segunda-feira, 13 de agosto de 2018

O Estado Assassino Judeu e seu eterno genocídio contra os Palestinos de Gaza – por Latuff

Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons

RJ – Chamado Global de Solidariedade e Luta – por A.N.A.

RJ – Chamado Global de Solidariedade e Luta.
14 de Agosto, dia internacional de apoio aos 23 ativistas condenados no Rio de Janeiro, em defesa do direito de manifestação, por todas e todos que lutam”

Convocamos todos os movimentos sociais, organizações populares e revolucionárias, sindicatos, movimentos estudantis, grupos de defesa dos direitos humanos, intelectuais progressistas e demais setores da sociedade civil para organizarem ações simultâneas nesse grande dia de solidariedade e luta, contra a criminalização dos movimentos sociais e em defesa do direito de manifestação.
Sugestões de ação:

– Manifestações de rua nas embaixadas ou consulados brasileiros nos países (se possível a entrega de memorandos repudiando a perseguição política aos 23).
– Debates, palestras contra a criminalização da luta em universidade e escolas.

– Colagem de cartazes, panfletagens de apoio aos 23.
– Faixas nos locais de estudo, trabalho ou moradia de apoio aos 23.

– Segurar cartazes e postar nas redes sociais de apoio aos 23 e por todas e todos que lutam.
Sugerimos que cada país ou cidade traga em conjunto com a pauta dos 23, os debates a respeito da criminalização dos que lutam em suas localidades! Temos exemplos de prisões e perseguições políticas em todas as partes do mundo, sendo o exemplo mais recente da jovem palestina Ahed Tamimi que durante seis meses demonstrou exemplo de bravura e firmeza ao não se dobrar frente a prisão.

Toda e qualquer ação de apoio é bem-vinda!
Vamos mostrar que os 23 não estão sozinhos!

Esse ataque representa uma ataque a todas e todas que lutam em diversas partes do globo! Nossa luta é classista e internacionalista!
Registre suas ações de apoio! Estaremos postando durante todo o dia as manifestações vindas das mais diversas localidades! Mande sua foto ou vídeo para:



Para mais informações acesse:
https://cebraspo.blogspot.com/2018/07/manifestacoes-de-repudio-sentenca-dos-23.html?m=1


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agência de notícias anarquistas-ana

Era rio
agora na avenida
rio da vida

Alice Ruiz
Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/08/10/rio-de-janeiro-rj-chamado-global-de-solidariedade-e-luta/

Se você acha que tá frio aí dentro da sua casa, imagine lá fora... por Latuff

Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons

terça-feira, 7 de agosto de 2018

O criminoso – por A.N.A.

O criminoso
#Eleições2018Nãovote!

És tu o criminoso, ó Povo, já que és tu o Soberano. És, é verdade, o criminoso inconsciente e ingénuo. Votas e não vês que és vítima de ti mesmo.

Contudo, não reparaste ainda por experiência própria que os deputados, que prometem defender-te, como todos os governos do mundo presente e passado, são mentirosos e impotentes?

Sabe-lo e queixas-te disso! Sabe-lo e nomeia-los! Os governantes, quaisquer que sejam, trabalharam, trabalham e trabalharão pelos seus interesses, pelos das suas castas e das suas súcias.

Onde foi e como poderia ser de maneira diferente? Os governados são subalternos e explorados: conheces algum que o não seja?

Enquanto não tiveres compreendido que só a ti cabe produzir e viver à tua maneira, enquanto suportares – por medo – e fabricares – por crença na autoridade necessária – chefes e directores, fica também a sabê-lo, os teus delegados e os teus amos viverão do teu labor e da tua patetice. Queixas-te de tudo! Mas não és tu o autor das mil chagas que te devoram?

Queixas-te da polícia, do exército, da justiça, das casernas, das prisões, das administrações, das leis, dos ministros, do governo, dos financeiros, dos especuladores, dos funcionários, dos patrões, dos padres, dos proprietários, dos salários, dos desempregados, do parlamento, dos impostos, dos fiscais da alfândega, dos possuidores de rendimentos, da carestia dos víveres, das rendas dos prédios rústicos e urbanos, dos longos dias de trabalho na oficina e na fábrica, da magra ração, das privações sem conta e da massa infinita das iniquidades sociais.

Queixas-te, mas queres a manutenção do sistema em que vegetas. Revoltas-te, por vezes, mas para recomeçar sempre no mesmo. És tu que produzes tudo, que lavras e semeias, que forjas e teces, que amassas e transformas, que constróis e fabricas, que alimentas e fecundas!

Porque não consomes até à saciedade? Porque és tu o mal vestido, o mal alimentado, o mal abrigado? Sim, porque és o Zé Ninguém sem pão, sem sapatos, sem morada? Porque não és o senhor de ti mesmo? Porque te curvas, obedeces, serves? Porque és tu o inferior, o humilhado, o ofendido, o servidor, o escravo?

Elaboras tudo e nada possuis? Tudo é por ti e tu nada és.

Engano-me. És o eleitor, o maníaco do voto, o que aceita o que é; o que, pelo boletim de voto, sanciona todas as misérias; o que, ao votar, consagra todas as suas servidões.

És o criado voluntário, o doméstico amável, o lacaio, o serviçal, o cão que lambe o chicote, que rasteja diante do pulso teso do dono. És o chui, o carcereiro e o bufo. És o bom soldado, o guardaportão modelo, o locatário benévolo. És o empregado fiel, o servidor dedicado, o camponês sóbrio, o operário resignado com a sua própria escravatura. És o carrasco de ti mesmo. De que te queixas?

És um perigo para nós, homens livres, para nós, anarquistas. És um perigo de igual modo que os tiranos, os senhores que crias para ti próprio, que nomeias, que apoias, que alimentas, que proteges com as tuas baionetas, que defendes com a tua força de bruto, que exaltas com a tua ignorância, que legalizas com os teus boletins de voto – e que nos impõem com a tua imbecilidade.

És bem o Soberano que bajulam e levam à certa. Os discursos lisonjeiam-te. Os cartazes prendem-te a atenção; gostas das parvoíces e que te façam a corte: satisfaz-te, enquanto aguardas que te fuzilem nas colónias, te massacrem nas fronteiras, à sombra ensanguentada da tua bandeira.

Se línguas interesseiras lambem à volta da tua real bosta, ó Soberano!; se candidatos sedentos de posições de chefia e atafulhados de banalidades escovam o espinhaço e a garupa da tua autocracia de papel; se te embriagas com as lisonjas e as promessas que te vertem os que sempre te traíram, te enganam e vender-te-ão amanhã: é porque te pareces com eles. É porque não vales mais que a horda dos teus famélicos aduladores. É porque, não tendo podido elevares-te à consciência da tua individualidade e da tua independência, és incapaz de te emancipar por ti mesmo. Não queres, portanto, não podes ser livre.

Vamos, vota bem! Tem confiança nos teus mandatários, acredita nos teus eleitos.

Mas deixa de te queixar. Os jugos que suportas, és tu mesmo que tos impões. Os crimes de que padeces, és tu que os cometes. És o senhor, és o criminoso e, ó ironia!, és o escravo, és a vítima.

Nós, saturados da opressão dos amos que nos dás, saturados de suportar a sua arrogância, saturados de suportar a tua passividade, vimos chamar-te à reflexão, à acção.

Vamos, tem um bom movimento: despe o hábito estreito da legislação, lava o teu corpo rudemente, a fim de que rebentem os parasitas e a bicharia que te devoram. Só então poderás viver plenamente.

O CRIMINOSO É O ELEITOR!

Albert Libertad, Proclamação do jornal “L´anarchie”, Março de 1906

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/06/11/o-que-e-o-governo/
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/06/08/elisee-reclus-nao-vote-aja/

agência de notícias anarquistas-ana

Minha voz
Torna-se vento —
Coleta de cogumelos.

Shiki

Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/08/06/o-criminoso/

OS EUA devem melhorar as relações com a Rússia e desafiar a expansão da NATO - Por Democracy Now, EUA

OS EUA devem melhorar as relações com a Rússia e desafiar a expansão da NATO.
Nesta entrevista dada à Democracy Now, Noam Chomsky reflete sobre um encontro realizado em Helsínquia entre Putin e Trump, as alterações climáticas e a nova lei "estado-nação judaico" de Israel
O presidente russo, Vladimir Putin, convidou o presidente Trump para Moscovo poucos dias depois de a Casa Branca ter adiado uma reunião planeada entre os dois líderes em Washington antes das eleições a meio do mandato. O convite para Moscovo foi feito depois da reunião entre Trump e Putin em Helsínquia, Finlândia, no início deste mês. Para saber mais sobre as relações entre os EUA e a Rússia, falámos com o renomado dissidente político, autor e linguista Noam Chomsky. É professor laureado do Departamento de Linguística da Universidade do Arizona e professor emérito do Massachusetts Institute of Technology, onde lecionou por mais de 50 anos. Os seus livros mais recentes incluem “Global Discontents: Conversations on the Rising Threats to Democracy” e “Requiem for the American Dream: the Ten Principles of Concentration of Wealth and Power”. Juntou-se a nós de Tucson, Arizona, na semana passada. Perguntei-lhe sobre a recente cimeira Trump-Putin em Helsínquia e falei-lhe da cobertura dos media nos EUA:
ANDERSON COOPER: Temos assistido a uma das performances mais vergonhosas que certamente já vi de um presidente americano numa cimeira com um líder russo.
GEORGE STEPHANOPOULOS: Todos os que estão a assistir poderão contar aos amigos, familiares, filhos, que viram um momento histórico. E pode não ser pelas razões certas.
NORAH O’DONNELL: Este encontro de Helsínquia fica para os livros de história. A recusa do presidente Trump em desafiar o homem forte russo foi condenada de forma generalizada pelos membros do seu próprio partido e da administração. A cimeira que poderia ter sido sobre a condenação dos EUA à Rússia terminou com o presidente Putin a presentear o presidente Trump com uma bola de futebol da Copa do Mundo e Trump a entregar a Putin a sua absolvição.
AMY GOODMAN: Estes foram os comentários de Norah O'Donnell, da CBS, George Stephanopoulos, da ABC News, e Anderson Cooper, da CNN, depois da conferência de imprensa a 16 de julho com Trump e Putin. Perguntei a Noam Chomsky a sua opinião sobre a cimeira de Helsínquia.
NOAM CHOMSKY: Trump tem basicamente um princípio: eu primeiro. Essa é a política dele em quase tudo, e afirmações extravagantes e assim por diante são perfeitamente explicáveis – no pressuposto de que isso é o que o impulsiona. Agora, é crucial, para ele, garantir que a investigação de Mueller seja desacreditada. O que quer que surja, se o implica de alguma forma, o funcionamento dos media e da cultura política, que será considerada de enorme importância, muito mais significativa do que as suas políticas do ambiente que podem destruir a civilização humana. Mas, dadas as circunstâncias altamente distorcidas, ele precisa de garantir que a investigação de Mueller é desacreditada. E essa foi a parte central do seu encontro com Trump. Deixando de lado a maneira como ele se comportava - a bola de futebol, que aparentemente tinha um dispositivo de escuta embutido e assim por diante - sim, isso foi estranho e desagradável e assim por diante.
AMY GOODMAN: Bem, na verdade, aquele mundo - aquela bola de futebol, aquela bola em particular tem aquele pequeno dispositivo, e é assim que é vendida. Era uma bola de futebol da Copa do Mundo, e é isso que é - essa é uma das coisas que as pessoas gostam, poder colocar o iPhone ao lado e obter informações.
NOAM CHOMSKY: Sim, bem, Putin estava a tratar Trump, mais ou menos, com desprezo, seja o que for que pensemos sobre isso. No entanto, a sua principal preocupação era bastante óbvia, e essa foi a questão central dos encontros Putin-Trump. E assim simplesmente não vejo grande significado na sua atuação de uma maneira tola e infantil numa entrevista. Ok, foi assim. Agora vamos para as questões importantes que não estão a ser discutidas. A questão de melhorar as relações com a Rússia é de extrema importância em comparação com as declarações ao dizer: “Bem, não sei se devo confiar nos meus próprios serviços de inteligência”. Disse isso por razões óbvias: desacreditar a investigação sobre Mueller e garantir que a sua base política fervorosamente leal se mantém solidária. Essa não é uma política atraente, mas podemos entender muito facilmente o que ele está a fazer.
AMY GOODMAN: Esses serviços de inteligência… - o ex-diretor da CIA, John Brennan, twittou: “O desempenho de Donald Trump na conferência de imprensa em Helsínquia ultrapassa e excede o limite de 'altos crimes e delitos'. Não foi nada menos do que traição. Não só os comentários de Trump foram imbecis como ele está totalmente no bolso de Putin. Patriotas Republicanos: Onde estão??? Novamente, o tweet do ex-diretor da CIA John Brennan. Noam?
NOAM CHOMSKY: Bem, os seus comentários foram certamente incorretos. O que quer que se pense do comportamento de Trump, não tem nada a ver com altos crimes e delitos ou traição. Isso não é verdade. Mas, novamente, o mesmo ponto que tenho tentado dizer ao longo do tempo, estamos concentrados em questões de menor importância e a deixar de lado problemas de enorme importância e significado, seja pensar como lidar com a imigração ou se estamos a lidar com a questão da sobrevivência da vida humana organizada na Terra. Esses são os tópicos em que deveríamos pensar; não se Trump se comportou mal numa conferência de imprensa.
AMY GOODMAN: Noam Chomsky, queria perguntar-lhe sobre a NATO. O Presidente Trump questionou uma disposição fundamental da aliança militar da NATO: a defesa mútua dos países membros da NATO. Ele fez essa observação durante uma entrevista com o apresentador da Fox News, Tucker Carlson, há apenas uma semana:
TUCKER CARLSON: Porque é que o meu filho deve ir para Montenegro para defendê-lo de ataques? Porquê?
PRESIDENTE DONALD TRUMP: Eu percebo o que você diz. Eu fiz a mesma pergunta. Sabe, Montenegro é um pequeno país com pessoas muito fortes.
TUCKER CARLSON: Sim, eu não sou contra o Montenegro.
PRESIDENTE DONALD TRUMP: Certo.
TUCKER CARLSON: Ou a Albânia.
PRESIDENTE DONALD TRUMP: Não, a propósito, eles são pessoas muito fortes. Eles têm pessoas muito agressivas. Podem ficar agressivos e, parabéns, você está na Terceira Guerra Mundial.
AMY GOODMAN: O Presidente Trump tem questionando toda a ideia da NATO. Bem, pode abordar especificamente isso? Interessante ele escolher o Montenegro, onde, bem, muitos meses atrás, quando ele estava com o G7 e o G8, afastou o primeiro-ministro de Montenegro. O ponto importante é que gostava de saber se pensa que a NATO deve existir.
NOAM CHOMSKY: Essa é a questão crucial; não se Trump fez um comentário feio e humilhante sobre um pequeno país. Mas para que serve a NATO? Desde o início, desde as suas origens, tínhamos metido nas nossas cabeças que o objetivo da NATO era defender-nos das hordas russas. Podemos deixar de lado, no momento, a questão de saber se isso era exato. Em todo o caso, esse foi o tema dominante, na verdade, o tema único. Ok, desde 1991, não há mais hordas russas. Então, a questão é: Porquê a NATO?
Bem, o que aconteceu foi muito interessante. Houve negociações entre George Bush, pai, James Baker, secretário de estado, Mikhail Gorbachev, Genscher e Kohl, alemães, sobre como lidar com a questão - isso foi depois da queda do Muro de Berlim e do início do colapso da União Soviética. Gorbachev fez uma concessão surpreendente. Surpreendente. Ele concordou em permitir que a Alemanha, agora unificada, ingressasse na NATO - uma aliança militar hostil. Basta olhar para a história dos anos anteriores. Somente a Alemanha praticamente destruiu a Rússia, a um custo extraordinário, várias vezes durante o século anterior. Mas ele concordou em permitir que a Alemanha - uma Alemanha rearmada - se juntasse à NATO, uma aliança militar criada para combater a Rússia. Houve um quid pro quo, ou seja, que a NATO - que é basicamente composta pelas forças dos EUA - não se expandisse para Berlim Oriental, para a Alemanha Oriental. Ninguém falou sobre nada para além disso. Baker e Bush concordaram verbalmente. Não escreveram, mas essencialmente disseram: "Sim, nós não vamos" - na verdade, a frase que foi usada foi "nem um centímetro para o leste". Bem, o que aconteceu? A NATO imediatamente foi para a Alemanha Oriental. Sob Clinton, outros países, antigos satélites russos, foram integrados na NATO. Finalmente, a NATO foi tão longe, como mencionei antes, em 2008 e novamente em 2013, que sugeriu que mesmo a Ucrânia, bem no centro das preocupações estratégicas russas – para qualquer presidente russo, não importa quem seja, qualquer líder russo – pudesse aderir à NATO.
Então, o que é que a NATO está a fazer? Bem, na verdade, a sua missão foi alterada. A missão oficial da NATO foi alterada para controlar e salvaguardar o sistema energético global, as rotas marítimas, oleodutos e assim por diante. E, claro, ao mesmo tempo, age como uma força de intervenção dos Estados Unidos. Essa é uma razão legítima para mantermos a NATO, para ser um instrumento para o domínio global dos EUA? Eu acho que é uma questão bastante séria. Essa não é a pergunta que é feita. A pergunta que se faz é se Trump fez algum comentário depreciativo sobre Montenegro. É outro exemplo do que eu disse antes: o foco dos media e da classe política, e da comunidade intelectual em geral, na marginália, negligencia questões cruciais, questões que, literalmente, têm a ver com a sobrevivência humana.
A sobrevivência da vida humana organizada está em risco devido às alterações climáticas e às armas nucleares
Pelo menos oito pessoas morreram na Califórnia devido a incêndios florestais provocados por mudanças climáticas em todo o estado. No total, os bombeiros lutam contra 17 incêndios florestais em toda a Califórnia, atingindo mais de 200 mil hectares e forçando evacuações em massa, inclusive no Parque Nacional de Yosemite. Os incêndios ocorrem no meio de uma onda de fenómenos climáticos extremos em todo o mundo, inclusive na Índia, onde mais de 500 pessoas morreram em consequência de enchentes e fortes chuvas nas últimas semanas. Os cientistas associaram o aumento das inundações e as chuvas às mudanças climáticas.
NOAM CHOMSKY: Não podemos enfatizar o facto de que estamos num momento único da história da humanidade. Na verdade, estamos desde 1945. Em 1945, a história humana mudou drasticamente. Em agosto de 1945, a humanidade demonstrou que a sua inteligência tinha criado um meio de destruir a vida na Terra. Ainda não o tinha em absoluto, mas era óbvio que iria se estender e expandir, como de facto aconteceu.
Alguns anos depois, em 1947, o Bulletin of Atomic Scientists estabeleceu o seu famoso Relógio do Juízo Final. Quão longe estamos da meia-noite para o desastre final? Foi definido para os sete minutos para a meia-noite. Uma vez chegou aos dois minutos para a meia-noite de 1953, quando os EUA e depois a União Soviética detonaram armas termonucleares, que têm a capacidade de essencialmente de destruir a vida. Desde então oscila de várias formas. Já voltámos aos dois minutos para a meia-noite - com um acréscimo:
Não se sabia em 1945 que estávamos a entrar, não apenas na era nuclear, mas numa nova época geológica, a que os geólogos chamam Antropoceno; uma época na qual a atividade humana está a ter efeitos severos e deletérios no ambiente, em que a vida humana e outras não pode sobreviver. Também entrámos no que hoje se chama sexta extinção, uma rápida extinção de espécies, que é comparável à quinta extinção, 65 milhões de anos atrás, quando um asteroide, enorme asteroide, atingiu a Terra.
A World Geological Society foi finalmente fundada no fim da Segunda Guerra Mundial com o início do Antropoceno e a forte escalada e destruição acentuadas do meio ambiente; não apenas o aquecimento global, o dióxido de carbono, outros efeitos dos gases de estufa, mas também questões com o plástico nos oceanos que se prevê tenha maior peso no mar do que o peso dos peixes, num futuro não muito longínquo.
Portanto, estamos a destruir o ambiente para a vida humana organizada. Estamos a contribuir para um desastre terminal com confrontos nucleares regulares. Qualquer pessoa que tenha olhado para os registos, que são chocantes, teria de concluir que é um milagre termos sobrevivido tanto tempo. Seres humanos, neste momento, esta geração, pela primeira vez na história, tem que perguntar: “A vida humana sobreviverá?”. E não num futuro distante - as sociedades organizadas? - essas são as questões com as quais nos devemos preocupar. Tudo o mais é insignificante em comparação com isto.
E voltemos outra vez para NATO; o que está a fazer? Expandiu-se para a fronteira russa. Se der uma olhadela nas políticas do Trump de um ponto de vista geoestratégico, elas são totalmente incoerentes. Quer dizer, por um lado, ele está a ser simpático com Vladimir Putin, por outro, aumenta as ameaças contra a Rússia e, consequentemente, para nós mesmos. Armas para a Ucrânia, grave ameaça para a Rússia. Ao aumentar as forças na fronteira russa, fazem com que os russos façam o mesmo. Manobras militares, o novo programa nuclear que instituiu, que é uma grave ameaça para Rússia e, de facto, para o mundo.
Já sob Obama, os programas de modernização tinham atingido um nível em que representavam uma ameaça literal de primeiro ataque à Rússia. Trabalhos importantes sobre isso têm aparecido nas revistas científicas, Bulletin of Atomic Scientists. Trump está a intensificá-lo, ao modernizar ainda mais forças extremamente perigosas, diminuindo também significativamente o limiar para a guerra nuclear; também novas armas, que são armas nucleares supostamente táticas, que, como qualquer estrategista nuclear pode dizer, são apenas incentivos para a escalada para um desastre final. Essas são enormes ameaças contra a Rússia, para nós também, agora combinadas com sermos educados com Putin numa conferência de imprensa. Geoestrategicamente não faz sentido.
AMY GOODMAN: Trump foi atrás dos aliados da NATO, desde a Grã-Bretanha até à Alemanha e, antes disso, Macron na França, bem como Trudeau no Canadá. Mas também, enquanto questiona a NATO, diz que o está a fazer porque quer simplesmente que gastem mais e, na verdade, nomeou os fabricantes de armas nos Estados Unidos para gastarem mais, chegando a dizer que deveriam usar 4% dos seus orçamentos em armas. Pode comentar?
NOAM CHOMSKY: Por outras palavras: na minha opinião é que nada disso faz sentido; se estivermos à procura de uma estratégia séria por trás, estamos à procura no lugar errado. Não é isso que está por trás disto. Nada disso faz sentido do ponto de vista estratégico. Nenhum. É tudo contraditório, incoerente e assim por diante. Isso deve dizer-nos algo: vamos procurar noutro lado. E tudo faz sentido no pressuposto de que ele é impulsionado por uma preocupação esmagadora: ele mesmo. Tudo isso tem sentido para um megalomaníaco que quer se certificar de que tem poder, tem riqueza, tem de apelar para um número de círculos eleitorais para se certificar de que é apoiado.
Estabelecer um eleitorado extremamente robusto: expandir a NATO, construir o sistema militar, modernizar as armas nucleares e assim por diante. OK, ele tem-nos no bolso. O eleitorado crucial e atual é o setor corporativo e os super-ricos. E ele está apenas a dar-lhes presentes. Enquanto ele está a atacar os media- os media estão a ajudá-lo, concentrando-se nele - os seus apaniguados no Congresso estão a realizar um simples roubo. Quero dizer, é inacreditável, se der uma olhadela ponto por ponto. Já mencionei alguns exemplos antes.
Então ele tem de manter uma base de votação; caso contrário está fora. E ele faz isso fingindo: "Eu vou confrontar a NATO, fazê-los pagar mais, então eles não vão continuar a roubar-nos." Ótimo. "Eu vou enfrentar a China: parem de roubar a nossa propriedade intelectual.” Ótimo. "Vou pôr tarifas em todo mundo. Estou a defender-vos, aos vossos direitos de trabalhadores.” Ponto por ponto, tudo se encaixa. E eu acho que é basicamente o que está a acontecer. Essa busca por alguma geoestratégica coerente por trás disso é quase impossível. Existem algumas coisas, claro. O esforço para construir uma aliança dos estados mais reacionários do Médio Oriente contra o Irão - Arábia Saudita, Israel, Emirados Árabes Unidos, Egito, sob a ditadura - é uma estratégia louca, mas coerente.
Devo dizer que um corolário da doutrina do "eu primeiro", que tem sido observado repetidas vezes, é que se Obama fez algo, “eu tenho de fazer o oposto”, não importa o que seja. Não importa quais são as consequências. “Caso contrário, não sou um presidente transformador, um presidente significativo”.
Noam Chomsky condena a mudança de Israel para a extrema direita e a nova lei “estado-nação judaico”
Israel aprovou uma lei amplamente condenada que define Israel como o estado-nação do povo judeu e dá aos judeus o direito exclusivo à autodeterminação. Também declara o hebraico como a única língua oficial do país e encoraja a construção de colónias judaicas no território ocupado como um “valor nacional”. A lei foi condenada internacionalmente e houve acusações de que Israel legalizou o apartheid.
AMY GOODMAN: Vou agora perguntar-lhe sobre a passagem da nova lei em Israel que o define como o estado-nação do povo judeu e lhe dá o direito exclusivo de autodeterminação. A lei também declara o hebraico como a única língua oficial do país e encoraja a construção de colónias judaicas no território ocupado como um “valor nacional:
PRIMEIRO MINISTRO BENJAMIN NETANYAHU: Este é um momento decisivo nos anais do sionismo e na história do estado de Israel. Vamos continuar a garantir os direitos civis na democracia de Israel. Esses direitos não serão prejudicados. Mas a maioria também tem direitos, e a maioria decide. A maioria absoluta quer garantir o caráter judaico do nosso estado para as próximas gerações.
AMY GOODMAN: Pode falar sobre essa nova lei, Noam Chomsky?
NOAM CHOMSKY: Sim. Em primeiro lugar, uma ligeira correção: as colónias totalmente judaicas autorizadas estão em Israel. Não é sequer uma questão relativa aos territórios ocupados. São todas assim. Estão dentro de Israel.
Então, sim, a nova lei muda a situação existente, mas não tanto quanto está a ser reivindicado. O que a nova lei determina já está praticamente em vigor há muito tempo. A lei volta às leis do território de 1960 que o Tribunal Superior israelita estabeleceu e definiu: "Israel é o estado soberano do povo judeu" - todo o povo judeu, mas não os seus cidadãos, apenas os judeus. Isso foi há 60 anos. As leis do território foram estabelecidas de tal maneira que, como foi reconhecido na época internamente em Israel, não fora, as terras do estado estariam efetivamente sob a administração do Fundo Nacional Judaico. Uma série de práticas legais e administrativas foram criadas para dar essa garantia. Se está interessada em detalhes, escrevi sobre isso detalhadamente há 30 anos num livro chamado Towards a New Cold War. Mas, basicamente, uma complexa matriz foi criada para garantir que o Fundo Nacional Judaico estaria no controle das terras do Estado. Isso equivale a mais de 90% do território do país.
Qual é a missão do Fundo Nacional Judaico? Bem, tem um contrato com o estado de Israel que determina que a sua missão é trabalhar para o benefício - estou a citar - de pessoas “de raça, religião ou origem judaica”. OK, o que é que se espera disto? O que se espera é que 92% a 93% das terras do país sejam efetivamente reservadas para pessoas de raça, religião e origem judaicas. E foi isso que aconteceu.
Isto finalmente chegou aos tribunais, ao tribunal Supremo de Israel, no ano de 2000. Uma associação de liberdades civis em Israel trouxe um caso. Os queixosos eram um casal árabe, um casal árabe profissional, que queria comprar uma casa numa colónia judaica, a colónia de Katzir, que era, como na maior parte do país, só para judeus. O tribunal finalmente decidiu a seu favor, numa decisão muito restrita.
Quase imediatamente, começaram os esforços a tentar descobrir uma maneira de contornar a situação, de várias maneiras. E a nova lei simplesmente é isso que faz, diretamente. Autoriza todas as colónias judaicas em Israel, o que significa cerca de 90% do país. Se olharmos para o desenvolvimento das colónias ao longo dos anos - isso é discutido num artigo importante do escritor israelita Yitzhak Laor numa edição recente do Haaretz - eu escrevi sobre isso num post aqui em Truthout - ele aponta que 700 colónia todo-judaicas foram criadas, sem nenhuma participação árabe. Os palestinianos árabes estão confinados a cerca de 2% do território, muitos deles expulsos de lá.
Portanto, é formalizado o que foi praticado de maneiras complexas. O árabe deixa de poder de ser uma língua oficial. São aprimoradas práticas passadas introduzindo-as na que é hoje chamada Lei Básica, que é efetivamente a constituição. Sim, essas são mudanças, mas menos dramáticas do que a forma como são retratadas, não porque sejam formas adequadas, mas porque sempre foi assim de uma forma ou de outra.
Aliás, isso não deve ser muito estranho para os americanos. Olhemos para a habitação – assunto que foi recentemente discutido por [Richard] Rothstein, num livro interessante. Se você olhar para os programas habitacionais do New Deal, eles foram legal e explicitamente direcionados para garantir projetos somente brancos, cidades somente brancas. É por isso que as cidades que surgiram nos anos 1950, como Levittown, eram 100% brancas. Vários requisitos legais foram introduzidos para que isso fosse garantido. Este é o New Deal. E não estamos a falar sobre o Sul Profundo, embora, é claro, eles o tenham influenciado.
Isso não mudou até o final dos anos 60. E nessa altura, já era tarde demais para beneficiar os afro-americanos. A razão foi por causa de mudanças económicas gerais nos anos 50 e 60 que foi um período de grande crescimento nos Estados Unidos, proporcionando pela primeira vez, em centenas de anos de história, 400 anos de história, que os afro-americanos tivessem algum tipo de hipóteses de entrar na sociedade convencional. Mas eles foram impedidos da habitação, por meios legais. No momento em que esses meios legais foram desmantelados, estávamos a entrar no início do período neoliberal de estagnação e declínio, por isso não lhes fez nenhum bem. Esse é outro capítulo da feia história do racismo americano.
Então, não deveríamos ficar muito surpreendidos com o que está a acontecer em Israel, que é muito feio e faz parte da mudança do país para a direita, e que foi previsto em 1967, previsto logo de caras: a ocupação seria levar o país para a direita. Quando se tem a bota no pescoço de alguém, não é bom para a sua psique. E acho que estamos a ver isso acontecer.
Israel está bem ciente disso, aliás. Analistas políticos israelitas têm apontado há alguns anos que Israel devia preparar-se para um período em que vai perder o apoio de setores do mundo que têm alguma preocupação com os direitos humanos e o direito internacional, e deveria estar a voltar-se para alianças com os países que simplesmente não se importam com isso. Digamos que a Índia, sob o recente governo ultranacionalista de Modi, compartilha com Israel o movimento em direção ao ultranacionalismo, à repressão, ao ódio ao Islão; a China não presta atenção a essas coisas; Singapura; Arábia Saudita; Emirados Árabes Unidos.
E podemos ver isso acontecer nos Estados Unidos também. Não há muito tempo, Israel era o queridinho absoluto da América liberal. Isso mudou. Agora, até entre os democratas autoidentificados há mais apoio aos palestinianos do que a Israel. O apoio a Israel nos Estados Unidos mudou para a direita ultranacionalista e para os evangélicos, que, pelas razões erradas, apoiam as ações israelitas, com alguma paixão, de facto, enquanto ao mesmo tempo muitos deles apegam-se a doutrinas em que afirmam que a segunda vinda de Cristo, que é iminente, levará a uma série de eventos que terminarão com os judeus a ser enviados para a perdição eterna. Isso ao mesmo tempo que apoiam as ações israelitas. E é por isso que a base do apoio israelita nos Estados Unidos mudou para a ala direita do Partido Republicano. E isso está a acontecer no mundo inteiro.
No meio da repressão mortal de Israel aos protestos em Gaza, Chomsky diz que os EUA devem acabar com o apoio aos "assassinos".
Em Gaza, milhares de pessoas reuniram-se no sábado para o funeral de Majdi al-Satari, de 11 anos, que morreu depois de baleado na cabeça por um atirador israelita na sexta-feira em protestos perto do muro de separação com Israel. Moumin al-Hams, de 17 anos, e Ghazi Abu Mustafa, de 43 anos, também foram baleados e mortos por atiradores israelitas nos protestos. No total, soldadas israelitas mataram pelo menos 150 palestinianos desde o início dos protestos não violentos da Grande Marcha do Retorno, a 30 de março.
AMY GOODMAN: Vamos falar da situação em Gaza. O ministro da Segurança Interna de Israel, Gilad Erdan, disse na quinta-feira que Israel poderia lançar outra operação militar em larga escala contra a Faixa de Gaza. Isto ocorre após a violenta repressão de Israel aos protestos pacíficos em Gaza de março a maio, quando as forças israelitas mataram mais de 136 palestinianos e feriram mais de 14.000. Falei com o médico palestino-canadense Tarek Loubani, que foi baleado pelas forças israelitas em ambas as pernas enquanto ajudava a tratar os palestinianos feridos pelas forças israelitas durante a Grande Marcha de Retorno não violenta. Era 14 de maio, uma segunda-feira. Perguntei ao Dr. Loubani - logo depois de ter sido baleado se sentiu que foi um alvo.
DR. TAREK LOUBANI: Eu não sei a resposta. Não sei quais ordens que eles receberam ou o que estava nas suas cabeças, por isso não posso dizer se fomos deliberadamente atingidos. O que eu posso dizer é o que sei. Nas seis semanas da marcha não houve vítimas de paramédicos. E num dia, 19 paramédicos - 18 feridos mais um morto - e eu estávamos todos feridos; foram todos alvejados com munição real. Éramos todos - Musa estava realmente num resgate na altura, mas toda a gente com quem conversei era como eu. Estávamos fora durante uma trégua, sem fumo, sem nenhum caos, e fomos alvejados e atingidos por munições reais, a maioria de nós nos membros inferiores. Assim, é muito, muito difícil acreditar que os israelitas que atiraram sobre mim e sobre os outros colegas - apenas da nossa equipe médica, quatro de nós foram baleados, incluindo Musa Abuhassanin, que faleceu - não sabiam quem nós éramos, que não sabiam o que estávamos ali a fazer e que eles estavam direcionados para qualquer outra coisa.
AMY GOODMAN: Então, mais tarde, no mesmo dia, 14 de maio, o homem de quem o Dr. Loubani falava, o paramédico Musa Abuhassanin, foi baleado e morto pelas forças israelitas. Foi baleado no peito. O Dr. Loubani twittou uma foto legendada: “Uma foto assombrosa, sexta-feira, 11 de maio. À esquerda: Mohammed Migdad, baleado no tornozelo direito. Hassan Abusaada. Tarek Loubani, baleado na perna esquerda e joelho direito. Moumin Silmi. Youssef Almamlouk. Musa Abuhassanin, baleado no tórax e morto. Voluntário desconhecido. Fotógrafo: baleado e ferido.” E mostrou esta fotografia, que achava que seria para um álbum de recortes, e percebeu que estes eram alguns dos últimos dias de suas vidas. O que está acontecendo em Gaza agora, na sua perspetiva, Noam?
NOAM CHOMSKY: Podemos acrescentar a essa lista a jovem palestiniana, uma médica, que foi assassinada por um franco-atirador, longe da chamada fronteira, quando cuidava de um paciente ferido. Sim, é horrivelmente feio.
Mas há um pano de fundo, como sempre. O pano de fundo crucial é que os israelitas - esse domínio israelita em Gaza, que reduziu a vida à mera sobrevivência, chegou a um ponto em que as Nações Unidas, outros analistas preveem que até ao ano 2020, Gaza será literalmente inabitável. São 2 milhões de pessoas, metade delas crianças, enjauladas numa prisão, cuidadosamente controladas, com restrições selvagens à alimentação e a qualquer coisa que lhes chegue, ao ponto de os pescadores serem mantidos perto da costa para não poderem pescar, os esgotos foram destruídos, as centrais elétricas foram atacadas.
O programa oficial - oficial - era manter Gaza no que era chamada uma dieta, o suficiente para simplesmente sobreviver. Não parece bem se todos morrerem de fome. Observe que este é um território ocupado, o que é reconhecido até pelos Estados Unidos, por todos menos Israel. Então, aqui está uma população mantida numa prisão, num território ocupado, alimentada com uma dieta para mantê-los numa mera sobrevivência , constantemente usada como um saco de pancada para o que se chama a si próprio o exército mais moral do mundo, agora a chegar a um ponto onde dentro de alguns anos será inabitável e além disso com atos sádicos, como atiradores altamente treinados a matar uma jovem médica palestiniana quando ela está a cuidar de um paciente, e o que o médico acabou de descrever.
E o que fazemos com isto? Nós realmente reagimos. Os Estados Unidos reagiram. E reagiram cortando drasticamente o financiamento para a única organização, a UNRWA, organização da ONU, que mantém a população dificilmente viva. Essa é a nossa resposta, juntamente com, é claro, o apoio esmagador a Israel, fornecendo as armas, o apoio diplomático e assim por diante. Um dos mais extraordinários escândalos, se é a palavra certa, no mundo moderno.
Podemos fazer alguma coisa? Claro, claro que podemos. Gaza deveria ser um próspero paraíso mediterrânico. Tem uma localização maravilhosa, tem recursos agrícolas, pode ter praias maravilhosas, pesca, recursos marinhos, até tem gás natural no mar, que não é permitido usar. Então, há muito que pode ser feito. Mas nós - os EUA preferimos, repetidamente em todas as administrações, - mas muito pior agora - como sempre, apoiar os assassinos.
AMY GOODMAN: Noam, Israel ameaça outro ataque a Gaza, como o que chamaram de Operação de Proteção em 2014, quando mataram mais de 2.000 pessoas, em que cerca de um quarto desse número eram crianças.
NOAM CHOMSKY: Sim, estão a ameaçar. Se der uma olhadela aos registos, não há tempo para falar sobre isso agora, há um livro maravilhoso que acaba de ser publicado. O livro de Norman Finkelstein, Gaza, sobre o martírio de Gaza, é um estudo definitivo sobre isso. Mas o que aconteceu desde 2005 é bem evidente. Quer dizer, a história anterior é suficientemente feia.
Mas em 2005, Ariel Sharon e outros falcões israelitas reconheceram que não fazia sentido manter alguns milhares de colonos judeus a colonizar ilegalmente Gaza, usando a maior parte dos seus recursos e dedicando uma grande parte do exército israelita a protegê-los. Isso era totalmente sem sentido. Então, decidiram transferi-los das sua colónias ilegais e subsidiadas em Gaza para colónias ilegais e subsidiadas em áreas que Israel queria manter, na Cisjordânia, nas colinas de Golã.
Foi enquadrado como um evento traumático, mas isso foi uma jogada para a opinião mundial. Foi basicamente uma piada. Eles poderiam ter feito isso facilmente. E eles sairiam, e a isso chamaram retirada. Mas eles permaneceram sob a total ocupação israelita, apenas que o exército não estava dentro de Gaza. Estava a controlar do lado de fora. Houve um acordo alcançado em novembro de 2005 entre os palestinianos e Israel com um cessar fogo, sem violência, abrindo o porto de Gaza, reconstruindo o aeroporto que Israel destruiu, abrindo a fronteira para que houvesse fluxo livre com Israel e Egito e assim por diante. Esse acordo durou duas semanas, em novembro.
Em janeiro, os palestinianos cometeram um grande crime: fizeram umas eleições livres, reconhecidas como livres e justas, apenas uma no mundo árabe. Mas o resultado saiu da maneira errada. As pessoas erradas ganharam: o Hamas. Israel, imediatamente, aumentou a violência, aumentou o cerco, aumentou a repressão contra Gaza, impôs a dieta. Os EUA reagiram com o procedimento operacional padrão: começaram a organizar um golpe militar. O Hamas antecipou o golpe militar, que foi um crime ainda maior. A violência, a violência dos EUA e Israel, aumentou. A selvageria do cerco aumentou e assim por diante.
Então a coisa continua assim. Repetidamente, há um episódio a que Israel chama cortar a relva. Esmagá-los. Eles estão indefesos, claro. Então, há um acordo alcançado, que o Hamas aceita e cumpre. Israel viola-o constantemente. Finalmente, uma escalada israelita da violação leva a uma resposta do Hamas que Israel usa como pretexto para o próximo episódio de cortar a relva. Eu analisei isso. Norman Finkelstein analisou isso no seu livro. Outros também já o fizeram. Essa é a história desde 2005.
Então, sim, pode haver outro (ataque). Mas agora estamos a chegar a um ponto quase terminal. Repito, espera-se que a Faixa de Gaza, devastada de forma tão violenta ao longo dos anos, se torne literalmente inabitável. Agora, existem maneiras de lidar com isso. Não é preciso um cientista brilhante para descobrir isso. É bem óbvio.
AMY GOODMAN: E, Noam, a solução que você diz é muito evidente e simples?
NOAM CHOMSKY: Muito evidente. Cumprir os termos do acordo de novembro de 2005. Permitir que Gaza se reconstrua. Abrir os pontos de acesso para Israel e Egito. Reconstruir o porto marítimo que foi destruído. Reconstruir o aeroporto que Israel destruiu. Permitir a reconstrução das centrais elétricas. Deixá-los tornar-se um território florescente no Mediterrâneo. E, claro, permitir: lembre-se de que os famosos Acordos de Oslo exigiam, explicitamente, que a Faixa de Gaza e a Cisjordânia fossem um território unificado e que a sua integridade territorial fosse mantida. Israel e os Estados Unidos reagiram imediatamente separando-os. ok? Isso também não é uma lei da natureza. Direitos nacionais palestinianos podem ser alcançados, se os EUA e Israel estiverem dispostos a aceitar isso.
Originalmente publicado em democracynow.org. 
Artigo traduzido por Paula Cabeçadas para Esquerda.Net

Antes eram os galinhas verdes, mas agora... - por Latuff

Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons

São Paulo: radigrafia de uma privatização velhaca – por Coletivo Vigencia

São Paulo: radigrafia de uma privatização velhaca
Dossiê disseca principal programa de João Dória e revela: por ninharia, prefeitura compromete serviços públicos, favorece gentrificação e ameaça privacidade dos cidadãos 
João Doria foi eleito prefeito de São Paulo com base num discurso privatizante, segundo o qual, empresários seriam capazes de gerir melhor os recursos públicos do que a própria Prefeitura. Agora, lidera as pesquisas para o governo de São Paulo. Mas quais os reais efeitos da sua política de privatização? Foi realmente capaz de “desonerar” os cofres públicos? Quem ganhou e quem perdeu em cada um dos bens e serviços concedidos à iniciativa privada? E quem ganhou com as famosas doações empresariais para a cidade?

Na tentativa de responder a essas perguntas, o coletivo Vigência, com o apoio da Fundação Rosa Luxemburgo, realizou uma pesquisa analisando a política de privatizações de ativos, serviços e equipamentos públicos, bem como de recebimento de doações empresariais durante o primeiro (e único) ano de gestão do ex-prefeito. O estudo mapeou as principais propostas de privatização apresentadas pela gestão e as maiores doações recebidas pela Prefeitura para tentar verificar se realmente são, como defendido pelo governo Doria, vantajosas do ponto de vista econômico e social.
A narrativa privatizante de João Doria não é nova. Teve seu apogeu no Brasil no começo da década de 1990, quando tiveram início as privatizações de boa parte das empresas do setor elétrico, petroquímico, siderúrgico, telecomunicações, de mineração e ferroviário. Entre 1991 e 2000, mais de cem empresas estatais de propriedade da União e passaram para as mãos da iniciativa privada. Nos últimos dez anos, quase todos os governos acabaram concedendo a companhias privadas, aeroportos, usinas de geração de energia, estradas etc., apesar de muitas dessas parcerias terem se mostrado ineficazes para alcançar seus objetivos declarados de aumento de eficiência, melhora na prestação de serviço ou barateamento dos preços.

A campanha de Doria à Prefeitura de São Paulo também apoiou-se num discurso que defendia a lógica do mercado como a forma mais eficiente de gestão dos bens e serviços públicos. Além disso, propunha um modelo de relação empresa-Estado que incluía a noção do empresário benfeitor que colabora para a coisa pública não apenas pagando impostos, mas também realizando onerosas doações supostamente desinteressadas: a lógica privada seria boa não apenas como modelo de gestão, mas também pelos benefícios diretos que o bom empresariado poderia canalizar para o Estado.
Eleito em primeiro turno, Doria, ao tomar posse em 2017, apresentou seu programa de privatização como um “programa de desestatização” e, para levar tal política adiante, desenvolveu uma infraestrutura institucional e medidas específicas que montaram uma verdadeira máquina de privatizar dentro da própria Prefeitura.
Entre essas iniciativas, estão a criação de uma secretaria municipal de Desestatização e Parcerias, a elaboração do Plano Municipal de Desestatização (um pacote de concessões de serviços e equipamentos públicos à iniciativa privada, a PL 367/2017) e a Secretaria Especial de Investimento Social (que visa captar doações e investimentos privados para as áreas de educação, saúde e assistência social).
As privatizações em si tiveram início a toque de caixa já em meados de 2017, com projetos de lei encaminhados à Câmara dos Vereadores sem consulta pública prévia a respeito do interesse público de cada iniciativa. A maioria dos projetos foram criticados pela oposição por se basearem em textos classificados como imprecisos, contendo poucas informações sobre como se daria cada um dos processos de privatização e quais seriam as contrapartidas exigidas das empresas etc.
Após analisar a política de desestatização em profundidade, concluímos que, ao contrário do defendido pelo prefeito, as privatizações nem sempre desoneram o município e nem sempre servem ao interesse público. A principal argumentação utilizada por Doria para defender a privatização – a de que os equipamentos dão prejuízo para a Prefeitura – não se sustenta. Vários dos equipamentos e serviços a ser privatizados com prioridade têm balanço anual positivo, tais como os mercadões da região central. Além disso, se somarmos a economia projetada com a privatização dos itens elencados como prioritários na política de privatização da Prefeitura – complexo do Anhembi + SPTuris; 14 mercados e 17 sacolões; 14 parques e praças; sistema de bilhetagem do transporte público; estádio do Pacaembu; 22 cemitérios e um crematório; remoção de pátios e estacionamento; e administração dos terminais de ônibus, chega-se a um total de R$ 541 milhões, cerca de 1% da arrecadação da Prefeitura em 2017.
Tampouco as doações empresariais necessariamente representam economia para o Estado ou vantagens para os cidadãos.
Examinemos, a seguir, alguns dos principais casos analisados na pesquisa.
Mercados – O plano de privatização dos mercados e sacolões proposto pela gestão Doria envolve 14 mercados e 17 sacolões municipais. Atualmente, a gestão desses equipamentos é feita pelas associações de permissionários, que arcam com as despesas de luz, água, limpeza, reformas e segurança. Os 814 permissionários pagam cerca de R$ 1 mil/mês por boxe e alugam estes para cerca de 1.000 comerciantes. Estima-se que esse conjunto de equipamentos gere 5 mil empregos.
A gestão Doria alegava que esses equipamentos eram deficitários e necessitavam urgentemente de reformas estruturais para o seu “bom” funcionamento. O custo dessas melhorias foi estimado pela Secretaria Municipal de Desestatização e Parcerias (SMDP) em R$ 9 milhões, valor que, segundo a Prefeitura, só seria possível de arcar por meio de concessão dos mercados e sacolões à iniciativa privada. Outro argumento utilizado pela Prefeitura é o de que a privatização facilitaria o cumprimento da vocação desses mercados como pólos de turismo gastronômico. A pressão dos permissionários e comerciantes, bem como dos vereadores da bancada de oposição, fez com que a Prefeitura limitasse suas ambições de privatização a apenas três mercados municipais: Mercado Municipal Paulista (Mercadão), Mercado Kinjo Yamato e Mercado de Santo Amaro.
Sabe-se, contudo, que tais mercados estão entre os mais superavitários desse tipo de equipamento (só o Mercado Central gera lucro de R$ 5 milhões ao ano para a Prefeitura). Também nesse caso, o pretexto de privatizar para desonerar os cofres públicos não se sustenta.
Além disso, a legislação aprovada é vaga e não define os termos de concessão de uso dos mercados, o que eleva o risco de aumento do preço das mercadorias e gentrificação desses espaços, que poderão acabar transformados em shoppings e praças de alimentação para a classe média alta e para o turismo global, tal como ocorreu com o Mercado de Pinheiros.
Anhembi – Entre outros equipamentos na lista das privatizações que tampouco tem dado prejuízo à Prefeitura está o Anhembi que, segundo dados publicados pela Prefeitura, fechou o ano de 2016 positivamente. Na verdade, o que o projeto parece facilitar é a especulação imobiliária em uma das áreas mais valorizadas da cidade.
A SPTuris é uma sociedade de economia mista, de capital aberto, cuja maioria das ações (97,6%) está nas mãos da Prefeitura. Dedica-se à locação dos espaços do Complexo do Anhembi e à produção de eventos (majoritariamente do município) e atua como Secretaria de Turismo. Sua privatização será viabilizada com a venda de suas ações na Bovespa por meio de um agente financeiro contratado pelo município. A gestão Doria alega que a empresa vem dando prejuízo aos cofres públicos nos últimos anos (R$ 68 milhões em 2016) e precisa ser vendida.
Olhando atentamente para os números, porém, percebe-se que os argumentos da Prefeitura para a privatização não se sustentam, já que: a) o déficit da SPTuris foi causado pelo próprio município, que diminuiu drasticamente os contratos de realização de eventos em 2016, fazendo com que a arrecadação da empresa despencasse naquele ano; e b) sua privatização não vai desonerar a Prefeitura, já que a folha de pagamento da empresa representa a maior parte de seus gastos (R$ 75 milhões anuais) e, no edital de privatização, o município garante que vai empregar os servidores da SPTuris em outras secretarias.
A venda da empresa, que implicará a venda do Complexo Anhembi, alimenta a especulação imobiliária na região. O Projeto de Intervenção Urbana (PIU) aprovado para a privatização da SPTuris ignora a lei de zoneamento do local do terreno e o Plano Diretor da cidade, permitindo um aumento do potencial construtivo do terreno em 68% (que corresponde a 1,7 milhão de metros quadrados). Além disso, o PIU reduz significativamente o valor da contrapartida que o futuro dono da área terá de pagar ao município para construir acima do limite permitido na região, a chamada outorga onerosa. Na prática, o texto aprovado pelos vereadores em maio diminui em 46% o preço do metro quadrado que será construído a mais pelo empreendedor. Além disso, com a especulação imobiliária, perdem também os habitantes do entorno que moram de aluguel, já que a tendência é de alta dos preços.
Simultaneamente, a privatização da SPTuris extingue o órgão executor da política de turismo para a cidade (equivalente à Secretaria de Turismo), desarticula o seu corpo técnico (que inclui 360 servidores concursados) e abdica do controle público de uma área de 400 m2 numa zona estratégica da cidade, próxima ao centro e bem servida de infraestrutura, e dos seus espaços de locação, mais conhecidos como Complexo Anhembi (Pavilhão de Exposições, Palácio das Convenções e Sambódromo).
Portanto, na verdade, quem lucra com a privatização da SPTuris não é nem a população nem a Prefeitura de São Paulo, e sim dois grandes grupos de interesses privados: 1. Atores do ramo de gestão de eventos, liderados pela multinacional francesa GL Events, à frente da São Paulo Expo da Rio Centro, e maior interessada na compra da SPTuris; 2. Atores do mercado imobiliário.
Pacaembu – Tampouco a privatização do Pacaembu parece servir ao interesse dos cidadãos. O edital de concessão do estádio à iniciativa privada foi lançado em março de 2018 e prevê a concessão do complexo inteiro, que inclui o centro poliesportivo, por 35 anos. Além da importância simbólica do estádio, o centro poliesportivo oferece várias atividades gratuitas. O complexo é público, inclui uma piscina, um ginásio de esportes, um ginásio de tênis, uma pista de corrida, quadras externas e cobertas e está aberto a todos e todas as paulistanas, que podem ter acesso também às aulas (dança de salão, futsal, ioga, judô, natação, pilates, tênis e vôlei) ministradas no local. Com a venda do complexo, toda esta estrutura seria fechada.
Segundo o texto provisório, o lance mínimo será de R$ 12,4 milhões, mas a Prefeitura prevê ganhar R$ 402 milhões na operação. Outra vez, o principal argumento para a privatização levado à mesa pelo governo Doria foi o do déficit orçamentário: para justificar sua intenção de conceder o Pacaembu à iniciativa privada, a Prefeitura alega que o estádio custa, a cada quatro anos, R$ 40 milhões[1] aos cofres públicos.
Outra possível consequência negativa para a população do entorno relaciona-se à realização de eventos culturais e de entretenimento no estádio do Pacaembu, tais como shows: a possibilidade de promover tais eventos, tal como acontece na Arena Palmeiras ou no Morumbi, é um dos principais chamarizes do local para a iniciativa privada.
Por fim, apesar da lei proposta observar a necessidade de respeitar a atual legislação de tombamento histórico do imóvel prevista pelo Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de São Paulo), o tombamento do Pacaembu não inclui o chamado “Tobogã”, arquibancada construída depois que o estádio foi finalizado. Nos cinco projetos apresentados após o chamamento feito pela PMSP, quatro projetam a derrubada do “Tobogã”. Foram sugeridos a construção de hotéis e até uma piscina de ondas artificiais.
Bilhete Único – A privatização do sistema de bilhetagem de ônibus é outro exemplo de transação questionável do ponto de vista do interesse público. Hoje, quando um usuário se cadastra no sistema da Prefeitura, é convidado a preencher uma “pesquisa de perfil socioeconômico”, além de fornecer dados básicos, como endereço, idade e sexo. De acordo com a proposta de privatização atual, a empresa que comprar o sistema poderá usar os dados dos usuários para fins comerciais, além de rastrear os deslocamentos e o comportamento dos usuários.
Adicionalmente, não há nenhuma pesquisa que corrobore a alegação da Prefeitura de que esses serviços são insatisfatórios ou de que as privatizações melhorariam a sua qualidade.
Doações – As doações também não cumprem o prometido. Frequentemente são pouco transparentes. Adicionalmente, muitas delas parecem não ter sido pautadas pelas necessidades da cidade e das(os) cidadãs(os) e, às vezes, parecem ter sido de fato guiadas pelos interesses das empresas. O que é ainda mais grave, em alguns casos, as doações subverteram princípios democráticos, permitindo a empresas doadoras ganhar ingerência em definições de diretrizes políticas municipais de seu próprio interesse.
No que diz respeito ao último ponto, em alguns casos, a doação permite a empresários doadores ganhar acesso a dados estratégicos e exercer influência indevida sobre políticas públicas de seu próprio interesse. A organização Comunitas, por exemplo, em conjunto com a consultoria McKinsey doou R$ 3.727.189,50 em serviços de consultoria à Prefeitura. Uma dessas consultorias, avaliada em R$ 2.836.151 consiste, segundo o termo de doação, em um “diagnóstico dos principais desafios da cidade de São Paulo, tendo como referência as melhores cidades para se viver”. Mas a doação da Comunitas apresenta dois problemas principais: o primeiro é que dá acesso privilegiado a informações estratégicas e a funcionários da Prefeitura que são de interesse de empresas que são clientes ou clientes em potencial da McKinsey. O segundo é que coloca empresários em posição privilegiada para defender seus próprios interesses em assuntos de importância vital para a cidade. No caso desta consultoria, eles têm acesso direto ao prefeito e aos seus secretários e papel importante na definição de metas e diretrizes relacionadas ao seu campo de atuação. Empresários ligados a empresas tais como Cyrela e Gerdau, por exemplo, ajudam a Prefeitura a pensar no Plano Diretor da cidade.
Além disso, apesar de as doações serem defendidas por supostamente trazer benefícios materiais diretos para a Prefeitura, elas têm representado custos para o erário público. A Secretaria da Saúde, por exemplo, anunciou uma parceria com empresas farmacêuticas, que doariam até R$ 35 milhões de reais[2] em medicamentos para ajudar a resolver o problema da falta de acesso da população a remédios. Em troca, contudo, as empresas receberam isenção de impostos equivalente a R$ 66 milhões. Além disso, doaram remédios próximos ao vencimento, que já não poderiam ser comercializados, limitando sua utilidade – as empresas, porém, ganharam ao  economizar no descarte dos medicamentos, que é um processo caro. Segundo reportagem da rádio CBN de junho de 2017, os remédios se acumulavam em várias Unidades Básicas de Saúde (UBSs). O Ministério Público abriu uma investigação sobre o caso. Em novembro, a rádio publicou nova reportagem alegando que, no período entre junho e agosto, até 35% dos remédios doados haviam sido descartados, cinco vezes mais do que no mesmo período do ano anterior, na gestão do prefeito Fernando Haddad.
No que diz respeito à transparência, no início da gestão não havia publicações no Diário Oficial sobre todas as doações recebidas. Em fevereiro de 2017, foi anunciado que informações sobre as doações seriam publicadas no Portal da Transparência da Prefeitura. Os dados disponibilizados, contudo, são genéricos e não incluem a memória de cálculo para se chegar ao valor declarado. Alguns valores listados também são questionáveis. A maior doação registrada, pela Cisco, no valor de R$ 300 milhões, por exemplo, não discrimina os itens recebidos e nem o valor de cada item. Ao ser questionada sobre a memória de cálculo do valor, a Secretaria Municipal de Desestatização e Parcerias respondeu que os equipamentos doados foram utilizados na realização dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos Rio 2016 e que, “por tratar-se de equipamento usado, não há tabela de referência no mercado local”, mas que o valor foi calculado com base no que seria o custo de comprar equipamentos novos.
O que este primeiro ano de gestão do prefeito João Doria parece indicar é que sua orientação privatista — seja como critério de organização da gestão, seja como cessão para a iniciativa privada de áreas, serviços ou bens públicos ou, no caso das doações, como tentativa de mostrar o lado “altruísta” dos agentes do mercado —  não necessariamente resolve os problemas financeiros que o prefeito aponta nem traz os benefícios que promete, assumindo assim um caráter demagógico. Tampouco a democracia é fortalecida por este estilo de gestão. Ao contrário: ela sofre quando interesses privados são favorecidos ante o interesse público, quando a transparência é reduzida e quando a relevância dos mecanismos participativos de controle é diminuída.
Com essa pesquisa, o Vigência pretende contribuir para dar visibilidade a essa relação entre o público e o privado que vê como nociva para a cidade de São Paulo e, ao compilar dados e informações sobre seus reais efeitos, fornecer munição para organizações, movimentos e indivíduos que queiram se contrapor a esse discurso e a essa prática que coloca o privado acima do público. O caráter público da gestão só será ampliado se a sociedade paulistana conseguir colocar um limite claro ao privatismo de políticos como o ex-prefeito João Doria e puder se envolver ativamente na construção de espaços de gestão mais democráticos.
[1] O ESTADO DE SÀO PAULO, Doria infla custo do Pacaembu para justificar concessão à iniciativa privada. http://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,doria-infla-custo-do-pacaembu-para-justificar-concessao-a-iniciativa-privada,10000080704
[2] Esse foi o valor divulgado pela Prefeitura na ocasião do anúncio da doação. Segundo a tabela de doações disponibilizada pela Prefeitura, contudo, o valor era de R$ 11,9 milhões até outubro de 2017.

* Daniel Angelim, Daniel Martins, Gonzalo Berrón, Maria Brant e Tatiana Ferraz são integrantes do Vigência, coletivo de ativistas cujo foco de atuação e pesquisa são os efeitos da concentração econômica sobre o bem-estar, a justiça social e o funcionamento da democracia.
Leia o relatório completo aqui: http://www.vigencia.org/artigo/apresentacao-2/
Fonte: https://outraspalavras.net/brasil/sao-paulo-radiografia-de-uma-privatizacao-velhaca/

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

O @SindimetroRS esclarece a população do RS sobre a precariedade do @Trensurb

Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons

A nova ordem mundial do petróleo – por José Luís Fiori

A nova ordem mundial do petróleo

"Na nova ordem mundial do petróleo, só uma elite inteiramente corrompida e rebaixada, do ponto de vista moral, e completamente imbecilizada, do ponto de vista intelectual, pode abrir mão do controle estatal de seus recursos energéticos nacionais já conquistados"
Nas duas últimas décadas do século passado, a Guerra Irã-Iraque, entre 1980 e 1988, a Guerra do Golfo, entre 1990 e 1991, e o fim da URSS, em 1991, atingiram em cheio alguns dos maiores produtores e exportadores mundiais de petróleo, dividindo e enfraquecendo a OPEP, e destruindo a capacidade de produção russa. Foi um período de anarquia no mercado mundial de petróleo, e ocorreu no mesmo momento em que as grandes corporações petroleiras privadas promoveram uma grande desconcentração e "desverticalização" do seu capital e de suas estratégias, enquanto o petróleo era transformado num "ativo financeiro" cujo preço era renegociado diariamente nas Bolsas de Nova York e Londres. Entretanto, no final dos anos 90 e início do século XXI, esta tendência foi revertida de forma abrupta e radical. E tudo começou, surpreendentemente, pelas próprias petroleiras privadas anglo-americanas, que comandaram - a partir de 1998 - uma nova revolução na indústria privada do petróleo, envolvendo-se num processo gigantesco de fusões de empresas que já eram as maiores do mundo, e que deram origem às atuais Exxon-Mobil, ConocoPhillips, Chevron, BP, Total, ou mesmo, à norueguesa StatoilHydro.

Esse terremoto inicial assumiu logo em seguida novas formas com a reestatização e reorganização das grandes empresas energéticas russas, chinesas e indianas, junto com a expansão das empresas estatais da Arábia Saudita e de vários outros países incluindo o Brasil, sobretudo depois da descoberta do petróleo em águas profundas, em 2006. E de um passo decisivo com as novas formas de exploração intensiva do petróleo de xisto que recolocou os EUA entre os três maiores produtores mundiais de óleo. Uma transformação tão rápida e profunda que levou o grande especialista norte-americano, Michael Klare em petróleo, a afirmar que o mundo havia entrado numa "nova ordem energética internacional", caracterizada pela hiperconcentração do capital petroleiro privado, pela multiplicação das grandes petroleiras estatais, e pela crescente hegemonia do nacionalismo econômico e do "nacionalismo energético", entre as grandes potências do sistema mundial, mesmo entre as chamadas "potências liberais", incluindo os Estados Unidos de Donald Trump, o último dos "conversos". E de fato, 20 anos depois do início desta transformação, cerca de dois terços das reservas de petróleo do mundo se concentram no território de 15 países, e em 13 deles são de propriedade estatal; das 20 maiores empresas petroleiras do mundo, 15 são estatais e controlam 80% das reservas mundiais. As outras cinco empresas são privadas e controlam menos de 15% da oferta mundial do petróleo. Por isso, tem toda razão Daniel Yergin – outro grande especialista americano – quando diz que nos dias de hoje as principais decisões relativas ao petróleo – da definição dos preços ao traçado das grandes estratégias – são tomadas pelos Estados nacionais e suas grandes empresas públicas.
É muito difícil identificar uma causa única que explique esta revolução na ordem mundial do petróleo. Mas é possível pelo menos destacar algumas turbulências fundamentais, que ocorreram simultaneamente. No plano econômico, o enorme crescimento dos países asiáticos e, em particular, da China e da Índia, que produziu um verdadeiro "choque de demanda" sobre o mercado mundial de petróleo. Por outro lado, no plano geopolítico, a guerra quase contínua no Oriente Médio, que já se prolonga desde 2001, provocando um verdadeiro "choque de expectativas" negativas no mercado mundial, com a perspectiva de uma guerra permanente envolvendo as grandes potências, e quase todos os países de dentro e fora daquela região com grandes reservas de petróleo. Por fim, como consequência destes acontecimentos intensificou a concorrência das grandes potências, e sua luta para conquistar e monopolizar os novos recursos descobertos neste período, sobretudo no Canadá, Venezuela e Brasil. Assim mesmo, olhando de maneira mais ampla, se pode dizer também que esta nova "ordem do petróleo" é de fato um produto de longo prazo da expansão do sistema interestatal capitalista, ocorrida na segunda metade do século XX. Não se trata apenas da entrada da China e da Índia; trata-se de um sistema com 200 Estados nacionais que disputam hoje um recurso absolutamente escasso, concentrado e essencial para sua sobrevivência como sociedades e economias nacionais, mas também como unidades territoriais soberanas que participam de uma luta sem quartel pelo poder e pela riqueza mundial.

Nesse contexto geopolítico, e nessa nova ordem mundial do petróleo, só uma elite inteiramente corrompida e rebaixada, do ponto de vista moral, e completamente imbecilizada, do ponto de vista intelectual, pode abrir mão do controle estatal de seus recursos energéticos nacionais já conquistados.

José Luís Fiori  é Professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional, e do Programa de Pós-Graduação em Bioética e Ética Aplicada da UFRJ; Coordenador do Grupo de Pesquisa do CNPq/UFRJ, "Poder Global e Geopolítica do Capitalismo", www.poderglobal.net, e do Laboratório de "Ética e Poder Global", do PPGBIOS e consultor do GEEP-FUP.

*Publicado originalmente no site a AEPET - Associação dos Engenheiros da Petrobrás.
Fonte: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Soberania-Nacional/A-nova-ordem-mundial-do-petroleo/46/41117

A história dos dez adolescentes queimados vivos em Goiás - por Latuff

https://diaonline.com.br/reportagem-especial/a-historia-dos-dez-adolescentes-queimados-vivos-em-goias/

Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons

9ª. Edição da Feira Anarquista de São Paulo acontece em novembro – A.N.A.

9ª. Edição da Feira Anarquista de São Paulo acontece em novembro
Os coletivos Ativismo ABC, Biblioteca Terra Livre, CCS e Nelca organizam a IX Feira Anarquista de São Paulo, dando continuidade ao já tradicional encontro anual de anarquistas e simpatizantes do mundo inteiro.
Na edição deste ano, assim como nas anteriores, acontecerá mostra editorial e venda de livros, jornais, revistas, fanzines e outros materiais libertários. A Feira de São Paulo pretende reunir editoras libertárias do país e do exterior.

Paralelamente à mostra editorial haverá palestras e debates, assim como diversas atividades culturais, como exposições, poesias, apresentações teatrais, musicais e outras atividades.
Todas e todos estão convidados!

Organização: Ativismo ABC | Biblioteca Terra Livre | Centro de Cultura Social | Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri
Data: Domingo – 11 de novembro de 2018

Horário: das 10h às 20h
Local: Espaço Cultural Tendal da Lapa | Rua Constança, 72 – Lapa, São Paulo (SP) | Próximo à estação de trem e terminal de ônibus Lapa

Entrada Gratuita
Blog: feiranarquistasp.wordpress.com

FB: Feira Anarquista de São Paulo
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agência de notícias anarquistas-ana
os juncos no lago
estão verdes
curva-se a garça branca
Rita Schultz