sexta-feira, 18 de junho de 2010

Livro revela como foi articulado assassinato de Trotski - Por Eberth Vêncio

Livro revela como foi articulado assassinato de Trotski - Por Eberth Vêncio

A biografia clássica e detalhada de Liev Trotski (1879-1940) é a escrita pelo historiador Isaac Deutscher, publicada no Brasil em três volumes. Como parte dos arquivos soviéticos foi aberta, depois da queda do comunismo, a pesquisa está, em alguns pontos, datada, o que animou o general e historiador russo Dmitri Volkogonov a escrever “Trotsky — The Eternal Revolucionário” (Free Press/Simon & Schuster, 524 páginas, 1996). Trata-se de um livro notável, dado o acesso de Volkogonov aos arquivos abertos em 1991 e à sua experiência como militar que participou dos governos comunistas. O caráter autoritário de Trotski é rastreado e explicado com mestria, bem como sua excelente formação intelectual. Mas sobre o assassinato de Trotski o livro mais importante é “Operações Especiais — Memórias de uma Testemunha Indesejada” (Publicações Europa-América, 543 páginas, 1994), de Pavel Sudoplatov, com a colaboração de seu filho, Anatoli Sudoplatov. Como chefe das Operações Especiais (assassinatos e terrorismo), Pavel Sudoplatov foi o homem que coordenou o assassinato do revolucionário ucraniano, no México, em 1940, e o roubo dos segredos atômicos dos Estados Unidos. Com o apoio do filho e dos pesquisadores Jerrold L. Schecter e Leona Schecter, Sudoplatov decidiu contar histórias sobre as quais não há informações precisas nem nos arquivos soviéticos (Stálin tinha o hábito de dar ordens verbais, sobretudo quando se referia a assassinatos e envenenamentos). No prefácio, o historiador inglês Robert Conquest, dos primeiros e mais gabaritados analistas do stalinismo, escreve: “Esta é a mais sensacional, a mais devastadora e a mais informativa autobiografia que alguma vez emergiu do meio stalinista. Um documento único”. O livro de Conquest “O Grande Terror — Os Expurgos de Stálin”, publicado na década de 1960, permanece atualíssimo, em linhas gerais.

O capítulo mais espetacular, “O assassinato de Trotski”, tem 22 páginas. Finalmente, depois do interessante mas ainda insuficiente livro “Operação Trotski — Levantando o Véu de Mistério que Cobria o Brutal Assassinato Ordenado por Stálin” (Record, 192 páginas, 1972), de José Ramón Garmabella, o crime é explicado detalhadamente. Sudoplatov abre seu baú de memórias e conta tudo, ou quase. Relata até fatos menores, que nada mudam, mas mostram sua intimidade com o assassino de Trotski, o “espanhol” (há quem diga que nasceu em Cuba) Ramón Mercader. Os livros registram que Mercader fechou os olhos ao agredir o revolucionário soviético. A Sudoplatov, Mercader esclareceu que atingiu Trotski de olhos abertos.

Sudoplatov conta que, em 1938, foi convocado ao Kremlin por Lavrenti Beria, o chefão da NKVD, a polícia política. “Stálin estava diferente. Estava concentrado, equilibrado e calmo.” Beria disse para Stálin: “Sugerimos que o camarada Sudoplatov seja nomeado diretor-adjunto do Departamento de Informações Externas do NKVD”. A indicação tinha o objetivo de destruir Trotski, porque Sudoplatov era tido como profissional do melhor quilate. “A minha missão seria mobilizar todos os recursos disponíveis do NKVD para eliminar Trotski, o pior inimigo do povo.”

Stálin explicou o motivo pelo qual Trotski deveria ser morto: “Não há figuras políticas importantes no movimento trotskista, à exceção do próprio Trotski. Se este desaparecesse, a ameaça seria eliminada. (...) Trotski deve ser eliminado no prazo de um ano, antes do eclodir inevitável da guerra. Sem a eliminação de Trotski, não poderemos confiar nos nossos aliados do movimento comunista internacional. Eles enfrentarão grandes dificuldades no cumprimento do dever internacional de desestabilizar a retaguarda dos nossos inimigos através de operações de sabotagem e atividades de guerrilha se tiverem de lidar com infiltrações traidoras de trotskistas nas suas fileiras”.

O ditador prometeu que os assassinos de Trotski seriam lembrados “para sempre” pelo Partido Comunista e suas famílias seriam beneficiadas. Stálin cumpriu a promessa, mas, no governo de Nikita Kruchev, Sudoplatov acabou preso. Kruchev queria esconder seu stalinismo.

Sudoplatov recrutou veteranos soviéticos que atuaram na Guerra Civil Espanhola. Stálin disse que deveria se reportar unicamente a Beria e destacou: “A responsabilidade completa pelo cumprimento da missão pertence-lhe”. Nota-se, pois, a importância do articulador do assassinato de Trotski.

O experimentado Leonid Eitingon, que havia lutado na Espanha, foi o primeiro recrutado por Sudoplatov. A operação contra Trotski recebeu o nome de Utka (Pato), termo usado para “desinformação”. O chefe dos assassinos soviéticos conta que a rede trotskista estava infiltrada por agentes stalinistas, como Maria de la Sierra, secretária de Trotski na Noruega e no México. (A história de Maria de la Sierra é impressionante e merece um livro. Era uma espiã tão ou mais experimentada do que Olga Benario.)

Além do grupo chefiado pelo pintor mexicano David Álvaro Siqueiros (um aloprado), que comandou a primeira tentativa de matar Trotski, Eitingon recrutou a aristocrata decadente Caridad Mercader e seu filho, Jaime Ramón Mercader del Rio Hernández (“assemelhava-se ao ator francês Alain Delon”). Mercader, que havia sido guerrilheiro na Espanha, aproximou-se de Sylvia Ageloff, secretária de Trotski, em Paris. Ageloff apaixonou-se pelo bonitão espanhol. Eitingon disse-lhe para não manter atividades políticas e apresentar-se como empresário. Para que, obviamente, os alertas Trotski e seus familiares e aliados não desconfiassem.

Beria informou Sudoplatov que não devia se preocupar com contenção de despesas, pois a operação era de alta prioridade. Custasse o que custasse, Trotski deveria ser assassinado. Eitingon abriu uma empresa de importações-exportações, em Nova York, em 1939, com o objetivo de acobertar as ações de Mercader, agora com o nome de Frank Jacson. Mercader apresentava-se como empresário canadense. Ao saber que a primeira tentativa de matar Trotski havia falhado, Stálin insistiu: “A eliminação de Trotski significará o colapso total da globalidade do momento trotskista e não precisaremos gastar qualquer soma de dinheiro no combate aos trotskistas e às suas tentativas para nos enfraquecer ou ao Comintern”.

Sob pressão de Stálin, Sudoplatov decidiu apressar a operação para matar Trotski. Mercader disse a Sudoplatov que preferiu agir sozinho, para não levantar suspeitas. Em 20 de agosto de 1940, entrou na casa de Trotski, para este examinar um artigo do novo “aliado”, e enfiou uma picareta de montanhismo na cabeça do rival de Stálin. “No último instante, quando Mercader estava prestes a atingi-lo, Trotski, que estivera absorvido na leitura do artigo, mexeu a cabeça. Isso mudou a direção do golpe, enfraquecendo o seu impacto. Foi por este motivo que Trotski conseguiu gritar por socorro e não morreu instantaneamente. Ramón estava demasiado nervoso e não conseguiu esfaquear Trotski, embora transportasse consigo uma faca. ‘Embora fosse um guerrilheiro experiente que esfaqueara um guarda até a morte durante a Guerra Civil Espanhola, o grito de Trotski paralisou-me quase totalmente’, explicou Ramón.” Trotski morreu no dia seguinte.

Stálin aprovou o “trabalho bem-feito”. Durante seis anos, Mercader, conhecido na prisão como Frank Jacson, manteve a versão de que matou Trotski porque havia se decepcionado com suas ideias e que os trotskistas queriam explorá-lo financeiramente. Estava muito bem treinado pelo serviço secreto soviético e, mesmo torturadíssimo pela polícia mexicana, nada confessou.

A identidade de Mercader só foi revelada quando um parente desertou da União Soviética, em 1946, e contou sua história à imprensa. Mesmo assim, Mercader “nunca confessou que assassinara Trotski por ordem dos Serviços de Informação soviéticos”. Era, repetia, um “decepcionado”.

Libertado, em 1960, mudou-se para a União Soviética, com a mulher Raquelia, e foi condecorado com a medalha de Heroi da União Soviética pelo presidente da KGB, Alexsandr Nikolayevich Shelepin. “Foi nomeado membro-investigador sênior do Instituto de Marxismo-Leninismo”, recebeu uma dacha (uma casa de campo) do Partido Comunista e “uma pensão equivalente à de um general importante reformado”. Stálin pagou o prêmio prometido.

Em meados de 1970, Mercader foi para Cuba, como conselheiro de Fidel Castro, de quem era “parente afastado”. Morreu em Cuba, em 1978, pranteado por Fidel e Raúl Castro, de quem era íntimo. Sem autorização de sua mulher, o corpo foi levado secretamente para Moscou com o nome de Ramón Ivanovich López.

A história de Mercader é contada pelo cubano Leonardo Padura na biografia romanceada “El Hombre Que Amaba a los Perros” (Tusquets, 584 páginas, R$ 68,10). O livro pode ser pedido no site www.livrariacultura.com.br (em inglês, no site da livraria Amazon, é mais barato).

Fonte: http://www.revistabula.com/

Condenado é executado por fuzilamento nos EUA



Uma só pergunta?

Cadê os críticos do Irã, da Coréia do Norte, de Cuba ou mesmo da Venezuela. A tão sonhada e festejada democracia mata e continua matando das formas mais cruéis que possam existir!

A pena de morte é um absurdo, mas só é ouvida quando os interesses dos poderosos estão em jogo!


O preso Ronnie Lee Gardner foi executado nesta sexta-feira (18) nos Estados Unidos por um pelotão de fuzilamento, método escolhido pelo próprio réu e que não era utilizado desde 1996 no país, informaram as autoridades penitenciárias.

Gardner, de 49 anos e condenado por assassinato, foi fuzilado na prisão estadual de Utah, nos arredores de Salt Lake City, às 0h20 pelo horário local (3h20 em Brasília), segundo o Departamento de Correcionais do estado.

Foi o primeiro fuzilamento nos EUA nos últimos 14 anos e o terceiro nos últimos 33 anos.

Gardner foi fuzilado por um grupo formado por cinco homens. Os tiros foram disparados contra o peito do condenado.

Armas de Tinta (Paintball) israelenses que matam – Por Latuff



“Embaixador israelense disse que exército de Israel invadiu a embarcação com armas de tinta”

As tintas que matam.

A língua portuguesa esta de luto - Jose Saramago 1922-2010



Este mundo da injustiça globalizada
Que fazer? Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação dos séculos, esse não se discute. Ora, se não estou em erro, se não sou incapaz de somar dois e dois, então, entre tantas outras discussões necessárias ou indispensáveis, é urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decadência
José Saramago

Texto lido no encerramento do Fórum Social Mundial de 2002.
Começarei por vos contar em brevíssimas palavras um facto notável da vida camponesa ocorrido numa aldeia dos arredores de Florença há mais de quatrocentos anos. Permito-me pedir toda a vossa atenção para este importante acontecimento histórico porque, ao contrário do que é corrente, a lição moral extraível do episódio não terá de esperar o fim do relato, saltar-vos-á ao rosto não tarda.

Estavam os habitantes nas suas casas ou a trabalhar nos cultivos, entregue cada um aos seus afazeres e cuidados, quando de súbito se ouviu soar o sino da igreja. Naqueles piedosos tempos (estamos a falar de algo sucedido no século XVI) os sinos tocavam várias vezes ao longo do dia, e por esse lado não deveria haver motivo de estranheza, porém aquele sino dobrava melancolicamente a finados, e isso, sim, era surpreendente, uma vez que não constava que alguém da aldeia se encontrasse em vias de passamento. Saíram portanto as mulheres à rua, juntaram-se as crianças, deixaram os homens as lavouras e os mesteres, e em pouco tempo estavam todos reunidos no adro da igreja, à espera de que lhes dissessem a quem deveriam chorar. O sino ainda tocou por alguns minutos mais, finalmente calou-se. Instantes depois a porta abria-se e um camponês aparecia no limiar.

Ora, não sendo este o homem encarregado de tocar habitualmente o sino, compreende-se que os vizinhos lhe tenham perguntado onde se encontrava o sineiro e quem era o morto. "O sineiro não está aqui, eu é que toquei o sino", foi a resposta do camponês. "Mas então não morreu ninguém?", tornaram os vizinhos, e o camponês respondeu: "Ninguém que tivesse nome e figura de gente, toquei a finados pela Justiça porque a Justiça está morta."

Que acontecera? Acontecera que o ganancioso senhor do lugar (algum conde ou marquês sem escrúpulos) andava desde há tempos a mudar de sítio os marcos das estremas das suas terras, metendo-os para dentro da pequena parcela do camponês, mais e mais reduzida a cada avançada. O lesado tinha começado por protestar e reclamar, depois implorou compaixão, e finalmente resolveu queixar-se às autoridades e acolher-se à protecção da justiça. Tudo sem resultado, a expoliação continuou. Então,
desesperado, decidiu anunciar urbi et orbi (uma aldeia tem o exacto tamanho do mundo para quem sempre nela viveu) a morte da Justiça.

Talvez pensasse que o seu gesto de exaltada indignação lograria comover e pôr a tocar todos os sinos do universo, sem diferença de raças, credos e costumes, que todos eles, sem excepção, o acompanhariam no dobre a finados pela morte da Justiça, e não se calariam até que ela fosse ressuscitada. Um clamor tal, voando de casa em casa, de aldeia em aldeia, de cidade em cidade, saltando por cima das fronteiras, lançando pontes sonoras sobre os rios e os mares, por força haveria de acordar o mundo adormecido... Não sei o que sucedeu depois, não sei se o braço popular foi ajudar o camponês a repor as estremas nos seus sítios, ou se os vizinhos, uma vez que a Justiça havia sido declarada defunta, regressaram resignados, de cabeça baixa e alma sucumbida, à triste vida de todos os dias. É bem certo que a História nunca nos conta tudo...

Suponho ter sido esta a única vez que, em qualquer parte do mundo, um sino, uma campânula de bronze inerte, depois de tanto haver dobrado pela morte de seres humanos, chorou a morte da Justiça. Nunca mais tornou a ouvir-se aquele fúnebre dobre da aldeia de Florença, mas a Justiça continuou e continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando. De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente justiça. Não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exacto e rigoroso sinónimo do ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à vida é o alimento do corpo. Uma justiça exercida pelos tribunais, sem dúvida, sempre que a isso os determinasse a lei, mas também, e sobretudo, uma justiça que fosse a emanação espontânea da própria sociedade em acção, uma justiça em que se manifestasse, como um iniludível imperativo moral, o respeito pelo direito a ser que a cada ser humano assiste.

Mas os sinos, felizmente, não tocavam apenas para planger aqueles que morriam. Tocavam também para assinalar as horas do dia e da noite, para chamar à festa ou à devoção dos crentes, e houve um tempo, não tão distante assim, em que o seu toque a rebate era o que convocava o povo para acudir às catástrofes, às cheias e aos incêndios, aos desastres, a qualquer perigo que ameaçasse a comunidade. Hoje, o papel social dos sinos encontra-se limitado ao cumprimento das obrigações rituais e o gesto iluminado do camponês de Florença seria visto como obra desatinada de um louco ou, pior ainda, como simples caso de polícia.

Outros e diferentes são os sinos que hoje defendem e afirmam a possibilidade, enfim, da implantação no mundo daquela justiça companheira dos homens, daquela justiça que é condição da felicidade do espírito e até, por mais surpreendente que possa parecer-nos, condição do próprio alimento do corpo. Houvesse essa justiça, e nem um só ser humano mais morreria de fome ou de tantas doenças que são curáveis para uns, mas não para outros. Houvesse essa justiça, e a existência não seria, para mais de metade da humanidade, a condenação terrível que objectivamente tem sido. Esses sinos novos cuja voz se vem espalhando, cada vez mais forte, por todo o mundo são os múltiplos movimentos de resistência e acção social que pugnam pelo estabelecimento de uma nova justiça distributiva e comutativa que todos os seres humanos possam chegar a reconhecer como intrinsecamente sua, uma justiça protectora da liberdade e do direito, não de nenhuma das suas negações.

Tenho dito que para essa justiça dispomos já de um código de aplicação prática ao alcance de qualquer compreensão, e que esse código se encontra consignado desde há cinquenta anos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, aquelas trinta direitos básicos e essenciais de que hoje só vagamente se fala, quando não sistematicamente se silencia, mais desprezados e conspurcados nestes dias do que o foram, há quatrocentos anos, a propriedade e a liberdade do camponês de Florença. E também tenho dito que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, tal qual se encontra redigida, e sem necessidade de lhe alterar sequer uma vírgula, poderia substituir com vantagem, no que respeita a rectidão de princípios e clareza de objectivos, os programas de todos os partidos políticos do orbe, nomeadamente os da denominada esquerda, anquilosados em fórmulas caducas, alheios ou impotentes para enfrentar as realidades brutais do mundo actual, fechando os olhos às já evidentes e temíveis ameaças que o futuro está a preparar contra aquela dignidade racional e sensível que imaginávamos ser a suprema aspiração dos seres humanos.

Acrescentarei que as mesmas razões que me levam a referir-me nestes termos aos partidos políticos em geral, as aplico por igual aos sindicatos locais, e, em consequência, ao movimento sindical internacional no seu conjunto. De um modo consciente ou inconsciente, o dócil e burocratizado sindicalismo que hoje nos resta é, em grande parte, responsável pelo adormecimento social decorrente do processo de globalização económica em curso. Não me alegra dizê-lo, mas não poderia calá-lo. E, ainda, se me autorizam a acrescentar algo da minha lavra particular às fábulas de La Fontaine, então direi que, se não interviermos a tempo, isto é, já, o rato dos direitos humanos acabará por ser implacavelmente devorado pelo gato da globalização económica.

E a democracia, esse milenário invento de uns atenienses ingénuos para quem ela significaria, nas circunstâncias sociais e políticas específicas do tempo, e segundo a expressão consagrada, um governo do povo, pelo povo e para o povo? Ouço muitas vezes argumentar a pessoas sinceras, de boa fé comprovada, e a outras que essa aparência de benignidade têm interesse em simular, que, sendo embora uma evidência indesmentível o estado de catástrofe em que se encontra a maior parte do planeta, será precisamente no quadro de um sistema democrático geral que mais probabilidades teremos de chegar à consecução plena ou ao menos satisfatória dos direitos humanos. Nada mais certo, sob condição de que fosse efectivamente democrático o sistema de governo e de gestão da sociedade a que actualmente vimos chamando democracia. E não o é. É verdade que podemos votar, é verdade que podemos, por delegação da partícula de soberania que se nos reconhece como cidadãos eleitores e normalmente por via partidária, escolher os nossos representantes no parlamento, é verdade, enfim, que da relevância numérica de tais representações e das combinações políticas que a necessidade de uma maioria vier a impor sempre resultará um governo.

Tudo isto é verdade, mas é igualmente verdade que a possibilidade de acção democrática começa e acaba aí. O eleitor poderá tirar do poder um governo que não lhe agrade e pôr outro no seu lugar, mas o seu voto não teve, não tem, nem nunca terá qualquer efeito visível sobre a única e real força que governa o mundo, e portanto o seu país e a sua pessoa: refiro-me, obviamente, ao poder económico, em particular à parte dele, sempre em aumento, gerida pelas empresas multinacionais de acordo com estratégias de domínio que nada têm que ver com aquele bem comum a que, por definição, a democracia aspira. Todos sabemos que é assim, e contudo, por uma espécie de automatismo verbal e mental que não nos deixa ver a nudez crua dos factos, continuamos a falar de democracia como se se tratasse de algo vivo e actuante, quando dela pouco mais nos resta que um conjunto de formas ritualizadas, os inócuos passes e os gestos de uma espécie de missa laica.

E não nos apercebemos, como se para isso não bastasse ter olhos, de que os nossos governos, esses que para o bem ou para o mal elegemos e de que somos portanto os primeiros responsáveis, se vão tornando cada vez mais em meros "comissários políticos" do poder económico, com a objectiva missão de produzirem as leis que a esse poder convierem, para depois, envolvidas no açúcares da publicidade oficial e particular interessada, serem introduzidas no mercado social sem suscitar demasiados protestos, salvo os certas conhecidas minorias eternamente descontentes...

Que fazer? Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação dos séculos, esse não se discute. Ora, se não estou em erro, se não sou incapaz de somar dois e dois, então, entre tantas outras discussões necessárias ou indispensáveis, é urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decadência, sobre a intervenção dos cidadãos na vida política e social, sobre as relações entre os Estados e o poder económico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e aquilo que nega a democracia, sobre o direito à felicidade e a uma existência digna, sobre as misérias e as esperanças da humanidade, ou, falando com menos retórica, dos simples seres humanos que a compõem, um por um e todos juntos. Não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se engana. E assim é que estamos vivendo.

Não tenho mais que dizer. Ou sim, apenas uma palavra para pedir um instante de silêncio. O camponês de Florença acaba de subir uma vez mais à torre da igreja, o sino vai tocar. Ouçamo-lo, por favor.

Fonte: Carta Maior

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Abdias: Se pudessem, colocavam o negro de novo na escravidão - Por Ana Cláudia Barros

Abdias: Se pudessem, colocavam o negro de novo na escravidão

Ana Cláudia Barros De São Paulo

Defensor fervoroso do sistema de cotas raciais em universidades públicas, o ex-senador e deputado federal, Abdias do Nascimento, 96 anos, um dos líderes negros de maior expressão no país, considerou "uma coisa lamentável" as alterações no texto original do projeto de lei que institui o Estatuto da Igualdade Racial, aprovado nesta quarta-feira (16), no Senado.

Um dos pontos mais criticados foi, justamente, a retirada do trecho que falava sobre a regulamentação da reserva de vagas para a população negra na educação. O estatuto, que tramitou no Congresso durante sete anos, entra em vigor após a sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

-As cotas são absolutamente importantes. São um passo adiante da degradação que o negro tem sofrido durante tantos séculos.

Confira a entrevista
Terra Magazine - O Senado aprovou ontem projeto de lei que institui o Estatuto da Igualdade Racial. O texto original sofreu alterações, como a retirada do trecho que previa cotas para negros na educação e a criação de uma política de saúde pública para negros. O que o senhor achou das mudanças?
Abdias do Nascimento - Uma coisa lamentável, porque se há uma população que necessita de um apoio específico em todos os sentidos, em todos os níveis das atividades nacionais são os negros. São os únicos que foram escravos. As pessoas falam que não precisa de uma proteção, mas ninguém foi escravo aqui, a não ser os africanos.

Então, na avaliação do senhor, as mudanças foram lamentáveis.
É claro. Lamentável, porque é uma injustiça a mais. Uma injustiça que se repete.

O relator do texto, senador Demóstenes Torres (DEM-GO), substituiu o termo "raça" por "etnia", alegando que não existe outra raça além da humana.
Isso é aquela história brasileira de adoçar as coisas. Adoçam o racismo específico contra os africanos e descendentes. Isso mostra, mais uma vez, o gérmen... A alma do Brasil que manda é essa. É contra os africanos, contra os negros. Acho lamentável. Mostra que o Brasil continua o mesmo desde a escravidão. Mostra que, na verdade, ninguém queria que o negro fosse liberto. Mostra que, se pudessem, colocavam, outra vez, a escravidão.

O senhor ainda considera que a Abolição da Escravatura no Brasil não passa de uma mentira cívica e que ainda há um hiato entre negros e brancos no país?
É isso aí: uma mentira cívica. Uma "bela" mentira cívica. E ainda existe um hiato entre negros e brancos. Há dois "Brasis": um dos brancos e outro dos negros. Sem dúvida nenhuma.

O autor da proposta, senador Paulo Paim (PT-RS), afirmou que o estatuto está longe do ideal, mas que a aprovação foi uma vitória? O senhor concorda?
Não concordo, porque é a continuidade do racismo, da discriminação, do desprezo pela herança africana. Essas leis, esses disfarces para não chamar o Brasil de racista continuam. Desculpe, mas isso é odioso e, no meu entender, vai realçar a separação, a diferença e a possibilidade dos negros terem uma integração perfeita.

Especialmento sobre o trecho que fala das cotas, que foi suprimido do texto original. O que o senhor acha sobre isso?
As cotas são absolutamente importantes. São um passo adiante da degradação que o negro tem sofrido durante tantos séculos.

Fonte: Terra Magazine

Pra quem mora lá, o céu é lá: o Brasil de Osgemeos em Lisboa - Por Priscilla Santos

Pra quem mora lá, o céu é lá: o Brasil de Osgemeos em Lisboa - Por Priscilla Santos

Há desses dias impressionantes. É possível estar-se perdido entre as antiguidades da Rua do Lavradio, jurar por alguns segundos ter se apartado da cidade, sentir o silêncio e o cinza. No meio da cidade e do engarrafamento axiomático da ponte Rio-Niterói, está, no fundo de um daqueles prédios antigos e maltratados, um imenso painel em preto e branco, entre a psicodelia e o bizarro. Seus autores: Otávio e Gustavo Pandolfo, nascidos ambos de um mesmo parto em São Paulo no ano de 1974, OSGEMEOS, é como são conhecidos. Vanguarda e tradição se misturam na StreetArt brasileira e expõem bem no Centro de um Rio de Janeiro arte poderosa e vertiginosa ao alcance dos olhos abertos ao maravilhamento.

Pela primeira vez expondo dentro de um museu – havia já exposto do lado de fora do Tate Gallery, em Londres – os irmãos inauguram no Colecção Berardo em Lisboa a exposição Pra quem mora lá, o céu é lá, seleção de painéis e instalações, muitas interativas, que se espalham por duas salas e transbordam pelas ruas da capital portuguesa em um gigantesco mural feito sobre um prédio sem janelas.

Otávio e Gustavo Pandolfo são realmente gêmeos, idênticos. Aos 12 anos, munidos de spray, vidros de desodorante, hiphop, tinta de carro e daquele credo adolescente de que se é intocável em um mundo ilimitado, produziram seus primeiros traços e personagens. A referência era e ainda é a cidade, é São Paulo diluído, tocado fogo e adocicado – tudo ao mesmo tempo – dentro de duas mentes cuja compreensão mútua nos escapa, Osgemeos tinham já ali seu universo de expressão que, com velocidade, foi se tornando maduro, original e reconhecível.

Os homens amarelos - tão amarelos quanto os que a Anita Malffati pintou há quase há 100 anos – o Nordeste tornado paulistano, são a chave. Personagens do êxodo, da busca, ponte entre o desenraizamento e a criação de novos afetos culturais. Esse elemento principal é que conduz ao folclore e, por ele, às cores, ao inusitado, ao pitoresco, ao mito de origem de um país que é pobre, que dói, mas que ri.


Em 1993, pensando na possibilidade de viver do graffiti, os irmãos começaram a desenvolver trabalhos lá e aqui, decorando escritórios, publicidades e revistas. Mas o estilo latente carecia de referências para além dos metrôs e pichações urbanas. Elas vieram com o californiano Barry McGee, o Twist, que realizava um intercâmbio no Brasil e lhes apresentou o cenário mundial do grafite, técnicas e vastas possibilidades. Saíram então para sua primeira viagem pelo país, colhendo material e aprimorando e amadurecendo um estilo que se provaria único. O reconhecimento internacional não tardou e logo estavam com seus homens amarelos em Miami, Amsterdam e Londres. A exposição Vertigem, apresentada ano passado no Rio de Janeiro, me comoveu e a amigos. Os retratos de família, a fúria: ali também estava a minha história e o meu universo particular.

O público de Lisboa terá agora a oportunidade de descobrir como esses fantásticos irmãos se desenvolvem em um ambiente talvez mais formal, mais acadêmico. A Streetart chega ao século XXI consagrada em museus. Otávio e Pandolfo, gêmeos idênticos e paulistanos irão certamente provar que a arte urbana não se limita por tão pouco, é o livre espírito de nosso tempo.





Priscilla Santos é adoradora de cervejas e colabora com o obvious.
Fonte: http://obviousmag.org

Estados Unidos de Israel - Por Luiz Eça

Estados Unidos de Israel - Por Luiz Eça

"Na minha carreira, Israel não só ficou no meu coração, como tem sido o centro do meu trabalho como senador e agora vice-presidente dos EUA", Joe Biden.

Em 1967, durante a Guerra dos Seis Dias, Israel conquistou a Cisjordânia, onde iniciou um programa de assentamentos que até hoje continua. Na mesma ocasião, as colinas de Golã, parte do território sírio, também foram anexadas. Em 1982, o exército israelense invadiu o Líbano e ocupou-o militarmente durante vários anos. Nessa ocasião, foi cúmplice no massacre de refugiados palestinos em Sabra e Chatila.

Todas estas ações foram condenadas pela ONU que, no entanto, não pôde tomar nenhuma atitude repressiva devido aos vetos dos Estados Unidos no Conselho de Segurança.

De lá para cá, os israelenses continuaram a usar da força militar contra os árabes de forma violenta e ilegal. O primeiro-ministro Ariel Sharon começou a construção de um muro nas fronteiras com a Cisjordânia, invadindo cidades e propriedades agrícolas palestinas. Através dos chamados "assassinatos coletivos", aviões e comandos de Israel executaram na Cisjordânia dezenas de cidadãos suspeitos de terrorismo. Enquanto isso, agentes do Mossad, incógnitos, espionavam e matavam inimigos no exterior. Neste ano de 2010 agentes israelenses usaram passaportes falsificados de países amigos para entrar em Dubai e ali assassinar um líder do Hamas. Novas condenações da ONU e indignação até de governos europeus, mais uma vez tornadas sem efeito pela oposição dos EUA.

Em 2006, em represália à morte de um soldado pelo Hizbollah, Israel atacou o Líbano, matando cerca de 1000 civis e danificando seriamente a infra-estrutura do país. O cessar-fogo buscado pela comunidade internacional foi retardado pelos EUA, visando dar mais tempo para os israelenses poderem matar um número maior de membros do Hizbollah, que defendia o Líbano.

Em 2007, quando o Hamas, vencedor das eleições democráticas da Palestina, assumiu o controle de Gaza, Israel reagiu seqüestrando deputados e membros do governo local e instituindo o bloqueio da região. Com isso, a população tornou-se vítima da fome e a economia foi pesadamente golpeada. Como retaliação, o Hamas lançou foguetes sobre o território israelense. Foi o pretexto para que Israel bombardeasse e invadisse a Faixa de Gaza, em 2009. Cerca de 1400 palestinos morreram, mais de mil deles eram civis, inclusive crianças; 5.000 casas foram destruídas, bem como hospitais, escolas, usinas e edifícios da ONU. Mais uma vez, os EUA apoiaram Israel. E fizeram o mesmo quando um inquérito da ONU acusou o exército israelense de crimes de guerra e contra os direitos humanos.

Finda a guerra de Gaza, o bloqueio israelense continuou, permitindo a entrada apenas de alimentos e remédios estritamente essenciais. Só para dar uma idéia: até 2007, cerca de 4.000 tipos de bens entravam em Gaza – sob o bloqueio israelense, somente 40. Os materiais de construção necessários para reconstruir a cidade em ruínas foram proibidos. O resultado é que Gaza vive uma catástrofe econômica, praticamente sem indústrias e com um desemprego de 40%.

O bloqueio de Gaza configura punição coletiva, o que é considerado crime pelo direito internacional. No entanto, sem os EUA não há como forçar Israel a levantá-lo.

Mas eis que Israel foi longe demais. Pirataria, assassinato de 10 ativistas e seqüestro do navio que levava socorro humanitário a Gaza, bem como de seus passageiros, chocaram o mundo. A comunidade internacional em peso protestou e exigiu condenações. Foi demais mesmo para aliados próximos dos EUA como Inglaterra, França, Alemanha e Itália.

Desta vez, parecia difícil salvar Israel. Mas, mesmo assim, a Casa Branca não abandonou seus "aliados especiais".

Inicialmente, o porta-voz da presidência limitou-se a declarar: "os EUA deploram profundamente as perdas e os ferimentos que se verificaram e estão trabalhando para entender as circunstâncias associadas à tragédia". Foi na mesma linha de argumentação o primeiro-ministro Netanyahu: é preciso examinar os fatos antes de condenar. Como se o ataque ao navio em águas internacionais, os assassinatos à bala e o seqüestro dos passageiros não fossem fatos que falam por si.

Na reunião do Conselho de Segurança da ONU, as coisas ficaram mais difíceis. Obama conseguiu impedir a condenação de Israel, mas, diante da indignação dos outros membros do Conselho, teve de aceitar a proposta de se criar uma comissão de investigação independente. Agora está fazendo o possível para melá-la. A idéia é deixar o exército israelense fora do inquérito, como, aliás, Netanyahu exige, buscando encontrar alguns eventuais "podres" na ONG turca que organizou a viagem. Ou seja: investigar a vítima em vez do criminoso.

É verdade que os EUA fazem coro com as nações que pedem o fim do bloqueio de Gaza. Até Hillary Clinton afirmou que o bloqueio é insustentável. Teria de mudar. Mas não falou em acabar. Para os EUA o plano israelense de manter Gaza fechada para impedir a normalização de sua vida e assim gerar o descontentamento da população contra o Hamas parece continuar aprovado...

Aqui cabe uma pergunta. Interessa aos EUA continuar apoiando Israel incondicionalmente, não importando suas ações ilegais e criminosas contra os árabes?

Em termos racionais, não. Ou melhor, não mais.

Durante a Guerra Fria, quase todos os principais Estados islâmicos do Oriente Médio – Egito, Síria, Irã e Iraque – tinham governos nacionalistas, apoiados pela União Soviética. Os EUA contavam somente com Israel e a Arábia Saudita. Precisavam deles - especialmente de Israel - para disputar a hegemonia na região, importante pelas riquíssimas jazidas de petróleo.

Depois da queda do muro de Berlim, a União Soviética evaporou-se e as coisas mudaram. O Egito, antes o mais poderoso opositor islâmico da Casa Branca, tornou-se um aliado fiel, assim como outros Estados menores, entre eles a Jordânia, o Kuwait e os emirados do Golfo. O Iraque também entrou na órbita do império, ao ser conquistado pelo exército do Tio Sam. E o Estado de Israel deixou de ser uma peça básica na política externa americana na região. Pelo contrário: suas sucessivas ações violentas sujam a imagem dos EUA, devido ao constante apoio americano aos governos de Telaviv, inclusive fornecendo anualmente 3 bilhões de dólares em armamentos, muitas vezes usados contra os próprios árabes. O que vem resultando no crescimento do anti-americanismo e da adesão dos jovens árabes aos movimentos terroristas numa região onde os EUA têm imensos interesses petrolíferos e estratégicos. Meir Dagan, chefe do Mossad, sumarizou com argúcia essa situação ao depor perante a Comissão de Assuntos Estrangeiros do Congresso Israelense: "Israel está progressivamente tornando-se um fardo para os Estados Unidos".

Forças poderosas têm se articulado para manter o governo dos EUA num caminho masoquista, carregando esse fardo que é cada vez mais pesado.

Os lobbies pró-Israel estão entre os principais responsáveis. Eles vêm aplicando vastos recursos financeiros para manter na linha os principais partidos. Conforme J.J.Goldberg informou no seu livro "The Jewish Power", em 1994, 45% dos fundos do Partido Democrata e 25% do Partido Republicano foram fornecidos pelos comitês de ação política dos lobbies judaico-americanos. Em 2006, Richard Cohen, no Washington Post, atualizou esses dados para respectivamente 60% e 35%. Os recursos dos lobbies representavam 60% do total dos fundos de campanha dos candidatos presidenciais democratas.

O vulto desses financiamentos torna os partidos americanos dependentes dos lobbies pró-Israel. Daí o poder de influências na política externa americana de que eles dispõem.

O maior e mais influente dos lobbies é a AIPAC. Ela originou-se de uma pequena entidade, a AZC, fundada em 1950. Nos anos 60, uma investigação do Senado descobriu que a AZC vinha lavando milhões de dólares enviados pela "Jewish Agency", de Jerusalém, para conquistar as mentes dos políticos americanos. Pelas leis dos EUA, a AZC teria de se registrar como agente estrangeira israelense. Não ficaria bem. Por isso, seus diretores resolveram incorporar a "American Israel Public Affairs Comittee" e fundar uma nova entidade, a AIPAC.

Com o apoio dos capitais judaico-americanos, a AIPAC expandiu-se rapidamente. Conta hoje com 100 mil membros e um orçamento anual de 65 milhões de dólares. Para dar uma idéia do seu poderio, em 2008 sua reunião anual contou com 5.000 participantes, inclusive 2/3 da Câmara dos Representantes e metade do Senado. Em 2009, foram 7.000 participantes, metade do Senado e mais de 1/3 da Câmara. Como uma mão lava a outra, os congressistas chegam até a colocar-se contra a política externa do seu país, no interesse do governo de Israel.

Isso aconteceu quando 330 deputados e 56 senadores de ambos os partidos aprovaram uma mensagem a Obama exigindo que ele parasse de pressionar Israel contra os assentamentos e que, pelo contrário, passasse a exigir dos países árabes concessões ao governo de Telaviv.

Quando o exército israelense submetia Gaza a um bombardeio impiedoso, por 390 contra 5 votos, a Casa dos Representantes prestou-lhe integral apoio, o que prejudicou bastante os esforços do presidente Obama para conquistar a boa vontade do mundo árabe.

As opiniões dos congressistas são também influenciadas pelos eleitores judeu-americanos. As pesquisas mostram que eles votam em massa nos candidatos que defendem Israel. São mais fortes em 13 estados chaves, que concentram 94% desse eleitorado. Seu poder é mais significativo em Nova York e Florida, onde podem até decidir eleições.

Além de financiarem partidos e candidatos, as associações pró-Israel exercem um intenso trabalho de relações públicas junto à mídia. Anunciantes são mobilizados para fazer pressão. Por sua vez, os ativistas cumprem uma função importante. Colunistas e editores vacilam em criticar Israel, pois sabem que se o fizerem serão sufocados por milhares de cartas e e-mails protestando, enviados por membros dos lobbies. Outro grupo que pesa nas decisões da Casa Branca em defesa das ações ilegais do governo israelense é o lobby dos armamentos. Em 2008, esse setor produziu vendas no valor de 155 bilhões de dólares, empregando 5 milhões de trabalhadores.

Para 2010, o orçamento das forças armadas americanas chega a 858 bilhões de dólares. Certamente uma boa fatia será aplicada na compra de armamentos. Às indústrias do setor não interessa a paz entre judeus e palestinos, que reduziria seus lucros, pois implicaria fatalmente na redução do terrorismo árabe e na abreviação da guerra do Afeganistão. Cada vez que as forças armadas de Israel lançam uma operação contra os árabes, a paz fica mais longe e o setor armamentista trata de somar sua pressão à dos lobbies judaicos em favor do apoio da Casa Branca a seus "aliados especiais".

Finalmente, a última das principais fontes do apoio incondicional a Israel são o Partido Republicano, o Partido do Chá e os pastores-atores de rádio e TV, de inclinação direitista. Para eles, os nacionalistas árabes serão sempre o inimigo, pois no passado foram aliados dos russos e no presente contestam o império americano, do qual esses grupos são ardentes defensores. Já Israel, além de estar sempre ao lado dos EUA, seria uma democracia, com valores semelhantes aos da nação americana. Uma barreira contra a expansão do terrorismo, que esses setores da direita americana costumam associar aos árabes de um modo geral.

Levando em conta o poder que direta ou indiretamente tais grupos exercem sobre a opinião pública, Henry Siegman, ex-líder da AIPAC, afirmou: "Ser crítico de Israel significa negar-se a possibilidade de vencer na política americana".

Pode até ser. No entanto, pesquisa do Instituto Zogby, realizada em 29 de março último, mostra que pelo menos os eleitores democratas começam a mudar de opinião a respeito das coisas no Oriente Médio.

Pela primeira vez, a maioria deles vê Israel de modo desfavorável – apenas 42% são a favor. Já os republicanos não mudam – 92% estão com Israel e não abrem. Somente 20% dos democratas favorecem o primeiro-ministro Netanyahu, contra 84% dos republicanos.

O apoio dos democratas aos palestinos aumentou para 35%. Só 6% dos republicanos os vêem com bons olhos.

Assentamentos judaicos na Palestina são aprovados por reles 14% dos democratas e 34% dos independentes. Os republicanos a favor são 62%

Finalmente, 63% dos democratas, 40% dos independentes e 13% dos republicanos acham que o governo dos EUA deve pegar duro com Israel.

No caso do massacre do Mediterrâneo, Obama teria, portanto, uma boa base de apoio para dar uma virada na tradicional política americana rasgadamente pró-Israel.

Encontraria dificuldades no Congresso se exigisse uma investigação realmente independente e o fim do bloqueio da região. Mas as pesquisas mostram que pelo menos o eleitorado democrata, que o fez presidente, estaria com ele. Sem falar na opinião pública dos países árabes e até dos demais países do Ocidente.

Sim, Obama pode. Pode iniciar sua prometida mudança pela firme defesa da causa do povo de Gaza.

Ou isso, ou se realizará o vaticínio atribuído ao ministro da Defesa, Ehud Barak, com referência aos crimes no navio de socorro a Gaza: "Esperem mais duas ou três semanas e tudo será esquecido e a pressão sobre nós se dissipará".

Luiz Eça é jornalista.
Fonte: http://www.correiocidadania.com.br

quarta-feira, 16 de junho de 2010

A catástrofe ambiental no Golfo do México - Por Larissa Ramina

A catástrofe ambiental no Golfo do México

A catástrofe ambiental do Golfo do México, de dimensões ainda subestimadas, nos oferece um bom momento de reflexão sobre o esgotamento da era das energias fósseis ou sujas.

O economista Ignacy Sachs, em evento na recém-criada Unila - Universidade da Integração Latino-Americana - alertava para a ocorrência de várias crises conjugadas nessa mudança de século. Enumerava a crise financeira e especulativa nos EUA, a crise sócio-econômica de âmbito mundial, a crise epistemológica, da forma como pensar o desenvolvimento, e a crise ambiental, que remete à co-evolução da espécie humana com a biosfera.

Dizia ele que a solução para a crise ambiental estaria justamente em efetuar uma saída ordenada da era das energias fósseis, que teve início no século XVII com o carvão, o gás e o petróleo. Não se trataria de uma volta às civilizações tradicionais do vegetal, e sim de uma nova transição em direção ao que chamou de “biocivilizações do futuro”, com o uso inteligente e múltiplo das biomassas – bioprodutos produzidos por biorefinarias.

O grande desafio do século XXI, entretanto, estaria em encontrar uma fórmula para mitigar as mudanças climáticas e ao mesmo tempo gerar progresso social. Trata-se de fazer convergir o ambiental e o social, criando “empregos verdes”. Justamente aqui estaria a grande tarefa: encontrar o equilíbrio entre os objetivos sociais e os ambientais. As respostas estariam na transição para a economia de matriz energética limpa, subordinada a um triplo critério, quais sejam, uma economia socialmente includente, ambientalmente sustentável e economicamente viável. Por óbvio a
segurança energética não pode atropelar a segurança alimentar.

A sociedade tecnológica atual, com alto uso das energias fósseis que provocam o aquecimento global, levou a globalização a extremos que não se justificam. Porque temos que comer frutas que amadurecem no verão durante o inverno, trazendo as frutas de avião? O padrão de trocas internacionais é totalmente irracional.

Deveríamos inserir no centro do debate sobre a crise ambiental a redução do padrão da demanda energética. O consumo aumenta a um ritmo maior do que a descoberta de novas jazidas, e estas, por sua vez, são de mais difícil acesso, e logo com custos de produção mais elevados e maiores riscos ambientais.

Inevitável estabelecermos um paralelo entre a plataforma do Golfo do México e o pré-sal brasileiro, situado a 7000 metros abaixo do sal. A questão ética está em decidir explorar ou não essas novas jazidas. Se a resposta for positiva, devemos dar um bom destino a essas riquezas. A riqueza gerada deve ser usada para construir a transição a um mundo pós-petróleo. Assim, buscaríamos uma resposta simultânea aos dois desafios do século: mudanças climáticas e passivo social. Os estômagos vazios não decorrem de um déficit de produção, mas de um déficit do poder de compra. O ambiental deve estar sempre junto com o social, e a crise ambiental recoloca no centro do debate a crise social.

Quanto aos riscos ambientais, como o de um vazamento no mar, ou o impacto negativo do aquecimento global, caberá a nós fazermos a reflexão. Estamos iniciando a substituição da matriz energética suja, e o sucesso dependerá de todo o planeta. Cooperação internacional, certamente, é um dos ingredientes que não poderá faltar.

LARISSA RAMINA é Doutora em Direito Internacional pela USP e Professora da UniBrasil e da UniCuritiba.
Fonte: Opera Mundi

terça-feira, 15 de junho de 2010

África do Sul: Copa do Mundo... dinheiro sujo! - Por ANA


África do Sul: Copa do Mundo... dinheiro sujo!

Cartão vermelho e preto para a Copa do Mundo

A Copa do Mundo de 2010 deve ser exposta publicamente como a grande farsa que é. A Frente Anarquista Comunista Zalabaza (ZACF), da África do Sul, condena veementemente o cinismo e a hipocrisia do governo sul-africano que apresenta este momento como uma oportunidade única "apenas uma vez na vida" para a melhoria da situação econômica e social das pessoas que vivem no país (assim como no resto do continente).

Isto é afirmado claramente - a tal ponto que se torna impressionante - visto que esta “oportunidade” tem sido e continua sendo a ganância desenfreada da elite dirigente sul-africana assim como a do capital, nacional ou internacional. Na verdade, a Copa do Mundo, se tiver algumas conseqüências é provável que estas sejam devastadoras - para os pobres da África do Sul e para a classe trabalhadora - já em pleno andamento.

Na preparação da Copa do Mundo, o governo gastou mais de 8,2 bilhões de rands (cerca de R$ 2 bilhões), por exemplo, mais de 1 bilhão para o desenvolvimento das infra-estruturas e 3 bilhões para reformas e construções de estádios que depois da Copa do Mundo jamais estarão lotados. Isto é um tapa na cara de todos aqueles que vivem num país marcado por uma pobreza extrema e com uma taxa de desemprego que gira em torno de 40%.

Nos últimos cinco anos, os trabalhadores pobres têm vindo a manifestar a sua indignação e decepção face à incapacidade do governo para corrigir as enormes desigualdades sociais, organizando, em todo o país, mais de 8 mil manifestações para exigir serviços básicos (água, eletricidade, saúde...) e habitações dignas.

Esta distribuição dos custos, pelo Estado, é mais uma prova dos equívocos do modelo neoliberal capitalista e das suas políticas econômicas de “racionamento”[1], que só serviram para aprofundar as desigualdades e a pobreza.

Apesar das afirmações anteriores, no sentido contrário, o governo acabou por reconhecer, recentemente que "nunca foi a sua intenção" que este projeto chamado Copa do Mundo fosse beneficiário em termos sociais[2].

A África do Sul precisa desesperadamente de infra-estruturas públicas em grande escala, especialmente na área dos transportes públicos que estão quase totalmente ausentes em algumas cidades, incluindo Johanesburgo. O Gautrain (uma espécie de trem bala), lançado em 8 de junho (na véspera da Copa do Mundo), é provavelmente a grande ironia disto: num país onde a grande maioria das pessoas depende, cotidianamente, para percursos de longa distância, de táxis e lotações, sem condições mínimas de segurança, o Gautrain oferece rapidez, transporte de luxo para turistas e para aqueles que viajam entre Johanesburgo e Pretória (distante apenas 54 km).

O mesmo panorama aparece em toda parte: o Airports Company South Africa (ACSA) gastou mais de 1,6 bilhões rans para a modernização dos aeroportos. Já a Agência Nacional de Estradas Sul-Africanas (SANRAL), privatizada, gastou mais de 2,3 bilhões de rans para uma nova rede de rodovias.

Tudo isso explicará a implementação de medidas de austeridade drásticas para recuperar os bilhões gastos nas infra-estruturas, a maioria dos quais são de interesse nulo para os africanos pobres, a esmagadora maioria do país.

Em toda a África do Sul os municípios estão envolvidos em “esquemas” de revitalização urbana, acompanhados pelos seus inseparáveis programas de gentrificação, com o governo tentado, apressadamente, esconder debaixo do tapete a crua realidade deste país.

Em Johanesburgo, mais de 15 mil sem-teto e crianças de rua foram apanhadas e “despejadas” em "abrigos"; em Cape Town, autoridades do município expulsaram milhares de pessoas das zonas pobres e das favelas no âmbito do projeto "World Cup Vanity" (tornar a cidade agradável para a Copa do Mundo). Em Cape Town tentou-se - em vão - expulsar de suas casas 10 mil moradores da favela Joe Slovo com o objetivo de esconder a população dos olhos dos turistas que viajam ao longo da rodovia N2.

Em outros lugares, populares foram despejados para dar lugar aos estádios, estacionamentos para turistas, ou estações[3]. No Soweto, as estradas foram embelezadas ao longo das rotas turísticas e da sede da FIFA, enquanto as escolas ao redor continuam com as janelas quebradas e as instalações em ruínas.

Apesar de muitos sul-africanos não terem caído neste "canto de sereia", outros são inundados e arrastados pela enxurrada de propaganda nacionalista que visa desviar a atenção do circo que é a Copa do Mundo.

Cada sexta-feira no país foi declarada “Dia do Futebol", onde a “nação” é incentivada (e os alunos forçados) a vestir camisas dos Bafana-Bafana (seleção nacional da África do Sul).

Os carros são enfeitados com bandeiras, as pessoas aprendem a "diski dance", que é constantentemente demonstrado em todos os restaurantes turísticos. Já é praxe comprar a mascote Zakumi. E quem se atrever a manifestar dúvidas sobre a Copa é maculado como antipatriota. O exemplo mais significativo disso tudo foi o apelo das autoridades aos grevistas do Sindicato dos Transportes (SATAWU), para que abandonassem as suas reivindicações pelo “interesse nacional"[4].

Num contexto em que quase um milhão de empregos desapareceram, só no ano passado, as declarações do governo, sobre a criação de mais de 400 mil postos de trabalho devido à Copa do Mundo, são descontextualizadas e ofensivas. Os empregos que foram criados, nesta euforia futebolística, são muitas vezes precários ou CDD (contratos com duração determinada), por trabalhadores que não são sindicalizados e recebem salários muito abaixo do salário mínimo.

Para além da repressão contra os sindicatos, os movimentos sociais têm sentido a mesma hostilidade do Estado, traduzida oficialmente pela proibição geral de todos os protestos durante a Copa do Mundo. Jane Duncan (do Instituto para a Liberdade de Expressão) refere-se, com abundância de provas, que essa política foi colocada em prática a partir do começo de março.

Um inquérito as cidades sede da Copa do Mundo, revelou que uma proibição geral de qualquer reunião está em curso. Assim, no município de Rustenberg, “as concentrações estão proibidas durante a Copa do Mundo”.

O município de Mbombela recebeu a informação, da polícia nacional, de que não seriam permitidos “encontros” durante a Copa. O conselho municipal da Cidade do Cabo informou que não continuaria a receber pedidos para organização de marchas, que “isso poderia ser um problema” durante a realização da Copa. Nos municípios de Nelson Mandela Bay e de Ethekwini, a polícia proibiu manifestações durante o período da Copa do Munde[5].

A Constituição da África do Sul, muitas vezes elogiada pelo seu caráter "progressista", está longe de ser a garantia de liberdade e de igualdade. Esta nova forma de repressão entra claramente em contradição com o direito constitucional à liberdade de expressão e de reunião.

No entanto, os movimentos sociais, em Johanesburgo, incluindo o Fórum Anti-Privatização e vários outros não desistiram, e obtiveram uma autorização para uma marcha e manifestação no dia da abertura da Copa, com a ajuda do Instituto para a Liberdade de Expressão. Porém, a marcha deverá ser confinada a três quilômetros do estádio, onde não atrairá a atenção da mídia.

Não foi apenas o Estado sul-africano que realizou uma repressão severa sobre os pobres e sobre qualquer atividade ou manifestação anti-Copa do Mundo, sob um disfarce que representa a África do Sul como um polvo que estende os seus tentáculos em convite a todos e a todas, para que afluam em rebanhos aos seus hotéis de luxo, os quartos de hóspedes e salões de coquetéis, mas também o império criminal legal a que Josepp Blatter e seus amigos chamam FIFA (admiravelmente nomeada THIEFA (clube dos ladrões em inglês) pelo Fórum Social em Durban).

Prevendo com a Copa 2010 um lucro de aproximadamente 1,5 bilhões de euros, a FIFA já arrecadou mais de 1 bilhão apenas com os direitos de transmissão televisiva. Os estádios e as zonas circudantes foram entregues à FIFA durante o período do torneio (como “casulos livres de impostos”, áreas controladas e vigiadas pela FIFA e isentas do imposto normal e outras leis estaduais sul-africanas), incluindo estradas e pontos de acesso. Dessas regiões serão excluídas as pessoas que vendem produtos não licenciados da FIFA. Assim, os que acreditaram que, durante a Copa do Mundo, iriam aumentar a sua renda de sobreviventes, serão deixados de fora no frio "racionamento" neoliberal.

Mais: a FIFA, como proprietária exclusiva da marca Copa do Mundo e dos seus produtos derivados, dispõe de uma equipe com centenas de advogados e funcionários que percorrem o país para rastrear qualquer venda não autorizada e para fazer marketing da sua própria marca. Os produtos ilegais são apreendidos e os vendedores são presos, apesar do fato da maioria na África do Sul e do continente comprarem os seus produtos no setor do comércio informal. Porque muito poucos sul-africanos têm 400 rand (40 euros) para pagar pelas camisas das seleções e outras “engenhocas” da Copa.

Os jornalistas também foram efetivamente amordaçados neste evento, na hora de se credenciarem, a FIFA incluia a aprovação formal de uma cláusula que impede as organizações de mídia de criticá-la, comprometendo claramente a liberdade de imprensa[6].

A ironia maior desta história toda é que o futebol era originalmente o esporte da classe trabalhadora. Ir assistir aos jogos nos estádios era uma atividade de baixo custo e de fácil acesso para as pessoas que escolhessem passar 90 minutos das suas vidas esquecendo o cotidiano sob a bota do patrão e do Estado.

Hoje, o futebol negócio e a Copa do Mundo trarão lucros exorbitantes para um pequeno grupo da elite mundial e nacional (com milhões de gastos desnecessários, especialmente em um momento de crise capitalista mundial), que cobram aos seus clientes-torcedores- espectadores milhares de rands, dólares, libras, euros, etc., para assistirem futebolistas caindo em excesso e mergulhando em campos super bem tratados e que discutem, através de agentes parasitários, se são ou não dignos de seus salários mirabolantes (Kaká recebe mais de 10 milhões de euros por ano no Real Madri).

O jogo em si, que em muitos aspectos, mantém a sua beleza estética, perdeu a sua alma trabalhadora e foi reduzido a uma série de produtos destinados a serem explorados e consumidos.

Bakunin disse que "as pessoas vão a igreja pelos mesmos motivos que vão a um bar: para hostilizar, para esquecer a sua miséria, para imaginar serem, por alguns minutos, também, livres e felizes”. Talvez possamos dizer o mesmo do futebol negócio, com estas bandeiras nacionalistas agitadas e a sua cegueira, com as estridentes vuvuzelas. Deste modo parece mais fácil de se esquecer do dia a dia, de tomar parte na luta contra a injustiça e a desigualdade.

Mas numerosos também são os que continuam o combate, e a classe trabalhadora, os pobres e as suas organizações não são assim tão maleáveis às ilusões quanto o governo gostaria de crer. Construiremos acampamentos temporários junto aos portões dos estádios onde tiver aglomerações, ações de greve geral - autorizadas ou não.

E apesar dos insultos, das zombarias e os rótulos de "antipatrióticos" e a supressão da liberdade de expressão, vamos fazer ouvir as nossas vozes para denunciar publicamente as desigualdades terríveis que caracterizam a nossa sociedade e os jogos mundiais que se disputam em detrimento da vida daqueles sobre os quais se construíram os impérios que, no fim das contas, serão destruídos.

Abaixo a Copa do Mundo!

Phansi [Abaixo] a repressão do Estado e do nacionalismo que nos divide!

Phambili [Viva] a luta do povo contra a exploração e os lucros!

Mais infos:

› http://www.ukzn.ac.za/ccs/default.asp?2,40,5,2037
› http://antieviction.org.za/
› http://www.abahlali.org/

Frente Anarquista Comunista Zalalaza (ZACF)

Sítio: http://www.zabalaza.net/

E-mail: zacf[arroba] zabalaza[ponto] net

Postnet Suite 47,

Private Bag X1,

Fordsburg, 2033,

África do Sul

Notas:
[1] See Star Business Report, Monday 7th June, 2010.
[2] http://antieviction.org.za/2010/03/25/telling-the-world-that-neither-this-city-nor-the-world-cup-works-for-us/
[3] http://www.politicsweb.co.za/politicsweb/view/politicsweb/en/page71654?oid=178399&sn=Detail
[4] http://www.sacsis.org.za/site/article/489.1
[5] http://www.sportsjournalists.co.uk/blog/?p=2336

Tradução > Liberdade à Solta

agência de notícias anarquistas-ana

dia de chuva –
o sapo cantador
se sente em casa

Carol Ribeiro

Juventude: Pós-modernidade e Capitalismo - Por Rico

Juventude: Pós-modernidade e Capitalismo

Não pensamos mais a juventude como uma época onde a inventividade conquistava o seu último grau. A idéia de juventude como “época de ouro para a criação”, onde tudo aflora, as grandes mudanças acontecem, a criatividade canta, o desejo de novos ares transgride as fronteiras da individualidade para se ver expresso numa coletividade dançante, já não existe mais, agora é outra idéia que se tem da juventude, bem como a própria juventude, sendo tomada por essa idéia nova, transforma-se em outra coisa. Não se trata aqui de uma descoberta alegre, mas antes, de um derradeiro diagnóstico. Seria justo perguntarmos: o que fez a pós-modernidade, o capitalismo pós-moderno, com nossa juventude? Ora, o que se sabe, o que sempre se soube, é que ele a roubou, a violentou, a interiorizou, transformou-a em mais uma engrenagem constitutiva de sua máquina doentia. O capitalismo, na pós-modernidade, engloba tudo (efeito sistêmico da globalização), engole implacavelmente toda a vida. Ele nos roubou até mesmo o ato de criar; a criatividade foi também interiorizada pelo capitalismo e direcionada ao consumo: para vender é preciso criar e criar é inventar rótulos mais chamativos que conquistem o consumidor, propagandas que despertem o desejo de consumo nas pessoas etc.

Retornando à pergunta inicial: o que diabos fez o capitalismo com nossa juventude? Ele a transformou em mercadoria, ele a coisificou; Marx estará sempre certo ao apontar os mecanismos do capital que transformam a vida em mercadoria. A juventude bem como a vida passa a constituir coisas das quais o capitalismo extrai a força necessária a sua maquinaria. No capitalismo, a juventude não tem outro fim que não servir ao capital – capital como fim em si mesmo. Onde encontramos a juventude? Numa embalagem de achocolatado ou de refrigernate, nas boy banbs da indústria cultural, nas espetaculazirações das novelas televisivas, nas revistas de moda, nos slogans das grandes corporações etc. Como tudo na pós-modernidade, a juventude se dissolveu em caracteres fragmentados, em lixo, em item de uma prateleria de supermercado: consome-se juventude quando se assisti a um filme juvenil (Crepúsculo, por exemplo), ou quando se compra uma roupa ou um tênis. O capitalismo não se contenta em produzir mercadorias, mas em produzir a própria vida enquanto mercadoria. Nesse caso, trata-se de vender modos de vida, de pensamento – vida enlatada no processo de consumo massificado; é a vida voltada unicamente para o consumo, como dir-nos-á Bauman.

Esse movimento apropriador do capital, que se apropria da vida para submetê-la às leis do mercado, à massificação dos modos de viver, à lógica do espetáculo da mercadoria, agrava-se e torna a vida cada vez mais doente, cada vez mais horrível. Tanto na legalidade quanto na ilegalidade o capitalismo participa e funciona, ele não pode deixar de funcionar. Quiçá seja daí que venha a irracionalidade da máquina capitalista, que, no entanto, longe de refutar a sua racionalidade, a comprova. Como diz Deleuze “o racional é sempre a racionalidade de um irracional”, logo, antes do irracional refutar o racional, ele o supõe, “no fundo de toda razão, o delírio, a deriva”. Não devemos nos espantar quando percebemos o quão demente são os mecanismos capitalistas, ao contrário, é “precisamente por serem simultaneamente dementes e funcionarem muito bem” que devemos nos espantar.

Embora a pós-modernidade esteja aí para enterrar o desejo de uma juventude renovada, voltada para outras coisas que não o consumo, o acúmulo de capital, o funcionamento da máquina capitalista, penso ainda ser possível tocar músicas alegres. Um piano muito tímido ainda toca em meio às explosões e tiros de metralhadora, quebrando essa harmonia grotesca, de corpos caindo, de gente morrendo, de sangue sendo derramado aos litros. Os focos de resistência são como uma pequena e tímida esperança de dias vindouros. Toda sociedade possui suas linhas de fuga, mesmo que essas linhas de fuga não sejam facilmente percebidas ou estejam em perigo de serem contidas pelos movimentos apropriadores. O que não pode de modo algum ocorrer, é entender aquilo que se sabe sobre o atual estado de coisas, como justificativa para novos conformismos e resignações. Deixar-se subjugar, curvar-se diante dos poderes e aceitar toda opressão, tudo isso é atitude dos fracos de espírito, dos que já estão demasiado enfermos para buscarem modificar o estado deplorável de suas vidas.

Fonte: http://rizomafilosofia.blogspot.com

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Alguns shows acontecem, outros viram lendas - Cro-Mags & Death Before Dishonor



logo mais um comentário sobre o som...

Fishbone Faz Shows No Brasil - Pinheiros/SP - 25.07.2010



Fishbone Faz Shows No Brasil Em Julho
por Wladimyr Cruz


A produtora Web Rockers em parceria com Lost traz ao Brasil pela primeira vez, a cultuada banda americana Fishbone.
Formada em 1979 em Los Angeles, a banda faz uma mistura original e explosiva de ska, funk metal e punk rock. O Fishbone surgiu da mesma cena musical californiana de onde saíram grandes nomes como Red Hot Chili Peppers e Jane's Addiction.
Liderada pelo enigmático vocalista, saxofonista e integrante original Angelo Moore, a formação atual da banda conta ainda com os integrantes originais John Norwood Fisher (baixo) e "Dirty" Walter A. Kibby II (trompete), além de Rocky George (guitarra), John "Wet Daddy" Steward (bateria), Dre Gipson (teclados) e John McKnight (trombone).
O Fishbone está vindo ao Brasil para três shows (dias 23, 24 e 25 de julho), além de uma apresentação especial no dia 22 de julho, apenas para convidados VIPS, no final do Lost Search Band, festival de bandas independentes promovido pela Lost, marca californiana de surfwear e streetwear.
O show do Fishbone em São Paulo acontece no dia 25/julho no Carioca Club, localizado na Rua Cardeal Arcoverde, 2899, no bairro de Pinheiros. A abertura desse show será feita pelas bandas Anjo dos Becos, Yo Ho Delic e Mickey Junkies.

Serviço:
FISHBONE (USA)
Dia: 25/07/2010 (domingo)
Abertura: Anjo dos Becos - Yo Ho Delic - Mickey Junkies
Horário: a partir das 19hrs
Local: Carioca Club - Rua Cardeal Arcoverde, 2899
Bairro Pinheros - São Paulo - SP
Info: (11) 3813-8598 / 3813-4524 / 3814-5711 – www.cariocaclub.com.br
Ingressos:
R$ 50,00 – pista primeiro lote (preço promocional)
R$ 40,00 – pista primeiro lote (meia-entrada para estudantes * apenas na loja Flame)
R$ 70,00 - camarote (preço promocional antecipado * apenas no site Ticket Brasil)
Fonte: Zonapunk

O não do poderoso vizinho - Por Miguel Ángel Rivera

O não do poderoso vizinho

A reunião interparlamentar México-Estados Unidos terminou com resultados contrários aos interesses mexicanos. Diante da negativa estadunidense de controlar o fluxo de armas que tanto afeta o México, a resposta equivalente seria declarar uma política de rotas abertas para o tráfico de entorpecentes.
O artigo é de Miguel Ángel Rivera, do La Jornada.

Para não variar, a reunião interparlamentar México-Estados Unidos terminou com resultados contrários aos interesses mexicanos. Diante da negativa estadunidense de controlar o fluxo de armas que tanto afeta o México, a resposta equivalente seria declarar uma política de rotas abertas para o tráfico de entorpecentes. Certamente, essa decisão nunca vai ocorrer, mas algo precisa ser feito para pressionar aos poderosos vizinhos.

A colheita
Por ocasião de sua viagem a África do Sul, o presidente Felipe Calderón enfrenta, como ocorreu também com Vicente Fox, pressões por atrasos na entrega de recursos aos governos dos estados e municípios. A exigência para a repartição oportuna e completa dos recursos federais renovou-se no final de semana durante a reunião da Confederação Nacional de Governadores em Cidade Vitória. Antes, ocorreu uma reunião de mandatários do PRI, no qual os governadores, junto com seus coordenadores parlamentares e dirigentes partidários, expressaram sua preocupação diante da evidente contenção orçamentária por parte da Secretaria da Fazenda, que afeta gravemente o desenvolvimento nacional. No período janeiro-março, foram executados apenas 1 bilhão de pesos dos 16,63 bilhões destinados a este fim.

Também existe preocupação pelos efeitos negativos dos aumentos de combustíveis. O presidente do PRI no estado de México, Ricardo Aguilar Castillo, afirmou que é uma medida inflacionária que contrai o consumo interno e acrescentou que o governo federal tem mais dinheiro, mas não o gasta e, quando gasta, o faz mal...

Ainda que faltem meses para a troca de direção na Confederação Nacional Campesina, a candidatura do senador Adolfo Toledo como candidato a dirigir a CNC parece ter mudado o equilíbrio de forças e prenuncia um desenlace distinto ao colocado pelas forças dominantes no setor campesino...

A troca de direção naquela que, apesar de tudo, é a principal organização campesina teria repercussões inclusive em programas oficiais como o de fomento das exportações agroalimentares promovido pelo secretário de Agricultura, Francisco Mayorga que, recentemente, anunciou que em 2010 serão investidos pouco mais de 554 milhões de pesos para a realização de campanhas zoosanitárias, pois o fato de que os produtos nacionais estarem livre de enfermidades torna-os mais competitivos nos mercados internacionais.

Decisão
É provável que esta semana saia a decisão definitiva da Suprema Corte de Justiça acerca da tragédia no jardim de infância ABC de Hermosillo, Sonora, e sobre a responsabilidade de atuais e antigos funcionários federais e estatais. Conta a favor do diretor do IMSS, Daniel Karam, as declarações a seu favor da Comissão Nacional de Arbitragem Médica.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer
Fonte: Carta Maior

domingo, 13 de junho de 2010

Os direitos dos animais - Por Catarina Pires


Os direitos dos animais - Por Catarina Pires

Criatividade e consciencialização são palavras de ordem na nova campanha publicitária realizada pela agência WCRS, que assina Born Free “Keep wildlife in the Wild”. Qualquer um de nós tem consciência da quantidade de pessoas, que por falta de recursos ou alternativas, vivem nas ruas. A última campanha da Born Free, pega nesta ideia e coloca animais selvagens, sem lar, em cenários urbanos. A ideia é chocar e sensibilizar para o facto de existirem milhares de animais nestas circunstâncias, animais esses que não tiveram nem têm poder de escolha, pois alguém ou todos nós contribuímos para a destruição do seu Habitat Natural.

É importante referir, que para além do impacto visual esta campanha foca temáticas de facto importantes para a actualidade em que vivemos.

Animais sem casa e a destruição dos habitats naturais, o desenvolvimento e a construção de um número crescente de cidades e estruturas que consequentemente levam a que milhares de espécies animais percam as suas casas, o ambiente selvagem que é destruído sem quaisquer reservas, são temas que a Born Freen pretende abordar e fazer chegar a todos nós, para que a missão de protecção das espécies e conservação do seu habita seja alcançada.


A Born Free é uma fundação que acredita acima de tudo que os animais selvagens tem direito a viver no seu ambiente natural. A destruição destes ambientes e habitats naturais deve-se a um conjunto de factores, tais como a desflorestação, as guerras, as alterações climáticas, a agricultura e o crescimento da população que provoca o aumento dos centros urbanos. Ganhamos e construímos casas, muitas vezes roubando ou retirando a casa a muitos destes animais.

Esta campanha brilhante, usa a fotografia de George Logan e as habilidades criativas da empresa de publicidade WCRS. É importante referir que todos os serviços desenvolvidos e o espaço da publicidade foram doados, de forma a aumentar a consciencialização para este problema e ajudar a Born Free nesta missão. As imagens de animais selvagens colocadas em cenários urbanos, pretendem chocar e alertar para o ritmo alarmante com que a natureza e habitat selvagens são hoje destruídos.




agência WCRS
Catarina Pires de olhos e ouvidos atentos para boas histórias, acredita no poder da imagem e valoriza o poder da palavra. Saiba como colaborar.

Fonte: http://obviousmag.org/

Vencedores e vencidos no impasse israelo-palestiniano - Por Immanuel Wallerstein

Vencedores e vencidos no impasse israelo-palestiniano - Por Immanuel Wallerstein

Quem quer que pense que vai haver alguma mudança significativa no status quo de Israel/Palestina sofre de múltiplas ilusões. O governo israelita é mortalmente contra a criação de um Estado palestiniano, mesmo um Estado palestiniano fraco, e esta posição tem o apoio da larga maioria dos judeus israelitas. Os líderes palestinianos estão mais divididos. Mas mesmo os mais acomodados não querem sequer algo que seja menos que um Estado baseado nas fronteiras de 1967, com Jerusalém oriental como sua capital. Isto chama-se impasse.

A questão é quem ganha e quem perde com o impasse. A elite política israelita parece convencida de que vai ganhar. Há um grande grupo que é tão resolutamente irredentista que considera que um acordo de paz seria um verdadeiro desastre. Os israelitas sempre pensaram que se se entrincheirarem nesta posição, o resto do mundo (incluindo mesmo os palestinianos árabes) vai acabar por render-se ao que chamam de “realidades no terreno”.

Esta política funcionou durante muito tempo. Porquê mudá-la? Contudo, um crescente coro de apoiantes e amigos estão a avisá-los de que o clima político mundial sofreu mudanças, e não no sentido dos israelitas. Apontam que a alternativa a uma solução de dois Estados é a solução de um Estado, e que num só Estado os judeus serão em breve uma minoria da população. Neste caso, se houver sufrágio universal, o Estado já não poderá ser um “Estado judeu”. E se o sufrágio for negado aos não-judeus, o Estado não pode ser considerado sequer remotamente democrático.

No mês passado, um muito conhecido apoiante, Thomas L. Friedman, escreveu uma opinião no The New York Times que causou grande agitação. Intitulada «Conduzindo bêbado em Jerusalém», nela ele repreendia o vice-presidente dos EUA, Joseph Biden, por não ter-se ido imediatamente embora de Israel quando a sua chegada foi recebida com o insultuoso anúncio da construção de novas casas para colonos judeus em Jerusalém oriental. Friedman afirmou que Biden devia ter dito aos israelitas: «Amigos não deixam amigos conduzir bêbados. E, neste momento, vocês estão a conduzir bêbados».

Um segundo amigo de longa data, Leslie H. Gelb, publicou um blog intitulado «Israel brinca com o fogo». Nele, prevê: «Os líderes israelitas não vão gostar da forma como a sua bofetada [em Biden] vai acabar».

Porque é que Biden não fez o que Friedman sugeriu? Há dois tipos de respostas. Uma foi a de Uri Avnery, um dos poucos israelitas consistentemente críticos das posições do seu governo sobre estas questões. Ele disse que o governo israelita mais uma vez cuspiu na cara dos Estados Unidos. Concluiu o artigo com o velho ditado: «“Quando se cospe na cara do fraco, este faz de conta que está a chover”. Aplicar-se-á o mesmo ao presidente do país mais poderoso do mundo?»

A segunda é falar das realidades da política dos EUA. Obama, como outros presidentes dos EUA antes dele, ainda nada fez de sério excepto reiterar o eterno apoio a Israel, apesar de muitos israelitas pensarem que as poucas aberturas aos árabes que ele efectivamente fez (como o discurso no Cairo) já são demasiado. Ainda recentemente, o cunhado do primeiro-ministro israelita foi à rádio do exército israelita acusar Obama de ser anti-semita por causa desse discurso.

O governo dos EUA pouco faz, e nunca fez, porque o apoio à linha dura israelita está espalhado nos EUA. Não se trata apenas da força de um importante e agressivo lóbi pró-israelita, o AIPAC. Não é só o facto de a direita cristã ter adoptado uma posição super pró-sionista. É que os principais políticos democratas estão profundamente comprometidos com este apoio, e Obama tem problemas suficientes com muitos políticos democratas e por isso não tem vontade de lutar com eles ainda numa outra frente.

Vai o governo dos EUA dar prosseguimento a esta política? O apoio a Israel caiu fortemente na Europa ocidental na última década, devido à impenitência, à insensibilidade e à opressividade do comportamento de Israel em relação aos árabes palestinianos – particularmente, mas não só, em Gaza. O apoio às posições de linha-dura israelitas também enfraqueceu entre segmentos significativos da população judia nos Estados Unidos. Mas agora parece ter surgido uma nova fonte de críticas.

Marc Perry revelou num artigo da Foreign Policy que, em 16 de Janeiro, uma equipa de funcionários graduados do Comando Central dos EUA, ou Centcom (responsável pelo Médio Oriente) informou o presidente da Junta de Chefes do Estado-Maior, o almirante Michael Mullen, das preocupações do general David Petraeus, chefe do Centcom, sobre o impasse israelo-palestiniano. Parece que Petraeus e os seus oficiais têm recebido uma mensagem consistentemente crítica de todos os líderes árabes com quem se reúnem. Petraeus aparentemente concluiu: «A América não só é vista como fraca, mas a sua postura militar na região está a ficar enfraquecida». Em poucas palavras, o impasse está a prejudicar os esforços militares dos EUA no Iraque e no Afeganistão.

Conclusão de Perry: há vários lóbis poderosos em Washington – a National Rifle Association, a Associação Médica Americana, os advogados, e evidentemente o AIPAC. «Mas nenhum lóbi é tão importante, e tão poderoso, como os militares dos EUA». Assim, Petraeus advertia Mullen: «A relação da América com Israel é importante, mas não tão importante quanto as vidas dos nossos soldados». Como Petraeus foi colocado no seu posto por George W. Bush e tem sido visto pela direita americana como um intransigente linha-dura em relação ao papel militar dos Estados Unidos no Médio Oriente, dificilmente vão acusá-lo de ser um vendido.

A intransigência israelita compensou no curto prazo. Mas é suicida a médio prazo – como implicitamente apontaram Friedman e Gelb e sublinhou Petraeus. A linha-dura israelita esteve pronta a denunciar quem quer que não a apoiasse a 101%. Mas se pensam que agora podem vencer chamando Friedman e Gelb de “judeus que se auto-odeiam” e Petraeus de “anti-semita”, estão ainda mais iludidos do que eu penso que estejam. Gelb concluiu o seu blog advertindo: «Não é tempo de os líderes israelitas testarem a profundidade e a estabilidade do apoio da América ao seu país».

Netanyahu foi a Washington para ver se conseguia apaziguar o zangado presidente Obama. Parece que não teve sucesso.

O mundo move-se inexoravelmente em direcção à solução de um só Estado (como na África do Sul), seja esta ou não sábia, esteja ou não o governo dos EUA preparado para assumir uma verdadeira linha dura em relação aos israelitas, e considere-a ou não a liderança israelita remotamente aceitável.
Fonte: http://infoalternativa.org/

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Copa 2010: Consenso de Roma sobrevive ao de Washington - Por Breno Altman

Copa 2010: Consenso de Roma sobrevive ao de Washington

O ano de 1990 foi marcante por vários motivos. A última década do século XX abria-se com os derradeiros suspiros da União Soviética e a consolidação da hegemonia dos Estados Unidos. O modelo vitorioso, baseado no predomínio do livre-mercado, era oficialmente adotado como receita oficial pelas instituições financeiras. Em homenagem à cidade onde economistas do FMI, do Banco Mundial e do Departamento do Tesouro norte-americano elencaram seus mandamentos, a fórmula acabou batizada como Consenso de Washington.

No universo paralelo do futebol, a Itália abrigava a XIV Copa do Mundo. Na opinião de muitos analistas, a mais feia e encardida de todas as disputas entre seleções desde 1930. Como se as utopias e os sonhos de uma nova sociedade, fulminados pela derrocada soviética, tivessem seu ocaso transposto, de alguma maneira, também para o império da bola. Mas em um sentido eventualmente inverso: a magia e a arte cediam lugar à tecnocracia e à engenharia.

Com a exceção solitária da esfuziante equipe de Camarões, as demais seleções sucumbiram ao futebol-força praticado pelos europeus, particularmente alemães e italianos. Forjava-se o Consenso de Roma. Bons resultados somente seriam alcançados com estratégias de predomínio defensivo, meio-campo dedicado à marcação, submissão da técnica à tática, velocidade de contra-ataque e substituição do toque e do drible pelos lances aéreos e bolas paradas.

Os argentinos de Maradona e Caniggia, é verdade, resistiram um pouco à ofensiva conservadora. Mas foram apenas uma sombra do selecionado criativo e audaz de 1986. Caíram na final, diante da Alemanha, exibindo um futebol desidratado e sem inspiração. Ao contrário do que ocorrera na copa anterior, quando derrotaram o mesmo adversário em uma partida cheia de emoção e invenção.

O caso mais emblemático de subordinação aos ditames europeus, no entanto, provavelmente tenha sido a seleção brasileira. Pelo papel que representa no imaginário dos estádios, a capitulação do time dirigido por Sebastião Lazaroni expressou momento sublime para a consolidação do futebol-planilha. O Brasil, lendário bastião da liberdade e do espetáculo nos campos da bola, se dobrava à hegemonia de líberos e volantes mesmo às custas da humilhação.

O técnico Lazaroni é um personagem menor, quase insignificante. Mas a ele coube a missão de domesticar o futebol brasileiro depois das derrotas de 1982 e 1986. Não deixa de ser ilustrativo que um treinador irrelevante tenha sido o coveiro da tradição brasileira. Outros vieram depois dele, mais preparados e vitoriosos. O criador da era Dunga, porém, do alto de sua mediocridade, foi quem abriu os portões para a cavalaria tártara do burocratismo ítalo-saxônico.

Essa tarefa somente poderia estar nas mãos de uma figura inexpressiva, que pudesse ser moldada pelos interesses da elite futebolística e seus patrocinadores. O longo tempo sem títulos mundiais atrapalhava os negócios. O estilo reverenciado por Telê Santana passou a ser visto como incompatível com o triunfo e a caixa registradora.

Lazaroni foi parido pelo complexo de inferioridade tão próprio às oligarquias nacionais, inclusive aquelas que mandam no futebol. As derrotas nas duas copas anteriores não podiam ser analisadas, por essa gente e seus áulicos na imprensa, como eventualidades ou acidentes naturais ao esporte. Nada disso: a seleção brasileira tinha perdido porque insistira em ser diferente quando o mundo era cada vez mais homogêneo.

O que veio em seguida é história. O Brasil ganhou e perdeu copas nos marcos desse conservadorismo. Mesmo com alguns jogadores fantásticos, nunca mais voltou a dar espetáculos como na safra do tricampeonato ou nas antológicas derrotas de 1950 e 1982. O medo nos fez escolher sermos iguais aos piores. A vitória de 1994, para tristeza da arte, carimbou essa opção como virtuosa.

Sequer os novatos africanos, a bem da verdade, escaparam dessa força gravitacional que empurra o futebol para o lugar comum. O livre fluxo de atletas e treinadores, determinado pelos recursos financeiros dos clubes europeus, consolidou um pensamento único também no mundo da bola.

Aqui termina, contudo, o paralelo entre os dois consensos. O de Washington, afinal, foi estraçalhado pela crise financeira atual. O de Roma ainda vive em apogeu. Quem sabe alguma seleção terá a coragem de romper com seu primado nos campos da África do Sul. Muito difícil que esse papel seja exercido pelo time de Dunga, o filhote de Lazaroni.

*Breno Altman é jornalista e diretor editorial do Opera Mundi
Fonte: Opera Mundi