terça-feira, 22 de agosto de 2017

Mais um presidente sem VOTOS no país dos bananas !!!


Golpe está destruindo o país - por Latuff

Fonte: https://www.brasildefato.com.br/artes/2017/08/21/golpe-esta-destruindo-o-pais/

O FEDOR DA FORÇA BRUTA – por Wanderley Guilherme dos Santos

O FEDOR DA FORÇA BRUTA 

O Golpe de 2016 expulsou a representação popular do circuito legal do poder executivo.  A violência continua, exonerando técnicos de governo por suspeitada simpatia pelas teses econômicas e sociais progressistas. Evitar a qualquer custo o retorno legítimo de representantes populares ao Executivo resume a cláusula pétrea do breviário golpista. Atenção para o “evitar a qualquer custo”. Não se trata de recurso estilístico de mau gosto: indica o compromisso prioritário dos reacionários com a manutenção da liderança golpeada no ostracismo. Antes ou depois da vitória eleitoral da oposição popular.

A coalizão reacionária não tem programa a oferecer. Desastrosos resultados de iniciativas delirantemente privatistas e antinacionais esgotaram a mínima reserva de expectativas, até daquela parte da população brasileira solidária com a truculência primitiva. Prometer o quê? Privatizar a Caixa Econômica e o Banco do Brasil? Fechar a Embrapa, o Ita, a Embraer? Alugar o BNDES ao sistema financeiro? Ceder a base de lançamento de foguetes de Alcântara aos Estados Unidos? Reafirmar a crença de que o mercado resolverá, em algum momento inespecífico do futuro, os problemas de emprego, renda, miséria e desigualdade? A derrota é inevitável.
O ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva é indestrutível. Ele ascendeu àquela região em que a pessoa física continua vulnerável, mas o poder mobilizador permanece inalterado. A direita e a esquerda de nariz torcido evitam reconhecer que a indestrutibilidade de Lula não é propaganda partidária, mas fenômeno sociológico. Terá parentesco com crenças religiosas, sim, porém com fundamento empírico inegável. Por isso, a menos da descoberta de contas abrigando, no mínimo, um Pedro Barusco, as trampolinagens jurídicas que apresentam um apartamento em Guarujá e sítio em Atibaia como prova de corrupção resvalam para o vazio da fúria impotente. Sabe a maioria da população que, na bichada cultura cívica brasileira, a corrupção está “precificada”, como lá dizem os corruptos. Doações inferiores ao valor de venda de um apartamento, arbitrado pela família de Aécio Neves junto aos potentados da JBS, somado ao empréstimo obtido dos mesmos irmãos açougueiros, e às propinas que surgirão das obras da cidade administrativa de Minas Gerais e de Furnas, aquém desse montante, avaliam os empreiteiros, os burocratas e os políticos, não se trata de corrupção, é troco. E nem isso os ferozes curitibanos comprovaram.
O manual cotidiano entregue à população brasileira tem sido esse: profissionais liberais que sonegam o imposto de renda e chantageiam os clientes com preços diferenciados, com e sem recibo; ainda quantidade assustadora dos restaurantes, papelarias, lojas de roupas, farmácias, padarias, supermercados não dão nota fiscal e ninguém reclama; os jogos de azar (jogo do bicho, corridas de todo tipo de animal, bingos, cassinos) são de conhecimento geral e, à exceção dos cassinos, operando às claras. O consagrado intermediário nas negociações ilegais entre a população e o varejo dos serviços públicos é o famoso “despachante”. Há estratificação de credibilidade e renda entre eles, estabelecidas pelo mercado, em função da celeridade dos resultados e economia no valor do suborno vencedor. A população foi ensinada a ser cínica, cultivar elevadíssimo limiar de indignação diante de absurdos e a incorporá-los aos cálculos de sobrevivência. Reagir individualmente é arriscar-se à antipatia social.
A caravana iniciada por Lula, agora em agosto de 2017, será irresistível. É razoável esperar que os radicais direitistas inaugurem a violência física. O pavor dos reacionários os levará à criação de problemas a granel e a intensifica-los de tal modo que a urgência de soluções tenderá a romper os prazos com que a democracia opera. É o que esperam para que a cláusula golpista mantenha-se pétrea: o voto popular deixará de ser o único recurso para chegar ao poder. Sinto o fedor da força bruta.

Evolução da democracia no Brasil ...

Por Laerte ...

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

A “América” de Trump e a nossa, por Mumia Abu-Jamal – (ANA)

A “América” de Trump e a nossa ..
A comoção de Charlottesville, Virgínia, ressoa em todo o mundo. O turbulento rio de ódio que retumbou em torno da cidade destacou uma visão geral da paranoia: barras e estrelas, suásticas, insígnias nazistas, cruzes da Ku Klux Klan e capuzes com mensagens de Trump.

Eles são a face oculta dos Estados Unidos – agora descoberta para todos verem. Eles são a “América”.
Eles são o fio da navalha dos milhões que ouviram Trump dizer que Obama nasceu na África. Este é o que o trumpese que diz com um piscar de olhos, “ele não é um de nós. Ele não é um americano de verdade, como nós. Entendem?”.

Rostos maduros de uma geração em extinção, a ressaca inadvertida que levou Trump para o Salão Oval. Pedir a Trump para renunciar ou condenar estes racistas ou suas opiniões, é como pedir que as uvas condenem a geleia. Na verdade, não se pode fazer isso porque eles são parte dele, e ele é parte deles.
Aqui vemos o trumpismo desmascarado. Fazer a “América” grande de novo. Não me diga.

Charlottesville, Virgínia, é o filho ilegítimo de Charleston, Carolina do Sul, onde um jovem neonazista matou nove pessoas negras em uma igreja há dois anos. Duas cidades, um exemplo. A fúria branca prestes a ferver. Visível e presente em ambos os casos.
As queixas de pessoas traídas pelo capitalismo, pela fuga do capital corporativo, pelo NAFTA e pelo relógio do câmbio, sempre circulando, tornaram-se o combustível para atacar o eterno “outro” – negros, judeus, latinos, muçulmanos, imigrantes, entre outros – qualquer pessoa considerada como não verdadeiramente branca.

Fazer a “América” grande de novo. Fazer a “América” odiar de novo. Fazer a “América” branca de novo. É o trumpismo. Como pode se esperar que Trump se denuncie?
Da nação encarcerada, sou Mumia Abu-Jamal.

Tradução > Liberto

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/08/18/eua-sobre-coragem-e-resistencia-charlottesville/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/08/13/eua-homem-atropela-manifestantes-antifascistas-em-charlottesville-e-deixa-um-morto-e-dezenas-de-feridos/

agência de notícias anarquistas-ana
Inverno no cerrado —
O vento seco trinca
O pé descalço


Eduardo Balduino

Xadrez da influência dos EUA no golpe, por Luís Nassif

Xadrez da influência dos EUA no golpe
A cada dia que passa fica mais nítida a participação de forças dos Estados Unidos no golpe do impeachment. Trata-se de tema polêmico, contra o qual invariavelmente se lança a acusação de ser teoria conspiratória. O ceticismo decorre do pouco conhecimento sobre o tema e da dificuldade óbvia de se identificar as ações e seus protagonistas. Imaginam-se cenas de filmes de suspense e de vilões, com todos os protagonistas  orientados por um comitê central.
Obviamente não é assim.
Um golpe sempre é fruto da articulação das forças internas de um país, não necessariamente homogêneas, e, em muito, da maneira como o governo atacado reage. No decorrer do golpe, montam-se alianças temporárias, em torno do objetivo maior de derrubar o governo. Há interesses diversos em jogo, que provocam atritos e se acentuam depois, na divisão do butim.

A participação gringa se dá na consultoria especializada e no know-how da estratégia geral.
E aí entram os princípios básicos, copiados das estratégias de guerra:

Etapa 1 - Ataques da artilharia: a guerra de desgaste, de exaurir antecipadamente o inimigo por meio de ataques diuturnos de artilharia.
Etapa 2 – a guerra psicológica, visando conquistar corações e mentes das populações dos países adversários contra suas tropas.

Etapa 3 – a primeira ofensiva, juntando o avanço dos tanques de guerra com ações táticas de Infantaria, visando impedir o inimigo de realizar determinadas operações
Etapa 4 – simultaneamente à Etapa 3, táticas de dividir as forças adversárias para ataca-las uma de cada vez.

Etapa 5 - Vencida a guerra, ocupar o país com um governo local que, ante um quadro de destruição ampla, ganhará legitimidade inicial com suas propostas de reconstrução. Por isso a destruição tem papel central na conquista do território, seja no decorrer da guerra ou no desmonte posterior.

Etapa 6 – a batalha decisiva. A aceitação ou não, da população do país, do modelo imposto pela guerra.
Vamos, agora, analisar o Caso Brasil.
Etapa 1 – os ataques de artilharia
Tem a função de fustigar os inimigos diuturnamente, de maneira a tirar seu fôlego e preparar o terreno para o início da batalha e o avanço da infantaria.
Quem acompanha as sutilezas do jornalismo pátrio percebeu nítida mudança no estilo editorial a partir do advento do Instituto Millenium que ajudou a definir um tipo de jornalismo de guerra mais sofisticado, e ser o ponto de convergência dos jornalistas que atendiam à demanda dos grupos jornalísticos por guerreiros.
Até então, a mídia atuava atabalhoadamente com factoides inverossímeis, dentro do que ficou conhecida como a era do jornalismo de esgoto.
A partir de determinado momento – e, especialmente, das notícias geradas pela AP 470, do mensalão – os ataques mudam de enfoque. Em vez do linguajar agressivo, cobertura intensiva do material fornecido pelo Ministério Público Federal e pelo relator Joaquim Barbosa, em linguagem aparentemente neutra, mas sempre incluindo frases-padrão. Em qualquer matéria, mesmo sem ligação alguma com a AP 470, qualquer menção ao PT era acompanhada de frases–padrão, tipo “partido que foi acusado de corrupção pelo STF”, e outros termos similares, repetidos exaustivamente. Instituiu-se método na campanha midiática.
Etapa 2 – a conquista de corações e mentes
Nas manifestações de junho de 2013 ocorreu a primeira explicitação do mal-estar coletivo com o início da crise. Antes, houve um trabalho crescente dos grupos de ultradireita nas redes sociais, se sobrepondo à jovem militância de esquerda que ficou rendida, sem informações e sem argumentos do lado de um governo, incapaz de articular um discurso político.
Factoides de apagão, de epidemias, ataques ao Enem, à organização  Copa do Mundo, tudo ficava sem resposta, sem informações do governo, deixando o campo aberto para o golpismo.
Os primeiros organizadores de encontros, jovens de extração de esquerda, foram jogados ao mar pela própria esquerda.
Sem competidores, os movimentos estimulados pelo exterior ganharam fôlego e o comando das ruas passou para grupos, como o MBL (Movimento Brasil Livre) e o Vem prá Rua, bancados financeiramente e com know-how de grupos empresariais norte-americanos, como os irmãos Koch, e brasileiros, como Jorge Paulo Lehman.
O know-how consistia na habilidade em criar agentes políticos do nada, valendo-se apenas das novas formas de comunicação e organização das redes sociais. Pelo extremo baixo nível das lideranças, percebe-se a enorme facilidade em se criar protagonistas para conduzir os movimentos de manada nas redes sociais.
A Rede Globo levou dois dias para perceber que os aliados tinham assumido a iniciativa. Imediatamente seus comentaristas se alinharam em defesa das manifestações, depois de a terem desancado impiedosamente no início.
Nos links abaixo, algumas matérias explicativas desses movimentos de bilionários organizando a militância:
Esfera de influência: como os libertários americanos estão reinventando a política latino-americana.

Quem são os irmãos Koch

É movimento que repete o fenômeno da direita empresarial norte-americana nos anos 60, com grupos como o W.R.Grace, de irlandeses católicos fundamentalistas, investindo em cruzadas em países da América Latina.
Leia aqui sobre os Grace e sua Campanha Pelo Rearmamento Moral:



Etapa 3 – o ataque com tanques e infantaria
A conquista de corações e mentes foi relativamente simples. Havia o dado concreto do mal-estar econômico. Bastou forçar nas relações de causalidade com Dilma e o PT, trabalho facilitado pela incapacidade de ambos de entender o momento e enfrentar o jogo tanto no campo político quanto da comunicação.

As manifestações de rua acionaram a bomba de efeito retardado, que catapultou a guerra para a etapa decisiva.
As ações que permitiram transformar um pequeno processo de Curitiba em um escândalo do Rio de Janeiro, capaz de derrubar um governo em Brasília, foram alimentadas pelo DHS, o poderoso Departamento do governo dos EUA, que surge a partir dos atentados às Torres Gêmeas, organizando as ações de 23 departamentos internos na luta contra o terrorismo e as organizações criminosas. Quando os EUA definem o combate à corrupção como ponto central de sua nova geopolítica, o DHS assimila o novo pacto comn o mundo corporativo dos EUA.

Ele se torna o ponto de contato com Ministérios Públicos em todo mundo, no modelo da cooperação internacional, ao mesmo tempo em que novas leis anticorrupção são aprovadas por organismos internacionais. A primeira aproximação com o Brasil foi no caso Banestado. A partir daquele episódio, estreitam-se as relações do DHS com o juiz Sérgio Moro e o grupo de procuradores que assume a Lava Jato.
Leia aqui sobre o DHS.:

Provavelmente vem do DHS o know-how de estratégias político-midiáticas da Lava Jato, a organização das informações em sites, a criação de perfis de procuradores e, mais à frente, a utilização política dos vazamentos. Antes disso, a seleção de procuradores e delegados que atuaram de forma harmônica.
Junto com o bombardeiro de tanques, ocorreram também operações táticas de infantarias, com a divulgação de conversas gravadas da presidente e a sincronização da agenda policial com a agenda política do impeachment.
Etapa 4 – a divisão das forças inimigas

A corrupção política contaminou todos os partidos, sem exceção. As delações dos executivos de empreiteiras forneceram um amplo arsenal para a Lava Jato, podendo selecionar os alvos a serem atingidos.

A atuação da Lava Jato visou três objetivos centrais, todos diretamente relacionados com os interesses norte-americanos, dificultando radicalmente o retorno ao modelo combatido:
·       Inviabilizar rapidamente as multinacionais brasileiras que competiam com grupos norte-americanos no exterior;
·       Derrubar o governo Dilma e, com ele, a legislação do pré-sal;
·       Inabilitar Lula politicamente.

Para que nada se interpusesse no caminho, tratou de poupar Michel Temer, principal personagem do escândalo da Eletronuclear, assim como Eduardo Cunha, que só foi preso depois de consumado o impeachment. E foi por isso que a maioria absoluta dos delatores conseguiu a libertação bastando, para tanto, as palavrinhas mágicas: Lula ou Dilma sabia.
Agora, uma checagem minuciosa mostra um trabalho relapso, muito mais focado na quantidade que na qualidade das delações. Mas obedecia à estratégia de comunicação, de não dar um minuto de folga aos inimigos (PT e Lula). Cada declaração, mesmo vazia e sem provas, alimentava o noticiário diário, insuflava o clamor das ruas e atraía adesões do Judiciário.
Etapa 5 – a ocupação do território inimigo
A estratégia pós-impeachment consistiu em implementar rapidamente um conjunto radical de medidas visando fazer terra arrasada do modelo econômico vigente. Antes mesmo do impeachment já haviam sido fincadas as bases do acordo com os coronéis do PMDB, em torno da tal Ponte Para o Futuro. A ponto do próprio Temer, em evento nos EUA, afirmar que Dilma caiu por não ter aderido aos pontos da tal Ponte.
É evidente que havia um documento, que foi entregue pessoalmente aos líderes do PMDB por representantes do tal do mercado.
Provavelmente, a cabeça por trás da Ponte para o Futuro, e do trabalho de demolição do orçamento, foi Marcos Lisboa, espécie de menino de ouro do liberalismo pátrio e ponto de contato entre os grupos de mercado, os políticos do PMDB re a alta burocracia pública, graças ao contatos desenvolvidos em seu tempo de assessor do ex-Ministro Antônio Pallocci.

Nas eleições de 2002, foi indicado para Jorge Paulo Lehman pelo economista brasileiro Alexandre Scheinkman, diretor do prestigioso departamento de macroeconomia da Universidade de Chicago. Lehman tentou enganchá-lo na campanha de Ciro Gomes. Com a eleição de Lula, Lisboa acabou indo para a equipe de Antônio Palocci onde, saliente-se, realizou um belo trabalho de reformas microeconômicas.
No discurso que fez no evento do Jota-Insper, na sexta passada, há todas as impressões digitais das principais maldades em tramitação na Câmara, inclusive a que obriga o devedor inadimplente que devolve o bem a continuar devedor. Para Lisboa, economia saudável é que a permite ao banco tirar a máquina do empresário inadimplente, ainda que uma máquina parada seja menos eficaz para a economia que uma empresa produzindo; que permite ao banco punir o mutuário inadimplente. Para ele, a inadimplência é um ato de vontade do devedor, não contingências da economia. É um autêntico defensor da eugenia social e corporativa.

Todo o estoque de projetos, a começar da PEC do Teto e, a partir dela,  o desmonte de todas as políticas sociais e a ocupação de todos os territórios do Estado, do aparelhamento da Funai à Eletronuclear, do Inmetro ao TSE (Tribunal Superior eleitoral) o.Simultaneamente, lança  um conjunto de medidas estruturais, que destroem o modelo anterior de Estado, para que a Nova Ordem possa ser a única alternativa visível.
A contribuição externa  se deu no aconselhamento da estratégia da Ponte para o Futuro e do conjunto de leis atuais.
O papel da mídia

A exemplo da estratégia pós-millenium, o papel da mídia é vocalizar um conjunto de slogans vazios:

A equipe econômica é brilhante. A frase é repetida por Ministros do Supremo, empresários etc. A maioria absoluta dos quais jamais tinha ouvido falar antes, ou depois, dos membros da equipe econômica.
Se reformar a Previdência, o país sai da crise. Não há nenhuma relação de causalidade. Para chegar a esse ponto de terra arrasada – parte da estratégia de desmonte do Estado anterior – acabaram com a demanda, criaram enorme capacidade instalada, aumentaram as taxas reais de juros, todas medidas pró-cíclicas.

Sobre essa retórica, prepararei um artigo à parte.
Etapa 6 – a batalha decisiva

O teste final serão as eleições de 2018. E, aí, há uma ampla confusão e disputa entre os diversos grupos hegemônicos que dependem de três balas de prata para enfrentar Lula.
A primeira dificudade é a identificação de um candidato competitivo, capaz de levar adiante o desmonte.

O clube dos bilionários do golpe abriu os olhos para o risco de confundir sua imagem com a da organização comandada por Michel Temer. E entendeu que a aprovação de reformas, sob o jugo de Temer, tirará grande parte da sua legitimidade. Além de comprometer qualquer tentativa futura de protagonismo político.
Aí entram em cena os conflitos de interesse.

Os caciques do PSDB continuarão sendo escandalosamente blindados pelo algoritmo do Supremo Tribunal Federal (STF). Mas, politicamente, estão liquidados.
Tasso Jereissatti pretendeu tirar o PSDB dessa rota suicida. Mas passou a enfrentar a pressão da banda fisiológica do partido, liderada pelo chanceler Aloysio Nunes. Sem financiamento empresarial e sem governo, parte relevante das atuais lideranças tucanas será varrida do mapa. Daí a insistência em permanecer no barco de Temer  

Por outro lado, o clube não dispõe de um nome competitivo para 2018. Marina Silva não tem fôlego. E Geraldo Alckmin não representa novidade alguma no panorama político.
Por tudo isso, o clube – mais a ala mercadista do PSDB, puxada por FHC – provavelmente jogará suas fichas na candidatura de João Dória Jr, apesar das imensas ressalvas que manifestam em relação a ele. Será uma novidade, mas dificilmente será competitivo.

Com o definhamento do PSDB, o antipetismo se tornou totalmente invertebrado.
O distrital misto

Sem uma liderança minimamente esclarecida, tenta-se, agora, esse aborto do modelo político ditrital misto  como última tentativa de sobrevida à atual bancada de deputados. E aí sobressai uma ameaça cada vez mais presente na política atual: a entrada de várias organizações criminosas no jogo.

O narcotráfico mostrou um poder assustador no episódio da helicoca, no qual a Polícia Federal e o Ministério Público Federal não moveram uma palha para apurar as ligações do dono do helicóptero, senador José Perrela, com o tráfico. O helicóptero foi devolvido dias depois para o dono, em outra atitude inédita.
Por outro lado, a extraordinária influência da Fenatran – a suspeitíssima federação de transporte urbano do Rio de Janeiro – no STF, através do Ministro Gilmar Mendes, acende outra luz amarela.

Finalmente, a tentativa de legalizar novamente o bingo abrirá nova frente de influência para o crime organizado.
O México é aqui e, ao contrário das suspeitas iniciais, o que mais se assemelha ao PRI mexicano não é o PT, mas esse amálgama que sai do golpe, com os primeiros indicios de parceria com o crime organizado.

O PSDB acena com o parlamentarismo, caso consiga o poder. É mais fácil Gilmar Mendes declarar suspeição em qualquer processo, do que a bandeira do parlamentarismo eleger um presidente.
O próximo presidente será eleito denunciando o saco de maldades produzido pelo atual governo, em parceria com o PSDB e com o mercado.

Por todos esses condicionantes, mais que nunca dependerão de ações no Judiciário para inviabilizar a oposição. Afinal, por mais que seja estreita a colaboração com os EUA, não poderão contar com a 7a Cavalaria contra os índios de Lula.
Fonte: http://jornalggn.com.br/noticia/xadrez-da-influencia-dos-eua-no-golpe-por-luis-Nassif

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Para compreender a Sociedade do Espetáculo – por Iná Camargo Costa

Para compreender a Sociedade do Espetáculo
Cena de “A Sociedade do Espetáculo”, filme de 1973. O livro de Debord foi publicado sete anos antes

Uma estudiosa de Guy Debord propõe pistas para acessar o pensamento do filósofo. Sua obra central, que completa 50 anos, vasculhou as lógicas de dominação do capitalismo contemporâneo
Arte política

Logo depois de publicar seu livro A sociedade do espetáculo (1967), Guy Debord fez um filme com o mesmo nome (1973) no qual retoma todos os procedimentos do cinema de agitprop desenvolvido na Rússia revolucionária por gente como Eisenstein, ao mesmo tempo em que faz avançar tanto as propostas dos seus antecessores quanto as que enunciou no livro, que foi pensado entre outras coisas como uma intervenção no debate estético-político francês.

Disponível no You Tube com legendas em português, este filme merece ser visto e revisto, pois a totalidade dos seus argumentos está ali exposta, bem como a resposta que Guy Debord queria dar no plano da política e da arte. No plano da política, trata-se de resgatar o programa da democratização radical do modo de produção e, por consequência, de revolucionar por completo o modo de vida sob o capitalismo (ainda em aliança com a fraude chamada socialismo nos anos de 1960-70). O filme já seria uma expressão legítima deste processo de luta, na medida em que identifica e denuncia processos, agentes, modos de expressão artístico-publicitários, etc., e já é uma proposta prática e artística do que fazer (para citar Lenin, uma das referências de Debord).

A começar pela publicidade, os processos fundamentais da nossa sociedade do espetáculo continuam os mesmos, mas seus agentes já foram substituídos por outros menos toscos, de modo que uma atualização do filme (não do livro) poderia reaproveitar sua estrutura básica (no sentido do détournement, como ele mesmo fez com os filmes então apreciados espetacularmente pelos cinéfilos franceses) e substituir as cenas daquele presente francês por cenas do nosso presente (2017). Desconfio que os resultados seriam igualmente impressionantes. Um filme assim diria muito mais do que a quase totalidade dos discursos supostamente críticos dos processos a que temos assistido espetacularmente nos anos que se seguiram às manifestações de junho de 2013.
O texto que segue foi preparado para uma exposição do tema aos integrantes da Brava Companhia de teatro em 2009 (reproduzida a seguir) e acolheu de modo radical a proposição debordiana do détournement. Isto é: salvo pela edição, tudo o que será lido está no livro A sociedade do espetáculo. Aqui a sua função é contribuir para apropriações do pensamento debordiano que sejam mais produtivas do que até agora tem acontecido, pelo menos no Brasil, em que se observa o lamentável fenômeno da apropriação espetacular de um pensamento que se pretende crítico do espetáculo.
Descrição do fenômeno histórico
Espetáculo é ao mesmo tempo uma relação social e a relação interpessoal mediada por imagens. É o modelo atual da vida que domina na sociedade. É a justificação total das condições e dos objetivos do sistema capitalista.
O espetáculo é o discurso ininterrupto que a ordem atual faz a respeito de si mesma. É um monólogo laudatório. Começa no pseudo-diálogo da vida cotidiana e familiar, desenvolve-se na vida econômica, é cultivado metodicamente na universidade e constitui o oxigênio dos meios de comunicação.
Como elemento constitutivo do espetáculo, a publicidade é mentira metódica. Cada nova mentira da publicidade é também a confissão da mentira anterior. Cada queda de uma figura do poder totalitário revela a comunidade ilusória que a aprovava por unanimidade.
O espetáculo é absolutamente dogmático e, ao mesmo tempo, não pode chegar a nenhum dogma sólido.
Gênese
A sociedade do espetáculo deita raízes em todas as formas sociais que a precederam. Mas a ordem das coisas que está no âmago da dominação do espetáculo moderno nasceu no mesmo momento histórico em que a representação do proletariado (suas organizações) passou a opor-se radicalmente à classe: o primeiro passo deu-se quando o bolchevismo triunfou na Rússia e a social-democracia lutou vitoriosamente pela velha ordem.
O segundo passo foi dado pelo stalinismo que instrumentalizou a Terceira Internacional como força de apoio da sua diplomacia para sabotar todos movimentos revolucionários e apoiar governos burgueses dos quais esperava retribuição em seus negócios mundiais.
O fascismo – passo seguinte –, por mais que seja adepto da mais conservadora ideologia burguesa, em si mesmo não é fundamentalmente ideológico. Ele é arcaizante em seu recurso ao mito para organizar a comunidade definida por pseudo-valores arcaicos como raça, sangue e chefe. O fascismo é arcaísmo tecnicamente equipado e constitui um dos fatores do espetáculo moderno, a começar pelo papel essencial que desempenhou na destruição do antigo movimento operário (previamente desarmado pela social-democracia e pelo stalinismo).
O fim da União Soviética e seus satélites (ocorrido no ínicio dos anos de 1990), a aliança da mistificação burocrática, significa que a burguesia perdeu o adversário que objetivamente a sustentava unificando de modo ilusório a negação da ordem presente.
O proletariado não foi suprimido, como afirmam os intelectuais a serviço da sociedade do espetáculo. Ao contrário, ele se amplia com a extinção do campesinato e com a extensão da lógica do trabalho assalariado para os “serviços” e as profissões intelectuais – entre as quais a de artista. E o trabalho intelectual assalariado tende a seguir a lei da produção industrial da decadência, na qual o lucro do empresário depende da rapidez da execução e da má qualidade do material utilizado.
Crítica
A crítica à sociedade do espetáculo só terá consequência prática se apontar para a organização revolucionária. E tem que ser globalmente formulada contra todos os aspectos da vida social, que estão sob o encanto do fetiche da mercadoria.
A cultura é a esfera geral do conhecimento e das representações do vivido. Numa sociedade dividida em classes, ela é o poder de generalização que existe em separado, como divisão intelectual do trabalho e trabalho intelectual da divisão. Mas a cultura é também o lugar da busca da unidade perdida. Nesta busca, a cultura como esfera separada é obrigada a negar a si mesma, produzindo-se como intervenção crítica da economia política.
A crítica espetacular do espetáculo, funcional a ele, é um empreendimento da sociologia, que estuda a separação recorrendo às ferramentas conceituais e materiais produzidas pela separação. A apologia do espetáculo, ou publicidade, por sua vez, constitui um pensamento do não pensamento, um esquecimento explícito da prática histórica. O falso desespero da crítica espetacular e o falso otimismo da pura publicidade do sistema são idênticos enquanto pensamento submisso.
Para destruir a sociedade do espetáculo é preciso pôr em ação uma força prática. A teoria crítica do espetáculo só se torna verdadeira ao unificar-se à corrente prática da negação da sociedade de classes. E esta negação, a retomada da luta de classes revolucionária, se tornará consciente de si ao desenvolver a crítica do espetáculo, que é a teoria das suas condições reais, as condições práticas da opressão atual.
O espetáculo é a ideologia por excelência, porque expõe e manifesta em sua plenitude a essência de todo o sistema ideológico: o empobrecimento, a subordinação e a negação da vida real.
O espírito do espetáculo é completamente despótico. Nunca a censura foi tão perfeita. Esta sociedade já não aceita ser criticada. O discurso espetacular silencia tudo o que é propriamente secreto e tudo o que não lhe convém.
A ignorância dos espectadores nasce daquilo que o espetáculo ensina. O discurso do espetáculo não deixa espaço para resposta. A lógica só se forma socialmente pelo diálogo; não é fácil e ninguém quer ensiná-la aos espectadores. Por outro lado, nenhum drogado estuda lógica porque já não precisa dela e já não tem esta possibilidade. A preguiça do espectador é a mesma de qualquer intelectual, do especialista formado às pressas, que vai sempre tentar esconder os estreitos limites dos seus conhecimentos através da repetição dogmática de algum argumento de autoridade sem qualquer lógica.
O discurso da sociedade do espetáculo é falacioso, enganador, impostor, sedutor, insidioso e capcioso.
A maior exigência da máfia, onde quer que esteja, é estabelecer que ela não existe, ou que foi vítima de calúnias. Este é apenas o seu primeiro ponto de semelhança com o capitalismo e a sociedade do espetáculo.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Chamada e convite para a 8ª Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre, 28 e 29 de outubro de 2017 – por A.N.A.

Chamada e convite para a 8ª Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre, 28 e 29 de outubro de 2017
 Convidamos a todas e todos que compartilham, vivenciam ou gostariam de conhecer mais das ideias e práticas anarquistas para construir a 8ª Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre, que acontecerá nos dias 28 e 29 de outubro de 2017.

Você ama a liberdade e quer se ver livre das amarras desse sistema? Participe! Traga sua banca, suas publicações e ideias, organize uma roda de conversa, uma exibição de vídeo uma oficina ou outra atividade!

As Feiras do Livro Anarquistas acontecem ao redor do mundo e são tradicionais pontos de encontro, confraternização, reflexão, debates e organização. Elas reúnem pessoas de diversas tendências que buscam a anarquia e novas formas de viver e se relacionar, livres de opressão e hierarquias. A Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre, junto com a de São Paulo, é das mais antigas nos territórios ocupados pelo Estado Brasileiro e ocorre desde 2010. Esse é um movimento que tem se expandido por todo o continente, de Santiago a Salvador, na Bahia, de Montevidéu a Curitiba, de Medelim a Belo Horizonte.

Esta sociedade que valoriza a incessante busca por dinheiro e poder está nos matando. Matando literal e diretamente a população marginalizada, com os genocídios do povo negro e dos indígenas pela polícia e pelas milícias. Matando nossos corações e sonhos com o isolamento e depressão causados por um modo de vida que não nos traz nenhuma realização como seres humanos.

Ela não só está nos matando, mas tudo o que é vivo e o planeta em si. Temos que parar os motores de dominação e destruição da Terra, coordenados por governos e corporações sedentos de poder. Querem nos fazer acreditar que esse é o único e melhor modo de vida possível, acabando com qualquer sonho ou perspectiva de uma vida melhor.

A Feira do Livro Anarquista é uma brecha que se abre no coração do sistema, gritando anarquia – dando fôlego aos valores de apoio mútuo,autonomia e solidariedade. É um espaço para expandir essas idéias e ideais, através de encontros ou publicações, para encontrar novas estratégias e táticas de confronto, construindo possibilidades reais de transformação do mundo em que vivemos. Pois a anarquia só existe na prática. Essa prática nos une às companheiras e companheiros que o Estado sequestrou e mantém em seus cativeiros ou que tombaram por ousar desafiar o poder.

Acreditar na anarquia é acreditar na capacidade que temos de transformar a realidade.
Participe da Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre! Traga suas ideias, livros, sementes para trocar, artes, materiais que você produz. Cadastre sua banca ou atividade em nosso site ou pelo e-mail flapoa@libertar.se.

Se você não puder comparecer à 8ª FLAPOA mas gostaria de mandar algum material que você produziu (livros, artes, cartazes) entre em contato com flapoa@libertar.se e envie o material para o endereço:

Juçara da Mata
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Geralda Caetano Gonçalves
Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/

Longa luta dos indígenas contra o marco temporal - por Latuff

Fonte: https://www.brasil247.com/pt/247/brasil/312187/Latuff-e-a-longa-luta-dos-ind%C3%ADgenas-contra-o-marco-temporal.htm

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Lava Jato e a marca da infâmia – por Luís Nassif

Lava Jato e a marca da infâmia
Venezuela é aqui!, não se tenha dúvida.

No STF (Supremo Tribunal Federal), um Ministro acusa o Procurador Geral da República (PGR). Nas PGR, o pedido ao Supremo para que o Ministro se considere suspeito de analisar as contas do réu presidente da República, com quem ele se encontra à noite para planejar jogadas jurídicas. Em São Paulo, o procurador de Curitiba pavimenta sua futura carreira de advogado especializado em complience, desancando sua chefe, a Procuradora Geral, pelo fato de ter aceitado o convite do presidente para uma reunião noturna no Palácio do Jaburu.
Na baixada, a Policia Militar, responsável por centenas de assassinatos em maio de 2006, invade reuniões de conselhos de direitos humanos no campus da Universidade Federal para bradar contra o termo direitos humanos.
No salão de festas do lupanar, o Ministro maneirista vale-se da visibilidade proporcionada pelo Supremo e pela radicalização da mídia para se lançar como palestrante de obviedades e de senso comum. Mais ao sul, o presidente de Tribunal enaltece a sentença absurda do juiz, mesmo admitindo não ter analisado o mérito. Enquanto o procurador vingador enche seu cofre com palestras em que fatura o que a corporação lhe proporcionou. E nada ocorrerá com eles porque os conselhos de fiscalização restam inertes, emasculados ou cúmplices do grande bacanal.
Enquanto isto, nas redes sociais, a música do maior lírico brasileiro é espancada por feministas exaltadas, porque ousou retratar o homem brasileiro convencional. E tribos selvagens lançam ataques recíprocos contra seus líderes, seus atletas e cantores. E ganham visibilidade os que conseguem exercitar melhor o ódio.
E me lembrei de Caetano Velloso sendo vaiado no Festival Internacional da Canção por uma turba sanguinária e supostamente libertária, os jovens que enfrentavam a PM nas ruas e proibiam músicas “alienadas” nos palcos, que eram proibidas de se manifestar nas universidades, e reagiam exercitando a proibição contra os não alinhados.
A cada dia perpetra-se um estupro contra a Constituição, contra a civilização, contra os direitos sociais e individuais e até contra aspectos mais prosaicos de manifestação, o pudor público. Perdeu-se não apenas o respeito às leis como o próprio pudor e, com ele, o respeito mínimo pelo país.
Até onde irá essa selvageria? Quando começou essa ópera dantesca? Foram anos e anos de exercício diuturno do ódio por parte de uma imprensa tipicamente venezuelana.
Mas, por mais que passem os anos, jamais se apagarão da minha memória duas cenas catárticas: os aviões trombando com as torres gêmeas de Nova York, em 2001, e a divulgação de conversas privadas de uma presidente e um ex-presidente da República pela Rede Globo e, depois, as conversas familiares dele e sua esposa.  Levei um tempo para acreditar no que estava vendo e ouvindo. Por mais que o país houvesse se rebaixado, por mais abjeta que tivesse se convertido a mídia brasileira, por mais parcial que fosse, nada explicava aquela infâmia, produzida por um juiz infame, em uma rede de televisão infame, ante o silêncio amedrontado do Supremo e do país.
Foi ali, no episódio mais indigno da moderna história brasileira, que a selvageria abriu as correntes nos dentes, escancarou as portas das jaulas e invadiu definitivamente o país.
Depois daquilo, tudo se tornou natural, conduções coercitivas, torturas morais até obter confissões sem provas, oportunismo de procuradores, juiz e Ministros do Supremo enveredando pelo mercado das celebridades e das palestras pagas, a aceitação tácita de todos os abusos.
É uma mancha que perdurará por anos e anos, porque o Brasil é um país selvagem, dotado de convicções frágeis, de homens públicos débeis, de instituições que não são respeitadas por seus próprios integrantes.
Mas, em um ponto qualquer do futuro, a democracia estará de volta e, com ela, os direitos fundamentais. E, com ela, uma justiça de transição que supere o medo.
Nesse dia, não haverá como não fugir do acerto de contas, com a punição mais severa ao ato mais infame produzido por esse casamento espúrio de mídia e justiça. 

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Sobre paz, amor e um pouco de guerra: relato dos dias com Penny Rimbaud no Brasil ...

Sobre paz, amor e um pouco de guerra: relato dos dias com Penny Rimbaud no Brasil
“(…) tanto na memória e/ou imaginação de muitas outras pessoas, Crass está praticamente cravado na pedra, uma pedra que porventura irá rolar para o topo de uma colina da qual, com ou sem ajuda, irá eventualmente rolar para baixo novamente. Quando a pedra está no topo da colina, algumas pessoas parecem gostar de poli-la, deixando-a tão brilhante que é possível ver seus próprios rostos nela. Elas querem se ver nela, como se de alguma forma pudessem fazer parte dela, ou a pedra uma parte delas. Elas não querem ver as sujeiras, as partes ásperas, então passam a polir mais e mais até que, em suas frustrações, empurram a pedra, enviando-a novamente colina abaixo. Quando a pedra está no pé da colina, algumas pessoas gostam de mijar nela, como se isso fosse de alguma forma negar seu poder ou pelo menos diminuí-lo. Mas Crass foi ali, numa outra época, e não agora, então como pode este poder ser negado? Não faz diferença nenhuma se a pedra está no topo da colina sendo polida, ou se está no pé da colina sendo mijada. Crass foi um acontecimento; aconteceu e deixou de acontecer. O que outras pessoas fazem dele é da conta delas, o que, na verdade, não tem ligação a lguma com Crass. (…) Polir ou mijar, mudança não é estrutural, mas atitudinal; mude você mesmo, mude o mundo, e se as memórias do Crass te ajudarem nisso, ótimo. Se não ajudar, ótimo também.”

Penny Rimbaud, janeiro de 2017
Introdução de “Eles Nos Devem Uma Vida – Crass: Escritos, Diálogos e Gritos”
Foram dias bastante intensos, tanto no sentido objetivo da organização em si, quanto com relação a tudo que vivemos, pensamos e experienciamos durante a rápida passagem de Penny Rimbaud pelo Brasil. Esse relato tenta dar conta de um pouco disso tudo.
Penny, um dos formadores da banda inglesa Crass nos anos 70, então baterista e autor de muitos de seus escritos, letras e panfletos, esteve durante grande parte de sua vida envolvido em projetos e iniciativas contraculturais, artísticas e libertárias, e ainda hoje, aos 74 anos, segue escrevendo, criando, e conspirando novos projetos – que em sua maioria brotam da casa-comunidade Dial House, onde vive desde o final dos anos 60, em meio a um enorme jardim onde plantam parte do que comem e fazem germinar novas idéias e propostas de vida. Foi ali nesse terreno em Essex, Inglaterra, que, aind a no final dos anos 60, decidiu tirar todas as trancas e fechaduras da casa, para criar uma casa aberta a todo tipo de iniciativa subversiva e contracultural… E as pessoas começaram a chegar. Dali muita coisa surgiu, antes, durante e depois do Crass, talvez um dos projetos mais conhecidos nesta história.
Um belo dia, umx de nós foi até a Dial House sem aviso, sem contato prévio, somente com o endereço e a vontade de conhecer de perto essa experiência. E foi recebidx com uma xícara de chá, muita conversa, comida e uma cama para passar a noite – como se aquela pessoa estranha que chegava ali, fosse uma velha amiga de anos. De toda essa receptividade, duas visitas à casa e dois anos de conversa coletiva, nasceu essa pequena turnê pelo Brasil e o livro “Eles nos devem uma vida – Crass: Escritos, diálogos e gritos”, que acaba de sair do forno.
Foram dez dias, com três conversas com Penny durante o No Gods No Masters Fest na Semente Negra, em Itanhaém/SP, uma em São Paulo/SP no SESC Consolação, uma em Divinópolis/MG no Movimento Unificado Negro de Divinópolis organizado pelo Coletivo Pulso, e uma em Belo Horizonte/MG no Cine Santa Tereza, organizado pelo Coletivo Metalpunk Overkill junto a uma linda feira de materiais anarquistas, livros, discos, zines, rango vegano e produtos artesanais de iniciativas autônomas. Durante as atividades também rolou exposição fotográfica com imagens atuais da Dial House, colagens de Gee Vaucher, exibição simultânea de uma vídeo-arte de Penny, e lançamento do livro. Foram dez dias de muita conversa e convivência, algumas idas a praia, ao mar, ao rio, ao histórico Centr o de Cultura Social em SP, a uma recente casa okupada em BH, ao espaço do Coletivo Pulso em Divinópolis, à comunidade indígena Awa Porungawa Dju – em um bonito encontro com o Pajé Guaíra, que lhe presenteou com um nome em tupi-guarani. Foram dez dias fazendo pão, cozinhando, compartilhando risadas, experiências, sabedorias, diferentes realidades, e, sobretudo, muito amor. Só o que pudemos ver é uma pessoa muito simples, muito amorosa, com um coração enorme e muita vontade de compartilhar e participar de tudo, da maneira mais horizontal possível, em todos os momentos – e isso se mostrou não apenas nas c onversas, mas também no ato de lavar a louça, fazer comida coletivamente, afiar as facas da casa, trocar conhecimentos, ajudar a arrumar, organizar, carregar e o que mais fosse preciso, participar na resolução de problemas, ensinar tai chi chu an, fazer chá… Esse encontro nos gerou muitas reflexões e inquietações, assim como tantas outras pessoas que acompanharam as atividades vieram relatar.
Em algumas de suas falas, Penny falou sobre Crass, Dial House, movimento hippie, punk, anarcopunk, anarquismo de forma mais direta e baseada em suas memórias e críticas. Em outras, tentou introduzir um pouco de suas tantas reflexões filosóficas sobre o que seria esse “si mesmx”, presente na frase “não existe autoridade além de você mesmx”. Falou de amor, paz, zen-budismo, filosofia, e por vezes tentou desconstruir o mito gerado em cima do Crass e sua história, tentando trazer outros pontos em questão, pautados em tudo que se seguiu em sua vida depois da banda. Suas visões e dúvidas sobre nossa realidade, o racismo no Brasil, questões indígenas e outros pontos surgiram no decorrer desses dias. Para além das respostas e reações à agenda imposta pelo sistema e da reafirmação do que é ruim, propôs a importância da criação de novas formas de vida e de tudo o que buscamos e acreditamos. No sentido inverso da imposição de dogmas e intransigências em nossos espaços de atuação, propôs o respeito e o diálogo. Em todos os momentos, paz e amor estiveram presentes nas falas desse velho hippie-punk-zen-inominável.
Crass e toda a história que envolve esta banda-coletivo inglesa, que tanto inspirou outras movimentações e iniciativas anarquistas/punks/libertárias mundo afora, nos inspirou igualmente em muito do que construímos. Enquanto ecoava na Inglaterra dos anos 70 a falta de perspectiva e a inexistência de um futuro, aquele pequeno grupo de pessoas propôs e vislumbrou esse futuro, baseado em um senso genuíno de comunidade, autonomia e liberdade, que poderia ser criado coletivamente se estivéssemos preparadxs para construí-lo. Anarquismo, faça-você-m esma, pacifismo, direitos animais e feminismo foram algumas das ideias que fervilharam nesse contexto, a partir de uma crítica ácida e visceral contra todo o caráter midiático, vendável e banal que o punk ia tomando naquele momento.
Mas não há porque “polir a pedra”: assim como qualquer outra experiência neste sentido, sempre existirão divergências, discordâncias e outras maneiras de fazer as coisas que nos agradam mais ou se adaptam melhor a nossa realidade. Como diz a citação acima, “Crass foi um acontecimento. Aconteceu, e deixou de acontecer”. Pertence a um tempo, a um contexto, a um local geográfico específico, com suas questões sociais, políticas e econômicas. Esperar que este acontecimento preenc ha nossas próprias necessidades e atenda por completo a nossos contextos não faria sentido algum. “Mijar na pedra” por não ver nela o espelho que gostaríamos, também não faz sentido. O Penny que aqui esteve, com seus 74 anos, seguiu em frente desd e aqueles dias de Crass, seguiu adiante com ideais que lhe foram importantes, abandonou outros, e assim segue em meio a toda a sua meditação e ação cotidiana. Muita história, vivência, reflexão e inspiração, com muito amor e um pouco de guerra. Muito ficou aqui, e muito foi para lá – trocando experiências e realidades, na construção de outras maneiras de viver e conviver com o mundo que nos cerca, mudando tudo ao redor. Se essas experiências ajudaram nisso, ótimo. Se não ajudaram, ótimo também.
Não existe autoridade além de nós mesmas, então… tomemos as rédeas de nossas próprias vidas!
Fonte, mais fotos: http://nogods-nomasters.com/nogodsnomasters/penny-rimbaud/
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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/03/14/reino-unido-anarquia-e-paz-com-penny-rimbaud-do-crass/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2016/12/21/franca-lancamento-ecopunk-os-punks-da-causa-animal-a-ecologia-radical-de-fabien-hein-e-dom-blake/

agência de notícias anarquistas-ana
Água de cristal
Forma nuvens coloridas
No meu céu de sol.


Claudia Chermikoski
 
Por No gods No masters & Imprensa Marginal

terça-feira, 8 de agosto de 2017

GGN - Exclusivo: As suspeitas desapropriações da Linha 5 do Metrô pelo governo Serra - Por Cíntia Alves

Exclusivo: As suspeitas desapropriações da Linha 5 do Metrô pelo governo Serra

Nem só de formação de cartel e fraude em licitação vive a Linha 5 do Metrô paulista. Quando anunciado por José Serra, o projeto de expansão previa a construção de 4 poços de ventilação e saída de emergência em bairros ricos de São Paulo. Após despender milhões em desapropriação, o Metrô decidiu não construir nada nesses espaços e entregá-los à iniciativa privada
Jornal GGN - No governo de José Serra (PSDB), o Metrô de São Paulo desapropriou, em caráter de emergência, 4 lotes de terrenos em bairros nobres da capital para construir postos de ventilação e saída de emergência, os chamados VSEs, previstos no projeto básico da expansão da famigerada Linha 5. Porém, anos depois de gastar milhões com as desapropriações, a companhia decidiu não utilizar os espaços para sua finalidade original, com a desculpa de que esses postos não eram mais necessários. 

Uma fonte ligada às obras da Linha 5 revelou ao GGN, em condição de anonimato, que o episódio pode esconder um esquema para desviar recursos públicos ou mesmo beneficiar antigos proprietários das áreas desapropriadas, que ficam nos bairros de Moema e Vila Mariana, e cujas identidades não foram informadas à redação pelo Metrô.
Suspeitas do tipo não são nenhuma novidade na gestão Serra. Em 2016, por exemplo, o Ministério Público denunciou o ex-diretor da Dersa, Paulo Preto, por ter participado de desvios envolvendo as desapropriações necessárias à construção do Rodoanel, que custaram algo em torno de R$ 90 milhões. Pessoas que nada tinham a ver com as áreas tomadas pelo Estado teriam sido beneficiadas com os repasses ilícitos.

Com obras se arrastando há mais de sete anos, a própria Linha 5 do Metrô já foi motivo de escândalo em 2010, quando a Folha revelou formação de cartel e fraude nas licitações envolvendo empreiteiras que, posteriormente, caíram na operação Lava Jato.

No caso atual, o Metrô não quis informar os valores despendidos nas desapropriações que serviriam à construção de cada um dos quatro VSEs retirados do projeto final, e tampouco apontou se os processos foram amigáveis ou litigiosos.
O GGN apurou que cada saída de ventilação pode custar à companhia algo em torno de R$ 100 milhões, isso sem contar o valor empregado nas desapropriações. Isso significa que o Metrô inseriu no projeto básico a construção de estruturas que somariam quase meio bilhão de reais e que acabaram sendo descartadas sem que isso reduzisse o custo total da obra. Pelo contrário: ao longo dos anos, o orçamento da Linha 5 saltou dos iniciais R$ 4 bilhões para R$ 9 bilhões, e a fatura ainda está em aberto. A previsão é de que um trecho seja inaugurado parcialmente nos próximos meses. "Pelo padrão, cerca de 30% do total do valor de uma obra como essa corresponde às indenizações", comentou a fonte. 
OS DETALHES DA TRAMA
Os quatro VSEs projetados e depois descartados pelo Metrô foram chamados de Iraúna, Jandira, Chibarás e Maurício Klabin. Eles foram desenhados entre as estações Água Espraiada-Ibirapuera, Ibirapuera-Moema, Moema-Estação Servidor e Santa Cruz-Chácara Klabin, respectivamente. Todos nos baladados bairros de Moema e Vila Mariana. 

"A lógica é a mesma. São áreas supervalorizadas, onde foram desapropriados imóveis relativamente grandes e que, posteriormente, foram descartados com a mesma justificativa, de que os planos mudaram", disse a fonte.
Para se ter ideia, três VSEs - Iraúna, Jandira e Chibarás - tomariam parte da Avenida Ibirapuera, uma das mais conhecidas na capital. Os lotes têm, em média, 1,2 mil m² cada.
Em 2010, Folha publicou uma reportagem mostrando que, naquelas regiões, Serra desapropriou um total de 70 mil metros quadrados. A metragem inclui não só a construção dos poços, mas também os espaços tomados pelas estações no entorno. Uma grande parte dos imóveis era de uso residencial. 
O Metrô explicou que, quando o projeto básico foi finalizado, em 2009, no final do governo Serra, uma norma internacional exigia a construção de 1 saída de ventilação e emergência a cada 381 metros. Em 2010, houve uma revisão nessa regra e "ficou esclarecido que a distância máxima entre saídas de emergência tem de ser de 762 metros e a maior distância na rota de fuga a ser percorrida é a partir do ponto médio entre duas saídas, ou seja, 381 metros. Dessa forma, os VSEs Iraúna, Jandira, Chibarás e Maurício Klabin inicialmente projetados não necessitaram ser construídos."
Porém, pelo critério usado pelo Metrô à época, outras regiões além de Moema e Vila Mariana também estariam aptas a receber mais de 1 VSE.
Entre as estações Brooklin-Campo Belo e Água Espraiada, por exemplo, só foi construído o VSE Roque Petrella, mas a distância percorrida entre os dois extremos era de 1,021 metros. Entre Alto da Boa Vista e Borba Gato há uma distância de 998 metros, mas só 1 VSE foi projetado. A distância entre as estações Ibirapuera e Moema (923 metros) é inferior aos outros dois casos e, ainda assim, 2 VSEs foram desenhados nessa área. Veja o diagrama* abaixo, extraído do plano básico ambiental da Linha 5:
O GGN procurou a assessoria do Metrô de São Paulo em busca de respostas para as seguintes perguntas:
1) Quanto o Metrô despendeu com o total de desapropriações para a Linha 5?
2) Quanto o Metrô despendeu em desapropriação para cada uma das 4 áreas onde pretendia construir os 4 VSEs indicados acima?

3) Essas 4 desapropriações foram amigáveis, ou seja, houve acordo entre o Metrô e o proprietário, ou houve litígio?

4) O Metrô poderia informar quem eram os antigos proprietários dos terrenos e em que ano as desapropriações foram feitas?
5) Quanto custa, em média, a construção de um VSE?

6) Por que o Metrô decidiu não construir VSE nessas áreas desapropriadas, se o projeto inicial previa isso?
7) Qual a finalidade que será dada aos espaços não utilizados para construção dos VSEs?

8) Há previsão de quando será concluída a linha 5?
9) Qual o custo da obra toda até o momento?

OUTRO LADO
Em nota, o Metrô informou apenas que o projeto básico da linha 5 do Metrô sofreu alterações em virtude de mudanças em normas internacionais e que os quatros espaços desapropriados e não utilizados serão entregues à iniciativa privada. Metroviários já fizeram greve contra a privatização da linha.

Abaixo, a nota completa.

O Metrô de São Paulo segue normas internacionais de engenharia para implantação de suas linhas.

O projeto básico do prolongamento da Linha 5-Lilás do Largo Treze até Chácara Klabin foi concluído em 2009 e utilizou a Norma para Sistemas de Trânsito em Trilho Fixo e Ferroviário de Passageiros, NFPA 130 (versão 2007), norma internacional para definição de saídas de emergência em túneis.

Com base na redação vigente naquela época, a maior distância para se alcançar uma saída de emergência era de 381 metros. Com a posterior alteração na redação da NFPA 130 realizada pela Standard Fixed Guideway Transit and Passenger Rail Systems em 2010 – e mantida na nova revisão de 2014 –, a distribuição das saídas de emergência da Linha 5 foi alterada.

Pela nova redação ficou esclarecido que a distância máxima entre saídas de emergência tem de ser de 762 metros e a maior distância na rota de fuga a ser percorrida é a partir do ponto médio entre duas saídas, ou seja, 381 metros. Dessa forma, os VSEs Iraúna, Jandira, Chibarás e Maurício Klabin inicialmente projetados não necessitaram ser construídos.


Os imóveis relacionados aos poços previstos no projeto básico estão sendo atualmente utilizados para dar suporte às obras de implantação da Linha 5–Lilás e serão destinados às necessidades da futura concessionária privada que irá operar o ramal, que poderá usá-los conforme previsão contratual da Parceria Público Privada.


* O diagrama publicado nesta reportagem corresponde à fase preliminar da expansão da Linha 5. Alguns pontos e estações tiveram os nomes alterados desde então. Vila Clementino deu lugar a Hospital São Paulo. O VSE Marselhesa foi trocado por Botucatu. A estação Água-Espraiada, por Campo Belo. Brooklin-Campo Belo ficou só Brooklin. O VSE Professora Carolina Ribeiro, ao lado da estação Chácara Klabin, não chegou a ser desapropriado.

Para uma história do anticomunismo no Brasil – por Eduardo Migowski

Para uma história do anticomunismo no Brasil
 “Fake News”. Falso moralismo político. Busca da “democracia” por meio de golpes. Como as táticas atuais da propaganda de direita requentam as dos anos 1960

“O Brasil precisa de você” e “A Máquina Comunista” são dois documentários brasileiros de teor antissocialista. A mensagem de ambos é praticamente a mesma: “há um perigo iminente que precisa ser extirpado. Caso contrário, o Brasil caminhará para uma ditadura totalitária e sanguinária.” A corrupção, a desordem e a crise econômica e institucional seriam as provas inequívocas da ameaça que ronda a sociedade.

No primeiro caso, “O Brasil precisa de você”, o narrador faz um convite direto ao telespectador, convocando-o para participar de forma ativa na sociedade. A missão proposta seria a conformação de uma “nova democracia” no Brasil.
Mas o que seria exatamente essa “nova democracia”? O documentário não explica. Porém, em outro momento, fica claro que o que está sendo sugerido não é exatamente a ampliação da representação popular. É um “projeto civilizacional”. Seria necessário levar a democracia a quem não a “conhece”: “um novo conceito de democracia precisa ser levado aos estudantes, aos operários e aos homens do campo”.
Tratava-se, portanto, de uma cruzada para “esclarecer” grupos específicos e impedir que tais pessoas fossem vítimas de “ideologias exógenas”, perigosas. “Muitos estão de braços cruzados, esquecidos que a democracia não pode ser defendida por comodistas”, lembra a voz grave do narrador.
O perigo, obviamente, é o comunismo. Apresentado como o projeto totalitário sucessor do nazismo. Essa conclusão é recheada com imagens dos mortos, cercas de arame farpado e pessoas famintas. A antítese do que seria a liberdade liberal.
No segundo exemplo, “A Máquina Comunista”, a narrativa é semelhante. O documentário inicia com a fala de um sujeito, Ricardo Gomes (apresentado como empresário e advogado), afirmando que o projeto marxista é inverter a classe exploradora. E, para isso, “eles estariam tomando o Estado por dentro”. E o empresário alerta: “espero que ainda não tenhamos passado pelo point of no return, do estado de coisas além do qual é impossível voltar”.
A duas montagens cinematográficas são produzidas de modo a dar um recado ao telespectador. Mas quem seria essa pessoa? Certamente não é um indivíduo qualquer. É o sujeito que precisa civilizar o homem do campo, no primeiro caso; ou aquele que teme uma opressão dos de baixo, no segundo.
Se o interlocutor não é o operário, não é o homem do campo, restariam apenas as classes média e alta. O VOCÊ, do título do primeiro documentário, é absolutamente o mesmo VOCÊ da capa da Veja, que alertava sobre os perigos de expandir os direitos trabalhistas. O restante: “ELES”, o outro, as classes perigosas, que, como lembra Ricardo Gomes, querem nos explorar do mesmo modo que nós os exploramos. Em suma, é a empregada doméstica que, ao ter direitos, assusta VOCÊ com a possibilidade de um dia precisar lavar louça.
Há, porém, um detalhe que estava sendo omitido. Esses dois exemplos, apesar das semelhanças, não são contemporâneos. Não foram feitos pela Editora Abril, pela Rede Globo ou por qualquer órgão tradicional da imprensa. Muito pelo contrário, há mais de cinquenta anos separando a primeira película, produzida pelo IPES, órgão criado em 1962 por empresários para financiar a propaganda anticomunista; do segundo caso, retirado de uma de uma série de cinco documentários, lançados ano passado, num evento intitulado “Brasil Paralelo”.
Segundo os organizadores, esse “congresso virtual” foi realizado por jovens cansados de “ouvir sempre o mesmo lado de história”. Eles seriam os pioneiros de uma revolução intelectual que iria devolver a “verdade sobre o nosso povo”. Escondida pelos professores e pela mídia, “infestadas de esquerdistas”. “‘O Brasil Paralelo’ se propõe a trazer outra versão da história do Brasil. Após muito trabalho. Noites sem dormir. Viagens exaustivas. Colocamos dinheiro do nosso próprio bolso. Assumimos o risco.”
Anúncio do documentário Brasil Paralelo

O depoimento é comovente. Alguns jovens, cansados de ser manipulados, recebem uma revelação e resolvem sair numa empreitada arriscada. Trabalhando duro e desembolsando uma enorme quantia em dinheiro, sem sequer saberem se haveria retorno. Tudo em nome do conhecimento. A impressão é que, mais de 50 anos depois, esses rapazes ouviram a convocação do IPES e colocaram a “mão na massa” para construir “a nova democracia”.

O depoimento, porém, é tão cativante quanto irreal. O projeto tem mais de 123 horas de entrevistas com “especialistas” de todo o Brasil. Os cinco documentários foram produzidos de forma profissional, com imagem e edição de alta qualidade. Só para ter uma ideia, nenhuma universidade pública brasileira teria dinheiro para fazer algo dessa magnitude. Certamente, a aventura dos garotos custou alguns milhões. De onde veio tanto dinheiro? O que estaria por trás da sublime iluminação intelectual desses jovens?
Esse não é um caso isolado. Movimentos como o MBL já possuem escritório próprio, militantes profissionais, programas de notícias e entrevistas no Youtube. Organizaram manifestações em que cada trio elétrico foi alugado por cerca de 30 mil reais. Segundo os responsáveis pelo MBL, também formado por “garotos iluminados”, os gastos são financiados com venda de camisetas, chaveiros, broches e doações. Difícil de acreditar.
Quem estaria fomentando esse discurso? Bem, nesse caso, seria preciso uma ajudinha do passado. Conhecemos melhor a história dos seus avós, IPES e IBAD, do que dessas novas ramificações.
A história é importante, pois nos dá uma perspectiva temporal. Assim, evita certas manipulações discursivas. O documentário do IPES convoca a “sociedade” para levar um novo conceito de democracia ao “homem ingênuo”. Hoje sabemos que essa nova democracia representou, na prática, 21 anos de ditadura militar.
No fim, as vítimas foram as mesmas pessoas mobilizadas contra um perigo imaginário e em nome de uma democracia que ninguém conseguia definir ou explicar. VOCÊ também pagou o pato.
A Máquina de Propaganda Anticomunista

O que estamos chamando de “macarthismo brasileiro”, a grosso modo, começa em 1945. Após um duplo movimento: a democratização e o início da Guerra Fria. (Como este texto pretende ser curto, não vou abordar a propaganda anticomunista anterior à Guerra Fria).

Há também um importante deslocamento na esfera política/ideológica. Ao longo da década de 1930, o nacionalismo estava associado à direita política. Tanto o varguismo quanto o integralismo tinham como um dos seus principais motes a luta contra o “comunismo internacionalista”. No pós-guerra — com a vitória dos aliados e o renascimento do liberalismo, de um lado; e com a configuração de um modelo de desenvolvimentismo latino-americano e do trabalhismo, de outro —, há uma inversão. Essa duas variáveis irão promover a rearticulação do discurso ideológico. Doravante, o internacionalismo se identificará com a direita e o nacionalismo com a esquerda do espectro político.
A política partidária passou a ser rivalizada por dois projetos de país. De um lado, o nacionalista trabalhista, que defendia um crescimento autônomo e com distribuição de renda. O principal partido a representar tais anseios era o PTB. Do outro, estavam os liberais, que viam o mercado como o agente do crescimento e do progresso. A UDN era a trincheira institucional desse pensamento. O PSD, partido de centro e mais pragmático, era o fiel da balança entre esses projetos rivais.
A UDN tinha dinheiro, muito influência na mídia e uma base social sólida. Porém, convivia com um dilema. O partido era visto como elitista. Antipovo. Seu eleitorado era o VOCÊ da propaganda. Não se elege um presidente apenas apelando para uma classe social. O discurso liberal tinha pouca aceitação entre os trabalhadores, pois estes entendiam que a CLT era o que os protegia das oscilações do mercado e das arbitrariedades dos mais poderosos. Como, então, defender o liberalismo e ao mesmo tempo ser popular? Tarefa difícil. Nas eleições de 1945, por exemplo, após uma fala infeliz do candidato Brigadeiro Eduardo Gomes (UDN), o PTB lançou a campanha: “marmiteiro” não vota em “grã-fino”. Referência ao elitismo do militar, que havia dito num comício que desprezava o voto dos getulistas, uma “malta de desocupados”.
Na impossibilidade do liberalismo seduzir grande parte da opinião pública, num país tão desigual quanto o Brasil, a estratégia empregada pela direita pode ser representada por um tripé. Primeiro, houve um apego à moralidade. Os jornais manipulavam de modo seletivo os casos de corrupção, com o objetivo a deslegitimar certas agendas. Um exemplo, que voltou a ser lembrado recentemente, foi o apartamento em Ipanema, na Avenida Vieira Soto, que os jornais acusaram Juscelino Kubitschek de ser o proprietário e de ter colocado no nome de um amigo para ocultar esse patrimônio.
Por que discutir sobre a importância estratégica da Petrobrás? Melhor acusá-la de balcão de negócios. As histórias dos escândalos de corrupção acompanham de forma impressionante a estruturação de um projeto nacional autônomo. Além do já mencionado Juscelino Kubitschek, Getúlio Vargas e João Goulart também sofreram com o cerco moralista. A oposição, diziam, não passaria de populistas demagogos, que querem comprar o apoio das camadas desfavorecidas com benesses quiméricas. O objetivo deles, contudo, seria se perpetuar no poder e usá-lo em benefício próprio.

Ora, se um pequeno grupo “compra” a maior parte da população “ignorante”, incapaz de decidir por conta própria, não há democracia. Essa era a lógica subjacente ao chamado do IPES direcionado aos “homens esclarecidos”.

Mas qual seria exatamente o perigo? Se ele não existia no mundo concreto, precisaria ser criado no imaginário. Vamos, então, para a segunda perna do nosso tripé. A retórica alarmista. O estímulo do medo. Materializada na propaganda anticomunista, que é o foco principal do presente artigo.
O historiador Geraldo Cantarino, no livro Segredos da Propaganda Anticomunista, compilou uma série de telegramas altamente secretos sobre a ação do Information Research Departament (IRD). O IRD era a unidade secreta do Ministério das Relações Exteriores britânico, responsável pela propaganda antissoviética no Brasil. Todos os documentos apresentados abaixo sobre o IRD, foram retirados deste livro.

Segundo os documentos, as informações divulgadas pelo órgão não poderiam ser percebidas pela população como propaganda, para não perderem a eficácia. A estratégia adotada seria a de “cavar e empacotar”. Ou seja, seriam selecionadas notícias negativas para serem distribuídas pela imprensa mundial. Em outros casos também seriam plantadas na imprensa informações falsas. “O principal papel desempenhado pelo IRD foi, então, o de disseminar a propaganda cinza e sem determinar a origem, com o objetivo de atrair a atenção ou confundir o público leigo.” (Geraldo Cantarino).
Essa estratégia escondia os laços entre empresários brasileiros e as agências internacionais de inteligência. Um cidadão lia uma reportagem fabricada pelo IRD, digamos, no jornal O Globo e não sabia da sua procedência e nem da veracidade dos dados apresentados. Como a agência abastecia praticamente toda a imprensa, a mesma narrativa era encontrada no Jornal do Brasil ou na Folha de São Paulo, apresentando os mesmos dados. Assim, a “propaganda cinza” ia sendo massificada, modelando o imaginário anticomunista. “A capacidade da CIA e da IRD de disfarçar seu apoio financeiro a diversas atividades por muitos anos foi decisiva para o sucesso da propaganda ocidental, sendo que grande parte dela não era reconhecida como propaganda.” (Geraldo Coutinho).
Entre os parceiros do IRD no Brasil estavam jornalistas, intelectuais, sindicalistas e padres. E, claro, praticamente todos os donos de jornais, incluindo marcas conhecidas e ainda hoje em atividade, como: O Globo, O Estado de São Paulo, Folha de S.Paulo e Jornal do Brasil.
Durante o período stalinista, a imprensa mundial pouco sabia o que acontecia para além da cortina de ferro. Assim, as agências estrangeiras de informação preenchiam essa lacuna, municiando a mídia brasileira com informações falsas.
Segundo Geoffrey Stow, oficial de informação da embaixada britânica no Brasil, o país não correria o risco de uma revolução comunista, pois a imprensa, os militares e a Igreja Católica eram fortemente antissocialistas. E foi com essas instituições que o IRD e a CIA trabalharam em parceria. Por meio da imprensa, as agências se comunicavam com a classe média. A Igreja Católica era o canal com o homem pobre. E os militares, o último elo da nova democracia, ou seja, aqueles que poderiam substituir as eleições, caso estas saíssem do controle.
Mas as rivalidades internas não deixavam de criar dificuldades. Nos primeiros anos de atividade do IRD, Stow queixava-se da dificuldade em “plantar” notícias em São Paulo. O governador Adhemar de Barros teria advertido os jornais a não publicarem esse tipo de material, ele queria o apoio dos comunistas nas eleições presidenciais seguintes. O jornal O Globo também criou dificuldades. Segundo o mesmo Geoffrey Stow, havia uma séria questão que precisava ser resolvida para que o material anticomunista se alastrasse pelo Brasil: “A queda é em função do fato de que um de nossos clientes regulares, O Globo, insistiu que só publicariam esses itens se no futuro obtivessem exclusividade”. Tal contratempo logo foi resolvido com um afago: “estamos enviando para eles cinco itens exclusivos por semana”. Mas Stow não deixou de lamentar a teimosia dos Marinho: “isso, claro, reduz o número de itens disponíveis para outros jornais”.
Nos anos 1960, há a retomada dos movimentos de esquerda, sobretudo no campo. “É muito curioso porque o país nos anos 1960 toma consciência da necessidade de dar um passo. Um passo na direção da democracia. Um passo na direção da nação.” (Plínio de Arruda Sampaio, O Dia Que Durou 21 Anos). O que o socialista Plínio de Arruda Sampaio entendia como “um passo em direção à democracia” era visto pela embaixada americana como um passo (largo) para o totalitarismo. A vitória da Revolução em Cuba também acendeu o “sinal de alerta”. O Brasil entrava definitivamente no radar americano.
O documentário O dia que durou 21 anos (todos os documentos abaixo, referidos à embaixada americana, foram retirados dessa obra), reproduz as correspondências trocadas entre o embaixador dos EUA, Lyndon Gordon, e o presidente John Kennedy. Em um desses telegramas, Gordon informa: “Goulart discursou defendendo o nacionalismo verde-amarelo. Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul, desapropriou duas empresas norte-americanas (Amforp e ITT), tais ações são uma ameaça aos interesses econômicos dos EUA e são consideradas totalmente inaceitáveis.”

Como podemos observar, o critério que unia “nacionalismo” e “comunismo” eram os interesses americanos. O nacionalismo bom era aquele anticomunista, enquanto o ruim era o que buscava maior autonomia frente à influência dos EUA.
A opinião de Gordon, porém, essa não era a mesma do IRD, agora dirigido por Robert Evans. Evans demonstrava uma percepção da realidade nacional mais refinada que a do embaixador norte-americano: “muito tem sido escrito sobre o perigo de insurreição no campo. Eu acho um exagero”. Em outra passagem do relatório, Evans diz que o nacionalismo, que tanto incomodava os EUA, era uma faca de “dois gumes”: do mesmo modo que dificultava a hegemonia norte-americana na região, também afastava outras ideologias como a comunista.
A agência britânica propunha novos métodos para isolar os comunistas. Para Evans, seria preciso estimular a “esquerda saudável”, ou seja, a esquerda não-comunista. “Ela continua a ser um fator estabilizador, que atua como um freio no movimento de esquerda.”
Mas essa tarefa era arriscada. Os conservadores tinham dificuldades de diferenciar essas esquerdas e tal prática poderia alarmar a direita. O oficial britânico conclui defendendo mais recursos em palestras para o público brasileiro sobre o trabalhismo inglês (mais moderado), visitas de professores e pesquisadores ao Reino Unido, assistência a autores brasileiros, apoio a projetos selecionados, bolsas de estudos etc.

Evans entendia que a esquerda era uma realidade política inevitável. Havia certa indignação e uma crescente vontade de mudanças estruturais no interior da sociedade brasileira. Essa energia política não seria dissipada pelo discurso conservador. Por isso, a necessidade de fortalecer a esquerda reformista, única capaz de conter o avanço do “radicalismo” dentro da classe média. “Estou convencido de que a mistura de nacionalismo, patriotismo, antiamericanismo, marxismo e muitos outros ismos se consolidará gradualmente em um partido de centro-esquerda.”
Essa definitivamente não era a opinião dos norte-americanos e dos conservadores brasileiros. A estratégia destes grupos foi oposta à de Evans. Ao invés de separar a esquerda “saudável” da esquerda marxista, eles colocaram todos no “mesmo saco”. A ideia era confundir de modo proposital as Reformas de Base com a economia planificada. Desse modo, poder-se-ia jogar todo o peso de anos de propaganda anticomunista nas costas da esquerda reformista. Se os britânicos desejavam amenizar as tensões empurrando a esquerda para o centro, a CIA queria acirrar os conflitos, os antagonismos, para justificar uma solução armada.
O complexo IPES/IBAD: o ovo da serpente do golpe
 É nesse contexto que é criado o complexo IPES/IBAD, uma rede financiada por empresas estrangeiras e nacionais, além da CIA e do IRD, para combater o avanço comunista em várias frentes. Os documentos do IRD definiam o IPES como um canal confiável: “mantenho contato muito próximo com o escritório do IPES no Rio de Janeiro sobre as edições em português das publicações do IRD e para passar material para as Forças Armadas” (Robert Evans). Lincoln Gordon também mencionou esse canal para infiltração estrangeira, nas correspondências com Kennedy:
Gordon: O IPES, que é progressista, precisa de alguma ajuda financeira. Acho que temos de ajudá-lo.
Kennedy: Quanto vamos ter que colocar nisso?
Gordon: Isso é coisa de uns poucos milhões de dólares.
Kennedy: Isso é muito dinheiro. Afinal, você sabe que numa campanha presidencial aqui, você gasta cerca de 12 milhões.
Gordon: Mas nós não podemos correr riscos.
(O Dia que Durou 21 anos)


No Brasil, o IPES apresentava-se como alternativa à radicalização política, tanto à direita quanto à esquerda. Dizendo ser um centro de estudos científicos e, por isso, “apartidário”, o órgão se colocava contra a “esquerda radical” e a “direita tradicional”. Enquanto a primeira supostamente queria transformar o Brasil numa “república sindicalista”, e a segunda não aceitava qualquer forma de mudança, eles estariam propondo as verdadeiras reformas estruturais.
As reformas não passariam pela redistribuição de terra, mas pela modernização do campo. Era preciso levar o capitalismo para o interior do Brasil. Diminuir a burocracia. Controlar a inflação. Estabilizar a economia. Acabar com a corrupção. E, principalmente, abrir o mercado brasileiro e pôr fim ao controle de fluxo de capitais.

Segundo o historiador Moniz Bandeira, tais agências funcionavam como holding, coordenando várias subsidiárias. Dentre elas: Ação Democrática Parlamentar (ADP), Campanha da Mulher Democrática (CAMDE), Frente da Juventude Democrática (FID) e Movimento Sindical Democrático (MSD). Para financiar essa sofisticada rede, houve ativa participação também do capital privado, dentre as empresas mais ativas, Moniz Bandeira destaca: Texaco, Shell, Bayer, IBM, Coca-Cola e Souza Cruz. É interessante notar a forte presença das petroleiras no financiamento da propaganda anticomunista.
Para massificar a narrativa liberal, o complexo IPES/IBAD produzia filmes e documentários (14 no total). Publicava revistas. Atuava nos quartéis. Financiava pesquisas. Chegando, inclusive, a comprar vários deputados nas eleições de 1962.

Em depoimento, Plínio de Arruda Sampaio lembrou:
“Na eleição em que eu fui candidato, fui procurado por um cidadão que queria me oferecer dinheiro para a campanha. Aí eu perguntei: qual é a contrapartida? Ele respondeu: nós só queremos que você defenda a democracia.” Meses depois foi aberta uma CPI na Câmara, para investigar o IBAD, que constatou que este recebia dinheiro do exterior para comprar deputados. “Foi um desfile de deputados dizendo: eu recebi, mas eu não sabia. Não havia nenhum minuto do Brasil, das 24 horas do dia, em que não houvesse uma emissora financiada pelo IBAD dizendo algo contra o presidente João Goulart.”

Essa rede permitiu a circulação da propaganda anticomunista em vários segmentos sociais, consolidando uma narrativa alternativa às reformas. Pior, a estratégia buscava convencer a população de que o país caminhava para uma ditadura sanguinária, aumentando as tensões políticas e os conflitos. O objetivo era justificar uma solução pela força. A ideia do IRD, de fomentar a “esquerda saudável” para barrar o avanço dos comunistas, havia sido abandonada em definitivo. O que se pretendia era construir uma base social capaz sustentar o golpe militar, que já estava sendo gestado.

Considerações Finais
Foi, portanto, com a criação do complexo IPES/IBAD que o cerco propagandista contra as Reformas de Base estruturou-se em definitivo. Os efeitos foram profundos.

O leitor atento deve ter percebido que, ao me referir à estratégia política dos conservadores, mencionei um tripé. A primeira perna era o discurso moralista. A segunda, o estímulo do medo e o seu substrato, o ódio. Ficou faltando explicar a última perna: o golpe!
A retórica alarmista, provocada pela propaganda anticomunista, obviamente, não é desinteressada. O discurso oficial da Guerra Fria separava a política em duas esferas antagônicas: o “Mundo Livre” e o “Império do Mal”. A fronteira entre essas duas realidades, aparentemente inconciliáveis, seria justamente a democracia e a liberdade. Porém, para evitar um desenvolvimento autônomo e manter a hegemonia americana no continente, o conceito de “democracia” precisou, e muito, ser alargado.
Como lembrou o filósofo Noam Chomsky, há pelo menos duas acepções possíveis para a palavra “democracia”: a primeira seria aquela em que o povo participa ativamente dos destinos coletivos e, portanto, tem acesso a educação de qualidade e os canais de informações são acessíveis e diversificados.
A outra considera que o povo deve ser mantido afastado dos assuntos públicos e, por isso, o acesso à informação, assim como a percepção da realidade, deve ser restrito. Podemos concluir, dessas duas noções propostas por Chomsky, que, durante a Guerra Fria, os EUA promoveram a primeira definição no plano simbólico e a segunda na prática.
Esse era o significado da “nova democracia” do IPES. A propaganda funcionou. Entre os dias 19 de março e 8 de junho, aconteceram as famosas Marchas da Família com Deus Pela Liberdade (contra a ameaça comunista). Estava consolidada a base social necessária para um golpe de Estado.
Apenas olhando para o nome dessas manifestações, percebe-se a influência da Igreja, que os documentos do IRD chamavam de parceira confiável. Os símbolos religiosos foram manipulados, de forma sistemática, para a conformação do imaginário anticomunista: a figura do comunista era frequentemente associada à sombra, às trevas e ao mal.
O discurso liberal também usava de forma paradoxal com o conceito de “liberdade”. E as ambiguidades foram muitas, começando pelo fato de que essa liberdade representou 21 anos de Estado de Exceção. Instaurou-se uma ditadura em nome da democracia.
A partir de junho de 2013, o discurso alarmista anticomunista reapareceu no Brasil. Não por coincidência, tal fenômeno ocorreu durante um governo com características muito próximas às posições defendidas pelo presidente deposto João Goulart. A presidenta Dilma Rousseff também não concluiu seu mandato, sofrendo impeachment num processo extremamente duvidoso, para usar um eufemismo.
A maior dificuldade nos anos 1960 era a distribuição de material propagandista. Com o advento das redes sociais, essa barreira desapareceu. Os think tanks ultraliberais se espalharam de forma espantosa em poucos anos. Replicando um discurso plastificado. Ou melhor, “cavado e empacotado”.
Bem, o restante da história você conhece. Vou deixar, portanto, a análise crítica do atual momento para o leitor. Termino por aqui. Não vou convidar você para nenhuma cruzada salvacionista. Mais importante do que acertarmos é não repetirmos os mesmo erros. Ou melhor, não cairmos nas mesmas armadilhas.

Para Saber Mais

BANDEIRA, Luis Alberto Moniz. O Governo João Goulart: as lutas socais no Brasil. São Paulo: Editora UNESP, 2010.
BANDEIRA, Luis Alberto Moniz. Presença dos Estados Unidos no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.
CATARINO, Geraldo. Segredos da Propaganda Anticomunista: documentos diplomáticos revelam a atuação do IRD, um departamento secreto do governo britânico no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad X, 2011.
CHOMSKY, Noan. Mídia: propaganda política e manipulação. Martins Fontes, 2013.
DREIFUSS, René Armand. 1964 — A Conquista do Estado. Ação política, poder e golpe de classe. Petrópolis (RJ): Vozes, 1981.
Documentários
O Dia Que Durou 21 Anos
Congresso Brasil Paralelo, capítulo 04: A Máquina Comunista
IPÊS: O Brasil precisa de Você