcia composto por uma pujante juventude é o que está liderando a revolução. O Movimento Juvenil 6 de abril formou-se no ano passado em apoio aos trabalhadores têxteis em greve na cidade egípcia de Mahalla. Uma das fundadoras do movimento, Asmaa Mahfouz, que acaba de completar 26 anos, publicou um vídeo no Facebook no dia 18 de janeiro, dias depois de a revolução tunisiana ter derrubado o ditador do país.

Asmaa disse: “Estou fazendo este vídeo para lhes dar uma simples mensagem. Queremos ir à Praça Tahrir dia 25 de janeiro. Iremos ali para exigir nossos direitos humanos fundamentais. Simplesmente queremos nossos direitos humanos e nada mais. Eu irei à praça no dia 25 de janeiro e distribuirei panfletos nas ruas. Não vou me autoimolar. Se as forças de segurança quiserem me tocar fogo, que venham e o façam. Se te considera um homem, vem comigo no dia 25 de janeiro”.

Sua convocação para a ação foi outra chispa. Desde a internet, as pessoas começaram a se organizar nos bairros, superando a barreira digital com panfletos impressos e boca a boca. Em 25 de janeiro, primeiro dia épico do protesto, Asmaa Mahfouz publicou outra mensagem em vídeo: “O que aprendemos ontem é que somos nós que temos o poder, não os capangas armados. O poder está na unidade e não na divisão. Ontem vivemos os melhores momentos de nossas vidas”.

Na primeira semana de protestos se quebrou o que muitos denominam “a barreira do medo”. Desde o dia 28 de janeiro, quando começou a violenta ofensiva do governo, segundo a Human Rights Watch, pelo menos 302 pessoas foram assassinadas no Cairo, Alexandria e Suez.

O presidente Obama continua insistindo em que os EUA não podem escolher o líder do Egito e que cabe ao povo egípcio fazê-lo. É verdade. Mas o governo de Obama continua garantindo ajuda econômica e militar ao regime de Mubarak. O selo “Made in USA” estampado nas latas de gases lacrimogêneos utilizadas contra os manifestantes na Praça Tahrir enfureceu o povo que lá estava. Nos últimos trinta anos, os EUA gastarão bilhões de dólares para apoiar o regime de Mubarak. É preciso deter agora mesmo o fluxo de dinheiro e de armas.

Tradução: Katarina Peixoto
Fonte: Carta Maior

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

EUA tentam cooptar Brasil para sua disputa estratégica com a China - por Durval de Noronha Goyos

EUA tentam cooptar Brasil para sua disputa estratégica com a China - por Durval de Noronha Goyos Orientado pela típica desfaçatez da política externa dos Estados Unidos da América, visitou o Brasil na semana do dia 7 de fevereiro de 2011, o secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner, em missão preparatória da visita de Estado do presidente Barack Obama, marcada para março próximo, para dizer às autoridades brasileiras que “o yuan desvalorizado é um problema maior para o Brasil do que para o seu país”.

Ora, a China acumulou com os EUA um superávit comercial de 181 bilhões de dólares em 2010, enquanto, com o Brasil, a China apresentou, ao contrário, um déficit comercial de aproximadamente 7 bilhões dólares no mesmo ano. De resto, a China é o maior investidor estrangeiro no Brasil. Para aqueles preocupados com a prevalência da ética nas relações internacionais, pergunta-se como é possível honestamente equiparar as duas situações.

A resposta certa, clara e segura é no sentido de que os EUA tradicionalmente não se pautam nem pela ética nem pelo direito nas suas relações externas. Pautam-se, como registra a História, única e exclusivamente pelo que é percebido como seu interesse nacional nas áreas econômica, financeira e militar. Para a consecução de seus objetivos, valem-se de todos os meios, sem restrições.

Freqüentemente, a formatação da política externa americana é feita com uma lógica maniqueística: o bem contra o mal. O bem é representado, é claro, sempre pelos seus próprios interesses diversos. Assim, como ao povo americano é difícil de criticar as falhas de gestão macroeconômica do país como a responsável pela formidável crise que aflige os EUA, mais conveniente é apresentar a China como a culpada. O racismo ajuda a aceitação do sofisma estigmatizante.

Na realidade, a crise americana é devida a inúmeros fatores de ordem interna dentre os quais desponta a doutrina do neoliberalismo e o desmesurado apetite rapace pelo lucro fácil, a qualquer custo institucional. Produtores americanos transferiram sua capacidade industrial para a China, na busca de ganhos mais amplos, e o povo foi incentivado a adquiri-los a crédito.

Para combater a perda de competitividade, sucessivos governos americanos têm recorrido a ações artificiais. Nos últimos tempos, os governos estadunidenses têm procurado desvalorizar artificialmente o dólar americano para alavancar a competitividade dos produtos domésticos. A manobra funcionou contra o Brasil, grande vítima histórica da ação predatória dos EUA, como demonstra o grande déficit acumulado.

Contudo, como a China atrelou sua moeda ao dólar, a cada desvalorização artificial deste, segue-se uma do Yuan. Assim, o problema causal do desequilíbrio cambial está na política monetária irresponsável do Tesouro americano e não na China. De mais a mais, o Brasil na defesa de sua moeda é forçado a acumular reservas de uma moeda podre, o dólar americano. Perde-se o comércio real em troca de lixo financeiro.

Dessa maneira, resta claro que o governo brasileiro deve resistir à ofensiva americana, por maior que seja o charme diplomático em que venha revestida, de antagonizar a China. O Brasil dispensa a ajuda de qualquer país para tratar de questões de interesse bilateral com o país asiático. As eventuais diferenças bilaterais devem ser tratadas entre apenas os dois países, com uma agenda positiva de negociações.

Por sua vez, o governo brasileiro deve instar, com energia, ao governo dos EUA a ter uma política macroeconômica responsável, a se abster de desvalorizações artificiais de sua moeda, bem como a eliminar as barreiras tarifárias e não tarifárias incidentes sobre os produtos brasileiros, de modo a diminuir, se não eliminar, o monstruoso déficit comercial do Brasil com aquele país.

Durval de Noronha Goyos Jr. é advogado admitido no Brasil, em Portugal e na Inglaterra e Gales. É árbitro do Brasil na OMC (Organização Mundial do Comércio), e professor de direito do comércio internacional na pós-graduação da Universidade Cândido Mendes (RJ).
Fonte: Opera Mundi

[Reino Unido] Sobre a polícia infiltrada em Cardiff - por ANA

[Reino Unido] Sobre a polícia infiltrada em Cardiff - por ANA[Esta é a nossa resposta à descoberta de que Mark Jacobs havia se infiltrado em nosso grupo, durante quatro anos.]

Por quatro anos, um policial à paisana que conhecíamos como "Marco" se infiltrou na Rede Anarquista Cardiff (Cardiff Anarchist Network - CAN). Durante esse tempo, acreditamos que tinha uma série de objetivos: coleta de informações e interrupção das atividades da CAN; a utilização da reputação e da confiança adquirida com a CAN para infiltrar-se em outros grupos, incluindo uma rede européia de ativistas e parar o funcionamento coerente da CAN. Para 2009, as suspeitas haviam acumulado, mas Marco tinha cuidado de forma tão eficaz as relações e a confiança dentro do grupo, que nossas suspeitas não foram devidamente compartilhadas e expressas. No Outono de 2009, ele organizou um jantar de "despedida" para o grupo, e anunciou que estava indo para um trabalho em Corfu, na Grécia. Depois de sua saída, chegaram suas mensagens e postais por algumas semanas, mas logo cessaram, sem explicação alguma. Seu número de telefone móvel britânico não foi mais localizado e o número do telefone grego que estava utilizando foi restringido; as chamadas e mensagens nunca foram entregues. Suas páginas em redes sociais pararam de ser atualizadas. As suspeitas cristalizaram-se, mas ele já havia desaparecido.

As pessoas associadas com a CAN e outros grupos que fizeram parte em Cardiff, como “No Borders” e “Gwent Anarchists”, tentaram divulgar nos círculos de ativistas que o homem que era conhecido como “Marco” era um policial disfarçado. Porém, sem uma prova definitiva, advertiram-nos a não fazer acusações infundadas.

Foi quando surgiram notícias sobre Mark Kennedy e Watson Lynn (outros dois policiais infiltrados descobertos no mês passado), parecendo uma oportunidade para estabelecer a verdade. Seguindo o nosso exemplo, em 14 de janeiro de 2011, o The Guardian obteve a confirmação de que ele era um policial na ativa. Não sabemos exatamente como isso foi feito, mas acreditamos que a confirmação veio diretamente da ACPO, a Associação dos Delegados de Polícia. Não estávamos confortáveis confiando nos meios de comunicação desta forma, mas todas as nossas tentativas anteriores de estabelecer com sucesso quem ele era havia terminado em nada.

Marco trabalhou em nós (não conosco) por quatro anos. Desenvolveu fortes relações pessoais e alguns de nós sentimos uma enorme traição pessoal. Mas também se propôs, deliberada e sistematicamente, a prejudicar o movimento, e acreditamos que é importante o que saiba do que fez e como fez isso seja compartilhado e discutido o mais amplamente possível.

Possivelmente, uma das coisas mais prejudiciais que fez foi usar as credenciais da CAN para se infiltrar na Rede de Dissidência contra o G8 na Europa. A CAN tem participado ativamente da Rede e no planejamento de bloqueios em massa no G8 em Stirling, em 2005, e alguns membros da CAN estavam dispostos a contribuir para uma rede européia mais ampla. No entanto, CAN era um grupo pequeno, e muito poucos de nós têm tempo e dinheiro para viajar para as reuniões internacionais. Marco, é claro, o tinha, então foi fácil para ele dar um passo adiante e participar. Pelo menos em uma ocasião, ele participou das reuniões européias de planejamento, junto a Mark Kennedy. É provável que suas atividades prejudicaram seriamente a organização do protesto contra o G8 na Alemanha, em 2007.

Cabe destacar que nenhum dos três policiais à paisana foi ao G-8 na Rússia. Marco estava prestes a assistir, mas desistiu na última hora - presumivelmente incapaz de obter o acordo do governo russo ou autorização para agir sem seu conhecimento.

Como Mark Kennedy, Marco também sabotou a ação direta ambientalista. Em 2007, após conseguir ser incluído no processo de planejamento de uma ação contra o terminal de oleoduto LNG (Gás Natural Liquefeito), em Milford Haven, a oeste no País de Gales, teve a oportunidade de passar informações para a polícia local, que resultou na detenção de vários ativistas. Todos os processos penais caíram na última instância, mas não antes que a polícia houvesse invadido as casas, até mesmo a de Marcos, onde obtiveram os computadores, no que parece ter sido uma entrega de "pesca massiva".

No entanto, Marco passou a maior parte do seu tempo infiltrando-se em todas as atividades normais de um grupo político (reuniões, exibições de filmes, encontros e eventos destinados a provocar discussão e o debate sobre a política radical). Acreditamos que pelo menos em um caso (a projeção de um filme dos direitos dos animais com uma conversa de acompanhamento) organizou um evento apenas para coletar informações sobre as pessoas que assistiriam. Ele também estava interessado em participar de projetos em que havia cooperação de outros grupos, como a campanha contra a privatização da formação militar e na construção de uma nova academia de defesa da RAF em St Athan. Olhando para trás agora podemos ver que ele foi cuidadoso, mas sempre prejudicial. Apesar de sua clara capacidade, sempre que algo - contatos de construção, promoção, transporte - dependiam inteiramente dele, acabava em nada.

Danificar a estrutura da CAN foi sem dúvida um objetivo fundamental. Ele mudou a cultura da organização, promovendo uma grande quantidade de bebida, fofocas e traições, e banalizado e criticando qualquer tentativa por parte de qualquer pessoa do grupo para atingir os objetivos. Era evidente seu objetivo de separar e isolar certas pessoas no grupo e de outros, e sutilmente exagerava as diferenças políticas e pessoais, contando mentiras para os dois "lados", para criar desconfiança e animosidade. Nos quatro anos que esteve em Cardiff, um grupo forte, coeso e ativo quase se desintegrou. Marco se foi, após as reuniões anarquistas na cidade pararem de acontecer.

Lendo isso, você saberá por que diabo demorou tanto tempo para pegá-lo, e porque não fomos mais céticos e menos confiantes. Marco obviamente não tinha a vida exposta fora do ativismo. Nunca conhecemos sua família ou colegas que supostamente compartilham sua paixão pela música rock, embora às vezes dissesse ir a shows fora da cidade. Disse-nos que não tinha mulher nem filhos. Sua casa era bastante espartana e seu trabalho como motorista de caminhão também permitiu uma desculpa para se ausentar-se por longos períodos, sem levantar suspeitas. Além disso, apesar do desejo expresso de estar "onde estava a ação", foi muito relutante em sujar as mãos, sendo uma parte ativa na ação direta ou no confronto com a polícia. Todas essas coisas juntas deveriam ter sido suficiente para pelo menos fazermos perguntas.

Talvez tenhamos sido um pouco ingênuos, especialmente considerando que não éramos suficientemente importantes para sermos infiltrados. E o homem que conhecíamos como Marco foi muito bom em desviar suspeitas. Era agradável, um apoio pessoal, divertido e muito útil para ter por perto. Foi, como Mark Kennedy, um condutor. Levou algum tempo escrevendo, editando e distribuindo boletins informativos, fez banners e foi às reuniões chatas para não incomodar ninguém a ir. Foi capaz de explorar as vulnerabilidades das pessoas se aproximando delas, para não fazê-las se sentirem isoladas e excluídas. Foi um grande manipulador.

Todos que se relacionaram com Mark Jacobs estão sofrendo com ressentimento, raiva e culpa. Nossa incapacidade de ver através de sua farsa tem causado grandes danos às pessoas, tanto aqui em Cardiff como em toda a Europa. Estamos conscientes de que Marco não foi o único policial atuando, e que a culpa, especialmente a nível europeu, não é toda nossa. Mas, ainda assim, por nossa parte, sentimos uma responsabilidade coletiva e um sensação de fracasso.

Dito tudo isso, temos de olhar em frente e é importante aprender as lições certas do que aconteceu. Acreditamos que é importante que o movimento não sucumba à paranóia e desconfiança. Marco tem trabalhado duro para semear a desconfiança, desgostos e suspeitas entre nós e deixá-lo fazer isso talvez tenha sido o nosso maior erro.

Acreditamos também que é errado nos pintar como impotentes em uma situação como esta, ou procurar a simpatia da mídia como vítimas de um Estado injusto e poderoso. Nós vemos como isso pode ser tentador, por razões de propaganda, ou para ganhar o apoio de líderes políticos e da imprensa liberal, mas é basicamente um ato de desempoderamento. As ações da polícia e do Estado do Reino Unido, neste caso, são nojentas, mas não surpreendentes. Nós, como grupo e como um movimento, fomos infiltrados e atacados porque temos, e incentivamos os outros a ter, a ação militante contra uma série de injustiças colossais. Em suma, adotamos uma postura decidida contra o que consideramos errado, e a cada vez, mostrou-se correta. Na guerra abominável no Iraque, o corrupto e imoral comércio de armas, as injustiças impostas em nosso nome pelo G8 e os escândalos de mudanças climáticas antrópicas, mantivemos a retidão de nossas ações. Rejeitamos a autoridade do Estado para nos dizer como, quando e onde fazer a nossa resistência, e incentivamos a ampliar a luta e a dissidência. Vieram até nós porque somos fortes, não porque somos fracos.

Rede Anarquista de Cardiff

http://southwalesanarchists.wordpress.com/

agência de notícias anarquistas-ana
Choveu há pouco –
O sol baixa das nuvens
Finas cortinas de névoa.

Paulo Franchetti

Catapultando o lixo do Egito – por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

Washington e as revoltas árabes: Sacrificar ditadores para salvar o estado - por James Petras

Washington e as revoltas árabes: Sacrificar ditadores para salvar o estado - por James Petras O ponto essencial é que Washington, após várias de décadas de profundo envolvimento nas estruturas de estado das ditaduras árabes, desde a Tunísia até o Marrocos, Egipto, Iémen, Líbano, Arábia Saudita e Autoridade Palestina, está a tentar reorientar as suas políticas para incorporar e/ou enxertar políticos liberais-eleitorais nas configurações de poder existentes.

Enquanto a maior parte dos comentadores e jornalistas despejam toneladas de tinta acerca dos "dilemas" da potência estado-unidense, com a novidade dos acontecimentos egípcios e dos pronunciamentos políticos diários de Washington, há amplos precedentes históricos que são essenciais para entender a direcção estratégica das políticas de Obama

Antecedentes históricos
A política externa dos EUA tem um longo historial de instalação, financiamento, armamento e apoio a regimes ditatoriais os quais suportam suas políticas e interesses imperiais ao mesmo tempo que mantêm controle sobre o seu povo.

No passado, presidentes republicanos e democratas trabalharam em estreito contacto durante mais de 30 anos com a ditadura Trujillo na República Dominicana; instalaram o autocrático regime Diem no Vietname pré-revolucionário na década de 1950; colaboraram com duas gerações da família Somoza em regimes de terror na Nicarágua; financiaram e promoveram os golpes militares em Cuba de 1953, no Brasil em 1964, no Chile em 1973 e na Argetina em 1976 e os subsequentes regimes repressivos. Quando levantamentos populares desafiaram estas ditaduras apoiadas pelos EUA e uma revolução social e política parecia provável ter êxito, Washington respondeu com uma política de três caminhos: publicamente a criticar as violações de direitos humanos e a advogar reformas democráticas; privadamente a assinalar a continuidade de apoio ao governante; e em terceiro lugar, a procurar uma alternativa de elite que pudesse substituir o dirigente e preservar o aparelho de estado, o sistema económico e apoiar os interesses imperiais estratégicos dos EUA.

Para os EUA não há relacionamentos estratégicos, apenas interesses imperiais permanentes, a preservação do estado cliente. As ditaduras assumem que o seu relacionamento com Washington é estratégico: daí o choque e horror quando são sacrificadas para salvar o aparelho de estado. Temendo a revolução, Washington tem tido clientes déspotas relutantes, pouco desejosos de se afastarem, assassinados (Trujillo e Diem). Para alguns são proporcionados santuários no exterior (Somoza, Batista), outros são pressionados à partilha de poder (Pinochet) ou nomeados académicos visitantes em Harvard, Georgetown ou algum outro posto académico "prestigioso".

O cálculo de Washington sobre quando rearranjar o regime baseia-se numa estimativa da capacidade do ditador para aguentar o levantamento político, a força e lealdade das forças armadas e a disponibilidade de uma substituição acomodatícia. O risco de esperar demasiado, de colagem ao ditador, é que radicaliza o levantamento: a mudança decorrente varre para longe tanto o regime como o aparelho de estado, transformando um levantamento político numa revolução social. Tal "erro de cálculo" verificou-se em 1959 no avanço da revolução cubana, quando Washington ficou ao lado de Batista e não foi capaz de apresentar uma alternativa de coligação pró-EUA viável e ligada ao velho aparelho de estado. Um erro de cálculo semelhante verificou-se na Nicarágua, quando o presidente Carter, enquanto criticava Somoza, manteve o curso e permaneceu passivo quando o regime era derrubado e as forças revolucionárias destruíam as forças militares treinadas pelos EUA e Israel, a polícia secreta, o aparelho de inteligência, avançaram na nacionalização de propriedade dos EUA e desenvolveram uma política externa independente.

Washington movimentou-se com maior iniciativa na América Latina da década de 1980. Promoveu transições eleitorais negociadas que substituíram ditadores por políticos neoliberais flexíveis, os quais comprometeram-se a preservar o aparelho de estado existente, defender as elites privilegiadas externas e internas e apoiar políticas regionais e internacionais dos EUA.

Lições do passado e políticas do presente
Obama tem sido extremamente hesitante na remoção de Mubarak por várias razões, mesmo quando o movimento cresce em números e o sentimento anti-Washington aprofunda-se. A Casa Branca tem muitos clientes por toda a parte do mundo – incluindo Honduras, México, Indonésia, Jordânia e Argélia – que acreditam terem um relacionamento estratégico com Washington e perderiam confiança no seu futuro se Mubarak fosse jogado fora.

Em segundo lugar, as altamente influentes organizações pro-Israel nos EUA (AIPAC, os presidentes das principais organizações judias americanas) e o seu exército de escribas mobilizaram líderes do Congresso para pressionar a Casa Branca a continuar a apoiar Mubarak, pois Israel é o primeiro beneficiário de um ditador que está à garganta do egípcios (e palestinos) e aos pés do estado judeu.

Em consequência o regime Obama tem-se movido vagarosamente, sob o temor e a pressão do crescente movimento popular egípcio. Ele procura uma fórmula política alternativa que remova Mubarak, retenha e fortaleça o poder político do aparelho de estado e incorpore uma alternativa eleitoral civil como meio de desmobilizar e des-radicalizar o vasto movimento popular.

O principal obstáculo para remover Mubarak é que um sector importante do aparelho de estado, especialmente os 325 mil membros das Forças Centrais de Segurança e os 60 mil da Guarda Nacional estão directamente sob a alçada do Ministério do Interior e de Mubarak. Em segundo lugar, os generais de topo do Exército (468.500 membros) sustentaram Mubarak durante 30 anos e enriqueceram-se através do seu controle sobre muitas companhias lucrativas num vasto conjunto de sectores. Eles não apoiarão qualquer "coligação" civil que ponha em causa seus privilégios económicos e o seu poder de estabelecer os parâmetros políticos de qualquer sistema eleitoral. O comandante supremo dos militares egípcios é um antigo cliente dos EUA e um colaborador aquiescente de Israel.

Obama é resolutamente favorável a colaborar e a assegurar a preservação destes corpos repressivos. Mas também precisa convencê-los a substituir Mubarak e levar em conta um novo regime que possa neutralizar o movimento de massa que cada vez mais se opõe à hegemonia dos EUA e à subserviência a Israel. Obama fará todo o necessário para manter a coesão do estado e esvaziar quaisquer aberturas que possam levar a um movimento de massa – alianças de soldados que poderiam converter o levantamento numa revolução.

Washington abriu conversações com os sectores liberais e clericais mais conservadores do movimento anti-Mubarak. A princípio tentou convencê-los a negociar com Mubarak – uma posição beco sem saída que foi rejeitada por todos os sectores da oposição, desde o topo até à base. Obama tentou então vender uma falsa "promessa" de Mubarak de que não concorreria às eleições, daqui a nove meses.

O movimento e seus líderes também rejeitaram aquela proposta. Assim Obama levantou a retórica de "mudanças imediatas" mas sem quaisquer medidas substantivas que a apoiassem. Para convencer Obama da sua contínua base de poder, Mubarak enviou a sua formidável polícia secreta de gangster-lumpen para tomar violentamente as ruas ao movimento. Um teste de força: o Exército ficou ao lado, o assalto elevou a aposta de uma guerra civil, com consequências radicais. Washington e a UE pressionaram o regime Mubarak a recuar – por agora. Mas a imagem de militares pró-democracia foi empanada, pois mortos e feridos multiplicaram-se aos milhares.

À medida que a pressão do movimento se intensifica, Obama pressionada em sentidos opostos por um lado pelo lobby Mubarak-Israel e o seus apoiantes no Congresso e por outro por conselheiros com discernimento a apelarem para seguir as práticas do passado e movimentar-se decisivamente para sacrificar o regime a fim de salvar o estado enquanto a opção liberal-clerical ainda está sobre a mesa.

Mas Obama hesita e, como um crustáceo cauteloso, move-se de lado e para trás, acreditando que a sua própria retórica grandiloquente substitui a acção... esperando que mais cedo ou mais tarde o levantamento acabe por cessar com um mubarakismo sem Mubarak: um regime capaz de desmobilizar os movimentos populares e desejoso de promover eleições que resultem em responsáveis eleitos que sigam a linha geral do seu antecessor.

No entanto, há muitas incertezas num rearranjo político: uma cidadania democrática, 83% desfavorável a Washington, possuirá a experiência de luta e liberdade para clamar por um realinhamento da política, especialmente para cessar de ser um polícia impondo o bloqueio israelense de Gaza e dando apoio a fantoches dos EUA na África do Norte, Líbano, Iémen, Jordânia e Arábia Saudita. Em segundo lugar, eleições livres abrirão o debate a aumentarão a pressão por maior despesa social, a expropriação dos 70 mil milhões de dólares do império do clã Mubarak e os capitalistas de compadrio que pilham a economia. As massas exigirão uma redistribuição da despesa pública do super inchado aparelho repressivo para emprego produtivo, gerador de emprego. Uma abertura política limitada pode levar a um segundo round, no qual novos conflitos sociais e políticos dividirão as forças anti-Mubarak, um conflito entre os advogados da social-democracia e os apoiantes de elite eleitoralismo neoliberal. O momento anti-ditatorial é apenas a primeira fase de uma luta prolongada rumo à emancipação definitiva não apenas do Egipto como de todo o mundo árabe. O resultado depende da medida em que as massas desenvolverão a sua própria organização e líderes independentes.

O original encontra-se em http://petras.lahaine.org/articulo.php?p=1837&more=1&c=1
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Como sempre Obama da um jeito de manter o ditador no poder – por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

Chomsky: EUA estão seguindo seu manual no Egito - por Amy Goodman - Democracy Now

Chomsky: EUA estão seguindo seu manual no Egito

Em entrevista a Amy Goodman, do Democracy Now, Noam Chomsky analisa o desenrolar dos protestos no Egito e o comportamento do governo dos Estados Unidos diante deles. Na sua avaliação, o governo Obama está seguindo o manual tradicional de Washington nestas situações: "Há uma rotina padrão nestes casos: seguir apoiando o tempo que for possível e se ele se tornar insustentável – especialmente se o exército mudar de lado – dar um giro de 180 graus e dizer que sempre estiveram do lado do povo, apagar o passado e depois fazer todas as manobras necessárias para restaurar o velho sistema, mas com um novo nome".

Nas últimas semanas, os levantes populares ocorridos no mundo árabe provocaram a destituição do ditador Zine El Abidine Bem Ali, o iminente fim do regime do presidente egípcio Hosni Mubarak, a nomeação de um novo governo na Jordânia e a promessa do ditador de tantos anos do Yemen de abandonar o cargo ao final de seu mandato. O Democracy Now falou com o professor do MIT, Noam Chomsky, acerca do que isso significa para o futuro do Oriente Médio e da política externa dos EUA na região. Indagado sobre os recentes comentários do presidente Obama sobre Mubarak, Chomsky disse: “Obama foi muito cuidadoso para não dizer nada; está fazendo o que os líderes estadunidenses fazem habitualmente quando um de seus ditadores favoritos têm problemas, tentam apoiá-lo até o final. Se a situação chega a um ponto insustentável, mudam de lado”.

Amy Goodman: Qual é sua análise sobre o que está acontecendo e como pode repercutir no Oriente Médio?
Noam Chomsky: Em primeiro lugar, o que está ocorrendo é espetacular. A coragem, a determinação e o compromisso dos manifestantes merecem destaque, E, aconteça o que aconteça, estes são momentos que não serão esquecidos e que seguramente terão consequências a posteriori: constrangeram a polícia, tomaram a praça Tahrir e permaneceram ali apesar dos grupos mafiosos de Mubarak. O governo organizou esses bandos para tratar de expulsar os manifestantes ou para gerar uma situação na qual o exército pode dizer que teve que intervir para restaurar a ordem e depois, talvez, instaurar algum governo militar. É muito difícil prever o que vai acontecer.

Os Estados Unidos estão seguindo seu manual habitual. Não é a primeira vez que um ditador “próximo” perde o controle ou está em risco de perdê-lo. Há uma rotina padrão nestes casos: seguir apoiando o tempo que for possível e se ele se tornar insustentável – especialmente se o exército mudar de lado – dar um giro de 180 graus e dizer que sempre estiveram do lado do povo, apagar o passado e depois fazer todas as manobras necessárias para restaurar o velho sistema, mas com um novo nome.

Presumo que é isso que está ocorrendo agora. Estão vendo se Mubarak pode ficar. Se não aguentar, colocarão em prática o manual.

Amy Goodman: Qual sua opinião sobre o apelo de Obama para que se inicie a transição no Egito?
Noam Chomsky: Curiosamente, Obama não disse nada. Mubarak também estaria de acordo com a necessidade de haver uma transição ordenada. Um novo gabinete, alguns arranjos menores na ordem constitucional, isso não é nada. Está fazendo o que os líderes norteamericanos geralmente fazem.

Os Estados Unidos tem um poder constrangedor neste caso. O Egito é o segundo país que mais recebe ajuda militar e econômica de Washington. Israel é o primeiro. O mesmo Obama já se mostrou muito favorável a Mubarak. No famoso discurso do Cairo, o presidente estadunidense disse: “Mubarak é um bom homem. Ele fez coisas boas. Manteve a estabilidade. Seguiremos o apoiando porque é um amigo”.

Mubarak é um dos ditadores mais brutais do mundo. Não sei como, depois disso, alguém pode seguir levando a sério os comentários de Obama sobre os direitos humanos. Mas o apoio tem sido muito grande. Os aviões que estão sobrevoando a praça Tahrir são, certamente, estadunidenses. Os EUA representam o principal sustentáculo do regime egípcio. Não é como na Tunísia, onde o principal apoio era da França. Os EUA são os principais culpados no Egito, junto com Israel e a Arábia Saudita. Foram estes países que prestaram apoio ao regime de Mubarak. De fato, os israelenses estavam furiosos porque Obama não sustentou mais firmemente seu amigo Mubarak.

Amy Goodman: O que significam todas essas revoltas no mundo árabe?
Noam Chomsky: Este é o levante regional mais surpreendente do qual tenho memória. Às vezes fazem comparações com o que ocorreu no leste europeu, mas não é comparável. Ninguém sabe quais serão as consequências desses levantes. Os problemas pelos quais os manifestantes protestam vem de longa data e não serão resolvidos facilmente. Há uma grande pobreza, repressão, falta de democracia e também de desenvolvimento. O Egito e outros países da região recém passaram pelo período neoliberal, que trouxe crescimento nos papéis junto com as consequências habituais: uma alta concentração da riqueza e dos privilégios, um empobrecimento e uma paralisia da maioria da população. E isso não se muda facilmente.

Amy Goodman: Você crê que há alguma relação direta entre esses levantes e os vazamentos de Wikileaks?
Noam Chomsky: Na verdade, a questão é que Wikileaks não nos disse nada novo. Nos deu a confirmação para nossas razoáveis conjecturas.

Amy Goodman: O que acontecerá com a Jordânia?
Noam Chomsky: Na Jordânia, recém mudaram o primeiro ministro. Ele foi substituído por um ex-general que parece ser moderadamente popular, ou ao menos não é tão odiado pela população. Mas essencialmente não mudou nada.

Tradução: Katarina Peixoto
Fonte: Carta Maior

Vencedores e Perdedores - por Immanuel Wallerstein

Vencedores e Perdedores

Como foi que este levante triunfou, quando muitas outras tentativas em muitos outros países falharam? E, logo, quem serão os vencedores e os perdedores na Tunísia, em outras partes do mundo árabe, e no sistema-mundo completo?

A revolta árabe de 1916 foi liderada por Sharif Hussein Bin Ali em direção à independência árabe do império otomano. Os otomanos foram expulsos. No entanto, a grande revolta foi cooptada pelos britânicos e franceses. Depois de 1945, gradualmente, os vários Estados árabes se fizeram membros independentes da ONU. Mas, na maioria dos casos, sua independência foi cooptada pelos Estados Unidos, sucessor da Grã-Bretanha como controlador externo, tendo a França mantido um papel menor no Magrebe e no Líbano.

E a segunda revolta árabe já está cozinhando há alguns anos. No mês passado ela obteve uma injeção substancial com os bem-sucedidos levantes da juventude tunisiana. Quando existem jovens corajosos que arriscam sua vida para se levantar contra um regime autoritário e super-corrupto e são bem sucedidos, de fato, em derrubar o presidente, temos que aplaudir. Independentemente do que venha depois, foi um bom momento para a humanidade. A questão é sempre, o quê vem depois?

Na realidade são duas perguntas. Como foi que este levante triunfou, quando muitas outras tentativas em muitos outros países falharam? E, logo, quem serão os vencedores e os perdedores na Tunísia, em outras partes do mundo árabe, e no sistema-mundo completo?

Não é fácil rebelar-se contra um regime autoritário. O regime tem armamento e dinheiro a sua disposição, e normalmente pode suprimir com facilidade as tentativas de desafiá-lo que ocorrem nas ruas. Atos simbólicos, como a auto-imolação do vendedor ambulante em um povoado tunisiano remoto, Mohamed Bouazizi, em protesto contra os extravagantes atos dos agentes do regime, podem incentivar outros a protestarem, como ocorreu na Tunísia. Mas para que o dito ato conduza à derrocada do regime, este deve ter fissuras.

Neste caso, é claro que existiam tais fissuras. Nem o exército nem a polícia estavam preparados para disparar contra os manifestantes, e deixaram esta tarefa para a guarda presidencial de elite. Não foi suficiente, e o presidente Zine el-Abidine Ben Ali e sua família tiveram que fugir, e só encontraram refugio na Arábia Saudita. Que havia fissuras no regime, isto fica claro pelo feito de que ao tentar sobreviver à tormenta, as principais figuras do partido de Ben Ali se certificaram de prender a figura chave da maquinaria repressiva, Abdelwahab Abdallah, garantindo que ele não os prendesse. Lembremos como foi que, depois da morte de Stalin, seus sucessores prenderam Lavrenti Beria de imediato, pela mesma razão.

Obviamente, depois que Ben Ali fugiu, o mundo inteiro aplaudiu, com a exceção de Kaddafi na Líbia e Berlusconi na Itália, que continuaram defendendo as virtudes do ditador. O lugar de onde vinha o principal respaldo exterior de Ben Ali, a França, se envergonhou o suficiente a ponto de confessar seus erros de juízo. Os Estados Unidos, tendo deixado a Tunísia nas supostamente seguras mãos dos franceses, não sentiram a necessidade de oferecer desculpas semelhantes.

Como todo o mundo observa, o exemplo da Tunísia deu um impulso para que em outras ruas árabes de outras partes fosse trilhado um caminho semelhante; os exemplos mais notáveis no momento estão no Egito, Iêmen e Jordânia. Enquanto escrevo, é pouco certo que o presidente do Egito, Hosni Mubarak, seja capaz de sobreviver.

Quem são os vencedores e os perdedores? Não saberemos pelo menos nos próximos seis meses, talvez mais, quem chegou, de fato, ao poder na Tunísia, no Egito, na verdade em todo o mundo árabe. Os levantes espontâneos criam uma situação como a da Rússia de 1917 quando, segundo a famosa frase de Lênin, o poder está nas ruas, e portanto uma força decidida e organizada pode tomá-lo, que foi o que fizeram os bolcheviques.

A real situação política em cada um dos Estados árabes é diferente. Não há Estado árabe na atualidade que tenha um partido radical, laico, organizado, como os bolcheviques, que esteja pronto para tentar tomar o poder. Há vários movimentos liberais burgueses que gostariam de ter um papel maior, mas poucos parecem ter uma base importante. Os movimentos mais organizados são os islamitas. Mas, estes movimentos não têm uma só cor. Suas versões de um Estado islâmico vão dos relativamente tolerantes com outros grupos, como o que existe agora na Turquia, à severa versão da sharia (como os talibãs executam no Afeganistão), com variedades intermediárias como a Irmandade Muçulmana no Egito.

Mas o que acontece com os poderes externos, que estão profundamente envolvidos em tentar controlar a situação? O principal ator externo é os Estados Unidos. Um segundo ator é o Irã. Todos os outros – Turquia, França, Grã-Bretanha, Rússia e China – são menos importantes sem deixarem de ser relevantes.

O grande perdedor da segunda revolta árabe é claramente os Estados Unidos. Constata-se isso com a incrível hesitação do governo estadunidense neste momento. Os EUA (como qualquer outra das potências importantes do mundo) colocam um critério acima de todos os demais: os regimes que são amigáveis. Washington quer estar do lado dos vencedores, sempre e quando o vencedor não seja hostil. Que fazer então numa situação como a do Egito, que hoje é virtualmente um Estado patrocinado pelos Estados Unidos? Washington se encontra reduzido a fazer chamados públicos em nome de mais democracia, de que não haja violência, e de negociações. Depois de grandes encenações, parecem ter dito ao exército egípcio para que não envergonhe os Estados Unidos, disparando contra pessoas demais. Porém, poderá Mubarak sobreviver sem disparar contra muita gente?

A segunda revolta árabe ocorre em meio a uma caótica situação mundial na qual imperam três características: uma queda dos padrões de vida de dois terços da população mundial, aumentos escandalosos nos salários atuais de uma camada elevada relativamente pequena e uma séria decadência do poder efetivo da assim chamada superpotência, Estados Unidos. A segunda revolta árabe, não importa como resulte, irá corroer ainda mais o poderio estadunidense, especialmente no mundo árabe, precisamente porque a única base segura de popularidade políticas nestes países, hoje, é a oposição a que Washington interfira em seus assuntos. Mesmo para aqueles que normalmente querem o envolvimento dos Estados Unidos, e dependem deste, torna-se perigoso continuar com esta postura.

O maior vencedor é o Irã. Sem dúvida o regime iraniano é visto com considerável suspeita, em parte porque não é árabe e em parte porque é xiita. No entanto, foi a política estadunidense que deu ao Irã seu presente maior, a derrocada de Saddam Hussein. Saddam era o mais feroz e eficaz inimigo do Irã. Os líderes iranianos provavelmente proferem alguma bênção diária para George W. Bush por seu maravilhoso presente. Construíram sobre este golpe de sorte uma inteligente política com a qual demonstraram estar prontos para dar respaldo a movimentos não xiitas tais como Hamas, sempre que confrontarem fortemente Israel e a intromissão estadunidense na região.

Um vencedor menor é a Turquia, que foi uma maldição para as forças populares no mundo árabe pela dupla razão de que é herdeira do império otomano e uma aliada próxima dos Estados Unidos. O atual regime eleito popularmente, um movimento islamita que não busca impor a lei da sharia sobre toda a população, mas sim, unicamente, o droit de cité para a conformidade islâmica, moveu-se em direção a apoiar a segunda revolta árabe, ainda com um risco de comprometer suas anteriores boas relações com Israel e Estados Unidos.
E, é claro, os maiores vencedores desta segunda revolta árabe serão, com o tempo, os povos árabes.

Publicado por Rebelión. Foto por Epa/Lucas Dolega.
Fonte: http://www.revistaforum.com.br/

A vaca do império assassino! - por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

[EUA] Dois presos da Frente de Libertação Animal estão nas ruas - ANA

[EUA] Dois presos da Frente de Libertação Animal estão nas ruas[Nas últimas semanas, dois presos da Frente de Libertação Animal (FLA), Jonathan Paul e Alex Hall, foram colocados em "liberdade" nos Estados Unidos.]

Jonathan Paul:

Foi acusado de incendiar o matadouro de cavalos "Cavel West", em 1997, em Redmond, Oregon. A ação foi reivindicada pela FLA. O matadouro queimou completamente (como mostrado na foto em anexo) e, após a ação, foi fechado definitivamente.

Jonathan também foi relacionado à várias ações da FLA, no ano de 1980. Ele admitiu a sua participação nas atividades da Universidade do Arizona, em 1989, onde 1.000 animais foram liberados dos laboratórios da universidade.

Jonathan saiu da prisão após cumprir 4 anos de sua sentença.

Alex Hall:

Depois de cumprir 21 meses de prisão, Alex foi liberado. Ele foi acusado de libertar 650 visons de uma fazenda de peles em Utah, ação que também foi atribuída à FLA.

agência de notícias anarquistas-ana
a noite esporeia
suas negras ancas
cravando-se estrelas

Federico Garcia Lorca

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Mais Valia: Mc Donald's leva multa de R$ 13,2 milhões por descumprir leis trabalhistas - por Última Instância

Mais Valia: Mc Donald's leva multa de R$ 13,2 milhões por descumprir leis trabalhistas - por Última InstânciaA rede de lanchonetes Mc Donald’s foi multada em R$ 13,2 milhões pelo descumprimento de leis trabalhistas e ausência de normas de segurança para seus funcionários. Em 2008, o Mc Donald’s assinou um acordo com o MPT (Ministério Público do Trabalho) se comprometendo a solucionar as irregularidades, mas os procuradores constataram que o TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) não foi cumprido pela empresa, o que levou à aplicação da multa.

Segundo o MPT, o Mc Donald’s não possui Cipa (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) nem emissão regular de CAT (Comunicação de Acidentes de Trabalho). Os procuradores também contestaram problemas no vestuário e na alimentação fornecida aos funcionários. A aplicação da multa foi homologada pelo juiz José Celso Bottaro, da Justiça do Trabalho de Rondônia.

Ainda de acordo com o MPT, em diversas de suas franquias, o Mc Donald’s mantinha os funcionários em jornadas de horas extras excessivas —ultrapassando o limite legal de duas horas diárias—, em alguns casos, sem direito ao descanso semanal. A Rede também é acusada de dificultar a sindicalização dos trabalhadores.

A multa, aplicada pelo MPT em janeiro, deverá ser paga ao longo dos próximos nove anos. A maior parte dos recursos (R$ 11,7 milhões) deverá ser utilizada em campanhas publicitárias contra o trabalho infantil. O R$ 1,5 milhão restante será destinado à compra de equipamentos de reabilitação física para a Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo).
Fonte: http://ultimainstancia.uol.com.br/

O Mundo árabe está em chamas: entrevista com um anarquista sírio - por ANA

O Mundo árabe está em chamas: entrevista com um anarquista sírio

As revoltas que explodiram no mundo árabe no Iêmen, Tunísia e agora no Egito apanharam todos de surpresa. Constituem, sem sombra de dúvida, um dos acontecimentos mais relevantes do nosso tempo e são um sinal claro de que já não é possível, em lugar nenhum, continuar-se a ser um joguete de ditador com o apoio imperialista. Os regimes extraordinariamente autoritários como os de Ben Ali revelaram-se completamente impotentes perante um povo com grande determinação, unido na luta. São jovens, trabalhadores, desempregados, pobres, os que levam a cabo esta tarefa de mudar o rosto da região provocando calafrios aos mandantes de Washington e de Tel Aviv. Nem todas as armas do regime de Mubarak, nem toda a ajuda militar dos EUA, conseguiram controlar a extensão do protesto. Os rebeldes revelam o poder do povo e da classe trabalhadora quando se unem, a capacidade política dos homens e mulheres comuns para formar organismos de poder dual, com um claro instinto libertário para além de demonstrarem ao mundo que nos encontramos já numa era de mudanças revolucionárias. Estabelecemos um breve diálogo com o nosso companheiro e amigo Mazen Kamalmaz, da Síria - editor do blog anarquista árabe http://www.ahewar.org/m.asp?i=1385 - que nos falou da importância deste esplêndido acontecimento político.

Pergunta > Parece que toda uma repentina onda de protestos massivos está a sacudir as fundações dos velhos regimes opressivos no mundo árabe… havia indícios de que isto poderia suceder?
Mazen Kamalmaz < Este é um dos aspectos mais interessantes da onda revolucionária que se está a expandir por todo o mundo árabe que chega quando nada o fazia prever. Ainda alguns dias antes das manifestações massivas e sucessivas no Egito a Secretaria de Estado dos EUA, Hillary Clinton, declarava que o governo egípcio era estável e neste momento nada é estável na região: a insurreição mantém-se de pé e para todos os regimes repressivos espera-se o pior. Há aspectos que se reportam a todas estas sublevações tais como a raiva e ressentimento que estavam escondidos, silenciados pela repressão dos Estados, a pobreza e o desemprego crescentes - a que os regimes, estadistas e até intelectuais não prestaram a devida atenção - em relação aos quais os governos, locais ou ocidentais, pensaram que poderiam manter a revolta sob controle… agora sabemos como se enganaram.

Pergunta > Qual a importância da saída de Ben Ali do governo da Tunísia?
Mazen < Este é apenas o primeiro passo do que está para vir. Supõe que o povo, o povo em luta, consegue desafiar a repressão e vencer. É muito cedo para falar sobre o desenlace final, é tudo demasiado complexo ainda, mas o povo já conseguiu ter consciência do seu poder real e apesar disso mantém-se na rua, de modo que a luta ainda se encontra aberta a muitas possibilidades.

Pergunta > Para aonde se está a expandir a revolta? Que países podem experimentar rebeliões massivas?
Mazen < Hoje pode-se afirmar seguramente que qualquer um poderia ser o próximo. Talvez a Argélia, Iêmen ou Jordânia sejam candidatos fortes, mas temos de ter em conta que uma revolução no Egito teria um grande impacto na região, impacto esse que superaria os piores pesadelos dos ditadores e dos seus partidários na região.

Pergunta > Qual seria a relevância de uma revolução no Egito, o segundo maior receptor de ajuda militar estadunidense em todo o mundo?
Mazen < O Egito é o país com as maiores dimensões do Oriente Médio e o seu papel estratégico é muito importante. É um dos principais pilares da política estadunidense nessa região. A pressão das massas é um fator a ter em conta daqui pra frente, inclusive em relação à sobrevivência do velho regime resistir durante algum tempo mais ou não, ou se o novo regime será pró estadunidense. Resumindo, os EUA, o principal apoio do regime atual, irá sofrer o efeito da rebelião das massas egípcias.

Pergunta > Qual o papel dos Irmãos Muçulmanos nestes protestos? E da “velha guarda” da esquerda?
Mazen < Um aspecto muito importante destas manifestações e revoltas é que tiveram uma origem totalmente espontânea e iniciada pelas massas. É verdade que os diferentes partidos políticos juntaram-se a elas mais tarde, mas todo o processo foi, em grande medida, uma manifestação de ação autônoma por parte das massas. Isto é também válido para os grupos políticos islamitas. Embora estes ditos grupos pensem que as futuras eleições os poderiam levar agora ao poder, com as massas em rebelião nas ruas isso será difícil, dado que se negaram ativamente a submeter-se de novo a outro poder repressivo, mas mesmo no caso que isso sucedesse, o povo não aceitaria ser submetido nesta ocasião, enquanto se mantém fresca para a maioria a memória eufórica das parcelas de liberdade que alcançaram através da sua própria luta. Nenhum poder os poderia forçar facilmente a submeter-se de novo a algum regime repressivo.

Outro aspecto a ter em conta é que durante as revoluções o povo é mais receptivo às idéias libertárias e anarquistas, e que é a liberdade a idéia hegemônica do momento não o autoritarismo. Alguns dos grupos estalinistas só representam o rosto mais feio do socialismo autoritário... Por exemplo, o antigo Partido Comunista da Tunísia participou com o partido dominante de Ben Ali no governo formado após a expulsão do próprio Ben Ali. Outro grupo autoritário, o Partido Comunista dos Trabalhadores da Tunísia, participou ativamente nos protestos, mas depressa manifestaram as suas contradições: quando Bem Ali escapou tratou de criar conselhos ou comitês locais para defender o processo e logo de seguida retratou-se e apelou para se criar um novo parlamento e governo. No Egito passa-se praticamente o mesmo, há grupos reformistas de esquerda, como o Partido da Unidade Progressista e alguns revolucionários da esquerda autoritária.

Não posso dizer com exatidão qual o papel dos anarquistas ou de outros libertários - há uma crescente tendência comunista conselhista junto a eles - devido à falta de comunicação com os nossos companheiros de lá, mas não posso deixar de ressaltar o que disse anteriormente: que estas revoluções foram feitas principalmente pelas próprias massas. Na Tunísia, os sindicatos mais fortes tiverem um grande papel nas últimas fases da revolta.

Quero referir um pouco mais aos comitês locais criados pelas massas, uma das manifestações mais interessantes da sua ação revolucionária. Perante a pilhagem, iniciada sobretudo pela polícia secreta, o povo criou os ditos comitês como instituições realmente democráticas, como uma competência real de oposição às instituições autoritárias… No Egito até ao dia de hoje os governos, os comitês locais e o governo de Mubarak escondiam-se atrás dos tanques e das espingardas dos seus soldados. Isto está a suceder numa região assolada por ditaduras e pelo autoritarismo... Isso é o grandioso das revoluções que transformam o mundo rapidamente. Isto não significa que a luta esteja ganha, pelo contrário, isto significa que a luta real acaba de começar.

Pergunta > Para resumir, qual o seu ponto de vista sobre os acontecimentos? O que pensa que simbolizam?
Mazen < É o começo de uma nova era, as massas estão se sublevando e a sua liberdade está em jogo, as tiranias tombam... Sem dúvida estamos a assistir ao nascimento de um mundo novo.

Tradução > Liberdade à Solta
agência de notícias anarquistas-ana
Salpicados de sons
Silêncio em suspenso:
Grilos e estrelas.

Marcos Masao Hoshino