quinta-feira, 21 de junho de 2018

Welcome to America - por Latuff

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segunda-feira, 18 de junho de 2018

E vem aí mais uma ofensiva da bancada ruralista no Congresso contra os indígenas! - por Latuff

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O curioso caso do silêncio da esquerda sobre Julian Assange - por John Pilger e Dennis J Bernstein [*]

O curioso caso do silêncio da esquerda sobre Julian Assange
Numa comunicação recente entre Randy Credico (produtor de rádio e apoiante de Assange) e Adam Schiff (membro do Comité Judiciário da Câmara dos Representantes), o temor de Assange de prisão e extradição para os EUA foi confirmado pelo líder da histeria Russia-gate.

Credico recebeu a seguinte resposta de Schiff após a reunião com a equipe do congressista, na qual Credico tentava ligar Assange a Schiff: "Nosso comité estaria desejoso de entrevistar Assange quando ele estiver sob a custódia dos EUA e não antes".

Dennis Bernstein conversou com John Pilger, um amigo próximo e apoiante de Assange em 29 de Maio. A entrevista começou com a declaração de Bernstein apresentada por Pilger no Fórum Esquerda no último fim-de-semana em Nova York num painel dedicado a Assange intitulado: "Russia-gate e WikiLeaks".

Declaração de Pilger

"Há um silêncio entre muitos que se consideram esquerda. O silêncio é Julian Assange. Quando todas as falsas acusações caíram por terra, quando todas as falsificações sujas se mostraram ser trabalho de inimigos políticos, Julian levanta-se vingado como um dos que revelaram um sistema que ameaça a humanidade. O vídeo Dano Colateral, os registos de guerra do Afeganistão e do Iraque, as revelações do Cablegate, as revelações da Venezuela, as revelações dos email de Podesta ... este são apenas algumas das tempestades de verdade bruta que explodiram através das capitais das potências opressoras. A falsificação do Russia-gate, a conivência de uma media corrupta e a vergonha de um sistema legal que persegue os que contam a verdade e não foi capaz de conter a verdade bruta das revelações da WikiLeaks. Eles não venceram, ainda não, e eles não destruíram o homem. Só o silêncio das pessoas boas permitirá que vençam. Julian Assange nunca esteve tão isolado. Ele precisa do vosso apoio e da vossa voz. Agora mais do que nunca é tempo de exigir justiça e o direito de livre expressão para Julian. Obrigado.

Dennis Bernstein: Continuamos a nossa discussão do caso de Julian Assange, agora na embaixada equatoriana na Grã-Bretanha. John Pilger, é bom conversar consigo outra vez. Mas é uma tragédia profunda, John, o modo como eles estão a tratar Julian Assange, este jornalista e editor prolífero de quem muitos outros jornalistas dependeram no passado. Ele foi deixado totalmente no frio para defender-se por si próprio.

John Pilger: Nunca vi algo assim. Há uma espécie de silêncio misterioso em torno do caso de Julian Assange. Julian foi inocentado de todos os modos possíveis e ainda está isolado como poucas pessoas estão nestes dias. Ele está desligado das próprias ferramentas da sua actuação, não lhe são permitidos visitantes. Estive em Londres recentemente e não pude vê-lo, embora falasse com pessoas que o tinham visto. Rafael Correa, o antigo presidente do Equador, disse recentemente que encarava o que estão agora a fazer a Julian como tortura. Foi o governo Correa que deu refúgio político a Julian, o qual foi agora traído pelo seu sucessor, o governo liderado por Lenin Moreno, o qual está outra vez absorvido pelos Estados Unidos conforme a tradição, com Julian como pião e vítima.

Deveria ser um "Herói constitucional"
Mas realmente isto deve-se basicamente ao governo britânico. Embora ele ainda esteja numa embaixada estrangeira e realmente tenha a nacionalidade equatoriana, o seu direito de passagem para fora da embaixada deveria ser garantido pelo governo britânico. O Grupo de Trabalho sobre Detenções Arbitrárias das Nações Unidas (
Working Group on Arbitrary Detention ) deixou isso claro. A Grã-Bretanha tomou parte numa investigação, a qual determinou que Julian era um refugiado político e que uma grande perversão da justiça lhe fora imposta. É muito bom que esteja a fazer isto, Dennis, porque mesmo nos media não convencionais há este silêncio acerca de Assange. As ruas do lado de fora da embaixada estão virtualmente vazias, mas deveriam estar cheias de pessoas a dizerem estamos consigo. Os princípios envolvidos neste caso são claríssimos. O número um é o da justiça. As injustiças feitas a este homem são legião, tanto em termos do falso processo sueco como agora no facto de que ele deve permanecer na embaixada e não pode deixá-la sem ser preso, extraditado para os Estados Unidos e acabar num buraco infernal. Mas é também acerca da liberdade de expressão, acerca do nosso direito a saber, o qual está cristalizado na Constituição dos Estados Unidos. Se a Constituição fosse adoptada literalmente, Julian seria realmente um herói constitucional. Ao invés disso, entendo a acusação que eles estão a tentar cozinhar como uma acusação de espionagem! É demasiado ridículo. Esta é a situação tal como a vejo, Dennis. Não é uma situação feliz, mas sim uma situação a que o povo deveria acorrer rapidamente.

DB: Os seu irmãos jornalísticos parecem-se com os seus perseguidores. Eles querem apoiar aberrações como o congressista Adam Schiff do Russia-gate e como Mike Pompeo, os quais gostariam de ver Assange na prisão para sempre ou mesmo executado. Como é que responde a jornalistas que actuam como perseguidores, alguns dos quais utilizaram o seu material para escrever notícias? Este é um tempo terrível para o jornalismo.

JP: Você está absolutamente certo. É um tempo terrível para o jornalismo. Nunca vi uma coisa assim na minha carreira. Dito isto, não é novo. Sempre houve um chamado media mainstream o qual realmente representa o grande poder nos media. Isto sempre existiu, particularmente nos Estados Unidos. O Prémio Pulitzer deste ano foi concedido a The New York Times e The Washington Post por caça a feiticeiras em torno do Russia-gate! Eles foram louvados pela "profundidade das suas investigações". As suas investigações não mostraram nem um fragmento de prova real a sugerir qualquer intervenção russa séria na eleição de 2016.

Tal como Webb
O caso Julian Assange recorda-me o caso Gary Webb. Bob Parry foi um dos poucos apoiantes de Gary Webb nos media. A série "Aliança negra" de Webb continha evidência de que o tráfico de cocaína estava em curso com a conivência da CIA. Posteriormente Webb foi perseguido por colegas jornalistas e, incapaz de encontrar trabalho, acabou por cometer suicídio. O Inspector-Geral da CIA justificou-o posteriormente. Agora, Julian Assange está muito distante de atentar contra a sua própria vida. A sua resiliência é notável. Mas ele ainda é um ser humano e tem sido massacrado.

Provavelmente o que é mais duro para ele é a absoluta hipocrisia das organizações noticiosas – como The New York Times, o qual publicou "Registos de guerra" e "Cablegate" da WikiLeaks, The Washington Post e The Guardian, os quais tomaram uma vingança deliciosa a atormentar Julian. Mas a sua cobertura de Snowden deixou-o em Hong Kong. Foi a WikiLeaks que conseguiu tirar Snowden de Hong Kong e pô-lo em segurança.

Profissionalmente, considero isto uma das coisas mais repugnantes e imorais que já vi na minha carreira. A perseguição a este homem por enormes organizações de media que extraíram grandes benefícios da WikiLeaks. Um dos grandes atormentadores de Assange, Luke Harding de The Guardian, ganhou muito dinheiro com uma versão Hollywood de um livro que ele e David Lee escreveram e no qual basicamente atacam a sua fonte. Suponho que seja preciso ser psiquiatra para entender tudo isto. O meu entendimento é que muitos destes jornalistas estão envergonhados. Eles percebem que WikiLeaks fez o que eles deveriam ter feito há muito tempo e que é dizer-nos como os governos mentem.

DB: Uma coisa que me perturba muito é o modo como a imprensa corporativa ocidental especula acerca do envolvimento russo na eleição estado-unidense de 2016, que foi um golpe (hack) através de Julian Assange. Qualquer investigador sério desejaria saber quem seria motivado para isso. E ainda a possibilidade de que possa ser a dúzia ou mais de pessoas irritadas que foram trabalhar para a máquina da Clinton e aprenderam dali de dentro que o DNC [Comité Nacional Democrático] fazia tudo para se livrar de Bernie Sanders... isto não faz parte da narrativa!

Oitocentas mil revelações sobre a Rússia
JP: O que aconteceu a Sanders e o modo como ele foi esmagado pela organização da Clinton, toda a gente sabe que isto é a notícia. E agora temos o DNC a processar a WikiLeaks! Há uma espécie de elemento farsesco nisto. Quero dizer, nada disto veio dos russos. Que a WikiLeaks de algum modo estivesse na cama com os russos é ridículo. A WikiLeaks publicou cerca de 800 mil grandes revelações acerca da Rússia, algumas delas extremamente críticas do governo russo. Se você for um governo e fizer algo inconveniente ou estiver a mentir ao seu povo e a WikiLeaks obtiver os documentos para mostrá-lo, eles publicarão não importa quem seja você, seja dos Estados Unidos ou da Rússia.

DB: Randy Credico, devido ao seu trabalho e à sua decisão de dedicar uma série de artigos à perseguição de Julian Assange recentemente encontrou-se ele próprio sob ataque. Ele foi a um churrasco para a imprensa na Casa Branca e, depois de ter uma linda discussão com o congressista Schiff, ele gritou: "E sobre Julian Assange?" A sala estava cheia de reporters mas Randy foi atacado e arrastado para fora. Era como se toda a gente ali ficasse embaraçada ao reconhecer que um dos seus irmãos estava a ser brutalizado.

JP: Randy gritou algumas verdades. Isto é muito semelhante ao que aconteceu a Ray McGovern. Ray é um antigo membro da CIA mas um homem com princípios. Posso sugerir que agora ele é um renegado.

DB: Era histérico observar estes quatro guardas armados que se mantiveram a gritar "Pare de resistir, pare de resistir!" enquanto lhe batiam de modo infernal!

JP: Penso que a imagem de Ray a ser arrastado foi particularmente tocante. Estes quatro pesos-pesados, obviamente jovens mal treinados a tratarem Ray com grosseria, o qual tem 78 anos. Para mim houve algo extremamente emblemático quanto a isso. Ele enfrentou até ao desafio o facto de que a CIA estava prestes a entregar a sua liderança a uma pessoa que fora encarregada das torturas. É tanto chocante como surreal, o que naturalmente o caso Julian Assange também é. Mas o jornalismo real deveria ser capaz de penetrar o chocante e o surreal e contar a verdade. Há demasiado conluio agora, com todos estes desenvolvimentos sombrios e ameaçadores. É quase como se a palavra "jornalismo" estivesse a tornar-se deteriorada.

DB: Há certamente um bocado de conluio quanto a Israel. Assim, a palavra "conluio" é bastante apropriada.

JP: Esse é o conluio final. Mas é conluio através do silêncio. Nunca houve um conluio como este entre os EUA e Israel. Isto sugere uma outra palavra e esta é "imunidade". Há uma imunidade moral, uma imunidade cultural, uma imunidade geopolítica, uma imunidade legal e certamente uma imunidade dos media. Vemos o tiroteio sobre mais de 60 pessoas no dia da inauguração da nova embaixada dos EUA em Jerusalém. Israel tem algumas das mais perversas munições experimentais do mundo e eles dispararam-nas sobre o povo estava a protestar contra a ocupação da sua pátria e tentava recordar o povo da Nakba e o direito de retorno. Nos media isto foi descrito como "choques". Embora aquilo se tornasse tão mau que The New York Times numa edição posterior mudou a manchete da sua primeira página para dizer que Israel estava realmente a matar pessoas. Um momento raro, na verdade, em que a imunidade, o conluio, foi interrompido. Toda a conversa sobre o Irão e armas nucleares sem qualquer referência à maior potência nuclear no Médio Oriente.

DB: O que você diria acerca das contribuições feitas por Julian Assange nesta era de censura e covardia no jornalismo? Onde é que isto entra no quadro?

JP: Penso que representa algo de modo fundamental para a informação. Se remontar à época em que a WikiLeaks começou, quando Julian estava assente no seu quarto de hotel em Paris começando a montar tudo, uma das primeiras coisas que ele escreveu foi que há uma moralidade na transparência, que temos o direito de conhecer o que aqueles que pretendem controlar as nossas vidas estão a fazer em segredo. O direito a conhecer o que os governos estão a fazer em nosso nome – em nosso favor ou no nosso prejuízo – é o nosso direito moral. Julian sentia isso muito apaixonadamente. Houve momentos em que ele podia ter-se comprometido ligeiramente a fim de possivelmente ajudar na sua situação. Houve vezes em que lhe disse: "Por que você simplesmente suspende aquilo por um momento e concorda com isso?". Naturalmente, eu sabia antecipadamente o que seria a sua resposta e esta era "não". A enorme quantidade de informação que veio da WikiLeaks, particularmente nos últimos anos, representou um extraordinário serviço público. Eu estava a ler outro dia na WikiLeaks um telegrama de 2006 da Embaixada dos EUA em Caracas dirigido a outras agências na região. Isto foi quatro anos depois de os EUA tentarem livrar-se de Chavez através de um golpe. Ali se pormenorizava como a subversão deveria actuar. Naturalmente, eles vestiam isso como um trabalho de direitos humanos e assim por diante. Eu lia este documento oficial a pensar como a informação contida nele valia por anos da espécie de reportagem distorcida vinda da Venezuela. Também nos recorda que a chamada "intromissão" da Rússia nos EUA é apenas insensatez. A palavra "intromissão" não se aplica à espécie de acção implicada neste documento. Ela é a intervenção nos assuntos de outro país.

A WikiLeaks tem feito isso por todo o mundo. Ela dá às pessoas a informação a que elas têm direito. Elas têm o direito de descobrir a partir dos chamados "Registos de guerra" ("War Logs") a criminalidade das nossas guerras no Afeganistão e no Iraque. Elas têm o direito de descobrir acerca do Cablegate. Foi quando, numa observação da Clinton, soubemos que a NSA estava a reunir informação pessoal sobre membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas, incluindo os números dos seus cartões de crédito. Você pode ver porque Julian Assange fez inimigos. Mas ele também deveria ter um enorme número de amigos. Isto é informação crítica pois ela nos diz como o poder funciona e nunca aprenderemos o suficiente acerca disso. Penso que a WikiLeaks abriu um mundo de transparência e deu substância à expressão "direito a conhecer". Isto deve explicar porque ele é tão atacado, porque está tão ameaçado. Para a grande potência o inimigo não são tipos do Taliban, somos nós.

DB: E quem pode esquecer a divulgação do
filme "Assassinato colateral" de Chelsea Manning?

JP: Essa espécie de coisa não é incomum. O Vietname pretendia ser a guerra aberta, mas realmente não era. Não havia as câmaras em torno. É na verdade informação chocante mas ela informa o povo e devemos agradecer à coragem de Chelsea Manning por isso.

DB: Sim, e graças a isso ele ficou sete anos em confinamento solitário. Eles querem processar Assange e talvez enforcá-lo nas vigas do Congresso, mas e quanto a Judith Miller e The New York Times que põem o ocidente em guerra? São infindáveis os exemplos horrendos do que passa por ser jornalismo, em contraste com a admirável contribuição feita por Julian Assange.

11/Junho/2018

[*] Dennis J. Bernstein: jornalista da Pacifica Radio Network, autor de Follow the Money e Special Ed: Voices from a Hidden Classroom, dbernstein@igc.org.

O original encontra-se em
www.mintpressnews.com/silence-julian-assange/243665/

Fonte:
https://resistir.info/

Torcendo pela Seleção Brasiliera - por Latuff

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segunda-feira, 4 de junho de 2018

Novo livro de David Graeber critica falta de propósito em uma série de trabalhos – A.N.A.

Novo livro de David Graeber critica falta de propósito em uma série de trabalhos
Para autor, manutenção de cargos inúteis dá poder a quem está no topo

por Pilita Clark

Imagine ter um emprego no qual você receba 12 mil libras (cerca de R$ 60 mil) para escrever um relatório de duas páginas para a reunião de uma grande empresa na qual o documento nem mesmo é discutido. Ou um trabalho que requer que você tenha um carro e faça uma viagem de até 500 quilômetros para supervisionar a mudança de um computador de uma sala para outra, a cinco metros de distância. Ou ser o recepcionista de uma editora na qual o telefone toca apenas uma vez por dia, se tanto, e suas únicas outras tarefas são reabastecer um vidro de balas e dar corda ao relógio cuco uma vez por semana.

Há pérolas como essas espalhadas por “Bullshit Jobs” [trabalhos absurdos], de David Graeber, um livro provocante, divertido e envolvente segundo o qual uma onda de trabalhos sem propósito está varrendo o planeta.

É uma acusação curiosa em um momento de desordenamento tecnológico abrangente e de crescente ansiedade sobre a preservação de nossos empregos, contra a ameaça dos robôs ou contra as indignidades da economia do frila. Mas ela certamente tem alguma validade.

Se a ideia de Graeber soa familiar é porque se baseia em um ensaio que ele escreveu em 2013 para uma revista radical chamada Strike!. O texto fez tanto sucesso que o número de visitas derrubou o site da publicação. Ele foi traduzido para dezenas de idiomas, em poucas semanas. A revista The Economist publicou uma resenha sobre o artigo. Anúncios que citavam o texto foram veiculados no metrô de Londres. Mais tarde, um instituto de pesquisa baseou nas ideias do artigo um levantamento que apontava que 37% das pessoas não acreditavam que seus empregos fizessem “uma contribuição significativa para o planeta”. Uma pesquisa holandesa posterior demonstrou resultado semelhante.

Para o americano Graeber, professor de antropologia na London School of Economics, isso confirmou que ele havia detectado algo importante sobre o capitalismo do século 21: ele é muito parecido com o socialismo soviético do século 20, e gera uma profusão de empregos sem propósito, apenas para manter os trabalhadores empregados. Se levarmos em conta a maneira pela qual o sistema soviético acabou, a perspectiva é preocupante.

E se de fato isso estiver acontecendo, é bizarro. O capitalismo deveria produzir eficiência. Os avanços tecnológicos deveriam permitir que passássemos menos tempo fazendo trabalhos de qualquer espécie (em 1930, o economista John Maynard Keynes estimou que a jornada semanal de trabalho talvez caísse a apenas 15 horas).

Ainda que essas coisas não tenham se materializado até agora, a ideia de que muito do que transcorre nos escritórios modernos é absurdo nada tem de novidade: em 2019, a tira Dilbert, que satiriza a vida em um escritório moderno e se tornou uma das tiras de quadrinhos mais populares do planeta, completará 30 anos.

Assim, por que será que a definição de Graeber para um trabalho absurdo – um trabalho completamente sem propósito, ou pernicioso, que os trabalhadores sabem ser inútil mas sobre o qual precisam fingir o oposto – continua a ter tanta ressonância?

Graeber não consegue oferecer uma resposta completamente convincente em seu livro. Anarquista a quem é atribuído o lema do movimento Occupy, “nós somos os 99%”, ele dá a entender que os trabalhos absurdos fazem sentido para a elite empresarial rentista, temerosa de dar aos trabalhadores explorados mais tempo e tranquilidade para pensar.

Talvez. Mas é difícil imaginar que as grandes empresas de todo o mundo tenham se envolvido em uma conspiração silenciosa para controlar as massas por meio da criação de um monte de empregos sem propósito, pelos quais essas companhias pagam.

Tampouco fica claro quantos trabalhos exatamente são completamente sem propósito.

O livro de Graeber se baseia em mais de 250 depoimentos pessoais que ele recebeu depois de criar uma conta no Gmail com o endereço “doihaveabsjoborwhat” [“tenho mesmo um emprego cretino, né?”, em tradução livre]. (O Gmail não permitiu que ele usasse a palavra “bullshit” como parte do endereço, e por isso Graeber recorreu à abreviação “bs”). Ele também convidou seus seguidores no Twitter a lhe enviar relatos sobre seus empregos absurdos. Também baixou 124 descrições que pessoas ofereceram sobre seus empregos sem propósito, para seu ensaio de 2013.

Ele admite que os resultados “podem não ser adequados para a maioria das formas de análise estatística”. E também são altamente subjetivos. Mas permitiram que Graeber descrevesse cinco categorias de empregos cretinos que parecerão familiares a muitas das pessoas envolvidas com a moderna vida empresarial.

Há os lacaios (como o recepcionista subutilizado), que existem para conferir prestígio aos seus chefes; a tropa de choque (pessoal de relações públicas, lobistas, operadores de telemarketing), empregados apenas porque outras empresas também empregam pessoal nessas funções; a “turma do esparadrapo”, cujos empregos foram criados para consertar defeitos organizacionais que na verdade não existem; os carimbadores, que permitem que uma organização afirme estar fazendo alguma coisa que ela na verdade não faz; e os feitores, que supervisionam gente que não precisa de supervisão.

As histórias que ele relata são muitas vezes impagáveis, ainda que seja difícil acreditar em algumas delas. Graeber escreveu sobre um sujeito chamado Simon, que disse ter passado dois anos analisando o funcionamento interno de um grande banco, e ter descoberto que pelo menos 80% dos 60 mil funcionários da empresa eram desnecessários. “O trabalho deles podia ser executado por softwares simples, ou era completamente desnecessário, porque os programas foram criados para estruturar ou replicar um processo que já desde o começo era inútil”, disse Simon.

Graeber aceita sem discutir a ideia inconcebível de que o banco estava empregando 48 mil pessoas que nada faziam de útil – ou ao menos nada que uma máquina não fosse capaz de fazer com facilidade. Isso pode ser verdade. Ou pode ser uma completa asneira. Não há como saber, de fato.

Mas a situação se enquadra a uma das teorias centrais de Graeber sobre o motivo para que trabalhos inúteis tenham proliferado: “gestão feudal”, com hierarquias complexas de pessoas que dão empregos a subordinados a fim de maximizar a importância delas mesmas. O resultado, ele afirma, é um desastre que significa “uma verdadeira cicatriz em nossa alma coletiva”.

A solução que ele propõe será familiar para muitos leitores: a renda universal básica. Que cada cidadão recebesse um valor fixo por mês permitiria, segundo Graeber, que as pessoas se libertassem de trabalhos inúteis, e as libertaria para que tivessem propósitos reais em suas vidas.

O conceito já tem defensores em todo o espectro político. Os esquerdistas acham que isso poderia acabar com a pobreza e promover a igualdade da mulher. Bilionários do Vale do Silício como Elon Musk acreditam que a prática virá a se tornar necessária, porque as máquinas roubarão empregos humanos. O objetivo de Graeber é mais radical: ele quer eliminar de vez a conexão entre o trabalho e o sustento.

Provavelmente vai ter de esperar muito. Nos últimos anos, programas piloto de renda básica foram lançados em todo o mundo, do Quênia ao Canadá e Estados Unidos. Os resultados ainda não puderam ser avaliados. A Finlândia anunciou que seu teste do conceito não seria prorrogado para além do prazo inicial planejado, de dois anos.

Mas como muita coisa mais no livro de Graeber, a ideia captura a imaginação, nos leva a refletir e merece atenção.

> Financial Times, tradução de Paulo Migliacci

Bullshit Jobs

David Graeber, ed. Simon & Schuster, R$ 42,90, 368 págs.

Fonte: Folha de S. Paulo | 02/06/2018

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papai trouxe a comida
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Akemi Yamamoto Amorim

Israel ataca civis desarmados e pessoal médico nas áreas de conflito. Razan Al-Najar, 21 anos, enfermeira voluntária foi assassinada por um franco-atirador enquanto socorria manifestantes feridos em #Gaza. Israel é criminado de guerra. Israel é um câncer! Por @LatuffCartoons

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Alarme contra o incêndio - Por João Pedro Moraleida

Alarme contra o incêndio
Diálogo com Hilda Hilst e Walter Benjamin. “Nos 200 anos de Karl Marx e 50 anos das sublevações e contestações de maio de 68, quem, quais lutas irromperão nosso vazio, nossa suspensão?”


 “Se às vezes é lógico confiar na aparência dos fenômenos,
este primeiro canto termina aqui.”
Lautrámont, Cantos de Maldoror

“Alguém disse: estou triste com uma fita preta. Quem foi?” [1] Essa é uma frase do livro Estar sendo, ter sido da autora Hilda Hilst e, este texto não trata de sua obra. Ora, não tratar de sua obra, de seus textos, suas poesias pode significar não explorá-los formalmente, enquanto uma ciência literária ou acadêmica. No entanto, poderíamos fazer um movimento de suspensão dessa frase e pensá-la em outras dimensões, algo fora de um intuito científico. De que forma?

Seriam várias, a começar por essa ideia de suspensão: temos a obra, o livro, a frase em seu contexto ficcional, sim, de uma narrativa, muito embora não linear, não tradicional, não comum. No tocante à obra temos vários personagens num fluxo de consciência impecável e bem característico da criação hilstiana: são vários e um só, ao mesmo tempo se misturam, gritam, pedem, procuram o mistério, se debatem em diversas questões “da baixeza e grandeza do ser humano”, para lembrar Henry Miller. Enfim, a obra se explica sozinha, não precisaríamos aqui, acredito, estudá-la minuciosamente e digerir para leitores, ao menos caberia a outra intenção, não a nossa nesse texto. Falávamos das formas de suspensão. A idéia é retirarmos a sentença de seu contexto formal e estendê-lo a vida atual, atividade livre, demais individual diriam: um esforço-de-cada-um. Mesmo?

Bom, leiamos novamente: “Alguém disse: estou triste com uma fita preta. Quem foi?” Um ser alguém disse, não o sabemos, habita os longes, demasiado distante de nós, no entanto é um ser de ação: está triste, e por uma materialidade: a fita preta. Uma pausa. Diríamos que esse exercício está de certa forma tautológico, afirmando o Real, ou melhor, o re-afirmando. Sim, estamos convencidos disso, da tristeza por uma causa específica do personagem. Bom, é justamente essa dureza Real que nos interessa suspender, e para onde, que lugar, qual sua geografia? Digamos, para lembrar o poeta italiano [2] que “os sentimentos são históricos”, somos impelidos por eles, nos angustiamos, entristecemos, amamos e etc. E essas formas de expressão, por mais contidas e individuais que sejam, guardam sua dimensão histórica; desde a família e como aprendemos a sofrer e a falar; à cultura mais geral e às dimensões de classe. Em relação ao personagem de Hilda Hilst ele nos é estranho, “estranho à vossa lavra”, bem lembra ela em outra poesia. Também essa característica do desconhecido nos autoriza a suspendê-lo e unir à idéia da historicidade do sentimento.

Em relação ao atual país, precisaríamos nos perguntar: quais perspectivas temos, ou melhor, de que forma nossa intuição nos permite produzir um horizonte de espera e expectativa que justifique o presente? Uma pergunta mais geral. Politicamente, quais nossas expectativas: não as possuímos mais, elas se encontram suspensas, evidentemente que de maneira abstrata, muito embora a sensação na concretude seja de “vazio”, a uma nebulosidade intensa, ainda uma suspensão.

O poder hoje no país não possui uma forma exata, digamos em termos mais práticos de governo mesmo, quem dirá ser Michel Temer aquilo que nos governa? Não, não há. Não há dramaticidade em sua política, não há identificação, aquilo é um vazio e toda sua constituição é vazia e, é vazia pois é farsesca, possui um caráter de perversidade, não no sentido moral do mal e bem, mas por se saber farsante e ainda sim, simular. Vladimir Safatle nos indicou uma leitura, “somos um país em desagregação” [3], qualquer metáfora de espera (não esqueçamos de Godot) é pouca para nós, de sorte que não esperamos nada: temos um candidato à presidência que ganharia com apoio popular, muito embora não tenha constituído um projeto, um projeto verdadeiramente popular, de base, que está preso politicamente. Um outro, abertamente fascista e violento, surfa numa onda de parte de uma juventude proto-fascista, conservadora, degradante. Juventude essa que não mais porta os valores de seus pais, por mais conservadores que eles também sejam, é uma juventude violenta e, talvez pela primeira vez no Brasil, se envolve no discurso “bolsonarista” como aquilo que vai retirá-la do tradicional, isto é, soma forças as ideias desse sujeito por creditarem a elas algo ”marginal”, “de rebeldia”.

Sabemos que não o é, representa outra coisa, mas é colocado com a “alternativa rebelde”. Basta ver seus apoiadores, quem eles são. Ora, vocês imaginam, mais um esforço se quereis, uma retomada do PSDB em 2018? Não conseguimos vislumbrar, poderíamos justificar isso como um mecanismo de defesa nossa, para não nos aprofundarmos mais (ainda) num pessimismo. Talvez sim, mas, retornemos à idéia de “suspensão”, o que nos diz? Politicamente, em seu sentido mais pobre de democracia representativa, eleitoreira, não temos horizonte, sabemos que hoje há um vazio, somadas a desagregação nacional e a de um imaginário mantido a duras penas por anos, de uma república consolidada, de paz social.

Na realidade para parte da população sim, isso poderia ter ocorrido, entretanto é a velha frase de Walter Benjamin, quando acuado pela força nazi-fascista crescente na Europa durante o entre-guerras, ele dizia nas teses “Sobre o conceito da História”:

“A tradição dos oprimidos ensina-nos que o ‘estado de exceção’ em que vivemos é a regra.Temos de chegar a um conceito de história que corresponde a essa ideia. Só então se perfilará diante dos nossos olhos, como nossa tarefa, a necessidade de provocar o verdadeiro estado de exceção; e assim a nossa posição na luta contra o fascismo melhorará. […] O espanto por as coisas a que assistimos ‘ainda’ poderem ser assim no século vinte não é um espanto filosófico” [4] .

A dificuldade que encontramos hoje para compreender de forma mais sólida o que acontece pode nos indicar a encruzilhada em que fomos metidos: não há perspectiva, faltam horizontes, de forma que a “política está suspensa”, é esse o sentimento histórico, de sorte que podemos estar mais aprofundados numa exceção, numa ausência que imaginamos (e não é essa a tristeza? Conseguimos, com nossa imaginação, vislumbrar somente uma radicalização maior da direita, mais um Golpe, uma tutela armada geral.) Há o vazio; há suspensão, é esse o Real, “a fita preta nos entristece”. Não se trata de saber quem ganhará ou quem perderá, mas compreender que nessa exceção atual o progresso rumo a um abismo não está tão longe, tão alhures. Nos 200 anos de Karl Marx e 50 anos das sublevações e contestações de maio de 68, quem, quais lutas irromperão nosso vazio, nossa suspensão? “É preciso cortar o rastilho antes que a centelha chegue à dinamite”, diria Walter Benjamin. Puxemos, então, o alarme contra o incêndio.
________________________
[1] Hilda Hilst, Estar Sendo, Ter Sido. São Paulo, Nankin Editorial, 1997
[2] Pasolini, Pier Paolo. Poemas. São Paulo, Cosac Naify, 2015
[3] Revista Cult. “Criar o poder popular”. São Paulo,abril 2018
[4] Walter Benjamin. “Sobre o conceito da História”, in O anjo da história. Belo Horizonte, Ed. Autêntica, 2012.

Imagem: Hieronymus Bosch

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Estado Assassino - por Latuff

Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons

Michael Löwy: A descoberta do último Marx - Michael Löwy,

Michael Löwy: A descoberta do último Marx
"Karl Marx não era dos que se aposentam da revolução: continuou pensando, escrevendo, lutando, até seu último suspiro. A morte interrompeu um extraordinário processo de reelaboração, de reformulação, de reinvenção do materialismo histórico e da teoria da revolução."

Os últimos anos da vida de Marx costumam ser vistos como um período em que ele já teria saciado a própria curiosidade intelectual e parado de trabalhar. O novo livro de Marcello Musto que a Boitempo lança agora no bicentenário do barbudo chega para desfazer de uma vez por todas essa lenda e abrir novos caminhos para impulsionar o pensamento crítico e a transformação social hoje! A partir do estudo de manuscritos que vieram a público recentemente e ainda não foram traduzidos do alemão nem publicados em livro, O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos (1881-1893) demonstra como Marx passa a se interessar por antropologia, pelas sociedades não ocidentais e pela crítica ao colonialismo europeu. Ele defende que por trás disso, não havia, como se tem dito, mera curiosidade intelectual, mas o propósito teórico-político de alargar e refinar a compreensão do capitalismo. Confira, abaixo, o que Michael Löwy tem a dizer sobre o livro.Marcello Musto vem ao Brasil para uma série de debates de lançamento da obra em três diferentes estados. Saiba mais ao final deste post!

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Karl Marx não era dos que se aposentam da revolução: continuou pensando, escrevendo, lutando, até seu último suspiro. Muitos pesquisadores – inclusive quem vos escreve – se interessaram pelo jovem Marx; outros preferiram estudar a grande obra “da maturidade”, O capital. Marcello Musto, no formidável livro O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos, é o primeiro a analisar com profundidade o “último Marx” (1881-1883), descobrindo as fascinantes pistas que abriu, em seus derradeiros anos, o grande adversário do capitalismo. Conhecido por seus excelentes trabalhos sobre a história da Primeira Internacional, Musto explora o novo material publicado pela MEGA (a nova edição das obras completas de Marx e Engels), assim como documentos e cadernos de notas ainda inéditos, para examinar estas pistas: a antropologia, nos famosos mas pouco estudados Cadernos etnográficos; as formas pré-capitalistas de propriedade comunal; o colonialismo; os desenvolvimentos econômicos e sociais em países não ocidentais, tais como a Rússia, a Argélia e a Índia.

O quadro que esses escritos – certo, inacabados e não sistemáticos – vão desenhando é de um Marx extraordinariamente “heterodoxo”, isto é, pouco conforme com o marxismo pseudo-ortodoxo que tanto estrago fez no curso do século XX. Um Marx que critica impiedosamente o economicismo, a ideologia do progresso linear, o evolucionismo, o fatalismo histórico, o determinismo mecânico. A morte interrompeu um extraordinário processo de reelaboração, de reformulação, de reinvenção do materialismo histórico e da teoria da revolução.

Um dos exemplos mais impressionantes da “heresia” do velho Mouro são seus últimos escritos sobre a Rússia, em particular a carta, com seus rascunhos, a Vera Zasulitch. Em 1881, essa jovem revolucionária russa havia consultado o autor de O capital sobre o futuro da tradicional comuna rural no país dela. Na resposta, Marx manifesta sua simpatia pelos integrantes do movimento Narodnaia Volia (A Vontade do Povo) e avança a hipótese de um caminho russo ao socialismo, que pudesse evitar a esse povo todos os horrores do capitalismo. Um caminho que se apoiaria nas tradições coletivistas “arcaicas” da comuna rural russa para desenvolver um processo revolucionário ao mesmo tempo antitsarista e anticapitalista – em associação com a revolução social nos países industrializados da Europa.

Este belo livro de Marcello Musto confirma, mais uma vez, que a obra de Marx é um arsenal inesgotável de armas não só para entender mas também, e sobretudo, para transformar a realidade. Na verdade, mais que uma “obra” acabada, é um imenso canteiro de obras, que segue aberto e em expansão…

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“Todos nós estamos rediscutindo Marx. Dentre a vasta literatura existente, o novo trabalho de Marcello Musto se destaca como uma cuidadosa análise contextual dos últimos escritos e contributos de Marx para a nossa compreensão do mundo – ontem, hoje e amanhã. O velho Marx é uma obra excepcional e essencial para todos nós.” – Immanuel Wallerstein

Michael Löwy, sociólogo, é nascido no Brasil, formado em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, e vive em Paris desde 1969.
 
 

FORA TEMER - por Latuff

Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons

Marx, 200 anos: como reinventar a emancipação? – por Luisa Barreto

Marx, 200 anos: como reinventar a emancipação?
Em Berlim, Toni Negri, Michael Hart e novos movimentos debatem: por que “primaveras” de 2011-2013 fracassaram? Pode-se combinar horizontalismo com construção de programas e estratégias?

No início de maio, aconteceu em Berlim o Congresso Marx200: Política – Teoria –Socialismo, na Fundação Rosa Luxemburgo, em cooperação com o Teatro HAU Hebbel am Ufer. Foram quatro dias de extensa programação sobre a vida e obra de Karl Marx, em comemoração dos 200 anos de seu nascimento, em 5 de Maio de 1818. Foram dezenas de workshops, palestras e eventos paralelos como a exposição: Revoltem-se! Maio de 68/Poder e Impotência de uma Utopia (Empört euch! Mai 68/ Macht und Ohnmacht einer Utopie). Autores foram convidados para falar a partir das mais variadas perspectivas dentro da chamada crítica pós-marxista, temas atuais como o colonialismo, o feminismo e os movimentos sociais contemporâneos.

O evento, um painel a demonstrar que Marx revive principalmente na crítica pós-colonial e feminista, não se restringiu aos debatedores europeus. Estiveram lá pensadores árabes, latino-americanos, japoneses, africanos, indianos, chineses, que abordaram uma ampla diversidade de temas em composição com conceitos fundamentais da obra de Marx, como luta de classes hoje, relação entre Estado, sociedade e democracia; trabalho, antropologia. Outros temas presentes: Marxismo e feminismo, Psicanálise e Marxismo, Marx no Japão, Cyber-Marx, Marx na China, na África do Sul, Ecossocialismo e mostraram a força do pensamento marxista hoje.

Kavita Krishnan, secretária da Associação das Mulheres Progressistas da Índia (All India Progressive Women’s Association – AIPWA), membro do Partido Comunista da Índia – Marxist-Leninist (CPI-ML) e editora da revista Liberation falou sobre a revolta dos Dalits e a luta contra o fascismo, resistência e imaginação política, numa mesa sobre Linhas de Fuga da Perspectiva Socialista/Comunista e Utopia (Die Fluchtlinien sozialistisch/kommunistischer Perspektive und Utopie). Discussões sobre como a tradição marxista é transposta para outros contextos e quais os usos que se faz da interpretação sobre as relações entre Estado e sociedade na China, com Zhang Shuangli, da Universidade de Fudan e da Universidade de Shanghai, tiveram destaque na programação, assim como a palestra Marx Global, Classes e Política com Gayatri Spivak. Essas não foram as únicas mulheres; a presença feminina foi marcante em todas as mesas e debates.
 
Hardt e Negri: perguntas que importam

Não por acaso a palestra inaugural foi proferida por Michael Hardt, filósofo político e teórico literário conhecido pelos livros que escreveu com Antônio Negri, especialmente, a trilogia Império (2001), Multidão: guerra e democracia na era do império (2005) e Bem-Estar Comum (2016). Intitulada Assembly (para nós assembleia ou reunião), o assunto pairou em todas as discussões posteriores sobre como pensar resistência, utopia e imaginação hoje, e como desempoar o vocabulário da esquerda marxista trazendo-o para as lutas contemporâneas.

Assembly (2017) também é título do mais recente livro de Hardt e Negri, ainda sem tradução para o português. O livro não deixa de ser contíguo aos outros e nasce da pergunta que permaneceu em suspenso para os autores desde os movimentos globais contra governos autoritários e o neoliberalismo, que eclodiram desde 2011, numa linha temporal que segue até hoje. A onda iniciada com a Primavera Árabe em 2010 e atingiu países como a Tunísia, Egito, Líbia e outros do Oriente Médio e da África; que reverberou no 15-M, na Espanha e no Ocuppy Wall Street, desde 2011; e nas Jornadas de Junho de 2013 no Brasil, para citar alguns, repercutiu nos movimentos estudantis mundo afora, na revolta dos Dalits na Índia, no Black Lives Matter, no Ni Una Menos.

A pergunta que Hardt colocou na inauguração do evento foi: “Por que esses movimentos, que expressaram tantas necessidades e desejos não foram capazes de realizar as mudanças que estavam buscando?”

Ela leva a retomar questões sobre liderança e estratégia, dois pontos críticos na obra dos autores e que vez ou outra retornam na crítica aos escritos deles. Hardt reforçou que, principalmente após a eleição de Donald Trump, a pergunta se tornou inevitável e emergente, já que os protestos não parecem mais suficientes.

Muito se argumenta hoje em dia, a partir do conceito de multidão tal como elaborado por Hardt e Negri, se a falta de projeto claro a ser sustentado pelas revoltas e manifestações não é uma característica da própria horizontalidade dos movimentos atuais, que lutam contra temas diversos, porém imbrincados, sendo extremamente árdua a tarefa de criar um projeto que se efetive e concretize numa reorganização estratégica da esquerda global.

Onde estão os novos Rudi Dutschke, Martin Luther King, Antonio Gramsci, Nelson Mandela, Che Guevara e a própria Rosa Luxemburgo? – perguntou ele. Afinal, precisamos ou não de líderes carismáticos como os de outrora? O sentido de urgência desta pergunta não tem a ver com não reconhecer a potência e as ações dos movimentos que irrompem mundo afora, mas com recolocar a questão sobre o que significa assumir uma posição de liderança e quais seriam os requisitos e perigos de incumbir-se deste lugar, uma vez que ser um líder carismático é assumir uma posição de risco, disse o autor.

Eis aqui o paradoxo que emerge da própria questão e também dos livros escritos pelos autores. A tendência a recusa das formas centralizadas de liderança da esquerda tradicional, associadas ao elogio a multidão resultaram numa rejeição a autoridade, à liderança e, em consequência, na recusa a organização. Nos movimentos sociais dos últimos 50 anos, feministas, estudantis, dos trabalhadores, a posição de liderança foi duramente atacada e criticada, dentro dos próprios grupos, especificamente no que diz respeito à centralização da figura do líder, fato que deu início a uma série de práticas de democratização dentro dos próprios grupos, como garantir que todos falem, organizar assembleias e coordenar narrativas nas redes sociais e meios de comunicação.

Hardt citou o movimento Black Lives Matter, que vem constantemente rejeitando ou ao menos problematizando o modelo do líder carismático masculino, tão celebrado na história do movimento negro nos Estados Unidos, na forma de um acionamento do sistema imunológico do próprio movimento, como mecanismo de proteção e defesa das figuras proeminentes que coreografam ações e discursos através das mídias sociais. E não somente, mas também como estratégia de contenção do avanço de alguma figura, em particular, que se torne a representação do grupo como um todo, suprimindo a comunicação democrática e horizontal.

A relevância deste ponto na fase atual da obra de Hardt e Negri demonstra a necessidade de desatar o nó, até então amarrado, sobre a confusão entre criticar a posição de liderança e disto ter sido traduzido muitas vezes como recusa da organização, das instituições ou como falta de projeto político. Afinal, o lugar da liderança pressupõe uma certa expertise, capacidade de monitoramento sobre os movimentos da polícia e da própria multidão, de comunicação, de ouvir e aplicar ideias discutidas em comum, estratégias de defesa e de proteção, ou seja, ainda que esta capacidade que se aplicava geralmente a figura do líder seja generalizada pelo próprio intelecto geral, a multidão precisa se tornar multidão estratégica, disse Hardt.

Estratégia, nesse sentido, como uma forma de entender a própria liderança e como habilidade de tomar decisões, ter uma visão ampliada das questões em disputa, buscar uma continuidade para projetos de longa duração. Diferente, portanto, de tática, cujo campo de ação tende a ser temporal e espacialmente limitado. A questão da generalização da habilidade é fundamental, pois ainda que se tenha como pressuposto a democratização dos movimentos e a não concentração da tomada de decisão ou da definição da estratégia na figura do líder, é a generalização da habilidade de criar e de dar continuidade às estratégias criadas coletivamente que estão em jogo. Ou seja, o movimento centrífugo da multidão, que teria como partitura e ponto de partida o próprio intelecto geral, seria ou deveria ser radicalizado a partir da capacidade de criar estratégia.

Logo, a multidão estratégica seria a fundação da assembleia, estrutura e base das ações de resistência hoje, tendo como ponto de partida a inversão das funções comumente associadas a estratégia e a tática. A estratégia, nas palavras de Hardt, deveria ser função da multidão e dos movimentos e a tática deveria limitar-se à liderança. Multidão-estratégica e liderança-tática seriam os polos constitutivos de movimentos como o chamado municipalismo espanhol e o partido político Podemos, fundado na Espanha em 2014, o movimento Ni Una Menos na Argentina e o Diem25, Democracia na Europa 2025, movimento político pan-europeu de esquerda fundado por Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças da Grécia.

No Brasil crescem não só os movimentos organizados como a Frente Povo Sem Medo (FPSM) e o MTST, mas lideranças como Marielle Franco, Sônia Guajajara, Davi Kopenawa Yanomami, Raoni Metuktire, Guilherme Boulos, Manuela D´Ávila, Jean Wyllys e tantos outros mais ou menos populares, mais ou menos escondidos. Seriam eles líderes estratégicos e carismáticos?

Após um breve apanhado das questões que motivara os primeiros livros, como os conceitos de produção social ou biopolítica, multidão, comum, Hardt tocou no conceito de empreendedorismo da multidão, “o mais irritante do último livro”, segundo ele. O termo, que nos transformou em empreendedores de si endividados, saturado pelo discurso neoliberal e pilar da crítica ao capital humano, foi reformulado pelos autores com novo sentido. Hardt afirmou a necessidade de restaurar o vocabulário da esquerda capturado pelo discurso econômico, como democracia e amor, fazer novo uso de conceitos que vem sendo apagados, negativizados ou substituídos. Empreendedorismo, longe de ser um vocabulário da esquerda, traz em si a ideia de empreender, criar. Segundo o autor, não há nada em comum com preencher um lugar deixado vazio pelo Estado; empreender, nesse sentido, não tem a ver com iniciativa privada, inovação, nem com uma forma de ascensão do precariado.

Como organizarmo-nos contra o avanço conservador e como empreender novos mundos? São as perguntas antigas com as quais estamos lidando em momentos como o atual. A palestra, muito bem amarrada e dentro do tempo, acabou com a dúvida também antiga: protesto e resistência são suficientes do ponto de vista estratégico e da construção de novos modos de vida?

As perguntas feitas ao autor ao final levantaram questões importantes sobre como estamos lidando com a ascensão dos líderes carismáticos de direita, e com o crescimento do conservadorismo em tempos de revolta da multidão. O papel do intelectual público, o qual Hardt e Negri exercem, foi questionado e colocado como forma de ausência de responsabilidade e de criação de estratégia. Ao final, com todos já cansados e sem respostas, pairou uma atmosfera de dúvida onde havia, de fato, mais perguntas que respostas. Michael esboçou uma justificativa, dizendo que seu lugar é o de trabalhar com os movimentos e aprender com eles, working with e learning from. Serão os próximos conceitos a serem tratados pelos autores os de risco e de responsabilidade?

FORA TEMER E PARENTE - por Latuff

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No triplex do juiz - por Jota Camelo

 

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Resistir é preciso, Palestina Vive !!!

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Israel: 70 anos de brutalidade - por Greg Shupak

Israel: 70 anos de brutalidade
Desde a criação do Estado hebreu, palestinos são expulsos de suas casas, presos, torturados, mortos e submetidos a violência econômica grosseira. É a “nakba”. Poderia ser a “solução final” de Hitler

Em 14 de maio de 1948, setenta anos atrás, Israel lançou sua “declaração de independência”. Desde então, todo dia 15 de maio tem sido o Dia Nakba quando os palestinos marcam a limpeza étnica sofria por seu povo depois da criação de Israel. [Nakba é uma palavra árabe que significa “desastre” ou “catástrofe”, termo similar a shoá em hebraico, que os judeus utilizam para designar o massacre nazista – nota OP]. Este Dia Nakba foi marcado pela Grande Marcha de Retorno, uma grande mobilização em massa até a cerca que Israel ergueu para separar Gaza e Israel, para manifestar seu desejo de passar pela barreira. Até o momento, Israel já matou pelo menos 52 manifestantes palestinos, no que a Anistia Internacional chamou de “uma violação repugnante da lei internacional”, envolvendo “o que parecem ser assassinatos intencionais, que constituem crimes de guerra”.

Como outros estados coloniais, Israel pretende asfixiar a vida social das populações dos territórios ocupados que procura dominar. Esse imperativo é particularmente urgente no caso de Israel, onde as populações judias e não-judias são de tamanho equivalente e a terra em questão é relativamente pequena. A negação discriminatória de direitos estende-se aos palestinos em outros países -são cidadãos de segunda classe em Israel, sob ocupação, na diáspora ou em campos de refugiados. Todos são impedidos de retornar às suas casas através do uso da violência e com a ajuda decisiva dos EUA.

A mensagem inconfundível para os palestinos de todas as gerações, desde antes da Nakba até a Grande Marcha de Retorno, é que a menor resistência ao etnoestado erigido em sua terra natal será combatido com prisões e mortes.

Anatomia da repressão
A violência israelense permeia todos os aspectos da vida dos palestinos, com estratégias de controle que assumiram uma variedade de formas ao longo do tempo. Para criar o Estado em 1948, as forças sionistas expulsaram 750.000 palestinos de suas casas. No processo, realizaram cerca de dez massacres em grande escala, cada um com pelo menos cinquenta vítimas, juntamente com cerca de cem massacres menores. As forças dos paramilitares israelenses  mataram palestinos em quase todas as suas aldeias, despejando repetidamente os corpos das vítimas em covas, antes da oficialização do Estado de Israel. Em várias ocasiões, milícias sionistas mataram crianças e estupraram mulheres palestinas.

Atrocidades semelhantes continuaram nos primeiros anos do Estado de Israel. Em 1953, as forças israelenses massacraram 69 aldeões palestinos em Qibya, depois de alegarem “infiltração” do território israelense por refugiados palestinos. Durante o conflito de Suez, três anos depois, eles mataram 48 trabalhadores palestinos em Kafr Kassim; 275 civis palestinos em Khan Yunis e num campo de refugiados próximo; em seguida, mais 111 palestinos no campo de refugiados de Rafah.

Depois de 1967, com o estado de Israel consolidado, o governo começou a perseguir o que Tariq Dana e Ali Jarbawi chamam de “sonho de uma ‘Grande Israel’ com o máximo de terra e o mínimo de árabes”. Mais de 350.000 palestinos foram expulsos de suas casas, enquanto Israel ocupava a Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental (assim como as Colinas de Golan da Síria e o Sinai do Egito). Quase 600.000 colonos adentraram ilegalmente nos territórios ocupados com o apoio do Estado. E os massacres de palestinos em Israel continuaram desde então: no verão de 2014, Israel matou 2.251 palestinos – incluindo 1.462 civis e 556 crianças – durante a fúria assassina chamada Operação Margem Protetora. Como observou o estudioso canadense Nahla Abdo, a violência dos palestinos deve ser vista no contexto dessa “relação assimétrica” entre os dois lados.

Enquanto isso, aos palestinos nos territórios ocupados é sistematicamente negado o devido a processo legal: mantidos sem julgamento em detenções administrativas ou submetidos a processos militares e rotineiramente torturados. Tal tratamento estende-se às crianças palestinas, sujeitas a práticas que, nas palavras da UNICEF, “resultam em tratamento ou punição cruel, desumano ou degradante, de acordo com a Convenção sobre os Direitos da Criança e a Convenção contra a Tortura”, incluindo ameaças de “morte, violência física, confinamento solitário e agressão sexual, contra si mesmos ou um membro da família”. Atualmente, existem mais de 6.000 presos políticos palestinos em prisões israelenses.

Quando os palestinos não estão sendo algemados, torturados, bombardeados ou abatidos, eles vivem sob a ameaça contínua de tais ações. Depois da guerra de 1967, Israel estabeleceu um regime para examinar tudo, desde oficinas palestinas que fabricam móveis, sabão, tecidos, produtos de azeitonas e doces, até listar quantos televisores, refrigeradores, fogões a gás, pomares, animais e tratores os palestinos possuem, muitas vezes censurando livros, romances, filmes, jornais e panfletos políticos.

Expropriação econômica
A violência econômica – a expropriação da riqueza palestina e a destruição da capacidade dos palestinos de se sustentarem – marcou o tratamento de Israel aos palestinos desde o início do Estado israelense. Nos anos imediatamente posteriores a 1948, Israel adotou políticas destinadas a confiscar e controlar a terra palestina, destacadamente com a Lei da Propriedade Desocupada de 1950, pela qual Israel garantiu para si 90% da terra, designando como “desocupada” toda terra que os palestinos tivessem sido obrigados a abandoar devido repartição conduzida pelas Nações Unidas em 1947.

Os assentamentos israelenses são construídos em áreas ricas em recursos, projetados para explorar a água palestina e a terra arável – uma política que aumenta os recursos de Israel e priva os palestinos de desenvolvimento econômico. Após a ocupação de 1967, Israel construiu um regime econômico destinado a incorporar a economia palestina à economia de Israel, tornando seu governo colonial um empreendimento barato e, ao mesmo tempo, frustrando o desenvolvimento econômico palestino. Entre as medidas adotadas estavam o fechamento de instituições financeiras e monetárias árabes, a imposição da moeda israelense, a proibição de exportações e importações, exceto através de fronteiras controladas por Israel, a imposição de altos impostos (alfândega, imposto de renda, IVA), quase nenhum investimento em infraestrutura nas áreas palestinas, licenciamento restrito para atividades industriais e controle sobre comunicações, recursos de eletricidade, água e recursos naturais. As políticas israelenses transformaram o mercado palestino num mercado cativo, que se tornou um conveniente lixão para produtos industriais israelenses de má qualidade que não podiam competir com os fabricantes dos países industrializados da Europa e EUA. Isso não só trouxe grande lucro para a economia israelense, mas igualmente formou uma nova classe de capitalistas israelenses, cujas principais atividades industriais foram projetadas para os territórios ocupados.

Assim, as políticas israelenses provocaram uma deterioração da base econômica palestina e criaram uma dependência estrutural à economia de Israel, na medida em que o Estado ocupante controla os principais pontos nodais da atividade econômica, como fronteiras, terras, recursos naturais, comércio, movimentação de mão-de-obra, gestão fiscal e zoneamento industrial. Por mais de uma década, além disso, um brutal cerco militar combinado entre EUA e Israel e o Egito dizimou Gaza, a ponto de em breve a região ser inabitável. Militares e colonos de Israel arrancaram centenas de milhares de oliveiras palestinas na Cisjordânia e na Faixa de Gaza e nos primeiros anos do milênio o exército israelense arrasou quatro milhões de metros quadrados de terra cultivada.

A Grande Marcha do Retorno
Desde o início da Grande Marcha do Retorno, em 30 de março, Israel matou dezenas de palestinos e feriu quase 4.000. Nenhum israelenses foi morto ou ferido. O poder da Marcha é que ela chama a atenção para a ilegitimidade de manter artificialmente uma maioria demográfica judaica na Palestina histórica. Enquanto massas de palestinos aproximam-se da cerca entre Gaza e Israel, os manifestantes personificam a “ameaça” de palestinos retornando a seus lares e vivendo em uma Palestina-Israel que não pode ter como premissa manter os palestinos fora e perpetuamente apátridas -como refugiados ou como uma minoria oprimida dentro de Israel.

Os manifestantes estão, em suma, tentando afirmar, pelo menos temporária e simbolicamente, seu direito à sua terra, identidade, nacionalidade, liberdade -o que as negociações com Israel e seu patrono norte-americano não produziram até hoje.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Largo do Paissandu: quem precisa de ordem de despejo afinal? por Latuff

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O ano em que o velho mundo balançou - por Jean Tible

O ano que o velho mundo balançou 
Estudantes manifestam-se na Cidade do México, em setembro de 1968. Protesto espalhou-se pelo mundo, na forma de lutas da juventude e do acirramento das guerras de libertação, no Terceiro Mundo

Há meio século, um vírus de desobediência contagiou o planeta. Todas as hierarquias foram postas em xeque. Mas 1968 está sendo? Onde foi parar sua explosão inventiva?

A barricada fecha a rua, mas abre caminhos.
Uma das frases símbolos dos muros de Paris em
maio de 1968.
68, uma revolução mundial.
Um vírus da desobediência contagiou todo o planeta: Paris, Senegal, Japão, Vietnã, Cidade do México, Praga, Estados Unidos, Palestina, dentre outros pedaços.
Uma explosão de vida. A palavra-chave: experimentação. Novos desejos, aspirações e conexões brotam e desabrocham em todos os cantos do mundo. Um novo espírito do tempo, tempo do mundo.

O que parecia sólido se desmanchou no ar, o que parecia estável vazou (ainda que somente por alguns dias, semanas, meses – mas os efeitos ainda nos atingem). Colonialismo, patriarcado, supremacia branca, capitalismo e socialismo autoritário bambearam. Ou pereceram ou se reorganizaram – e continuam sendo questionados por inúmeras ações. Apesar da diversidade de situações e países, um elemento comum: o anticonformismo – seja encarando uma ditadura militar, poderes coloniais, sociedades capitalista ou socialista. Tratou-se de uma irrupção em defesa do direito de discordar, da multiplicação de vozes, da polifonia.

Abrir as portas dos asilos, das prisões e das escolas foi outro lema-pixo forte. Ninguém mais quis cumprir seu papel social habitual, embarcando num êxodo de libertação e busca de novas vias: operários (ocupando fábricas e locais de trabalho), estudantes (tomando universidades), artistas e criadores (dando outros significados para seus espaços e práticas), camponeses (se levantando), negros (se sublevando), mulheres, gays, lésbicas e muitas outras (afirmando novos corpos). Fuga do trabalho e busca da vida. Isso tudo já vinha ocorrendo, mas em 68 se acelerou e se reforçou, encontrou e produziu novos caminhos, pessoas, coletividades. Inspirações.

Todas as autoridades foram questionadas e hierarquias postas em xeque: patrões, professores, pais, chefes, tiranos, colonizadores, padres, pastores, rabinos, irmãs, representantes culturais e midiáticos… Uma viralidade do dissenso, um deslocamento das dominações e opressões e uma afirmação das singularidades. Desejos de autonomia, de novas vidas: o levante de uma nova geração político-existencial. Político e existencial: quem separou um dia essas esferas? A revolução é uma eztetyka (Glauber Rocha, 1967). Política e vida, política e arte – a busca pelo fim da representação em ambas. Impossível separar. Política e jogo, política e humor, política e festa, política e prazer, política e psicoativos. Política é criação – o resto é burocracia. Só interessa o que é inventor: “o trabalho criador propõe uma nova sociedade” (Helio Oiticica).

1968 é também (e sobretudo!) uma insubordinação anticolonial nos países da periferia (Argélia, Vietnã, Angola, Cuba…) e nos do centro (Panteras Negras e muitas outras nos EUA e outras partes). O Vietnã (e sua heroica resistência de camponeses pobres contra o maior Império) constituíram um poderoso catalisador das imaginações subversivas. Criar, um, dois, mil Vietnãs, declamava Che Guevara. Reforçando os nexos política-cultura, Zé Celso desloca essa frase ao dizer que o “objetivo é abrir uma série de Vietnãs no campo da cultura, uma guerra contra a cultura oficial, de consumo fácil”. O oposto da morte é o desejo – práticas de descolonização dos corpos. No Brasil, 1968 são as lindas e corajosas greves de Osasco e Contagem, as irrupções estudantis e, também, uma busca coletiva para se libertar definitivamente do complexo colonial – conectando-se com a busca de Oswald de Andrade pela exportação de poesia (e não mais sua importação enlatada). Consideramos 1922 como início de uma revolução cultural no Brasil, nos disse Glauber Rocha em 1969.

1968 marca o início do nosso mundo contemporâneo. Uma revolução sempre acompanha-se das reações, da contrarrevolução, daí a reação-repressão por todos os lados nos anos seguintes. A economia se reorganizou e buscou capturar a inventividade expressada, os poderes viram um excesso de democracia (onde ela existia minimamente) e de demandas sociais e existenciais. A partir daí, as desigualdades entraram numa perigosa espiral de aumento generalizado, tendo o Chile de Pinochet como laboratório desse novo modelo (neoliberalismo). No Brasil, o contragolpe veio bem rápido: o golpe civil-militar de 1964 reforçou ainda mais seu autoritarismo com o AI-5 de 13 de dezembro de 1968, e, na sequência, milhares de pessoas punidas, cassadas, presas, torturadas e centenas de filmes, peças, livros, programas de rádio, letras de música, revistas censurados.

1968 está sendo? Continua sua explosão inventiva? Vive, creio, numa nova sensibilidade, numa transesquerda (Zé Celso), num protagonismo negro, feminista, dos trabalhadores e criadores, em sua rebelião sempre renovada. Os tempos são outros mas guardam semelhanças, no Brasil contemporâneo e alhures, e nos pedem: criemos com alegria e cuidemo-nos – só nos resta resistir e criar, reexistir.