segunda-feira, 9 de outubro de 2017

[EUA] Ajoelhar-se pela justiça: O ato de Kaepernick, por Mumia Abu-Jamal – A.N.A.

[EUA] Ajoelhar-se pela justiça: O ato de Kaepernick, por Mumia Abu-Jamal
Um ato do ex 49ers do San Francisco Colin Kaepernick tocou um ponto sensível em todo o país. Há vários meses [na pré-temporada de 2016 da NFL] o talentoso quarterback tomou a decisão de manter-se de joelhos durante o hino nacional para chamar a atenção para o terrorismo policial contra pessoas negras.

Está pagando um preço muito alto por seu ativismo baseado em princípios – um preço que os não-atletas apenas podem compreender.

Os atletas profissionais não são simplesmente homens e mulheres que praticam um esporte para divertir-se. Os atletas de elite, especialmente a nível profissional, passaram uma grande parte de suas vidas no fisioculturismo para ganhar maior tônus muscular e aperfeiçoar seu ofício; alguns começaram na escola secundária ou preparatória. Sua firme devoção a um esporte produz uma capacidade de centrar-se que poucas pessoas jamais conseguem.

O fato de que Kaepernick [atualmente sem time] está sacrificando sua carreira profissional ante a hostilidade da NFL [principal liga de futebol americano dos Estados Unidos], fala bem do homem.

Seu protesto sustentado nos faz pensar nos esforços anti-guerra do falecido Muhammad Ali. A decisão de tirar sua licença para boxear lhe negou o êxito quando estava no topo de sua carreira. A perda não só foi sua, senão de todos seus fãs.

Da mesma maneira, os atletas John Carlos e Tommie Smith viveram muitos anos de repressão e discriminação por haver alçado o punho em saudação ao Poder Negro durante a entrega das medalhas nos Jogos Olímpicos de 1968 no México.

Colin Kaepernick segue nesta orgulhosa e honrada tradição, porque ao ajoelhar-se, ele se levanta por justiça para milhões de pessoas cujas vozes foram sufocadas.

Desde a nação encarcerada, sou Mumia Abu-Jamal.

Domingo, 24 de setembro de 2017
N. da T.: Centenas de jogadores seguiram o exemplo de Kaepernick e ainda mais nas recentes partidas da NFL após Donald Trump criticar os protestos e insultar os jogadores de futebol americano que protestam de tal forma, chamando-lhes “filhos da puta”. “Se os fãs da NFL se recusassem a ir às partidas até que os jogadores deixassem de faltar com o respeito à nossa bandeira e ao nosso país, veríamos uma mudança rápida. Que sejam demitidos ou suspensos“, afirmou o presidente no Twitter.

Tradução > Sol de Abril
Conteúdo relacionado:
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2016/08/24/eua-atletas-e-herois/

agência de notícias anarquistas-ana
Suave crepúsculo
Sol emoldurando o ocaso
O pássaro sonha


Tânia Souza
Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/

O grupo da mão invisível – por Bruno Abbud

O grupo da mão invisível
Dois meses de conversas no WhatsApp do MBL

Na última terça-feira de julho, uma mensagem apitou no celular de Kim Kataguiri, principal líder do Movimento Brasil Livre. Conhecido nacionalmente como a face pública do MBL, ele acabara de ser incluído em um grupo de WhatsApp chamado “MBL – Mercado”. A cúpula do grupo – que ganhou notoriedade nas redes sociais clamando pelo impeachment de Dilma Rousseff – também estava lá: os irmãos Renan e Alexandre Santos, o vereador democrata de São Paulo Fernando Holiday, o youtuber oficial do movimento e dono do canal “Mamãe Falei”, Arthur do Val, e Pedro Augusto Ferreira Deiro, também conhecido como o funkeiro Pedro D’Eyrot. O grupo, criado por um entusiasta do MBL, serviria como interface entre o movimento e executivos de médio e alto escalão do mercado financeiro – pelo menos 158 funcionários de instituições como Banco Safra, XP Investimentos e Merrill Lynch. Objetivos iniciais: levantar dinheiro para financiar o MBL e levar as pautas dos executivos às discussões públicas e aos encontros a portas fechadas que os membros do MBL teriam com políticos e lideranças nacionais. Contudo, muito mais seria dito.
A piauí teve acesso ao histórico de conversas do dia 25 de julho (13h49) até a última quarta-feira, 27 de setembro (20h25). As trocas de mensagens durante esses dois meses renderam 685 páginas de bate-papo que tratam de temas como saúde, segurança pública e educação. Os debates acalorados aconteciam, no entanto, quando o grupo falava de seu principal assunto no momento: o PSDB. Em meio a uma guerra fria entre o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o prefeito paulistano, João Doria – que disputam nas coxias o cargo de candidato à Presidência da República no próximo ano –, o partido é tratado como um território a ser pilhado pelo MBL. O movimento quer drenar parte das jovens lideranças tucanas – as quais chamam de “cabeças pretas” –, deixando os decanos do partido – os “cabeças brancas” – à deriva.
“A ideia é deixar todo esse povo podre afundando com o psdb e trazer a galera mais Jovem e liberal pro mbl”, respondeu Kim Kataguiri em 22 de agosto a um participante temeroso de que o grupo se juntasse ao tucanato. Outro líder do movimento, Alexandre Santos, emendou: “Mas não estamos nos juntando ao PSDB. Muito menos ao Aecio, Beto Richa e Alckmin.” Ao serem questionados se o MBL teria “algum preconceito com pessoal mais velho”, referindo-se aos tucanos mais antigos, Kataguiri teclou: “Com os do PSDB temos preconceito, conceito e pós-conceito. São pilantras.” No dia seguinte, Renan reforçou, em um áudio enviado ao grupo: “Não bastava a gente tirar o PT do poder, estamos destruindo o PSDB ali, essa ala de esquerda tá desesperada, estamos pegando os melhores nomes deles e, ou eles vão sair, ou eles acabam fortalecendo e tomam partido e tiram essa esquerda aí. Mas a esquerda do PSDB tá desesperada, e não para de vir novas lideranças do PSDB pro time. Doideira. Bom dia, aí.”
Os alvos principais no partido são os senadores Aécio Neves e José Serra, e também o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.
Serra surge nas conversas no dia 22 de agosto, quando se alinhou ao senador petista Lindbergh Farias pela suspensão das discussões sobre a nova taxa de juros do BNDES, mais alta que a atual, desejada pelo governo Temer e encampado pelo MBL. Farias e Serra tentaram protelar a votação da Tarifa de Longo Prazo (TLP) até que ela caducasse sem ser apreciada. Em áudio, Renan Santos comentou: “E ontem o Serra, por exemplo, que é dessa ala de esquerda, tava com o Lindbergh Farias indo contra o TLP, imagina? Vagabundo.” Logo recebeu apoio: “Vagabundo mesmo Renan”, disse um membro. “PSDB e Serra ontem morreram para mim. Carga total no Novo/MBL/VPR e Doria”, disse outro. A TLP seria aprovada dias depois.
Aécio Neves aparece no dia 5 de setembro, quando um participante postou a seguinte mensagem em relação à operação que flagrou o senador mineiro, em grampo, pedindo 2 milhões de reais ao empresário Joesley Batista, da JBS: “E o Aecio… dispensa comentários… Que termine o mandato e seja encarcerado na sequência…” Renan Santos respondeu: “Tb acho”, disse. Mas justificou o que prenunciaria uma mão leve nas críticas públicas feitas pelo MBL ao senador: “Só não vamos alterar a configuração atual das forças políticas nem fornecer uma narrativa que favoreça o ressurgimento da esquerda enquanto isso. Essa é a tônica do que defendemos.”
Alckmin é citado quando um membro comenta a notícia, veiculada em 27 de setembro, de que o ex-ministro dos governos Lula e Dilma e ex-deputado federal Aldo Rebelo seria o vice do governador de São Paulo em uma eventual disputa pela Presidência da República. Os irmãos Santos trocaram mensagens. Alexandre escreveu: “Aldo Rabelo é fim de linha. O bom é isso sepulta de vez o xuxu.” Renan respondeu: “Po. vamos torcer.”
As críticas ao PSDB deixam os inimigos tradicionais do MBL como coadjuvantes no ringue. Não faltam, é claro, porretadas em Dilma, em Lula, no PT, no PSOL, em Marina Silva e na Rede. Mas outros possíveis adversários aparecem com mais destaque: Jair Bolsonaro (“tosco”, “ignorante”, “sem noção”, “inadmissível”) e Luciano Huck – que, caso saia candidato, poderia “diluir o voto da direita”, enfraquecendo Doria. “Ele é piada”, disse Renan Santos. Quinze minutos depois, completou: “Huck é lixo. Politicamente correto, desarmamentista, ambientalista de boutique, intervencionista.”
O esvaziamento do PSDB engendrado pelo MBL no grupo de WhatsApp parece ter como objetivo final tirar o prefeito de São Paulo, João Doria, do partido. O apoio à candidatura de Doria dá o tom em várias conversas durante os dois meses de debates. No dia 5 de agosto, o movimento produziu um vídeo e postou nas redes sociais, compartilhando no grupo fechado logo em seguida. O título: “Que coisa feia, prefeito… Kim Kataguiri detona racismo e xenofobia de João Doria.” Sem assistir ao vídeo, alguns membros se mostraram preocupados com o título polêmico que parecia uma crítica ao prefeito. Alguém tratou de jogar panos quentes: o título era, na verdade, irônico – seu conteúdo era amplamente favorável a Doria.
Não convencidos, participantes questionaram se aquele tipo de ação não causaria mal-entendidos nas redes sociais (“Aposto que tem gente de esquerda compartilhando o video sem ver, achando que a crítica é realmente ao Doria…”, alertou um). O líder Renan Santos respondeu, com duas mensagens: “Esse tipo de chamada em video e noticias, como um clickbait, funciona legal. Seria uma estratégia babaca se o vídeo não fosse bem humorado, mas a ideia justamente era fazer algo leve. O Doria adorou kkk.”
No dia 16 de agosto, quando comentavam sobre a possível trucagem engendrada pela Rússia nas eleições dos Estados Unidos, um participante teclou sobre a consultoria política Cambridge Analytica, que teria usado bases de dados disponíveis na internet para influenciar a eleição de Trump e a saída do Reino Unido da União Europeia. Mesmo diante da postura cética de alguns membros, o participante enfatizou: “Isso é muito sério, gente. E podem ter certeza que vai ser usado aqui em 2018. Só espero que o Doria ja tenha fechado contrato de exclusividade com a Cambridge analytica. Rss.”
Três dias depois, quando o prefeito de São Paulo disse publicamente que aceitaria se candidatar à Presidência pelo PSDB, outro participante comemorou: “Go Dória.”
No fim da tarde do último domingo de agosto, Renan Santos mandou uma mensagem em tom definitivo para o grupo que ansiava por uma decisão do prefeito paulistano: “Jd será candidato”, teclou, referindo-se a João Doria, sem, no entanto, citar a fonte da informação. Alguém respondeu: “Dória e ACM Neto é o gabarito.” Em outras três mensagens, Santos continuou: “Com ou sem psdb. A aliança q pode lhe eleger está no pmdb dem evangélicos agro e mbl. Nosso trabalho será o de unir essa turma num projeto comum.” E completou, menos de meia hora mais tarde: “Espero, de coração, q a tese q a gente defende (aliança entre setores modernos da economia + agro + evangelicos) seja aplicada. É a melhor forma de termos um pacto politico de centro-direita, q dialoga com o campo e com a classe C.”
Se no grupo fechado o MBL garantia que estava trabalhando para roer o PSDB por dentro, publicamente a postura do grupo era diversa. Em fins de setembro, o movimento disparou no Twitter: “Tem ninguém aqui querendo rachar a direita”, dizia a mensagem, para seus 91,5 mil seguidores. E completava: “Uma pena que tenha gente querendo destruir o MBL com facada nas costas.”
As conversas ajudam a elucidar, mesmo que parcialmente, um dos maiores mistérios que cercam o MBL: como o grupo se financia. “O MBL não está exatamente nadando em dinheiro. Os caras precisam ir pra Brasília de ônibus”, disse o criador do grupo de WhatsApp e entusiasta do movimento em 27 de julho, dois dias depois de iniciada a troca de mensagens. A partir daí contribuições se tornaram assunto recorrente.
Uma planilha foi criada para que os integrantes do “MBL – Mercado” registrassem seus dados e o valor das doações. No início da tarde de 9 de agosto, uma quarta-feira, um deles anunciou: “já mandei 15 mil e vou mandar mais”. “Opa! Foi hoje?”, respondeu Alexandre Santos, no mesmo minuto. “Hoje não mandei, vou mandar mais tarde. Os 15k mandei faz um mês.” Com a ajuda de integrantes que atuam como arrecadadores (enviaram 12 vezes o link com a planilha), a tática de convencimento pessoa a pessoa ficou aparente.
De tempos em tempos, a evolução dos aportes foi sendo informada pelos participantes. E as mensagens serviam como uma espécie de livro-caixa do MBL naquele grupo: em duas semanas, foram arrecadados mais de 50 mil reais, reforçados, aparentemente, por um evento presencial. Além das contribuições esporádicas, os integrantes descreveram uma receita fixa mensal que, no período das conversas, só cresceu. Também na quarta-feira, 9 de agosto, um balanço da planilha feito pelos integrantes indicava que um punhado de apoiadores já doavam, somados, 2 380 reais todo mês. No dia seguinte, já eram 5 780 reais fixos por mês na soma de todos os apoiadores.
A tabela de Excel que fazia as vezes de livro-caixa passou dias sem registrar novos doadores, o que incomodou um dos participantes. No dia 17 de agosto, logo cedo pela manhã, ele decidiu pressionar os demais. Escreveu: “Agora, sem querer dar uma de moderador chato, tem um pessoal que ta cagando pra preencher essa xls. tudo em branco ainda. xls ja ta aqui faz quase tres semanas. das duas, uma: ou quem nao preencheu nao lê esse grupo faz semanas e nao viu o pedido pra preencher, ou simplesmente ta cagando mesmo pro mbl rs. em ambas as hipóteses, acho que a pessoa nao deveria estar aqui. right?”
E voltou à carga, 15 minutos depois: “Acho que temos graus de afinidades diferentes no grupo, nem por isso penso em excluir os que ainda não se sentem 100% prontos para contribuir de forma efetiva. Se não conseguirmos mostrar o valor dessa parceria entre nós que estamos alinhdos, sinal que estamos fracos contra os reais adversários, e gosto da ideia de ter o contraponto “razoável” aqui dentro… mas claro, alguma hora, cada um tem que tomar a decisão: avaliou, discutiu, pensou… entao ou se engaja mais ou abre espaço pra outro.”
A pressão funcionou. No dia seguinte, as doações de 37 integrantes já somavam 8 510 reais mensais.
Para formar uma espécie de distinção entre seus membros, o MBL criou nomes que seriam dados conforme os valores depositados mensalmente. A maioria dos participantes optou pelo plano “Mão Invisível”, de 250 reais por mês, o que garante ao doador a participação em jantares e reuniões. Outros planos receberam nomes como “Agentes da CIA” (30 reais por mês), “Exterminador de Pelegos” (500 reais mensais) e “Privatiza Tudo” (5 mil reais todo mês). Esses, pagos via PayPal.
As trocas de mensagens renderam também outro tipo de auxílio nas despesas do movimento: a transferência de milhas aéreas não usadas pelos executivos, para utilização em viagens dos integrantes do MBL. Outra planilha também foi criada para o controle. “Era legal você ter acesso a isso”, disse Alexandre Santos a Kim Kataguiri. Em menos de um dia, 400 mil milhas foram doadas e, em um mês, dezessete pessoas haviam doado 959 mil milhas, segundo a troca de mensagens – ou, mais de 20 mil reais, pelas contas de um dos integrantes, com base em passagens aéreas de São Paulo a Brasília. “Muito obrigado pelas milhas, pessoal! Vou sentir saudade das garrafinhas de água e dos biscoitos cream cracker do busão”, escreveu Kataguiri.
O presidente Michel Temer é citado 76 vezes no grupo. Pelas conversas, o MBL – que foi uma das maiores forças para derrubar Dilma – tem uma relação utilitarista com o político: não o defende abertamente, mas se utiliza do poder de pressão para aprovar a agenda política, cultural e econômica do movimento.
No dia 2 de agosto, um membro postou uma notícia informando que o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, já tinha quórum para votar a denúncia feita pela Procuradoria-Geral da República, que acusava Temer de corrupção passiva. Nenhum líder do MBL respondeu. Duas semanas depois, um participante comentou em três mensagens distintas: “Reunião com Deputado federal do DEM agora. Disse que governo Temer precisa focar em reforma da previdência na divulgação nas redes sociais. Precisam de ajuda na comunicação para população entender.” Um minuto depois, Renan Santos, do MBL, se prontificou: “Já estamos, soltamos dois videos.”
No dia 21 pela manhã, uma segunda-feira, um participante perguntou: “O MBL vai participar do protesto este domingo?”, referindo-se a uma marcha contra a corrupção convocada por movimentos sociais e sites ligados à direita, que aconteceria no dia 27. Quinze minutos depois, Kim Kataguiri respondeu: “Não vamos. Achamos que é um tiro no pé, não há clima para mobilização, qualquer que seja a pauta.” Um mês depois, durante uma discussão sobre reformas, Renan Santos disparou, possivelmente referindo-se a Temer: “E é o seguinte: vamos tentar botar pra frente essa previdência. Ainda da tempo. O zumbizão ta lá pra isso kkk.”

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

[Alemanha] Como o punk e o heavy metal desafiaram a polícia secreta da Alemanha Oriental e ajudaram a derrubar o Muro de Berlim – por Chris Bowlby

[Alemanha] Como o punk e o heavy metal desafiaram a polícia secreta da Alemanha Oriental e ajudaram a derrubar o Muro de Berlim
Quando a música se torna um símbolo da liberdade, desconhece fronteiras e erode muros.

Assim concluiu Dagmar Hovestaedt, pesquisadora do Bundesbeauftragte für die Stasi-Unterlagen (BstU), arquivo federal alemão que reúne documentos da antiga polícia secreta da Alemanha Oriental, a temida Stasi.

Em 1961, a Alemanha Oriental, um país comunista, construiu uma parede que dividiu ao meio a cidade de Berlim. A partir desse momento, seus governantes tentaram, por todos os meios, isolar o povo do país contra qualquer influência ocidental.

Mais de meio século depois, os arquivos da Stasi revelam, no entanto, que paredes de concreto, arame farpado e vigilância constante não foram capazes de abater o espírito libertário do rock.

Música Subversiva

Na década de 1960, a explosão da beatlemania deixou muita gente perplexa. Entre eles, o então líder da República Democrática Alemã (RDA), Walter Ulbricht. Em um discurso para membros do Partido Comunista na época, ele declarou, em tom de escárnio: “Será que realmente temos de copiar todas as besteiras que vêm do ocidente… esse ‘yeah yeah yeah’ monótono?”

Ulbricht tinha 70 anos. E seus comentários, na verdade, não eram muito diferentes dos de muitos políticos ocidentais no período, diz Hovestaedt.

“A geração mais velha, a geração da (Segunda) Guerra, era contrária ao que a juventude estava fazendo.”

Mas para os líderes da Alemanha Oriental havia muito mais em jogo. Eles temiam que o gosto pela música ocidental viesse acompanhado do gosto pela política ocidental. Para evitar isso, uma das estratégias adotadas pelas autoridades foi criar “sua própria versão de cultura jovem”.

Na tentativa de impedir que passos de dança associados ao rock virassem moda na RDA, as autoridades criaram seus próprios passos de dança. Como o Lipsi. Também havia um sistema de cotas determinando quanta música ocidental podia ser tocada em festas. Mas “não se pode organizar cultura jovem”, diz Hovestaedt. “Não funciona assim.”

De ouvido grudado no rádio, jovens alemães orientais tentavam sintonizar as últimas novidades transmitidas por rádios ocidentais. E a Stasi fazia o que podia para impedi-los.

Rolling Stones

Um episódio em particular exemplifica a paranoia da RDA em relação à música ocidental – e a triste sina dos fãs de música no país: o concerto dos Rolling Stones que não houve.

Diz a lenda que a história começou em 1969, quando um DJ da emissora de rádio RIAS, sediada na Alemanha Ocidental mas muito ouvida do outro lado do muro, fez o seguinte comentário: Imagine, teria dito o radialista, se a nova editora do empresário Axel Springer, com sede bem ao lado do Muro de Berlim, decidisse fazer um concerto dos Rolling Stones no telhado? Os alemães orientais poderiam ouvir o show também!

Na Alemanha Oriental, o concerto imaginário do DJ rapidamente se transformou em um boato – e, depois, em fato.

Milhares de jovens alemães orientais se convenceram de que os Rolling Stones iriam definitivamente tocar ao lado do muro. E tinham certeza de que o concerto iria acontecer no dia em que as autoridades da RDA planejavam comemorar, em Berlim Oriental, os 20 anos da fundação do país.

A notícia preocupou a Stasi. A polícia secreta da RDA não gostava de Springer, tido como um perigoso capitalista determinado a convencer jovens alemães orientais a abandonar seus ideais comunistas.

Os arquivos da Stasi daquele período estão cheios de fotos de frases escritas a giz nas ruas da Alemanha Oriental dizendo aos fãs dos Rolling Stones que viessem a Berlim – e relatos detalhando como a Stasi identificou e prendeu os subversivos autores dos slogans.

Ainda assim, centenas de jovens foram para Berlim no dia anunciado. Entre eles estava Eckart Mann, na época com 16 anos. Ele falou à BBC.

Mann tinha ouvido os boatos. E tinha pensado: “Os Rolling Stones, em Berlim? Que incrível!”

Os Stones não apareceram, mas a policia, sim. Quando a multidão se aproximou do Portão de Brandenburg, a polícia chegou. Mann foi espancado e preso.

O jovem foi acusado de ser um “elemento antissocialista”. Os arquivos secretos revelam que o então chefe da Stasi, Erich Mielke, tinha interesse particular no caso de Mann. Ele passou dois anos na prisão e depois foi expulso do país e enviado à Alemanha Ocidental, para longe de sua família.

Prisão

Eckart não diz muito ao ser perguntado sobre sua experiência na prisão. “Não foi bom, mas o que eu podia fazer”, responde.

Foi assim que a paixão pelo rock acabou custando muito caro para um adolescente alemão oriental.

A punição brutal tinha como objetivo impedir que jovens da Alemanha Oriental balançassem ao som do rock “imperialista”.

Ainda assim, a febre da música ocidental só crescia na RDA, alcançando lugares distantes das grandes cidades.

Outro adolescente, Alexander Kuehne, louco para ter acesso àquela música, encontrou uma brecha na lei. Alemães orientais já aposentados, que não eram considerados importantes pelo Estado – tinham permissão para visitar o lado ocidental. Kuehne decidiu entregar uma listinha de compras à avó. Infelizmente para ele, o plano não deu certo: ela confundiu The Clash com Johnny Cash.

Tantos anos depois, o rosto de Kuehne ainda mostra a decepção que sentiu ao receber a encomenda.

No entanto, ele logo se refez. E decidiu transformar o vilarejo onde morava em um espaço para shows.

Atrás do Bar

A cidade ficava perto de uma estrada de ferro e ele persuadiu fãs e bandas de todo tipo a se reunirem na “sala atrás do bar da cidade”.

“Ali, fizemos as maiores festas da Alemanha Oriental”, conta.

Fazendeiros que frequentavam o bar olhavam, sem entender, enquanto centenas de fãs de New Wave e Glamrock passavam pela porta e se dirigiam à “casa de shows”. Às vezes, a sala – que, segundo o regulamento da polícia tinha capacidade para cem pessoas – chegava a abrigar mil fãs, ele diz.

Como o vilarejo era muito remoto, a polícia e a Stasi demoravam para reagir. Com exceção de uma ocasião em que Kuehne foi preso, levado para a delegacia e informado de que a Stasi viria buscá-lo no dia seguinte.

“Fiquei apavorado.”

Por sorte, a mãe do jovem tinha sido professora de um policial da região. Ela ordenou ao policial que soltasse o filho e, quando a Stasi chegou, foi tirar satisfações com os agentes.

Ela nunca disse ao filho o que exatamente aconteceu. “Ela é minha heroína”, diz.

Na Igreja

O objetivo da polícia secreta era impedir que aquela música se alastrasse e ficasse conhecida por todo o país, explica Jurgen Breski, um ex-oficial da Stasi encarregado de infiltrar e monitorar o circuito de rock na RDA.

(Meus chefes) “queriam inculcar no povo um estilo de vida socialista, então tentávamos combater qualquer coisa que não pertencesse àquilo”, diz Breski.

Para atingir seu objetivo, a Stasi recrutava informantes. Outra tática era convocar integrantes de bandas ilegais para o serviço militar obrigatório. “De repente, a banda não tinha mais músicos”, conta o ex-agente.

Alguns grupos, no entanto, conseguiram driblar a polícia secreta.

O Museu da Stasi, em Berlim, exibe foto de registro policial de um punk preso pela polícia.

Dirk Kalinowski, do grupo punk Zerfall, disse à BBC que sua banda sobreviveu graças a uma inusitada aliança com uma Igreja Evangélica de Berlim que deu abrigo ao grupo. As autoridades da RDA não queriam atrair a atenção internacional com interferências diretas em atividades da Igreja.

O espaço da igreja era protegido, ele diz.

“Eles podiam te prender ao entrar ou sair. Mas lá dentro você estava seguro”, conta o roqueiro.

Assim, os Zerfall – banidos pelo Estado – se apresentavam no meio das missas evangélicas. O pastor fazia uma pausa e pedia à congregação, a maioria já idosa, que ouvisse algo “um pouco diferente”.

“Era muito louco”, lembra Kalinowski. “Eu podia ver nos olhos da congregação que estavam totalmente chocados. Os únicos que não se abalavam eram as crianças, que começavam a pular imediatamente. Vi um casal tampar os ouvidos e sair.”

Uma outra igreja foi palco de mais um concerto extraordinário: o da banda alemã ocidental Die Toten Hosen, que foi “contrabandeada” para dentro da RDA pelo produtor britânico Mark Reeder.

“Eu disse aos meus amigos, ‘Se eu for pego, vão me expulsar do país. Mas se vocês forem pegos, suas vidas vão mudar. Vão ser classificados como inimigos do Estado'”, conta Reeder à BBC. O grupo foi em frente, cruzando o Muro de Berlim sob disfarce.

Apenas 25 pessoas puderam ir ao show secreto do Die Toten Hosen na igreja em Berlim Oriental. “Mas todos sabiam que o que estava acontecendo ali era algo muito especial, que talvez nunca se repetisse”, disse à BBC o cantor do grupo, Campino.
Falando à BBC, Campino disse ter ficado muito impressionado com a forma como os jovens alemães orientais criavam espaço para sua cultura apesar – ou talvez em consequência – da pressão das autoridades.
“Eles tinham um orgulho próprio. Diziam, ‘vocês no Ocidente têm as melhores roupas, a moda, tudo isso. Mas nós temos amizade, ajudamos uns aos outros e não somos superficiais'”.
E essas amizades, diz Campino, importavam mais. “Porque eles tinham que pagar um preço muito mais alto se as coisas dessem errado”.
Bowie no Muro
E assim, sem que o mundo ocidental tivesse conhecimento, o rock continuava a eletrizar a RDA. As autoridades criavam restrições, mas, pelas brechas, fãs criavam seus espaços e o espírito da música vivia por toda a Europa comunista.
A partir da década de 1980, um novo líder em Moscou, Mikhail Gorbachev, começou a relaxar o controle soviético sobre a Alemanha Oriental.
Em 1987, o pop star David Bowie tocou ao lado do Muro de Berlim. Desta vez, os fãs em Berlim Oriental puderam se reunir ao lado da parede para tentar ouvir o show.
O show de Bowie criou um dilema profissional e pessoal para o vice-chefe de polícia de Berlim Oriental, Dieter Dietze.
Ainda jovem, Dietze sabia que uma resposta policial violenta – como a ocorrida em 1969, quando jovens se reuniram no local para ouvir um suposto show dos Rolling Stones – seria contraproducente. Por outro lado, como fã de rock e ex-integrante de banda, tinha simpatia pelos fãs de Bowie.
“Era óbvio para mim que música, (e particularmente o) rock, pertencia à juventude, e não havia como negar isso aos jovens. Então, eu e outros dois colegas fizemos uma proposta.”
O plano era autorizar concertos de estrelas internacionais, entre elas, Bob Dylan e Bruce Springsteen, dentro do território da RDA. A ideia era que os shows funcionassem como uma válvula de escape, diluindo o interesse pelo rock. Na prática, os concertos acabaram amplificando um novo espírito libertário no país.
Concertos como o de Bruce Springsteen em 1988, diz Dagmar Hovestaedt, “tornaram-se focos para manifestações reivindicando direitos humanos, direito a viagens e à livre expressão.”
“Imagine cem mil alemães orientais cantando ‘born in the USA’ (nascido nos EUA)!”, diz a pesquisadora.
Rock x Muro
A Guerra Fria terminou por várias razões, políticas e econômicas. E o espírito libertário que levou milhares às ruas em 1989 para desafiar o regime comunista também contribuiu, diz Hovestaedt.
Para muitos, especialmente os jovens, o que nutriu e manteve vivo esse espírito foi a música.
agência de notícias anarquistas-ana
Sobre o telhado
flores de castanheiro
ignoradas.
Matsuo Bashô