sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Falo de um Jesus que se tornou fonte de enriquecimento de pastores inescrupulosos - por Latuff

Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons

Confira a programação da sexta edição do Festival do Filme Anarquista e Punk de SP – por A.N.A.

Confira a programação da sexta edição do Festival do Filme Anarquista e Punk de SP
Quando: 2 e 3 de dezembro de 2017. Onde: Centro de Cultura Social (CCS-SP). Endereço: Rua General Jardim, 253 – Sala 22. Metrô República, São Paulo (SP).

SÁBADO, 2 DE DEZEMBRO

13h30 | 16a2015 – DOOM no Chile + Punky Mauri: Formosamente Violento

16a2015 – DOOM no Chile [Documentário | 43” | 2017 | Basura Existencia | Chile]

Documentário em memória de Fabian, Gaston, Ignacio, Daniel e Robert, mortos durante uma gig onde acontecia a apresentação da banda Doom no Chile. A cada 16 de abril na Alameda 776, punks, amigxs e parentes seguem relembrando-os, e este registro mostra um pouco do que ocorreu naquela fatídica noite, bem como as atividades em memória deles.

Punky Mauri: Formosamente Violento [Documentário | 13” | 2017 | Chile]

Um pequeno registro em memória de Mauricio Morales, anarquista que morreu em 2009 em decorrência da explosão de uma bomba que transportava, e cuja morte foi usada como desculpa para toda uma operação policial de criminalização e montagem contra okupas, anarquistas e punks no Chile. Esta operação, que ficou conhecida como Caso Bombas, foi posteriormente desmontada, ante às inúmeras provas falsas apresentadas pela promotoria.

14h40 | No Gods No Masters Fest 2017 + La Forma: Videofanzine de Contracultura

La Forma: Videofanzine de Contracultura [Documentário | 18” | 2016 | Arlen Herrera | Equador]

Projeto autogestionado e contrainformativo de colaboração conjunta e apoio mútuo, de distintos indivíduos e espaços de Quito, Equador, que em diferentes entornos tem resistido e atuado ali. Este vídeo conta com vários temas dentro da contracultura, como forma de vida, ação, criação e crítica. Partindo de uma crítica comum ao sistema capitalista e a heteronorma imposta, nascem iniciativas e ideias para buscar caminhos diferentes de combatê-la.

No Gods No Masters Fest 2017 [Documentário | 15” | 2017 | Anarco.Filmes | São Paulo/SP]

Autonomia, relações horizontais, faça-você-mesma, senso de comunidade, criação de redes, diálogo, respeito, apoio mútuo… Em imagens, sentidos e palavras, um pouco da segunda edição do No Gods No Masters Fest, em Itanhaém, litoral de São Paulo.

15h20 | Oficina: Um guia prático Anarquista e Punk para uma Autodefesa Digital, por HACKistenZ

Para nós, anarquistas e punks, é mais que necessário nos comunicarmos, de maneira rápida e segura. Pois precisamos planejar ações e fortalecer nossos vínculos e nossa resistência. No entanto, estamos sendo vigiadxs. E pior, estamos sob um tipo de vigilância discreta e silenciosa. Não vemos claramente quem nos vigiam. Pois estes estão muito bem camuflados na internet e até mesmo estão embutidos dentro de nossos computadores e em nossos telefones celulares.

Vivemos em tempos que o combate à vigilância deve ser integrado em nossos hábitos diários. Assim como preparamos nossa comida antes de comê-la, também devemos criptografar nossas informações antes de enviá-las. Assim como escolhemos qual roupa vestir, também devemos nos preocupar com quais softwares usar. Do mesmo jeito que não saímos por ai, pelas ruas, expondo informações sobre nossas vidas e sobre as vidas de compas e de quem amamos para todo o mundo ficar sabendo, também não devemos fazê-lo no ciberespaço.

Se não estamos ainda nos protegendo contra essa vigilância toda, devemos mudar nossos hábitos agora! Mesmo que não consigamos a proteção total, pelo menos dificultaremos a vida de quem nos vigiam. Isto será nossa oficina: “Um guia prático Anarquista e Punk para uma autodefesa digital”. Basicamente discutiremos os seguintes temas, Autonomia diante os softwares, Anonimato na rede, Cypherpunks (criptografia) e Desobediência digital. Cada momento do debate aprenderemos juntxs as ideias fundamentais, quais as principais medidas a serem tomadas por nós, quais programas utilizar e como utilizá-los.

16h30 | Ovarian Psycos

Ovarian Psycos [Documentário | 72” | 2016 | Joanna Sokolowski e Kate Trumbull-LaValle | EUA]

Pedalando a noite pelas ruas perigosas do leste de Los Angeles, as Ovarian Psycos usam suas bicicletas para confrontar a violência em suas vidas. Guiando o grupo está a fundadora Xela de la X, mãe e poeta M.C., dedicada a recrutar mulheres indígenas e negras para o movimento. O filme conta a história de Xela, mostrando sua luta em encontrar um balanço entre o ativismo e sua filha de 9 anos; de Andi, que distante de sua família caminha em direção à liderança do grupo; e de Evie, quem apesar da pobreza e das preocupações de sua mãe salvadorenha, descobre uma nova confiança.

18h00 | Andale! + She´s a Punk Rocker UK

Andale [Curta experimental | 4” | 2017 | Canibal Filmes | Palmitos/SC]

Um filme sobre o mundo de hoje, sobre a necessidade de uma revolução, um levante das massas contra os exploradores, para que o sistema financeiro possa ser todo repensado. Uma visão anarquista do caos que necessitamos para essa mudança ocorrer.

She´s a Punk Rocker UK [Documentário | 67” | 2010 | Zillah Minx | Inglaterra]

Dirigido por Zillah Minx, integrante da banda anarcopunk Rubella Ballet, o documentário retrata um pouco das ideias e histórias de mulheres punks que viveram e participaram da cena punk/squatter inglesa, como Poly Styrene (X-Ray Spex), Eve Libertine e Gee Vaucher (Crass), Olga Orbit (Youth in Asia), entre outras.

DOMINGO, 3 DE DEZEMBRO

13h00 | Dias de Cultura Punk em Fortaleza (30min) + Espaço Korpo Sem Órgãos – Autonomia e Autogestão (50min)

Dias de Cultura Punk em Fortaleza [Documentário | 30” | 2017 | Kalango | Fortaleza/CE]

A cena punk/anarquista no nordeste sempre teve como forte característica a realização de atividades com apoio e participação de grupos/bandas de diversas localidades da região, unindo esforços, sonhos e movidas. Este ano aconteceu o Dia de Cultura Punk, com atividades em Fortaleza/CE, Natal/RN e Campina Grande/PB. Este documentário é um pequeno registro do que rolou na cidade de Fortaleza.

Espaço Korpo Sem Órgãos – Autonomia e Autogestão [Documentário | 50” | 2017 | Korpo Sem Órgãos | Fortaleza/CE]

Relatos, imagens, experiências e vivências deste espaço okupado e autogerido que resistiu na cidade de Fortaleza/CE, em um documentário feito pelas pessoas que passaram pela casa e contribuíram para sua existência.

14h40 | Mais Amor (4min) Noise and Resistence (90min)

Mais Amor [Curta experimental | 4” | 2017 | Biblioteca Terra Livre | São Paulo/SP]

O quanto esse discurso de “mais amor” não esconde uma exigência por passividade e aceitação das desigualdades sociais? Enquanto o capitalismo tortura, pede amor em troca. Enjoados desse falso amor, nos resta exercitar o ódio. É preciso nutrir o ódio de classe. O filme, de maneira tosca e metafórica, propõe uma reflexão sobre essa frase que habita o discurso da manutenção. Mais amor pra quem? Guerra ao sistema!

Noise and Resistence [Documentário | 90” | 2011 | Francesca Araiza Andrade e Julia Ostertag | Alemanha]

Documentário que retrata uma cena política e musical globalmente interconectada, construída a partir de autonomia, solidariedade e da ideia de faça-você-mesma, que declara guerra ao capitalismo e a cultura mainstream. Entre okupas em Barcelona, antifascistas em Moscou, habitantes de parques de trailers autogeridos, garotas de bandas punks suecas, e outros grupos de diversos países, o filme conta um pouco sobre integrantes desta cena, suas motivações, aspirações compartilhadas e ideias de utopia.

16h30 | Debate: A prática do cineclube na era do isolamento digital, com Daniel Fagundes, Sheyla Maria Melo e Gabriel Barcelos

Os cineclubes e mostras surgem como espaços onde as pessoas se reúnem para assistir filmes coletivamente e, muitas vezes, debater e refletir em conjunto sobre as produções e temas que as envolvem. A era da internet, porém, ao mesmo tempo em que possibilitou e facilitou contatos, tem gerado cada vez mais isolamento neste sentido: ao invés de priorizar estes momentos coletivos, o ato de assistir filmes se torna cada vez mais algo para se fazer em computadores pessoais e celulares, muitas vezes individualmente. Como se inserem os cineclubes e sua prática neste contexto?

Sheyla Maria Melo | Co-gestora do grupo Arte Maloqueira, articuladora do projeto Rua de Fazer e do Projeto Comunicação Alternativa, estudante de jornalismo e pedagoga.

Daniel Fagundes | Cinegrafista e Pedagogo, integrante do Núcleo de Comunicação Alternativa.

Gabriel Barcelos | Jornalista sindical, pesquisador, videoativista, ex-organizador da Mostra Luta de Campinas, autor do blog CineMovimento (cinemovimento.wordpress.com)

18h15 | Curdistão: Garotas em Guerra (53min) + Caoticidade (9min)

Caoticidade [Documentário experimental | 9” | 2017 | Diego Duenhas | São João da Boa Vista/SP]

Documentário experimental que propõe uma abordagem diferente sobre o assunto da gentrificação e seus resultados para as cidades e para as pessoas que vivem nelas.

Curdistão: Garotas em Guerra [Documentário | 53” | 2016 | Mylène Sauloy]

O documentário olha para a luta ideológica e militar das mulheres curdas em Rojava, Shengal e Qandil, bem como a história do movimento de mulheres que surge com o PKK. De Paris a Sinjar, mulheres curdas estão tomando em armas contra o ISIS para defender o seu povo. Um grupo de mulheres que se negam a ser vítimas e se mantêm fortes com outras mulheres que são maltratadas.

> Lançamento do zine #1 do Festival do Filme Anarquista e Punk | Depois de 6 anos organizando o Festival, reunimos no papel um pouco de nossas inquietações, questionamentos e visões sobre audiovisual anarquista, prática e produção de vídeo e o uso dessa ferramenta em nossas lutas para compartilhar e ampliar os debates sobre o tema. O zine estará disponível na banquinha durante os dias do Festival!

> Exposição | Festivais de Filme Anarquista pelo mundo | Já tradicional em todas as edições do Festival, estarão expostas imagens de cartazes de festivais de filme anarquista e punk mundo afora.

> Exposição | Crass e faça-você-mesma nas colagens de Gee Vaucher (Inglaterra) | Exposição de colagens e artes enviadas por Gee Vaucher, artista, ex-integrante da banda inglesa Crass e moradora da comunidade Dial House em Essex/Inglaterra, que foram feitas durante o período de existência da banda para as capas, encartes e materiais produzidos na época.

> Venda de salgados e lanches veganos por No Cruelty Vegan Foods.

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agência de notícias anarquistas - ana

Pra que respirar?
posso ouvi-la, fremindo,
maciez de noite.

Soares Feitosa

Falo de um Jesus dos pobres - por Latuff

Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons

Dennis Banks, guerreiro pelos direitos indígenas. Presente! - por Mumia Abu-Jamal

Dennis Banks, guerreiro pelos direitos indígenas. Presente!
No final dos anos 60 e princípios dos 70, dois nomes sobressaíram nas comunidades nativas americanas para significar resistência contra a repressão branca e os ataques a vida indígena: Russell Means e Dennis Banks.

Os dois homens haviam vivido durante um tempo em áreas urbanas dos Estados Unidos, onde conheceram o empobrecimento e o caminho aos sonhos quebrados.

Em um período de resistência massiva e turbulência social manifestada no Movimento Antiguerra e no Movimento de Liberação Negra, Banks era um de milhares de jovens indígenas que se levantaram para falar e atuar pelo bem de seus povos.

Em 1968, depois de sair da prisão, Banks se uniu com Clyde Bellecourt para fundar o Movimento Indígena Americano [conhecido pela sigla em inglês AIM], o qual buscou organizar os dispersos integrantes de vários clãs em um grupo combativo e coeso.

Em seu melhor momento, o Movimento Indígena Americano (AIM) tinha ao redor de 25.000 integrantes.

Os ativistas do Movimento Indígena Americano (AIM) realizaram protestos em locais históricos para chamar a atenção pública para as matanças de povos indígenas no passado e também às injustiças do dia a dia.

Em 1970, Banks e Means declararam o Dia de Graças um dia de duelo, enquanto o Movimento Indígena Americano (AIM) tomou o controle da réplica de um barco denominado Mayflower II em Plymouth, Massachusetts, em um enfrentamento televisado entre indígenas verdadeiros e homens brancos vestidos de indígenas.

Em 1972, centenas de participantes em uma caravana nacional tomaram o Escritório de Assuntos Indígenas durante uma semana em Washington, DC, para protestar contra uma longa série de tratados rasgados.

Em 1973, Banks e outros ativistas do Movimento Indígena Americano (AIM) encabeçaram a tomada do povoado de Wounded Knee (Joelho Ferido) em Dakota do Sul, o mesmo lugar do infame massacre de gente indígena em 1890. A tomada que durou mais de 70 dias se tornou um “ponto quente” de conflito – de conflito armado entre o Movimento Indígena Americano (AIM) e agentes do governo dos Estados Unidos.

Em anos posteriores, Banks se converteu em ator, e suas chamativas feições marcadas se projetaram em um e outro filme.

Também se converteu em educador em várias universidades e escolas para jovens indígenas.

No domingo, 29 de outubro, o guerreiro Ojibwa Dennis Banks estava vivendo na Reserva Leech Lake no Norte de Minnesota, quando fechou seus olhos na mesma terra onde seus olhos se abriram pela primeira vez desde 80 invernos.

Desde a nação encarcerada, sou Mumia Abu-Jamal.


Tradução > Sol de Abril

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agência de notícias anarquistas-ana

Livre gavião
Voa solitário
Na imensidão

Cátia Paiva

Falo de um Jesus negro - por Latuff

Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

“O novo Palácio de Inverno são os Bancos Centrais” - por Antonio Negri

“O novo Palácio de Inverno são os Bancos Centrais”
Para Toni Negri, já surgem os movimentos que reverterão a onda conservadora. Mas é preciso sacudir os programas e métodos da esquerda no século 20 — e abraçar a Renda Universal


Quando nos sentamos ao redor da grande mesa de seu apartamento em Paris, Antonio Negri, aos 84, traz nas mãos um monte de anotações, olhar tenso e ar exigente. Está impaciente com a gripe que o atormenta desde que voltou de viagem ao Brasil, onde lançou seus livro Negri no Trópico As Verdades Nômades.

“Não estou conseguindo trabalhar como gostaria”, diz ele, autor, com Michael Hardt, de uma tetralogia sobre as mutações do capitalismo, composta por ImpérioMultidão, Bem Comum e Assembly [este, ainda sem tradução para o português]. Filósofo de renome internacional, está agora trabalhando na segunda parte de sua autobiografia. O título da primeira parte é revelador: Storia di un comunista (História de um comunista).

Ele já tem planejado um novo volume a ser escrito com Hardt. Entre o desejo spinozista e a prática marxista, Negri não deixa tempo para reminiscências, e conversamos a partir de uma posição contemporânea. Eis sua entrevista. 

Hoje, uma palavra como “revolução” parece merecer crédito apenas de assessores de imprensa pagos para inventar programas eleitorais. Para você, que acreditou tão intensamente na revolução a ponto de mudar radicalmente seu próprio estilo de vida, que significa essa palavra?
Para mim, significa que uma revolução não é feita – ela faz você. É preciso parar desmistificá-la: A revolução significa viver e construir momentos de inovação e ruptura constantemente. A revolução é uma ontologia, não um evento. Não está incorporada num nome, seja Jesus Cristo, Lênin, Robespierre ou Saint-Just.

A revolução é o desenvolvimento de forças produtivas, dos modos de vida comuns, o desenvolvimento da inteligência coletiva. Nunca pensei em fazer uma revolução e assumir o poder no dia seguinte.

Quando era jovem, pensava que o Comitê dos Trabalhadores de Marghera [em Veneza] organizaria a própria sociedade em torno de um conselho de trabalhadores e seus ideais, a partir do modelo da fábrica. Isso foi nos anos 1970. Hoje as coisas são muito diferentes, e existe outro modo de produção: você pode organizar a sociedade a partir de uma renda básica universal, de novos tipos de trabalho, de novas escolas e formas de associação, de novas formas de lazer, escapando do tédio e do desespero em que vivemos.

Nunca pensei que a revolução seria alguma coisa que leva ao poder, mas antes algo que muda o próprio poder. Significa adquirir poder de outra maneira. Essa é uma diferença fundamental: significa não ser concebida de cima pra baixo, mas a partir de baixo. A revolução acontece quando alguém é capaz de mostrar que, hoje, o Comum está emergindo no modo de produção que informa a vida. A revolução não é mais a “parteira da história”, que tem o fórceps nas mãos – é antes a própria criança.

Em comparação com a linguagem e as imagens correntes, sua abordagem sempre foi não-conformista, para dizer o mínimo. Em geral você recebe uma resposta polida de que está sendo otimista, utópico, visionário. Há na esquerda essa atitude sempre impiedosa, realista, ocupada com o esforço voluntarista de unir, ou de evocar aquilo que falta. Onde você se encontra, dessa perspectiva?
Posso responder narrando certo episódio, um caso bem concreto. Há alguns dias, Michael Hardt apresentou nosso livro Assembly em Londres. Ele teve um encontro com a “Momentum”, uma rede de trabalho de base que apoia o Partido Trabalhista e Jeremy Corbyn. O encontro entre jovens e velhos corbynistas é impressionante, pessoas que viveram 1968 e as lutas dos anos 70 e que hoje são puxadas pelo entusiasmo dos mais jovens, que participaram das lutas altermundistas e do movimento Occupy, as mais recentes dessa geração. Quem falta são as pessoas entre 35 e 60 anos, a geração Blair. É nesses encontros que está sendo formada a nova esquerda, e é nessas condições que estamos conseguindo, hoje, nos encontrar e superar as velhas barreiras da cultura social democrata.

No ano passado falou-se muito de Bernie Sanders, nos Estados Unidos. O que pensa da experiência dele?

Estamos em contato com uma amiga que ocupa posição de liderança no movimento de Sanders. Pelo que ela conta, entendemos que o Partido Democrata norte-americano é uma máquina poderosa que é péssima na gestão de si mesma, não reage ao que é novo e impulsiona os clássicos temas social democratas que não são efetivos.

Neste seu livro, você descreve a emergência extraordinária e dramática do movimento norte-americano Black Lives Matter [Vidas Negras Importam]. O que pensa sobre ele?
Black Lives Matter é o futuro. É a expressão de um movimento sem liderança. Há muitos como ele no mundo, e a esquerda deve compreendê-los em toda a sua amplitude: os movimentos dos indígenas, por exemplo, que lutam pela propriedade comum, oferecem experiências extraordinárias. E da mesma forma os novos movimentos feministas, com sua forte subjetividade.

É a própria forma do capitalismo que revela essas novas forças produtivas e essas experiências de ruptura. Isso não é somente um discurso marxista, é um discurso realista, se queremos finalmente nos libertar do “breve século 20″, escapar dessa agonia de uma vez por todas.

Você sempre fala do ponto de vista dos movimentos. Em Assembly, você não faz reticências à análise da crise desses movimentos, e sugere que não deveríamos subestimar “o poder duradouro daqueles que lutam e são derrotados”. O que quer dizer com isso?
Voltemos ao paradoxo Corbyn: a geração de 68 que se encontra com os jovens de hoje. Basta que lhes deem um sinal, e aqueles que então foram derrotados se levantarão novamente. Porque como parte da luta eles aprenderam a generosidade, a cooperação, e conseguiram uma vitória pela solidariedade. Esses são “vícios” que você adquire um dia, e não consegue mais livrar-se deles.

Se alguém pudesse traçar uma história foucaultiana dos movimentos na Itália, seria possível entender como muitos “cínicos”, militantes comunistas coléricos, são encontrados por todo lado. Falo de pessoas que cresceram com o “desejo de saber” e de ação revolucionária, e essa foi a maneira como aprenderam a amar aos outros e à própria vida.

Você escreve que, de 2001 pra cá, os movimentos têm reivindicado um novo começo para a esquerda, mas têm mostrado “pobreza organizacional” e não cresceram ao nível do problema que apresentaram. Não há risco de repetirem os velhos fracassos sem avançar um milímetro sequer?
Precisamos, de uma vez por todas, livrar-nos da ilusão de que alguma outra coisa pode surgir dos movimentos. Os movimentos quase sempre expressam o fim de um discurso – não produzem um evento, antes marcam sua conclusão. Sessenta e oito não foi um evento específico, mas uma construção feita no tempo. Porque antes houve os anos 60, houve uma massa política em nível global durante algum tempo. Na Itália, esse tipo de política foi poderosa o suficiente para durar 10 anos, e foi até o movimento de 1977. Os movimentos hoje não entendem que precisam construir, não apenas colher os frutos.

Tenho ouvido companheiros que vêm do movimento antiglobalização, ou das lutas universitárias, dizendo que depois das manifestações era tempo de criar uma organização. Mas se ainda não tivessem criado antes delas, nunca teriam conseguido realizá-las. Teriam sido apenas identificados pela polícia como aqueles a ser derrotados. Precisamos acabar com essa noção de que o movimento depois vai formar o partido, a coalisão, ter alguma forma de resultado. Os movimentos são eles próprios a força, a essa força será reconhecida.

Os movimentos são a estratégia. Eles não nasceram de um alento do espírito, ou por um mistério que de repente se incorpora à sociedade. Eles são construídos concretamente, passo a passo, junto com milhares de outras pessoas, cada um começando de si próprio. A política é construída em conjunto.

Os sovietes são um modelo para pensarmos, nascidos de um modo de produção especifico, reunindo forças produtivas e sociais. Hoje, num mundo completamente diferente, continuam a ser um instrumento poderoso.

Os sovietes ainda são relevantes?
Hoje temos de construir instituições não-governamentais e não-corporativas. Elas funcionariam tanto na gestão da água como bem comum como na batalha contra a violência policial na França ou nos Estados Unidos, nas grandes lutas indígenas da América Latina e nas lutas feministas. A invenção de uma nova estrutura política pode nascer apenas da conexão entre essas forças. Uma instituição não é criada por um soberano, mas pela necessidade de estar juntos, de produzir e viver juntos.

Essa era a ideia básica dos sovietes: organizar o modo como existimos juntos numa sociedade industrial, onde a cooperação social está num nível avançado e tem capacidade de exercer o poder por meio da construção política de uma força produtiva.

No livro, você usa uma expressão interessante para descrever essa construção: “o empreendedorismo de multidão”. O que isso significa?
Estão nos atacando por causa desse conceito em algumas críticas no mundo anglo-saxão. Empreender, dizem eles, não pode ser separado de neoliberalismo. Mas penso que, hoje, a relação entre empreendedorismo e instituição – do verbo latino instituere – é algo que poderia ser estudado em toda a sua profundidade. O trabalho é sempre um istitutio. Mas atualmente essa capacidade está sendo destruída ou escondida sob um falso conceito de liberdade.

Criar um empreendimento significa deixar a força de trabalho livre para organizar-se. Esse é o discurso político que o capitalismo está roubando dos trabalhadores. Acreditamos porém que se começa a fazer política quando a força de trabalho ganha capacidade de organizar-se produtivamente.

E tudo isso deve ser alcançado por meio de um partido? É isso que você sustenta?
Absolutamente não. Hoje, a autonomia da política não é mais leninista – ela é o populismo. Em cada tempo, a autonomia da política é qualificada de um modo, se o desejo é de evitar falar dela em termos gerais. E atualmente a autonomia da política foi reduzida a um jogo de linguagem que usa categorias institucionais, com a intenção de construir um povo submisso.

Estou lendo sobre o que está acontecendo na Itália, onde a legislação eleitoral tornou-se há muito tempo o locus central desse uso discriminatório da política. É manipulação pura e simples das pessoas e do consenso geral.

Em jogo encontra-se não apenas um critério mínimo de representação, que penso estar cada vez mais em crise, mas algo mais profundo: O objetivo é impedir que as pessoas façam experimentos com novas formas institucionais e produtivas de autogovernar-se.

A social democracia está em crise, que muita gente acredita poder ser superada através de uma “versão de esquerda” do populismo. Você pensa que o Podemos ou o trabalhismo de Corbyn podem ser interpretados dessa maneira?
O populismo de esquerda é um populismo de “substituição”. Duvido que essa lógica, teorizada pelo filósofo argentino Ernesto Laclau, possa algum dia inventar fórmulas diferentes das do “socialismo nacional”. Na Espanha houve um grande debate dentro do Podemos sobre essa questão. E a tendência nacional-populista venceu.

A controvérsia foi com os movimentos, em torno do papel do partido em relação a eles: se deveria apoiar os movimentos e criar uma coalizão ou ser um partido clássico capaz de encontrar seus eleitores. Venceu o populismo de “substituição”, não um projeto de reforma da esquerda.

Na outra ponta do espectro do populismo, Alice Weidel, do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), representa uma reversão sensacional das posições dos movimentos: lésbica, casada com uma cidadã do Sri Lanka, trabalhou para a Goldman Sachs e a Allianz, ao mesmo tempo apoia políticas xenofóbicas e islamofóbicas e é contra o casamento de pessoas do mesmo sexo. O que essa figura representa?
Representa o vazio que se reproduz a si mesmo. Como outras figuras, ela não é um sujeito, mas um produto. Tal produto nasce apelando ao pior dos instintos e chega ao ponto da contradição mais absurda com o que realmente acontece em sua própria vida. É a isso que leva o populismo, em sua essência: criar um povo que é inclusive contra a própria realidade. Essa contradição está ligada ao conceito de nação, e depois, na ordem, ao de pertencimento regional e familiar. Articulam-se dessa maneira formas de propriedade e de fronteira. O grande risco é o da corrupção que emerge daí. Vi no decorrer da minha vida muita gente fazer coisas terríveis em nome da família, incluindo as piores formas de corrupção. Por trás dessas formas de filiação há apenas barbárie e tribalismo.

Quais os outros tipos de populismo?
Trump é um exemplo claríssimo. Macron, na França, é parecido com ele à sua própria maneira, embora se comporte como um tecnocrata que leva direita e esquerda em direção ao centro, de acordo com o projeto de Juppé.

À esquerda e à direita, encontramos vários populismos “renovados”. No grupo Mediaset, no caso de Berlusconi; online no caso do Movimento 5 Estrelas. Melenchon, na França, distingue entre a soberania popular – a da Revolução de 1789 – e o soberanismo, que seria um conceito de direita; entre o ideal de “nação” e o de “nacionalismo como etnicismo”.

Nesse e em outros casos, tais como entre os bolivarianos da América do Sul, as pessoas nunca refletem suficientemente sobre o fato evidente de que são os setores dominantes e os ricos que conduzem o processo e falam em nome dos muitos.

É possível inclusive que essa ideia de “populismo” produza uma reviravolta contra os movimentos, particularmente nos de imigrantes, amplificando um “senso comum” xenófobo e racista. Um risco que se pode entrever também no trabalhismo inglês ou no Partido de Esquerda [Die Linke] alemão. Como explicar essa ambivalência?
Há duas ideias que jamais seremos capazes de separar da social democracia herdeira do “século breve”: as de propriedade e de fronteira. São uma bactéria mortal, hoje enraizada no coração da Europa, quando se constroem muros ou quando se movem as fronteiras através do Mediterrâneo, condenando imigrantes à morte nos campos da Líbia.

Rousseau dizia que o maior criminoso já nascido foi aquele que disse, antes de todos: “Isso é meu”. Mas houve um criminoso ainda maior, Rômulo, que disse: “Essa é minha fronteira”. São a mesma coisa, propriedade e fronteira.

A social democracia amadureceu essa cultura depois de 1848, com a revolução romântica. Estou pensando em Mazzini. Ele foi, desse ponto de vista, o primeiro democrata social – apoiou a República Popular e a centralidade da nação, dois elementos que sempre exibiram uma síntese reacionária, popular-nacionalista. A segunda Internacional Socialista foi atravessada por esse espírito contra o internacionalismo comunal e tentou combinar nacionalismo e revolução.

Por outro lado, o bolchevismo foi formidável do ponto de vista da revolução mundial porque unificou o comunismo, o anti-imperialismo e o anticolonialismo. A tragédia do anticolonialismo foi o retorno do nacionalismo.

Isso levou a um grande erro, ainda hoje recorrente nas decadentes políticas centristas: pensar que a aliança do proletariado com as classes médias e progressistas é um passo estratégico, e não meramente tático. Os vários tipos de populismo estão repetindo atualmente o mesmo erro: pensam que o conceito de nação anula o de classe. É um problema que ainda temos de confrontar.

Ouvimos cada vez mais frequentemente que a alternativa ao neoliberalismo e a crise são o trabalho, o pleno emprego, o keynesianismo, as nacionalizações. Isso é um solução?
Essas são propostas que continuam presas à agonia do “século breve”, em que ainda nos encontramos. Estamos até agora discutindo alternativas que já se mostraram ineficazes: formas de socialismo nacional e de Estado, e um liberalismo corporativo e privado. Continuamos reféns da distinção entre público e privado, e não enxergamos tudo o que se passou por baixo e atravessou o século 20 até hoje. E o que aconteceu?

A derrota da ideologia do privado e do público, por causa da transformação do modo de produção. Há um novo agrupamento das forças produtivas, determinado pela transformação do trabalho, que o tornou comum e singularizado, removendo-o tanto da esfera privada quanto da pública. É uma força de trabalho que funciona apenas cooperativamente. Quer dizer, de maneira cada vez mais comum. O problema hoje é a organização da produção social e a distribuição de renda, não o pleno emprego.

A distinção entre o trabalho/emprego e a nova capacidade laboral e cooperativa é o elemento central do debate, e envolve consequências radicais na esfera fiscal, assim como políticas sociais e industriais profundamente diferentes daquelas do passado.

A esquerda e os sindicatos sustentam que um Estado “inovador” será capaz de criar tecnologias revolucionárias na green economy, nas telecomunicações, na nanotecnologia ou na área farmacêutica. As novas instituições de que fala no livro vão para além do Estado; qual a relação delas com essa categoria que volta a ter sucesso?
Que venha esse Estado, desejo que tenha boa sorte. Contudo, permita-me notar que esses setores se encontram no mercado, organizados como mecanismos para extrair valor socialmente produzido, e como tais são protegidos, ainda que precariamente, pelo Estado.

Em Assembly, nós nos perguntamos se essas maravilhas tecnológicas podem estar sujeitas a escolhas e decisões democráticas. Respondemos que não. Não até que se reconheça o sistema de exploração extrativo e proprietário (patentes, rendas financeiras, organizações monetárias) no qual operam essas indústrias; e até que esse reconhecimento seja seguido de um processo democrático de reapropriação dos bens comuns.

Agora é o momento de reapropriação do comum por parte de seus produtores, e de reorientação democrática da gestão do comum: não é o Estado, mas os produtores quem têm de dizer para que servem essas tecnologias, que benefícios e que desvantagens acarretam.

A força de trabalho está cada vez mais organizada por plataformas digitais: Uber, Deliveroo ou Task Rabbit. O poder dos “senhores do silício” é tão amplo que leva a acreditar que o algoritmo transmite uma ideia popular e transparente de democracia. A revolução digital conduz a isso?
Nessas plataformas, os trabalhadores não pensam desfrutar de um maior grau de democracia! E lutam e resistem a uma exploração bestial. É importante, todavia, que se coloque o problema: é possível reverter o funcionamento do algoritmo de comando das plataformas digitais? Longe de imaginar reversões utópicas das plataformas digitais em circuitos de cooperação, só será possível dominar esses monstros mediante o desmantelamento das condições políticas nas quais o algoritmo é imposto: as do direito privado e sua legitimação estatal.

Mark Zuckergerg do Facebook admitiu a importância da renda básica. Será o Vale do Silício a realizar aquela que é definida como uma utopia concreta?
Zuckerberg nos obriga a estudar as maneiras por meio das quais a tecnologia e a atividade laboral se entretecem na produção e no uso das mídias sociais. É lá, naquele espaço, que paradoxalmente torna-se possível reconstruir a democracia. Creio que é nesse espaço que vai ser reaberta a busca dos revolucionários: o espaço que, mutatis mutandis, há 150 anos Marx analisou no primeiro volume de O Capital. Lá, onde o homem se defronta com a exploração de novas máquinas e de novos patrões, é que renasce a classe e que a revolução se repropõe.

Então você está convencido de que somente uma renda básica nos salvará?
Não, é óbvio que em si mesma ela não pode resolver o problema. É o elemento preliminar, e também central, para a reorganização social baseada no Comum e a superação das categorias de propriedade privada e pública. É no terreno financeiro que é preciso confrontar-se. O problema é o comando das finanças. O Palácio de Inverno hoje são os bancos centrais.

Entrevista a Roberto Ciccarelli, na Euronomade | Tradução: Inês Castilho | Imagem: Stelios Faitakis

Temerosa republiqueta de bananas! - por Latuff

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terça-feira, 14 de novembro de 2017

Gilmar Mendes salva procurador investigado por retardar processo do trensalão – Jornal GGN

Gilmar Mendes salva procurador investigado por retardar processo do trensalão
Jornal GGN - O ministro Gilmar Mendes anulou uma investigação que a Corregedoria do CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) instaurou em 2013 contra o procurador Rodrigo De Grandis. Ele foi acusado de ter enrolado demais para repassar à Suição informações solicitadas sobre o caso Alstom, também conhecido como trensalão tucano. O esquema de corrupção atravessou governos do PSDB de São Paulo.

Segundo reportagem do Estadão desta terça (14), Gilmar Mendes analisou um mandado de segurança (MS 33347) no qual determinou que não era papel da Corregedoria do CNMP abrir um processo administrativo disciplinar (PAD) contra De Grandis por "ato monocrático".
 
O caso estava congelado desde dezembro de 2014, quando Gilmar concedeu ao procurador uma liminar suspendendo a sindicância determinada pelo corregedor nacional. 
 
Estadão destacou ainda que a primeira investigação do CNMP apontou que De Grandis não deu encaminhamento exemplar aos pedidos de cooperação internacional feitos pela Suíça, mas ainda era cedo para constatar conduto culposa ou dolosa.
 
No MS, Gilmar apontou que o corregedor só poderia ter reaberto a sindicância contra o procurador com a confirmação do ato no plenário do CNMP, e não por ofício.
 
O ministro do Supremo ainda ponderou que o processo contra De Grandis não respeitou o "contraditório e a ampla defesa".
 
"Por essas razões, o ministro manteve a decisão na qual deferiu a medida cautelar e julgou procedente o Mandado de Segurança para anular o ato do corregedor nacional do Ministério Público nos autos da reclamação e os atos subsequentes", publicou o Estadão.
 
A morosidade na condução do caso Alstom por De Grandis inviabilizou, segundo reportagem do Estadão em 2016, que os envolvidos no esquema de corrupção pudessem ser acusados de formação de quadrilha, porque o crme prescreveu. 
 
A Procuradoria disse que a demora - oito anos! - ocorreu por culpa da Polícia Federal, que concluiu o inquérito em dezembro de 2014 sem aguardar o envio de uma série de documentos de países europeus com quem o Ministério Público Federal firmou acordos de cooperação internacional em busca de comprovantes das movimentos financeiras. 
 
Mas a PF rebateu essa versão e apontou que o inquérito já estava recheado de argumentos construídos, inclusive, com ajuda internacional, e que os dados dos acordos celebrados posteriormente pelo MPF eram secundários. Ou seja, a Procuradoria de São Paulo poderia ter oferecido uma denúncia formal no caso Siemens há pelo menos dois anos.
 

A América e sua saga pela morte alheia – por Latuff

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segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Clinton, Assange e a guerra à verdade - por John Pilger

Clinton, Assange e a guerra à verdade
Em 16 de Outubro a Australian Broadcasting Corporation (ABC) divulgou uma entrevista com Hillary Clinton: uma das muitas destinadas a promover o seu livro-de-ajuste-de-contas sobre o porquê de não ter sido eleita Presidente dos EUA.

Folhear o livro da Clinton, What Happened (O que aconteceu), é uma experiência desagradável, como uma dor de barriga. Calúnias e lágrimas. Ameaças e inimigos. "Eles" (os eleitores) foram objecto de uma lavagem ao cérebro e foram arrebanhados contra ela pelo odioso Donald Trump com a cumplicidade de eslavos sinistros enviados da grande treva conhecida como Rússia, apoiados por um "niilista" australiano, Julian Assange.

Em The New York Times foi publicada uma notável fotografia de uma jornalista a consolar Clinton, que acabara de entrevistar. A líder perdedora era, acima de tudo, "absolutamente feminista". Os milhares de vidas de mulheres que esta "feminista" destruiu quando no governo – Líbia, Síria, Honduras – eram irrelevantes.

Na revista New York, Rebecca Traister escreveu que Clinton finalmente exprimia "alguma legítima indignação". Até lhe era difícil sorrir: "tão difícil que os músculos da cara lhe doíam". Certamente, concluía, "se atribuíssemos aos ressentimentos das mulheres o mesmo destaque que concedemos aos rancores dos homens, a América seria forçada considerar que todas estas mulheres iradas poderão ter algo a dizer".

Patacoadas deste tipo, trivializando a luta das mulheres, vêm marcando as hagiografias mediáticas de Hillary Clinton. O seu extremismo político e o seu belicismo não têm importância. O seu problema, escreveu Traisler, foi "as pessoas terem-se fixado em seu prejuízo nas histórias dos correios electrónicos". Ou seja, terem-se fixado na verdade.

Os emails divulgados do director de campanha de Clinton, John Podesta, revelaram uma ligação directa entre Clinton e o apoio e financiamento do jihadismo organizado e do Estado Islâmico (ISIS). A fonte principal do terrorismo islâmico, a Arábia Saudita, desempenhou um papel central na sua carreira.

Um email de 2014, enviado por Clinton a Podesta pouco depois de ela ter deixado o cargo de secretária de Estado, revela que o Estado Islâmico é financiado pelos governos da Arábia Saudita e do Qatar. Clinton aceitou vultosos donativos de ambos governos para a Fundação Clinton.

Como secretária de Estado aprovou a maior venda mundial de armas aos seus benfeitores, no valor de mais de $80 mil milhões. Graças a ela as vendas de armas dos EUA em todo o mundo – a serem usadas em países agredidos como o Iémen – duplicaram.

Isto foi revelado pela WikiLeaks e publicado por The New York Times. Ninguém duvida que os correios electrónicos são autênticos. A campanha subsequente para denegrir WikiLeaks e o seu editor em chefe, Julian Assange, como "agentes da Rússia" ampliou-se até uma espectacular fantasia conhecida como "Russiagate". Diz-se que o enredo teria a assinatura do próprio Vladimir Putin. Não existe a mínima prova.

A entrevista do ABC Australia à Clinton é um exemplo notável de difamação e censura por omissão. Diria mesmo que é modelar nesse aspecto.

"Ninguém", diz Clinton à entrevistadora, Sarah Ferguson, "poderia ter deixado de se comover perante a dor que a sua face exprimia naquele momento [da tomada de posse de Trump] … recorda-se de quão visceral foi para si?".

Tendo estabelecido o sofrimento visceral de Clinton, Ferguson pergunta acerca do "papel da Rússia".

Clinton: Penso que a Rússia afectou as percepções e as opiniões de milhões de eleitores, sabemo-lo agora. Penso que a intenção deles, vinda do próprio topo com Putin, era prejudicar-me e ajudar Trump.

Ferguson: Em que medida isso era uma vingança pessoal de Vladimir Putin contra si?

Clinton: … Quero dizer que ele quer desestabilizar a democracia. Quer minar os EUA, quer perseguir a Aliança Atlântica e nós consideramos a Austrália como uma espécie…uma extensão disso….

A verdade é o oposto. São as forças armadas ocidentais que se estão a concentrar na fronteira russa pela primeira vez desde a Revolução Russa, há 100 anos.

Ferguson: Quanto [Julian Assange] a prejudicou pessoalmente?

Clinton: Bem, eu tive uma grande história com ele porque quando era secretária de Estado a WikiLeaks publicou uma quantidade de informação sensível do nosso Departamento de Estado e do nosso Departamento de Defesa.

O que Clinton não diz – e a sua entrevistadora não lhe lembra – é que em 2010 a WikiLeaks revelou que a secretária de Estado Hillary Clinton havia ordenado uma campanha secreta dos serviços de informações visando dirigentes da ONU, incluindo o secretário-geral Ban Ki-moon e os representantes permanentes da China, Rússia, França e Grã-Bretanha no Conselho de Segurança. Uma directiva classificada, assinada por Clinton, foi enviada a diplomatas dos EUA em Julho de 2009, solicitando detalhes técnicos forenses sobre os sistemas de comunicações utilizados pelos funcionários de topo da ONU, incluindo palavras-passe e chaves pessoais de codificação utilizados em redes privadas e comerciais.

Ficou conhecido como Cablegate. Era espionagem fora da lei.

Clinton: Ele [Assange] é muito claramente um instrumento dos serviços de informações russos. E fez aquilo que lhe pediram.

Nem Clinton apresentou qualquer prova que fundamentasse esta grave acusação, nem Ferguson a contestou.

Clinton: Não se vê informação negativa e prejudicial acerca do Kremlin a ser filtrada em WikiLeaks. Não se vê nada disso publicado.

Isto é falso. A WikiLeaks já publicou uma volumosa quantidade de documentos sobre a Rússia – mais de 800 mil, na sua maioria críticos, muitos dos quais utilizados em livros e processos judiciais.

Clinton: Portanto penso que Assange se tornou uma espécie de niilista oportunista que serve um ditador.

Ferguson: Muita gente, incluindo na Austrália, pensa que Assange é um mártir da liberdade de opinião e da liberdade de informação. Como é que o descreveria? Acabou de o descrever como niilista.

Clinton: Sim, e também como um instrumento. Quero dizer que ele é um instrumento dos serviços de informações russos. E se ele é tanto um mártir da liberdade de opinião, porque é que WikiLeaks nunca publica nada que saia da Rússia?

Ferguson, de novo, nada disse para contestar isto ou para a corrigir.

Clinton: Houve uma operação concertada entre a WikiLeaks e a Rússia e muito provavelmente pessoas nos EUA no sentido de instrumentalizar essa informação, de inventar histórias… de ajudar Trump.

Ferguson: Agora, juntamente com essas histórias insólitas, havia informação revelada sobre a Fundação Clinton que pelo menos no espírito de alguns eleitores pareceu associá-la a…

Clinton: Sim, mas era falso!

Ferguson: … tráfico de informações …

Clinton: Era falso! Era totalmente falso!….

Ferguson: Compreende quão difícil era para alguns eleitores entender os volumes de dinheiro que a Fundação [Clinton] estava a receber, a confusão com a consultoria que estava também a obter fundos, a receber ofertas e viagens e outras coisas para Bill Clinton, a ponto de a própria Chelsea estar também a ter alguns problemas com isso?…

Clinton: Olhe Sarah, desculpe, quer dizer, eu conheço os factos…

A entrevistadora da ABC louvou Clinton como "o ícone da sua geração". Não lhe perguntou nada acerca das enormes somas que ela arrecadou da Wall Street, tais como os US$675 mil que recebeu por uma conferência no Goldman Sachs, um dos bancos no centro do crash de 2008. A ganância de Clinton perturbou profundamente o tipo de eleitores que ela insultou como "deploráveis".

À procura claramente de uma manchete fácil para a imprensa australiana, Ferguson perguntou-lhe se Trump "representava um perigo claro actual para a Austrália", e obteve a resposta previsível.

Esta famosa jornalista não fez qualquer menção ao "perigo claro e actual" que Clinton representou para o povo do Irão, a quem uma vez ameaçou de "obliterar totalmente", nem aos 40 mil líbios que morreram no ataque à Líbia em 2011 por ela orquestrado. Ruborizada de excitação, a secretária de Estado rejubilou-se com a morte horrenda do líder líbio, coronel Khadafi.

"A Líbia era a guerra de Hillary Clinton", disse Julian Assange numa entrevista filmada comigo no ano passado. "Barack Obama inicialmente opôs-se a ela. Quem a defendia? Hillary Clinton. Está documentado em toda a extensão dos seus emails…há mais de 1.700 mensagens, de um total de 33 mil que publicámos, só sobre a Líbia. Não se trata de a Líbia ter petróleo barato. Ela concebia a remoção de Khadafi e o derrube do Estado líbio como algo que utilizaria na corrida às eleições presidenciais.

"Já em 2011 havia um documento interno chamado o Líbia Tick Tock que foi produzido para Hillary Clinton. É a descrição cronológica de como ela era a figura central na destruição do Estado líbio, a qual resultou em cerca de 40 mil mortos no interior da Líbia, na entrada dos jihadistas e do ISIS no país, levando à crise europeia de refugiados e migrantes.

"Não só havia pessoas a fugirem da Líbia, a fugirem da Síria, a desestabilização de outros países africanos em consequência do fluxo de armamentos, como também o próprio Estado líbio deixara de estar em condições de controlar o movimento de pessoas através dele.

Isto – não o sofrimento "visceral" de Clinton por perder para Trump nem o resto das patacoadas em defesa própria na sua entrevista com a ABC – é que era a história. Clinton partilha a responsabilidade pela desestabilização maciça do Médio Oriente que conduziu à morte, ao sofrimento e à fuga de milhares de mulheres, homens e crianças.

Ferguson não disse nem uma palavra acerca disto. Clinton difamou repetidamente Assange, o qual nem foi defendido nem lhe foi oferecida a possibilidade de responder na cadeia de comunicações pública do seu país.

Num tweet enviado de Londres, Assange citou o Código de Práticas da própria ABC que diz: "Quando forem feitas alegações sobre uma pessoa ou uma organização, devem ser realizados os esforços razoáveis na circunstância para proporcionar uma justa oportunidade de resposta".

Na sequência da transmissão da ABC, a produtora executiva de Ferguson, Sally Neighbour, re-tweetou o seguinte: "Assange is Putin's bitch.
We all know it!" ("Assange é a gaja de Putin. Todos nós sabemos disso!")

O insulto, depois apagado, até foi utilizado como link para a entrevista da ABC intitulada: Assange is Putins (sic) b****. We all know it!

Ao longo dos anos, desde que conheci Julian Assange, tenho testemunhado a insultuosa campanha pessoal procurando detê-lo e deter a WikiLeaks. Tem sido um ataque frontal aos denunciantes, à liberdade de opinião e ao jornalismo livre, todos os quais estão agora sob ataque constante de governos e dos controladores corporativos da Internet.

Os primeiros ataques partiram do Guardian que, tal como um amante rejeitado, se voltou contra a acossada fonte que antes utilizara, depois de ter lucrado amplamente com as revelações de WikiLeaks. Sem que nem um centavo fosse para Assange ou para a WikiLeaks, o livro do Guardian levou a um lucrativo negócio com um filme de Hollywood. Nele Assange era retratado como "frio e indiferente" e uma "personalidade perturbada".

Foi como se um ciumento desesperado se recusasse a aceitar que os seus feitos estivessem em contraste agudo com o que faziam os seus detractores nos media "de referência". É como observar os guardiões do status quo, indiferentes aos tempos, debatem-se para silenciar a dissidência real e impedir que surja novamente a esperança.

Actualmente Assange continua como refugiado político do sombrio estado fazedor de guerras do qual Donald Trump é a caricatura e Hillary Clinton a corporização. A sua resistência e coragem é assombrosa. Ao contrário dele, os que o atormentam são covardes.


20/Outubro/2017
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

ANVISA aprova mais um veneno em nossa mesa! - por Latuff

Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons

A liderança de Israel lidera outra guerra com o Hezbollah no Líbano - por Latuff

Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons

Nota de denúncia e perseguição política de anarquistas no Rio Grande do Sul, ou, uma denúncia de “Apate” e sua perseguição a “Érebo” – A.N.A.

Nota de denúncia e perseguição política de anarquistas no Rio Grande do Sul, ou, uma denúncia de “Apate” e sua perseguição a “Érebo”
Iniciativa Federalista Anarquista no Brasil diante da operação policial Érebo contra anarquistas na Região do Rio Grande do Sul vem afirmar o direito e a liberdade humanos dos explorados e oprimidos se auto-organizarem economicamente, socialmente e politicamente.

O pensamento e a prática anarquistas não são crimes. Os indivíduos, coletivos e organizações anarquistas não podem ser criminalizados pelo Estado Brasileiro com base em sua escolha cultural, filosófica, social e econômica: o anarquismo.

Denunciamos ao mundo a tentativa de perseguir e criminalizar mais uma vez a livre expressão e a organização anarquistas no Brasil como já ocorrido no século vinte com as leis Adolfo Gordo (7 de janeiro de 1907) e Lei de Segurança Nacional (4 de abril de 1935) atualizada em 14 de dezembro de 1983 e em vigência. E aprimoradas nos dias de hoje com as leis do terrorismo (16 de março de 2016) e lei do crime organizado (2 de agosto de 2013).

Anarquistas, movimentos sociais e movimentos populares são alvo de infiltrações policiais, forja de provas, peças processuais ficcionais e investigações infundadas pois não partem de fatos e sim de ignorância, preconceitos, e as vezes de perseguição política e ideológica.

Lamentamos profundamente o cancelamento da 8ª Feira do Livro Anarquista em Porto Alegre. Um momento e um espaço singular para promoção da cultura, da vivência educacional, da celebração social. Um esforço construído com dedicação de pequenas editoras, poetas, escritores, trabalhadoras, estudantes, professores, artistas, pesquisadores, punks tendo como objetivo divulgar e promover a igualdade econômica, a justiça social e a liberdade.

Nos solidarizamos com os espaços invadidos e com as pessoas companheiras dos coletivos da Ocupa Pandorga, do O Instituto Parrhesia Erga Omnes e da Biblioteca Kaos afetados diretamente com a captura de computadores, telefones celulares, livros, brochuras e o mais absurdo que é a detenção com privação de liberdades de ativistas destes espaços. Também solidarizamos com a FAG por sua citação no mandado da operação e associação com os fatos ocorridos.

Exigimos divulgação e transparência no inquérito instalado na operação Érebo, exigimos a devolução dos equipamentos de computação e telefones móveis, exigimos a devolução das obras confiscadas na citada e injustificada operação.

Reafirmamos que o anarquismo não é crime no Brasil, na América, na África, na Europa, Ásia ou Oceania. O anarquismo, desde 1840 até nossos dias é uma expressão filosófica, política, social e econômica presente na cultura humana especialmente nos movimentos de trabalhadores, gays, lésbicas, transexuais, negros, quilombolas, do abolicionismo penal, indígenas, ambientalistas, saúde mental e tantos mais onde se luta pela justiça social, a igualdade econômica e a liberdade.

Repudiamos veementemente as sucessivas tentativas de criminalização dos anarquistas que ocorrem a partir das manifestações populares de 2013.

Denunciamos mundialmente o caráter de perseguição política e criminalização dos anarquistas no Rio Grande do Sul e no Brasil.

Afirmamos o direito dos anarquistas como todos outros neste planeta a se organizarem individual e coletivamente, de defenderem seus princípios, expressarem suas ideias, realizarem suas práticas sociais, educacionais, econômicas, políticas tendo em consideração que a liberdade do indivíduo se amplia no encontro com a liberdade do outro.

Iniciativa Federalista Anarquista

Novembro 2017


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o céu resfria
a lua vestiu
uma charpa de bruma

Rogério Martins