segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Entrevista com Tom Morello do Rage Against the Machine - Brasil de Fato

Entrevista com Tom Morello do Rage Against the Machine

Após passagem pela América do Sul, o guitarrista do RATM, Tom Morello, fala sobre política e música ao Brasil de Fato

Ana Maria Straube, Rodrigo Salgado e Vinicius Mansur (de São Paulo)

Nascida em 1991 na Califórnia, EUA, a banda Rage Against The Machine (RATM) se consolidou no cenário mundial da música com uma rara mescla de rap, variantes do rock and roll pesado e crítica política furiosa e constante.

Na trajetória da banda, pedradas ao capitalismo, ao belicismo estadunidense, ao racismo, ao etnocídio dos nativos da América, à violência machista. Homenagens aos zapatistas, à Liga Anti-Fascista da Europa, à organização Women Alive, aos presos políticos Leonard Peltier e Múmia Abu-Jamal.

Para todos estes, a banda realizou shows, revertendo todo o dinheiro para a defesa das causas. O RATM também tocou em protestos contra o Nafta (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio) e a Alca (Área de Livre Comércio das Américas), fez dois shows contra à guerra (2000 e 2008) às portas da Convenção Nacional do Partido Democrata, provocou o fechamento da Bolsa de Valores de Nova York por algumas horas ao tentarem gravar um clipe, dirigido por Michael Moore, em frente à instituição, e, também, foi censurado pela emissora NBC por exibirem a bandeira dos EUA de cabeça para baixo em uma apresentação.

Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, a emissora Clear Channel criou a lista de “músicas com letras questionáveis”, na qual o RATM foi a única banda a ter todas as suas músicas incluídas.

De 2000 a 2007, a banda esteve separada, mas, em outubro deste ano, aterrissou e “aterrorizou” pela primeira vez em solo sul-americano, passando por Brasil, Argentina e Chile, homenageando o MST, as Mães da Praça de Maio, Víctor Jara e Salvador Allende. Passada a turnê, o guitarrista do RATM, Tom Morello, concedeu uma entrevista exclusiva ao Brasil de Fato.

Brasil de Fato – Os fãs da América do Sul esperaram muito tempo por uma apresentação do RATM. Vocês gostaram da recepção do público?
Tom Morello – Nós ficamos muito extasiados com o público brasileiro. Nós temos grandes fãs no Brasil e é uma vergonha termos demorado 19 anos para tocar no país. Mas valeu a espera. Foi realmente uma noite para ser lembrada.

O RATM é uma banda claramente anticapitalista. Porém, percebemos, no show do Brasil, que parte considerável dos seus fãs não se interessa pelo conteúdo político ou até mesmo tem aversão a posicionamentos de esquerda. Como vocês interpretam isso?
O RATM é uma banda que se preocupa em agir amplamente. Tocamos nossa música para atingir uma ampla variedade de pessoas, independentemente de suas inclinações ideológicas. Estou tranquilo com isso. Nós não somos uma banda elitista que toca exclusivamente para pessoas que compartilham exatamente nossa pauta política. O que nós percebemos ao longo destes anos é que muitos jovens que antes eram apáticos ou possuíam opiniões políticas diferentes foram expostos a um novo conjunto de ideias através de nossa música e, em alguns casos, isso os ajudou a mudar sua forma de pensar.

Um jornalista chegou a publicar que vocês foram usados pelo MST no Brasil, colocando-os como “gringos bonzinhos nas mãos de pessoas más”. O que você tem a dizer sobre isso?
Minha hipótese é que o jornalista que diz sermos marionetes nas mãos do MST possivelmente discorda da postura política do movimento. Isto é uma crítica comum que encontramos aqui nos Estados Unidos. Quando a mídia de direita critica artistas por se posicionarem politicamente é geralmente porque eles discordam do ponto de vista dos artistas. Eu aprendi sobre o MST com o Zack, que conhece bastante sobre os movimentos políticos de toda a América Latina e nós temos orgulho de prestar solidariedade ao MST na sua luta por justiça no Brasil.

Você faz parte de algum movimento político?
Sou cofundador, junto com Serj Tankian, da banda System of a Down, da Axis of Justices, uma organização sem fins lucrativos determinada a reunir músicos, fãs de música e organizações políticas de base para lutar por paz, direitos humanos e justiça econômica. Também sou membro do IWW (Trabalhadores Industriais do Mundo, por sua sigla em inglês), uma organização de trabalhadores radical, fundada no início do século 20 e que engloba trabalhadores de todos os tipos. Trabalhadores da indústria do sexo, estudantes, músicos, metalúrgicos, camponeses etc.

Qual a importância para vocês que os jovens apoiem movimentos sociais, como o MST? No Brasil, atualmente, a juventude raramente se engaja em lutas sociais. Como ela se comporta nos EUA?
É a juventude que muda o mundo e eu acredito ser de crucial importância que eles ganhem perspectiva numa larga variedade de ideias e movimentos políticos que estão abertos para a participação deles em seus próprios países. Nos Estados Unidos, a juventude foi muito energizada pela campanha presidencial do Obama e muitos se desiludiram com suas ações desde que ele foi eleito. Existe muito descontentamento nos Estados Unidos com a economia e com o prosseguimento das guerras no Oriente Médio e, infelizmente, os semideuses da direita têm manipulado esse descontentamento para os seus próprios propósitos.

A vitória dos republicanos nas últimas eleições nos parece um fiel exemplo disso. Existem movimentos populares nos Estados Unidos capazes de reverter esse quadro?
Durante a administração Bush, houve um fortíssimo movimento antiguerra. Muito da energia desse movimento foi canalizada para a campanha do Obama, quem eu considero uma pessoa decente. Mas acredito que a alta cúpula do governo está repleta de compromissos. A política nos Estados Unidos é dominada e operada pelo grande capital e não me surpreende este giro à direita que tivemos depois de dois anos com Obama. E não é porque sua política ameaçava a elite em qualquer aspecto. Seu apoio contínuo à guerra do Afeganistão e o resgate criminoso oferecido aos bancos e à indústria financeira são uma clara indicação de sua fidelidade de classe. Mas o que sublinhou o movimento da extrema direita na política estadunidense foi o desafio às convenções culturais que o Obama representa. Existem muitos racistas nos Estados Unidos que sequer podem dormir bem sabendo que existe um presidente negro na Casa Branca. A extrema direita usou temas como raça, sentimentos antigay e anti-imigrantes para reavivar a animosidade para com o centrista Partido Democrata, deixando sua pauta econômica e de poder por detrás e, assim, convencendo a maioria da classe trabalhadora branca a votar contra os seus próprios interesses.

Que visão vocês tem sobre o recente processo político latino-americano?
Parece-me que, enquanto os Estados Unidos focaram sua atenção em nossas guerras imorais e ilegais no Oriente Médio, a América Latina foi deixada para seguir seu próprio destino. Eu estou muito satisfeito que, ao longo do curso da última década, movimentos realmente populares tenham começado a influenciar a política do Estado e, eventualmente, tenham ascendido ao poder na América Latina. Governos que explicitamente estão ao lado dos pobres e da classe trabalhadora, ao mesmo tempo em que a população de qualquer país deve estar atenta contra a corrupção. Eu acredito que é um sinal encorajador que os oprimidos tenham, mais do que nunca, voz na política latino-americana.

Entrando na música, mas sem sair tanto da política, como uma banda como o RATM lida com a indústria cultural?
Bom, é bem possível que ninguém no Brasil jamais tivesse escutado o RATM ou que ninguém se interessasse em ler esta entrevista se não fosse o fato da música do RATM ser veiculada pela Sony Music. Logo no início da banda, nós tomamos uma decisão de forma extremamente consciente sobre como tentaríamos divulgar nossa mensagem revolucionária para o maior número de pessoas possíveis ao redor do mundo. E, ainda que eu respeite as decisões de outros artistas em lidar exclusivamente com gravadoras independentes, nossos objetivos políticos são muito maiores. Nós queremos que nossa música tenha um impacto mundial.

A influência musical de vocês é bastante vasta. Do RAP ao Rock, passando pela música negra e até o heavy metal. Ela sempre se pautou pela atividade política?
Minhas preferências musicais são muito amplas e certamente nem sempre existe um componente político nelas. Eu adoro heavy metal, como Black Sabbath, Iron Maiden e Rush, assim como o hip-hop contemporâneo de DMX e Jay-Z e, obviamente, também gosto de grupos políticos, como Public Enemy e The Clash. No RATM, nós sempre sintetizamos nossas várias influências musicais para então preencher com o nosso compromisso político.

Algo na música sul-americana é referência para você?
Um dos meus maiores heróis musicais é Víctor Jara, o tremendamente talentoso mártir do golpe de 1973 no Chile. Sua vida como músico e ativista é muito inspiradora, especialmente no meu projeto solo, que leva o nome de The Nightwatchman.

Você apontaria novos talentos na música?
Eu sou um grande fã de Gogol Bordello, The Arcade Fire, Bright Eyes e de uma banda pouco conhecida fora da cidade de Nova York, que se chama Outernational.

O RATM voltou para ficar? Há previsão para novos trabalhos?
Bem, nós estamos juntos de verdade, como nosso show no Brasil demonstrou. Atualmente, não existem planos para um novo disco, mas nós continuamos amigos e fazendo shows. Mas o futuro não está escrito.

Vocês têm planos para retornar à América do Sul?
Eu adoraria voltar em breve para tocar mais vezes e explorar o continente. Nessa viagem, nós estivemos na América do Sul por menos de dez dias, o que não foi nem de longe suficiente. Eu fui inspirado pelo público daí, pelo encontro com o MST, pelo ensaio que nós vimos da escola de samba Vai Vai, por visitar os túmulos de Víctor Jara e Allende no Chile, por marchar com as Mães da Praça de Maio em Buenos Aires. Essas coisas serão absorvidas por minha música no futuro. Finalmente, gostaria de agradecer muito aos fãs do Brasil. Levamos dezenove anos para ir pela primeira vez, mas garanto que não levaremos outros dezenove anos para voltar. Nos veremos em breve.

QUEM É:
Nascido em 1964 no Harlem, em Nova York, formado em ciências políticas na Universidade de Harvard, Tom Morello foi incluído pela revista Rolling Stone como um dos 100 maiores guitarristas de todos os tempos.
Fonte: http://www.brasildefato.com.br/

domingo, 21 de novembro de 2010

sábado, 20 de novembro de 2010

Zona Proibida - Hakim Bey

Zona Proibida - Hakim Bey
Seria a teoria um tipo de bola de cristal? Haveria por acaso alguma magia na teoria? (Originalmente a palavra 'teoria' queria dizer visão, seria correto supor que carrega consigo algum mistério). Poderia a teoria AnarcOntológica ser usada como uma espécie de Tábua Ouija¹ para predizer o futuro com o mesmo grau de clareza com que descreve o presente ou "prevê" o passado? Estará o espectacul-simul-mercantilismo em seus momentos finais, da mesma forma que o "Marxismo" nos anos 80? O que causará o seu colapso? E sobre o Islã "ressurgente" unificado do "Sul" ou a víbora mortal da cultura? E a religião em geral? Os tantos cenários de Ficção Científica? A polícia como o simulacro final do poder, seria ela o último órgão do desaparecimento? Balcanização e limpeza étnica? Seria realmente a teoria um oráculo o qual podemos consultar? Poderíamos nós fazermos algumas previsões para o próximo ano, como faz a National Enquirer²?

Não vejo o Capitalismo desaparecendo da noite para o dia como o Comunismo – ele é orgânico demais, conectado demais com “o que realmente está acontecendo”. O Marxismo caiu porque entrou em um estado de abstração e negação - fracassou ao abraçar o espetáculo como o verdadeiro local do poder -, o capital no entanto, não cometeu este erro. O capital se desintegrará ou desvanecerá, em outros termos, experimentará uma súbita implosão. Os símbolos da desintegração se farão mais e mais visíveis e óbvios para a experiência e a teoria, mas não apagará o simulacro de totalidade com qual colapso revolucionário. As nuvens obscuras dentro do cristal começam a se dissipar. De repente, um conceito: triagem social. Imediatamente uma consequência: a Zona Proibida.

O Estado, como o último lócus do mundo da simulação, se verá forçado a praticar a triagem social, deixando de exercer controle real sobre áreas que cairão a baixo do nível adequado de participação no discurso vazio. Zonas: classes, raças, grupos marginalizados, e certo ponto, áreas geográficas concretas. Triagem: paulatino e imperceptível abandono dos “serviços”, fundamental para o surgimento de Zonas Proibidas onde o “controle” se reduz ao puro simulacro mediado (a televisão como ímã social). Zonas que foram econonicamente abandonadas (os sem-teto, camponeses, trabalhadores imigrantes, os dependentes de programas estatais) serão gradualmente eliminados de todas as outras redes de controle do espetáculo estatal, incluindo a interface final, a Polícia. Claro que 'oficialmente' nem a retirada, nem a ausência existirão, o estado espectral continuará reclamando a jurisdição e a propriedade sobre estas zonas – a autonomia política não será permitida, e o terrorismo ocasional será difundido para proporcionar um verniz de controle-simulação. Mas na realidade econômica crua estas zonas tenderão que ser sacrificadas, como passageiros atirados para fora da troika³ da história aos lobos da memória.

Este processo de algum modo já começou, as pesquisas demográficas oferecem uma amostra do futuro: - Onde estão vivendo as diferentes classes? Para onde elas vão? - Mike Davis? analisou este movimento no microcosmo de Los Angeles, onde ele pode visualizar já um complexo padrão de triagem e terror, provando sua condição de profeta visionário, que através geomância é consegue ler nos ossos dos edifícios e nas entranhas do espaço urbano os sinais "naturais" nas tripas de animais ou na paisagem (de algum modo a cultura possui um inconsciente que vomita símbolos mágicos e signos (não a fumaça das oferendas nas chamas, e sim as patrulhas policiais incendiadas). Creio que este processo se acelerará até o ponto em que se fará mais obvio, em 5 ou 10 anos, esses pedaços de “América” não estarão por muito tempo mais no mapa. Eles não produzirão "desenvolvimento" e tão pouco "consumirão", e não serão mais atendidas por nenhum decadente burocrata do espetáculo – serviço de impostos internos, serviços de saúde, policial e militar, imposto de renda, previdência, comunicações e educação. Estas áreas (econômicas, sociais e geográficas) deixarão de existir para qualquer propósito prático de controle. As classes consumidoras abandonarão estas áreas e se mudarão para "qualquer outro lugar", social ou geograficamente ou ainda ambos simultaneamente.

Após sermos seduzidos pela mercadoria, seremos abandonados por ela – ou mais que isso, “eles” serão abandonados, em primeiro lugar os outros alienados que nunca tomaram parte dela. Entretanto, curiosamente estes “eles” gradualmente serão mais e mais indivíduos e grupos que agora pensam por si mesmos como “nós” – os herdeiros do ensolarado e fantástico mundo burguês racional que o espetáculo continua simulando e conservando – aqueles que possuem “direitos”, aqueles que estão “seguros” e destinados a “sobreviver”. Também nessas zonas a triagem será praticada. As rachaduras no monolito irão crescer, e muitos de “nós” perderemos o helicóptero de fuga. Eu poderia me mudar para Boulder ou para Portland agora, me agarrar ao meu status de aluguel, sobreviver como um palhaço registrado na margem do espetáculo – e acreditem que a tentação é suficientemente real. Essas Zonas Proibidas não vão ser muito confortáveis - não vão ser utopias - poderiam inclusive acabar deprimentemente como os micro-estados fascistas ressurgentes da Europa Oriental no despertar de 1989. Quem se voluntaria em viver na Bósnia (ou ao sul de Los Angeles) só porque a desordem e a violência podem gerar "liberdades selvagens", assim como também pânico total e verdadeiro horror? Para o espetácul-simul-capitalismo por si mesmo, o próximo passo (talvez final?) consistirá no Império da pura Velocidade – o instantâneo da tecnologia das comunicações elevado ao status de ser transcendente (onisciente, onipresente, onipotente): - uma classe de Tecno-gnose na qual o corpo (a terra, a produção) “transcenderá” sob o signo de um espírito puro (a "informação" ). Isto revelará a falsa transcendência terminal ou totalidade da mercadoria: o desdobramento do final do desejo, a absoluta flutuação do significado – a linguagem como prisão gnóstica, e a morte como a última barganha turística. A “linhas” desta estrutura já foram tensionadas, e um mapa destas linhas se auto-transforma em um mapa do futuro, ou pelo menos da “história” futura. Se estudarmos este mapa embriogênico ou ontogênico, poderemos ver claramente que o “Sul” tem sido apagado do desenho, por um ato de cartomancia imperialista que nega o significado às mesmas áreas a qual foram recusadas o “aceso” às ligações comunitárias. O Sul não entrará no paraíso da informação - a informação é gelo glacial e cristalino, enquanto o Sul é o reino do fogo e do ruído.

Efetivamente o “Sul” é (ou será) o corpo, o domínio de tudo o que não é puro espírito e informação, tudo que for denso e mortal, - o reino da agricultura e da indústria – os últimos vestígios obscuros do neolítico – da produção (este rude obstáculo demiúrgico para a livre mutagenese dos significados e a livre troca de emblemas e imagens – de pura informação). O Sul “nos” vai nos prover de microchips e "suprimentos verdes?", assim todos nós poderemos nos esconder em realidades virtuais e descarregar [download] nossas consciências (que alívio) no software. Pode ser que a economia da informação já tenha começado a cortar suas amarras da economia material - não existe nenhuma evidência de que certos tipos de "moeda" conservem algum tipo de ligação - mesmo uma ligação simbólica - com a atual riqueza social. Este é dinheiro "virtual No contexto do especta-simulo-capital este dinheiro é hiperreal, e ao parecer mais poderoso que o dinheiro meramente real e ainda atado ao “principio material corpóreo”. Neste cenário poderemos finalmente “deixar nossos serviçais viverem por nós?" enquanto nós seguimos e nos sublevamos para algo melhor. A máquina não é nossa serva, como alguns autores de ficção científica da velha guarda acreditavam, ela é nosso simbionte. Nosso servo é o Sul.

Então parte do Norte desaparecerá no Ciberespaço, deixando a outra parte deserta e despojada, zonas proibidas, rachaduras no monolito. E o que poderia ser mais natural que isto: - que o Sul penetrando no Norte como micélios em um pedaço de pão? Os buracos e os nichos no Norte vão se tornar mais "Sul", mais Africanos, mais Latinos, mais Asiáticos, mais Islâmicos. (P.K. Dick?, um verdadeiro visionário gnóstico parece particularmente profético neste ponto.)

Agora a pergunta crucial: É possível imaginar às Zonas Proibidas desempenhando uma função libertária? (de alguma forma que não seja o retorno à guerra primitiva, interessante talvez para alguns vikings Nietzschanos?) – isto é, pode a Zona Proibida interpretar um papel necessário para a emergência da Zona Autônoma Temporária? ou mesmo da Zona Autônoma Permanente?? Será que a Zona Proibida representa - de alguma maneira estranha e paradoxal - o renascimento da possibilidade do social?

Esqueça a autonomia política – nem a República do Bronx Sul ou o Estado Livre do de Wisconsin Ocidental — nem Enclaves Libertários ou zonas anarquistas libertas, nem ecotopia, nem Nova África, etc, etc. O espetáculo (até seu último suspiro) destruirá implacavelmente qualquer um que ameace o monopólio da autoridade espetacular. A TAZ, a sociedade clandestina tempo-espacial do festival, proporciona um modelo bem mais realista para a Zona Proibida que o modelo do micro-nacionalismo. O importante é não levantar estampas ou alçar bandeiras - imagens de liberdade (liberdade como mercadoria) - mas a realidade da liberdade ao nível do cotidiano. Podemos dispensar o emblematismo do poder em nome da possibilidade do poder em nossos destinos (ou pelo menos por um fracasso não mediado!).

O sine qua non da Zona Proibida como um possível lugar para a libertação consiste na implementação de uma economia adequada para esta função; e a implementação de tal economia depende (pelo menos em parte) de uma idéia do social. Até o momento nenhuma destas etapas foram alcançadas, não mais que um mero perfil preliminar - então aqui mudamos o tom deste texto da previsão para a prescrição. Tratemos de imaginar o que poderíamos fazer – agora mesmo - para transformar as Zonas Proibidas em Zonas Autônomas, e defender nossa liberdade mesmo no “inferno”, mesmo do “Senhor das Moscas¹?”.

Será possível imaginar uma economia para as Zonas Proibidas que se relacionasse de algum modo (de incontáveis e complexas maneiras) com a economia do Sul – na qual está já começando a aparecer em regiões marginais do Norte onde o controle começa a cambalear? Não estou totalmente seguro do que isto irá significar, mas me imagino que em um avançado estado de bricolage sem fronteiras, não só de objetos, mas também de sistemas inteiros e fragmentos de sistemas. Imagino um sistema alternativo de comunicações, autogestionado e não-hierárquico - que chamarei de "teia" para além de uma simples "rede" - a qual deve fazer uso de algumas idéias "cyberpunks", mas só as pobres e toscas. Não só vejo "trabalho negro" (lavoro nero¹¹ uma sutil arte italiana) também "serviço negro", "produção negra", e "intercâmbio negro" utilizado em tecnologias "alternativas (não somente no PC). Suspeito que teremos uma tecnologia mais humana que "verde", mais interessada na agricultura ou na permacultura e em técnicas rústicas ad-hocismo¹² que nos terrenos selvagens da ecologia profunda. O aspecto verde de nossa tecnologia surgirá sem nenhuma predileção sentimental, mas de uma inescapável lógica econômica, a "louca" lógica do bricolage e da "pobre" lógica da reciclagem. Estas idéias não são especificamente utópicas no máximo sentido do termo, no entanto podemos aceitá-las como adequadas ao conceito de “mínimo utópico¹³" – e por essa razão, estas formas de tecnologia implicarão em pelo menos algumas satisfações – que não se parece em nada com um modelo de economia mercantil (baseada como é no excedente da imagem como máscara da escassez dos bens). Observa-se que a economia não aderirá a nenhum modelo vigente, tão pouco ao humanismo empresarial dos ultra-liberais nem ao estratagema do "Associativismo" do Socialismo, mas tecerá uma mescla de tudo aquilo que funciona dentro de um marco orgânico e anti-autoritário. A Zona Proibida deve ser autogestionada em modelos não-hierárquicos, senão, caíra presa do facismo criminal ou da pura entropia; nenhuma outra possibilidade parece muito provável, ou pelo menos palatável! Nós estamos procurando um vácuo de controle - se não preenchermos as Zona Proibida de caos positivo, ela se encherá com caos negativo. Essa linha de pensamento prediz que a Zona Proibida se desenvolverá em pelo menos uma forma “política” - a “milícia popular” - a qual pode também facilmente se confundir com (ou se tornar) um comité de vigilancia. Só uma economia que resista à hierarquização, não através de uma convicção ideológica mas sim através do compartilhamento da “vontade de poder”, pode garantir que a milícia popular não se converterá em uma elite secreta. Uma tarefa vital no presente: - imaginar e começar a construir condições para uma economia igualitária imediatamente, nas áreas pré-zonas proibidas que possam desde já servir para esta função - i.e. providenciando "boas coisas" ( conforme o IWW¹? as chama); e preparando a semente para o novo social dentro da casca (rota) do velho, parafraseando o manifesto Wobbly¹?. Em todo caso, o “sindicalismo” tem futuro somente nas zonas proibidas, onde a produção será realmente capitalizada diretamente através do trabalho e da acumulação simples, em parte, entre as ruínas dos primórdios da era industrial – Bayonne, New jersey, Detroit, Michigan, etc. – onde quer que que as zonas proibidas primeiro floresçam, florescerá também toda sua horrível feiúra. A mesma verdade mantida para todas as formas de radicalismos agrários - isso é, nenhum futuro exceto nas Zonas Proibidas; - tudo isso, no entanto, não como um museu do social, mas como uma viva e mutante práxis (deriva) situacional ou uma forma de bricolage nômade de modelos sociais - as experiências da vida real baseadas em necessidades extremas e na obsessiva paixão pela liberdade. Ninguém arriscará a vida de boa gana por mera ideologia na zona proibida - mas a utilidade de certos modelos utópicos pode ser testada.

No entanto, ao falar destes modelos me suscita a questão da idéia do social, a qual é (certamente uma forma muito falha de categorização) política ou "religiosa". Assumiremos que a zona proibida tenha sido abandonada por - ou mesmo abandonou - o político. Será que a idéia apropriada do social para a zona proibida seja de natureza "religiosa"? Trago isso por duas razões: (1) a religião não desapareceu como previa o racionalismo, e (2) a religião provou ser um recurso poderoso de coesão social, por exemplo, na história das comunidades intencionais - mais poderosa que a ideologia política ou o planejamento utópico. Minha hipótese é de que a possibilidade e a realidade de um não-autoritarismo, autonomia, autogestão, e os aspectos não-hierárquicos da enorme complexidade que engloba a palavra "Religião" - xamanismo, por exemplo, ou as múltiplos e infinitamente expansíveis formas de "paganismo", na qual nenhuma cultura pode tomar para si o monopólio da interpretação, ou mesmo a hegemonia. Não estou dizendo que a Zona Proibida deva ser "religiosa", estou dizendo que será "religiosa" e é "religiosa" - e se acreditarmos no desejo por algum potencial libertário na zona proibida, nós devemos começar agora a buscarmos uma linguagem "religiosa" que possa refletir e nos ajudar a dar forma e realizar este potencial - caso contrário nos depararemos com uma "religião do fascismo" (fundamentalistas xtianos dominando as zonas proibidas) ou ainda com uma espiritualidade da entropia. Uma boa razão, por exemplo, para saquear na história do protestantismo os modelos radicais (Ranters¹?, Diggers¹?, Antinomianos¹?, etc.) seria para ressuscitá-los e não simplesmente para se disfarçar. A terra e as formas corporais da espiritualidade (xamânicas, neo-pagãs, afro-americanas, etc) - imanentes mais que transcendentes - enfatizando um existencialismo dos feitos e não uma fé, um eticalismo e não um moralismo - tolerância radical a todos os cultos (do modelo "pagão") - descrença aos modelos maniqueístas bem como aos modelos monistas-totalitaristas - místico mas não ascético - festivo mas não sacrificante. Estes poderiam ser algunsa dos modelos propostos para nossa forma de espiritualidade. Certamente nenhum dos meios estabelecidos de propagar uma religião serão apropriados aqui. Agora o que precisamos exatamente é re-imaginar a "Economia do Dom", então nós também precisamos reinventar (ou mesmo fabricar) uma "espiritualidade da liberdade" relevante para o nosso futuro como habitantes da zona proibida – uma espiritualidade da vida cotidiana em todos os seus sentidos.

Penso em certos tipos antigos de pinturas européias que sempre me fascinaram quando eu garoto, que representavam camponeses gritando e vivendo nas ruinas de algum desvanecido império, normalmente romano. As imagens tinham um apelo Bachelardiano¹?, e uma certa aura de sonho e magia comum a certos tipos de "lugares", e determinados tipos de "espaço". Gosto do senso de abandono ontológica ao paradoxo das ruínas abandonas trazidas a vida por boêmios "abandonados", preguiçosos, violinistas breughelianos²?, e dançarinos - o contraste dos restos pesados de triunfalismo desaparecido com a luz e o brilho de nômades. Posso muito bem estar romantizando as zonas proibidas como uma possível e utópico lugar ou topos - mas outra vez, posso estar inclinado a defender a utilização do romantismo: - como golpes de desespero. Independente dos nossos temores e romantismos, as zonas proibidas estão a caminho.

Notas
1. N. do T. Tábua Ouija é o nome dado a qualquer superfície plana com letras, números ou outros símbolos em que se coloca um indicador móvel, utilizada supostamente para comunicação com espíritos em busca de revelações do passado e do presente, e previsões sobre o futuro.

2. N. do T. National Enquirer é um tablóide mercadológico estadunidense que tem como linha editorial notícias sobre crimes, curiosidades e o cotidiano dos famosos, geralmente expondo aspectos bizarros de suas vidas, visando ao lucro fácil através do sensacionalismo.

3. N. do T. A palavra russa troika quer dizer três ou uma associação de três elementos de algum tipo. O termo ganhou notoriedade na União Soviética durante o período stalinista quando as troikas substituíram o sistema legal até então vigente levando a perseguição rápida de dissidentes ou qualquer um acusado de crimes políticos. Rapidamente o sistema das troikas permitiu uma caça as bruxas, atemorizando toda nação soviete.

4. N. do T. Mike Davis, nascido em 1946, é um pensador social americano, teórico do urbanismo, historiador e ativista político que se tornou conhecido a partir de suas investigações sobre poder e classes sociais em seu estado de nascença a California do Sul.

5. N. do T. Um referência à ficção científica "No ano de 2020" (Soylent Green), de 1973. Num futuro distópico onde o crescimento populacional chegou a níveis absurdos e o solo e a água estão contaminados, uma população gigantesca se alimenta de suprimentos supostamente produzidos com plankton por uma única corporação, a Soylent Company. As investigações do assassinato de um milionário leva um detetive a descobrir a origem da matéria prima da qual é feita os suprimentos, corpos humanos.

6. N. do A. e do T. Trecho retirado dos Cantos de Maldoror (Les Chants de Maldoror), literatura poética da metade do século XIX, no entanto publicada bem mais tarde, de autoria do Conde de Lautréamont, pseudônimo de Isidore Ducasse, poeta franco-uruguaio. Uma das obras seminais da literatura fantástica, apresenta um universo bizarro de difícil classificação.

7. N. do T. Philip Kindred Dick, também conhecido pelas iniciais PKD, grande escritor de ficção científica norte-americano, e um dos maiores expoentes da literatura cyberpunk. Apesar de ter tido pouco reconhecimento em vida, a adaptação de vários de seus romances para o cinema acabou por tornar a sua obra conhecida de um vasto público.

8. N. do T. TAZ é provavelmente o texto mais famoso escrito por Hakim Bey onde o autor lança mão de boa parte de sua teoria da ação transformadora através das Zonas Autônomas, que diante da presença do poder e da possibilidade da repressão assumiriam o caráter temporário como estratégia de propagação de um modo de vida anarquista ontológico sempre buscando uma transformação rizomática a nível global.

9. N. do T. ZAP é outro texto de Hakim Bey, mais uma de suas contribuições rumo ao grande êxodo contra o sistema.

10. N. do T. "Senhor das Moscas" é a obra de é um livro escrito por William Golding, e publicado em 1954. O título faz referência a Belzebu, uma das denominações do demônio bíblico. O livro retrata a regressão à selvageria de um grupo de crianças inglesas de um colégio interno, presos em uma ilha deserta sem a supervisão de adultos, após a queda do avião que as transportava para longe da guerra.

11. N. do T. Lavoro Nero. Do italiano, quer dizer "trabalho negro" e é empregado aqui para definir as muitas formas de trabalho sujo, pesado e mal remunerado geralmente efetuadas por imigrantes ilegais.

12. N. do T. A expressão latina ad hoc significa literalmente para isto, por exemplo, um instrumento ad hoc é uma ferramenta elaborada especificamente para uma determinada ocasião ou situação ("cada caso é um caso"). Num senso amplo, poder-se-ia traduzir ad hoc como específico ou especificamente.

13. N. do A. O conceito de "Mínimo Utópico" proposto por Charles Fourier trata de um marcador objetivado baseado nas quantidades de comida e sexo desfrutadas por um aristocrata mediano do século XVIII; Buckminster Buller propôs o termo “mínimo nú” como um conceito similar.

14. N. do T. IWW é a sigla para Industrial Workes Of The World (Trabalhadores Industriais do Mundo) trata-se de uma organização internacional de trabalhadores do início do século XX que chegou a possuir mais de 300.000 membros ao redor do globo, que pregava a união da classe trabalhadora, militando ativamente pelo estabelecimento do pro-labore em detrimento do sistema salarial.

15. N. do T. Manifesto da IWW através do qual esta organização apresentou seus objetivos e princípios.

16. N. do T. Ranters (literalmente Faladores), era a denominação dada a uma seita inglesa do século XVII, considerada radical e herética por pregar a idéia de que Deus está essencialmente em todas as criaturas. Crença que levou seus membros a negar a autoridade da igreja, das escrituras, do clero e seus serviços, conclamando a todos a ouvirem seu "Jesus interior".

17. N. do T. Diggers (literalmente Escavadores), foi um movimento de trabalhadores rurais pobres, liderado por Gerrard Winstanley entre os anos de 1649 e 1650 na Inglaterra, que pretendia substituir a ordem feudal recentemente derrotada na Guerra civil inglesa por uma sociedade igualitária, agrária e cristã anticlerical.

18. N. do T. Os seguidores do Antinomianismo acreditam na idéia de que um grupo religioso em particular não possui qualquer obrigação de obediência com relação as leis éticas ou morais definidas por autoridades religiosas. O Antinomianismo é o completo oposto do legalismo, a noção que obediência a um código de leis religiosas é necessário para a salvação. Existiram diversos movimentos antinomianos antes e depois da era cristã.

19. N. do T. Relativo a Gaston Bachelard, filósofo e poeta francês que estudou sucessivamente as ciências e a filosofia durante a segunda metade do século XIX, e as primeiras décadas do XX. Seu pensamento voltou-se principalmente para questões referentes à filosofia da ciência.

20. N. do T. Referência ao Pintor holandês Pieter Brueghel, o velho, que no século XIV pintou uma série de quadros sobre a vida cotidiana em seu país de origem.
Fonte: http://www.deriva.com.br

"Idéias em Revista" do Sisejufe-RJ, nos 100 anos da Revolta da Chibata, homenageia João Cândido - por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

"Grande" imprensa assume voz da tortura e da ditadura - Editorial da Carta Maior

"Grande" imprensa assume voz da tortura e da ditadura - Editorial da Carta Maior
Ao dar legitimidade a relatos de torturadores e assassinos a chamada “grande imprensa” está assinando definitivamente seu atestado de óbito como instituição democrática. O problema é mais grave do que simplesmente alimentar um terceiro turno de uma eleição que já foi decidida pela vontade soberana do povo. O mais grave é tomar a voz da morte, da violência e do arbítrio como sua! Tomar a voz do torturador como sua e vendê-la à sociedade como se fosse uma informação útil à democracia e ao interesse público. O que seria útil à democracia e ao interesse público neste caso seria publicar o arquivo secreto do comportamento vergonhoso dessa imprensa durante a ditadura.

A chamada “grande imprensa” brasileira envergonha e enfraquece a nossa jovem democracia. O uso da palavra “grande”, neste caso, revela-se cada vez mais inapropriado. Não é grande no sentido da grandeza moral que uma instituição pode ter, posto que enveredou para o domínio da mesquinharia, da manipulação e da ocultação de seus reais interesses. E não é grande também no sentido quantitativo da palavra, uma vez que vem perdendo leitores e público a cada ano que passa. Mais do que isso, vem perdendo credibilidade e aí reside justamente uma das principais ameaças à ideia de democracia e de República. As empresas que representam esse setor se autonomearam porta vozes do interesse público quando o que fazem, na verdade, é defender seus interesses econômicos e os interesses políticos de seus aliados.

Falta de transparência, manipulação da informação e ocultação da verdade constituem o tripé editorial que anima as pautas e as colunas de seus porta vozes de plantão. O repentino e seletivo interesse dessas empresas por uma parte da história do Brasil no período da ditadura militar (que elas apoiaram entusiasticamente, aliás) fornece mais um prova disso. Os seus veículos estão interessados em uma parte apenas da história, como de hábito. Uma parte bem pequena. Mas bem pequena mesmo. Só aquela relacionada ao período em que a presidente eleita Dilma Rousseff esteve presa nos porões do regime militar, onde foi barbaramente torturada. O interesse é denunciar o que a presidente eleita sofreu e pedir a responsabilização dos responsáveis? Não seria esse o interesse legítimo de uma imprensa comprometida, de fato, com a ditadura? É razoável, para dizer o mínimo, pensar assim. Mas não é nada disso que interessa à “grande” imprensa.

O objetivo declarado é um só: torturar Dilma Rousseff mais uma vez. Remover o lixo que eles mesmo produziram com seu apoio vergonhoso à ditadura e tentar, de algum modo, atingir a imagem de uma mulher que teve a coragem e a grandeza de oferecer à própria vida em uma luta absolutamente desigual contra a truculência armada e o fascismo político. O compromisso com o resgate da memória do país é zero. Talvez seja negativo. Se fosse verdadeiro e honesto tal compromisso as informações dos arquivos da ditadura contra Dilma e outros brasileiros e brasileiras que usufruíram do legítimo direito da resistência contra uma ditadura não seriam publicadas do modo que estão sendo, como sendo um relato realista do que aconteceu. Esse relato, nunca é demais lembrar, foi escrito pelas mesmas mãos que torturavam, aplicavam choques, colocavam no pau de arara, violentavam e assassinavam jovens cujo crime era resistir a sua perversidade assassina e mórbida.

Ao tomar esses relatos como seus e dar-lhes legitimidade a chamada “grande imprensa” está assinando definitivamente seu atestado de óbito como instituição democrática. O problema é mais grave do que simplesmente alimentar um terceiro turno de uma eleição que já foi decidida pela vontade soberana do povo. O mais grave é tomar a voz da morte, da violência e do arbítrio como sua! Tomar a voz do torturador como sua e vendê-la à sociedade como se fosse uma informação útil à democracia e ao interesse público.

O que seria útil à democracia e ao interesse público neste caso seria publicar o arquivo secreto do comportamento dessa imprensa durante a ditadura. É verdade que a Folha de S.Paulo emprestou carros para transportar presos que estavam sendo ou seriam torturados? Se esse jornal está, de fato, interessado em reconstruir a história recente do Brasil por que não publica os arquivos sobre esse episódio? Por que não publica o balanço de quanto dinheiro ganhou com publicidade e outros benefícios durante os governos militares? Por que o jornal O Globo não publica os arquivos secretos das reuniões (inúmeras) do sr. Roberto Marinho com os generais que pisotearam a Constituição brasileira e depuseram um presidente eleito pelo voto popular?

Obviamente, nenhuma dessas perguntas será motivo de pauta. E a razão é muito simples: essas empresas e seus veículos não estão preocupadas com a verdade ou com a memória. Mais do que isso, a verdade e a memória são obstáculos para seus negócios. Por essa razão, precisam sequestrar a verdade e a memória e apresentar-se, ao mesmo tempo, como seus libertadores. É uma história bem conhecida em praticamente toda a América Latina, onde a imensa maioria dos meios de comunicação desempenhou um papel vergonhoso, aliando-se sistematicamente a ditaduras e a oligarquias decrépitas e sufocando o florescimento da democracia e da justiça social no continente.

Um episódio ocorrido dia 15 de novembro em Florianópolis ilustra bem a natureza e o caráter dessa imprensa. O comentarista da RBS TV, Luiz Carlos Prates, fez um inflamado discurso sobre os acidentes no trânsito dizendo que a culpa é “deste governo espúrio que permitiu que qualquer miserável tivesse um carro”. O governo espúrio em questão é o governo Lula que, por três vezes agora, foi consagrado nas urnas. O que o comentarista da RBS está dizendo, na verdade, resume bem o que a chamada grande imprensa pensa: é espúrio um governo que permita que qualquer miserável tenha um carro; é espúrio um governo que permita que qualquer miserável vote; é espúrio um governo que ousa apontar para um caminho diferente daquele que defendemos.

Durante a campanha eleitoral, essa mesma imprensa, ao mesmo tempo em que acusava o governo e sua candidata de “ameaçar a liberdade de imprensa”, demitia colunistas por crime de opinião, ingressava na justiça para tirar sites do ar e omitia-se vergonhosamente quando o seu candidato e seus aliados censuravam pesquisas, revistas e blogs. Houve alguma censura por parte do governo? Nenhuma, zero. Apenas uma crítica feita pelo presidente da República à cobertura sobre as eleições. Um crime inafiançável.

Não há mais nenhuma razão para palavras mediadas, expectativas ambíguas e estratégias de comunicação esquizofrênicas. Essas mesmas empresas que não se cansam de pisotear a democracia, desrespeitar a verdade e desprezar o povo não se cansam também de sugar milhões de reais todos os anos em publicidade dos governos que acusam de ameaçar sua liberdade. Cinismo, hipocrisia, mentira e autoritarismo: essas são as mãos que embalam o berço dessas corporações que entravam a democracia e a justiça social no Brasil.
Fonte: Carta Maior

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Youth Of Today em São Paulo dia 05/12/2010


Jello Biafra and the Guantanamo School of Medicine - por Eduardo Abreu

Jello Biafra and the Guantanamo School of Medicine A história de Jello Biafra se confunde com a própria história da música punk e dos princípios do faça você mesmo. Esta semana a América do Sul recebe sua visita pela segunda vez. A turnê passa por Chile, Argentina e no Brasil estão confirmadas duas apresentações em São Paulo além de Brasília e Rio de Janeiro.

JELLO BIAFRA & TGSOM
Por Eduardo Abreu
Fotos Elizabeth Sloan

Após mais de três décadas em que o punk resgatou a simplicidade do rock’n’roll, reinventou a rebeldia e subdividiu-se em diversas correntes, poucos são os protagonistas originais que permanecem relevantes.

Jello Biafra, 52 anos de idade, é o maior deles. Inteligente, ácido, politizado. Liderou uma das mais influentes bandas do gênero, fundou um selo que lançou mais de 400 álbuns, proferiu palestras, militou na política, gravou discos de “spoken word” e assinou discos com gente do naipe de Al Jourgensen, D.O.A., Nomeansno, The Melvins e até o country freak Mojo Nixon.

A integridade de Jello e sua obra de alto impacto dão um significado adulto ao que se denomina punk. A capacidade de se reinventar, sendo o cronista ácido de sempre, esmaece o revisionismo dos punks da primeira geração e passa a limpo a apropriação indébita do termo pelos oportunistas de hoje.

Após 18 anos, Jello Biafra volta ao Brasil. A primeira visita deu-se por conta do lançamento do livro Barulho, de André Barcinski, e rendeu duas performances tão rápidas quanto históricas. A primeira em São Paulo, no extinto Aeroanta, ao lado de RDP e Sepultura. A segunda no Rio, onde realizou uma jam com o power combo francês Mano Negra, liderado pelo futuro trovador global Manu Chao.

Nesse fim de semana, Jello desembarca por aqui com sua primeira banda fixa desde o fim dos Dead Kennedys – no já longíquo ano de 1986. A Guantanamo School of Medicine é uma banda de alto calibre e com a qual o vocalista gravou o exuberante e poderoso The Audicity of Hype.

Dentro do devido contexto, os shows que nos aguardam têm a carga de importância para serem lembrados por muitos anos.

A Rock Press, por intermédio da Highlight Sounds e Alternative Tentacles, conversou com exclusividade com Jello Biafra alguns dias antes de sua viagem para o Brasil.

De sua casa, em San Francisco, Biafra conversou com nossa reportagem por aproximadamente 40 minutos. A qualidade da ligação oscilou entre o ruim e o péssimo, ainda que, com a boa vontade de Jello, tenhamos feito nada menos que três telefonemas para tentar sanar o problema.

O que você lê a seguir é a transcrição da espinha dorsal dessa conversa com um artista e pensador que possui, de fato, o dom da palavra.

Mas nossa equipe já está providenciando uma correção digital no áudio original da entrevista para que possamos, em breve, publicar o papo na íntegra e com a transcrição ipsis litteris como exige, e merece, o entrevistado.
Alô, Jello?
Sim.

Você me ouve bem?
Ouço, sim. Você está gravando?

Estou. À moda antiga, com mini-cassette.
Ah!

Para começar, eu queria saber o que te motivou a começar uma nova banda neste momento da sua vida. Há muito tempo as pessoas esperavam por isso, que você estivesse na estrada com música nova e uma banda fixa.
Acho que o melhor jeito de responder essa pergunta é através do material de imprensa que enviamos e que tem um longa explicação sobre isso…

Eu li, podemos citar a resposta de lá, mas, na verdade, gostaria de saber o que se passava no seu coração quando decidiu montar uma nova banda.
Tudo bem. Eu sempre quis começar uma nova banda depois de tantos projetos, spokens words, atividades políticas. E, na verdade, isso só aumentou após o episódio horrível com os ex-integrantes do Dead Kennedys.

Li certa vez que você não toca nenhum instrumento e que “canta” os riffs de guitarra e outros arranjos e depois os mostra para que os músicos reproduzam suas idéias. É assim mesmo? Já houve alguma ocasião em que foi difícil fazer a transição do que estava em sua cabeça?
Na verdade, eu não gravo para mostrar depois. Eu faço isso junto com os músicos. E sempre há ocasiões em que adaptamos de acordo com o que vai sendo feito. Às vezes criamos uma parte da música com esse método e a outra parte compomos separadamente. Com o Guantanamo, especialmente, há muitas idéias que vieram do resto da banda. Mas fizemos muito isso com o Lard em The Power of Lard, 70’s Rock Must Die. O Al chegava com uma nova parte e acabávamos misturando com a ideia original. E algumas coisas que não se encaixavam, ele acabava eventualmente usando no Ministry e no Revolting Cocks. Acho que o Mike Patton também usa esse processo. Imagine fazer isso com o Fantômas…

Você citou o 70’s Rock Must Die e a faixa-título desse EP confundiu algumas pessoas. A paródia que vocês fizeram com o rock dos anos 70 é tão bem grudenta que, no fim das contas, não dá pra saber se é uma homenagem ou, como se imagina, uma tiração de sarro. Como o público reagiu?
Não era uma homenagem, claro, mas foi idéia do Al Jourgensen que eu cantasse num tom mais alto, aquele “aahh” (canta). E algumas pessoas disseram: “O que aconteceu com você? Está cantando como o Led Zeppelin?! Qual é o problema?!”. Elas não sacaram.

Como se fosse sua imitação de Robert Plant…
Hahaha!

Você esteve no Brasil há 18 anos. O que espera reencontrar por aqui, especialmente agora, após esses 8 anos da administração Lula?
Não sei se será possível para mim notar a diferença, pois faz muito tempo que estive aí. As lembranças já não são tão nítidas assim. Em turnê você acaba vendo prédios, avenidas, como foi em São Paulo.

Você tem alguma observação sobre o crescimento da esquerda na América do Sul?
Tudo que eu sei é que parece estar melhor do que estava antes. A expectativa pelo trabalho do Lula foi mais ou menos o que aconteceu com o Obama. Não vou dizer que sei tanto assim sobre os resultados, porque estou distante do dia-a-dia, mas vejo que o Brasil se alinhou comercialmente com um grupo de países, como China, Índia e outros. E agora pode tomar certas decisões por si mesmo sem tanta interferência da OMC. Dane-se isso! E eu gosto dessa postura.

Ouvi dizer que quando você esteve aqui em 1992, não estava imaginando que iria ter que se apresentar ao vivo. Estive presente e me recordo de ver Paul Barker, baixista do Lard e Ministry, vendo o show encostado no amplificador. Mas você cantou 3 músicas. O que, de fato, aconteceu?
O autor de um livro, que veio aos EUA e entrevistou o Ministry e o Cramps, me convidou para ir ao Brasil no lançamento para autografar alguns exemplares. E que me levaria na Amazônia e outras coisas mais. Mas não foi nada disso que aconteceu e…

…e você foi pego de surpresa descobrindo que todos estavam esperando que você se apresentasse?
Totalmente! Mas ainda acabei indo ao Rio de Janeiro, pois justamente naquela época estava acontecendo aquele evento ambiental, Rio Summit, não se como se chama no Brasil…

Foi a ECO92.
Certo, ECO92. E lá estavam todas aquelas autoridades importantes. Achei que eu deveria participar. Me lembro que voei no mesmo avião de vários deles. As coisas que ouvi na época, sobre as corporações pegarem o gene de um animal e usarem para que o quisessem me levou a escrever “Biotech is Godzilla” que o Sepultura acabou gravando.

E você teve também a oportunidade de fazer uma jam com o Mano Negra. Eles incluíram isso em um DVD duplo chamado “Out of Time”, você chegou a ver?
Não tenho DVD, só videocassete. Nos EUA temos essa questão de região e não dá para ver os DVDs europeus e de outros lugares. Então, nunca vi.

Como dono de uma das gravadores mais conhecidas no meio independente, como você vê a ascensão da música digital? Você acredita que o formato físico do disco vai desaparecer mesmo em alguns anos?
Acho que o disco nunca vai acabar. Muita gente gosta de ter um disco original, de manuseá-lo. Até mesmo o vinil nos EUA está vendendo mais agora do que há alguns anos. Já perdi muito dinheiro com a Alternative Tentacles. Mas veja quantos álbuns já lançamos. Não vou desistir de um sonho agora, depois de tudo.

Eu fiz uma pergunta a Ian MacKaye em 1994 e que gostaria de atualizar para você. Qual a sua opinião sobre o que alguns de seus contemporâneos do punk estão fazendo hoje, como Shawn Stern, Henry Rollins, Joey Shithead e o próprio Ian MacKaye?
Não sei se posso responder essa pergunta. A melhor forma de falar sobre isso seria encontrando alguns deles e falando olho no olho o que eu penso. Porque punk pra mim sempre foi um espírito. Ter uma visão política do mundo, tentar lidar com a sociedade e mudá-la. Não é uma forma de entretenimento e muitos tentarem transformar o punk em puro entretenimento. Por isso eu acho que existem punks não só na música, mas na literatura, nas artes. O Winston Smith, que fez muitas ilustrações para o Dead Kennedys, é um dos caras mais punk que eu conheço e não é exatamente um punk no sentido tradicional, mas seu estilo de vida é.

Falando dos fundadores, uma vez, nos anos 90, vi uma foto sua na revista B-Side, ou talvez tenha sido na Option, com Bob Mould e John Lydon. Com foi conhecê-lo pessoalmente? Os Sex Pistols tiveram um grande impacto em você?
Tiveram algum impacto, sim, mas não diria que foi um grande impacto. Conhecê-lo foi meio como encontrar com a minha tia ou a minha avó (risos). Foi a única vez que o vi e não temos nada em comum. Ele não compartilha das minhas opiniões políticas e vive em um mundo totalmente diferente.

Bom, ele andou fazendo até propagandas de TV. Aliás, como você vê essa apropriação do punk pela publicidade?
Você deve saber que o processo movido contra mim pelos ex-Dead Kennedys começou pela minha recusa em liberar “Holiday in Cambodia” para um comercial da Levi’s, então dá pra imaginar o que eu penso disso. Acho que essas músicas não foram criadas para serem usadas com tal finalidade. Acho que é pura ganância. Quando vejo algumas de minhas músicas favoritas usadas na publicidade, fico mal.

Imagino então o que você sentiu ao ver “Search & Destroy”, dos Stooges, em um comercial de TV…
Fiquei mal fisicamente. Com dor no estômago e tudo. Essa música significa muito pra mim e vê-la usada naquele contexto (pela Nike) foi deprimente. Por isso que não aceitei essas condições, ao contrário dos ex-integrantes do Dead Kennedys.

E eles, após tirarem o catálogo da Alternative Tentacles e fundarem a Manifesto Records, fizeram mais alguma coisa? Ou voltaram para suas aposentadorias?
Na verdade, eles não fundaram a Manifesto. A Manifesto já existia. Pertence a uma família de Los Angeles que já lançou Tom Waits, The Wedding Present e outros. E agora eles estão com o catálogo do Dead Kennedys.

Sendo um ávido colecionador de discos, dá pra dizer quais os 5 discos da sua coleção que mais influenciaram seu gosto musical?
Hahaha! Só cinco discos? (risos)

Eu sei, é uma pergunta complicada…
Olha, eu ouvi tanta coisa e fui influenciado por tanta coisa que precisaria citar os 5 mil discos que moldaram meu gosto. Mas tenho coisas que inclusive adquiri no Brasil e de que gosto muito, como o Módulo 1000.

Sei que seu tempo é curto, então vamos ao ponto: o que o público brasileiro pode esperar do show de Jello Biafra & The Guantanamo School of Medicine? Eu li que você até pensou em tocar um pouco de cada um de seus projetos, mas que o show corria o risco de durar tres horas, como os do Grateful Dead…
Está mais pra oito horas… (risos)

Então, você desistiu de incorporar esse material? Seria sensacional…
Sim, vamos apresentar principalmente músicas do novo álbum e alguma coisa dos Dead Kennedys também. Sei que muita gente não tem paciência pra ouvir material mais recente e fica esperando só os clássicos, mas o show será basicamente com esse repertório.

Tenho certeza que o público vai gostar, “Audicity of Hype” é uma das mehores coisas que você já gravou. Jello, obrigado pela gentileza de nos atender. Nos vemos no Brasil.
Obrigado. Sim, nos vemos no Brasil.

myspace.com/jellobiafraandthegsm
Fotos do show do Hangar 110 retiradas de algum lugar da grande rede!
Fonte: http://www.portalrockpress.com.br

Por um mundo economicamente multipolar - por Emir Sader

Por um mundo economicamente multipolar - por Emir Sader
O mecanismo clássico de resolução das crises pelas potências capitalistas sempre foi o de exportá-las para a periferia.

O próprio sistema colonial e, depois, o imperialista, era uma garantia da incapacidade de resistência dos países da periferia em defender-se dessa exportação dos efeitos mais duros da crise.

A disputa de hegemonia, no inicio do capitalismo, entre as potências coloniais emergentes, foi resolvido pela maior capacidade que uma dessas potências tinha de dominar zonas estratégicas da periferia. Foi o domínio marítimo que finalmente permitiu à Inglaterra erigir-se como potência hegemônica. O que lhe permitiu, entre outras coisas, repartir parte dos benefícios da exploração colonial até mesmo com setores da própria classe operaria britânica, que se tornou associada da exploração das colônias, no fenômeno que Lênin chamou de aristocracia operária. Diminuíram as contradições dentro da Inglaterra, aumentaram de forma correlata aquelas entre a metrópole e suas colônias. Diminuíu relativamente a questão social e aumentou a questão nacional.

A crise atual é uma reiteração do mesmo mecanismo. Os EUA, enfraquecido como potência industrial, que se vale da exploração da mão-de-obra mais barata da periferia – prioritariamente da China -, estabeleceu com esta uma relação de dependência mutua, à qual estão ambos os países presos e que prejudica o resto do mundo. As moedas dos dois países, por razões distintas, mas complementares, ficam desvalorizadas, promovendo, não por elevação da produtividade e da qualidade dos produtos, mas por um mecanismo cambiário, suas mercadorias no comércio internacional.

Ainda que os EUA preguem o livre comércio como princípio geral da sua política, praticam o protecionismo e provocarão uma onda de respostas protecionistas dos outros governos. Nenhum país pode ficar passivo diante de medidas como a do governo norteamericano de inundar de dólares o mercado. Todos têm obrigação de proteger suas economias, de não ser vítimas passivas desse verdadeiro estelionato que os EUA praticam.

Mas essa política reiterada dos EUA coloca em questão – como o Brasil está denunciando – a utilização do dólar como meio de troca universal. É um país que goza do privilégio de imprimir moeda, que se vale disso não com a responsabilidade de quem trata de uma moeda que, até aqui, funciona na prática como uma moeda universal, mas com o egoísmo de submeter o mundo aos efeitos negativos da deterioração da sua economia.

Com razão, vários países propõem substituir o dólar por uma cesta de moedas, que inclua as moedas chinesa e brasileira, para diminuir os efeitos da instabilidade do dólar. Os EUA não se mostram à altura, nem pelo enfraquecimento de sua economia, nem pelas políticas egoístas de seus governos, de dispor desse privilégio.

A construção de um mundo multipolar no plano econômico se mostra possível e necessária. No auge da crise, os países do Sul do mundo, acentuando os intercâmbios entre si, saíram da crise, sem depender da demanda dos países do centro, que continuam em recessão. É chegada a hora de reequilibrar a balança de forças no mundo no plano econômico, impedindo que as potências imperiais sigam exportando os efeitos das suas crises para a periferia.

*Emir Sader é sociólogo e cientista político, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Artigo originalmente publicado pela Agência Carta Maior. Fonte: Opera Mundi

Varrição social em Blumenau - por Magali Moser

Varrição social em Blumenau
Magali Moser - Jornalista, diretamente de Blumenau-SC

A decisão da prefeitura de Blumenau de retirar as bancas de vendedores ambulantes da Rua Sete de Setembro esconde um viés marcado pela intransigência e dificuldade do governo municipal dialogar com os mais pobres. Não por acaso, a varrição social foi feita sob a escuridão da noite do feriado do dia 15 de novembro. No dia seguinte, a cidade amanhece livre do que considera “incômodo aos olhos” na área mais nobre do município.

Com o aval da polícia militar, o poder público destrói quatro barracas e a vida de quem dependia delas para a própria sobrevivência. Os argumentos oficiais usados pelo governo de que o horário escolhido para a remoção justifica-se para não alterar a rotina da cidade e de que as barracas impediam o andamento das obras do trânsito - com os corredores exclusivos de ônibus - ocultam uma decisão autoritária e truculenta, pautada por uma postura arbitrária, como se os ambulantes fossem “pessoas indesejáveis”.

É preciso reconhecer: A coexistência dos ambulantes numa das principais artérias da cidade incomoda, sobretudo porque trata-se de um comércio direcionado à população de baixa renda. O discurso moralizador que se expressa sob o pretexto de que a prefeitura, com a medida, civiliza o uso do espaço público e retira obstáculos à circulação de pedestres, ignora a vida de quem está sob as calçadas há até 30 anos e para quem o comércio informal pode ser a única forma de reinserção no mercado de trabalho.

Se eles estavam ali há tanto tempo, é porque tinham a autorização do poder público. Em vez de encaminhar uma proposta humanizada para este tipo de comércio, a prefeitura de Blumenau vai na contramão e gera desempregados sem recursos para sobrevivência. O mínimo que se esperava era um prazo maior ou a busca de outros espaços para construir uma alternativa às famílias que retiram dali o seu sustento.

O governo municipal sempre usou a mesma estratégia para lidar com os pobres no Centro. A visão de varrê-los para periferia já demonstrou ser falha ao longo da história. Ambulante não é caso de polícia, mas fruto de uma questão social. Eles não podem ser tratados como criminosos! O governo não pode agir de forma despótica e reprimir generalizadamente a atividade. Os discursos que se tem ouvido de que a decisão é necessária em nome da recorrente expressão “reurbanização do Centro” escancara o descaso pelos que dali sobrevivem, varrendo-os como se eles fossem literalmente lixo. Essa tendência anula aqueles que lutam pelo direito da população de permanecer no Centro e torná-lo um lugar mais democrático.

A ações adotadas pelo governo demonstram uma política segregacionista, com medidas como a proibição de bebida alcoólica nas praças, a proposta do toque de recolher - posteriormente travestido com o nome toque de acolher -, que recaem sempre sobre uma parcela da população já carente de acesso a oportunidades e privada de opções. Preocupante perceber que a sociedade não questiona a causa dessas situações, preferindo a indiferença. Parece estar anestesiada. Até quando o problema do próximo deixará de ser seu também?
Fonte: http://www.novae.inf.br/

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

G20 - por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

Gasto militar mantem equilíbrio do terror finaneiro nos EUA - por Osvaldo Martinez

Gasto militar mantem equilíbrio do terror finaneiro nos EUA
A estrutura do orçamento dos EUA e a lógica de sua política econômica é a de uma economia de guerra na qual o gasto militar exacerba o déficit fiscal, mas permite o funcionamento de um “equilíbrio do terror financeiro”, repassa imensos lucros ao complexo militar industrial e mantém uma chantagem global baseada na força militar. O gasto no resgate das entidades financeiras falidas na crise alcança 1,45 trilhão, enquanto que os juros devidos pela dívida pública são de 164 bilhões de dólares. Quase toda a receita do orçamento (2,38 trilhões) se consome somente pelo gasto militar mais os resgates da oligarquia financeira e uma pequena proporção por juros da dívida pública. Osvaldo Martinez (*)

Uma simples olhada no orçamento de 2010 dos Estados Unidos permite examinar a magnitude do gasto militar e o papel que este joga em conjunto com o gasto para os pacotes de resgate dos bancos e entidades financeiras quebradas.

O montante do orçamento é de 3,94 trilhões de dólares e o déficit previsto é de 1,75 trilhão, equivalente a quase 12% do PIB. (1)

O gasto militar oficial é de 739,5 bilhões de dólares, embora se forem incluídos outros gastos indiretos ou encobertos, o gasto superaria 1 trilhão de dólares.

O gasto no resgate das entidades financeiras falidas na crise, efetuado pelas administrações de Bush e Obama alcança 1,45 trilhão, enquanto que os juros devidos pela dívida pública são de 164 bilhões de dólares.

Isto significa que quase toda a receita do orçamento (2,38 trilhões) se consome somente pelo gasto militar mais os resgates da oligarquia financeira e uma pequena proporção por juros da dívida pública. Não fica praticamente nada para outros tipos de gastos.

Se considerarmos que o gasto militar ronda o trilhão de dólares e que a parte da receita orçamentária correspondente aos impostos familiares é de 1,06 trilhão, temos que quase todos os impostos pagos pelas famílias nos Estados Unidos mal dão para cobrir o enorme gasto militar.

Os Estados Unidos são o país mais endividado do mundo, embora o significado prático disto seja diferente para este país que para qualquer outro, porque se encontra endividado na moeda nacional que ele mesmo cria e faz circular.

O financiamento da enorme dívida pública federal ascendente a 14 trilhões de dólares, sem incluir dívidas dos estados e municípios é de características surrealistas.

Para o crescimento dessa dívida pública contribuíram os pacotes de resgate aos bancos, mas essa dívida é financiada por uma retorcida operação mediante a qual o governo financia seu próprio endividamento, pois o dinheiro dado como resgate aos bancos é financiado em parte tomando empréstimos aos mesmos bancos.

Por sua vez, os bancos impõem condicionalidades ao governo no manejo da dívida e como o dinheiro deve ser empregado. Depois de terem sido “resgatados” os bancos exigem cortes maciços no gasto público em serviços para a população, a privatização de infraestruturas e serviços como água, rodovias, lazer, mas não se toca no gasto militar.

E não se toca porque “War is Good for Business” (A guerra é boa para os negócios) e a mesma oligarquia que maneja o mercado financeiro obtém elevados lucros procedentes do gasto militar. E esse gasto militar - como parte do déficit público - é financiado por operações de guerra econômica que se aquecem cada vez mais e ameaçam mesclar a guerra econômica com a guerra provavelmente nuclear que os Estados Unidos incubam na complexa meada de seus interesses e contradições econômicas e geoestratégicas.

O equilíbrio do terror financeiro
A peculiar estrutura mediante a qual os Estados Unidos atuam como uma economia parasitária que financia seus déficits e seu gasto militar recebendo injeções financeiras do resto do mundo é parte da “normalidade” da ordem econômica global. Ter reservas monetárias em dólares que se reciclam para comprar bônus ou outros instrumentos do Tesouro que financiam a dívida estadunidense, e com ela a escalada militar, é considerado pelos neoliberais como uma manifestação do equilíbrio de mercados livres.

O poder midiático apresenta esta reciclagem como resultado da confiança na fortaleza econômica dos Estados Unidos porque outros países enviam para lá seus dólares para ser investidos. (2)

O real é que os estrangeiros põem seu dinheiro nos Estados Unidos não porque sejam importadores de mercadorias desse país, nem tampouco são investidores privados comprando ações ou bônus. Os maiores aplicadores de dinheiro nos Estados Unidos são os bancos centrais que não fazem outra coisa senão reciclar os dólares que seus exportadores obtiveram e por sua vez cambiaram por moedas nacionais.

Com déficits comercial e fiscal crescentes nos Estados Unidos, se produz uma inundação de dólares para o exterior, que agora são impulsionados pela baixa taxa de juros norte-americana e pela emissão alegre de papéis verdes.

Os países receptores de dólares (a China em especial) se vêem colocados diante de um dilema. Não participam nem têm influência alguma sobre decisões econômicas do governo dos Estados Unidos, que se aproveita do privilégio do dólar. Se aceitam a inundação de dólares, seja por excedentes comerciais ou pela baixa taxa de juros norte-americana ou por ambos os fatores, sofrem a pressão para a elevação da sua taxa de câmbio, a perda de competitividade comercial e o perigo de deixar aninhar perigosos capitais especulativos de curto prazo.

Para evitar essa inundação, a conduta imposta é comprar papéis de dívida emitidos pelo governo norte-americano e acumulá-los nas reservas monetárias, sofrendo o perigo de que qualquer desvalorização do dólar seja uma desvalorização de suas reservas. À China ou a outros países que acumulam grandes volumes de dólares ou de papéis da dívida norte-americana denominados em dólares, não se lhes permite comprar ativos não financeiros nos Estados Unidos. Quando a China tentou (a compra de instalações para a distribuição de combustíveis) o governo dos Estados Unidos o proibiu. Nesse caso não valem o livre fluxo de capitais, o livre comércio e a retórica habitual. Só podem comprar ativos financeiros para financiar os déficits estadunidenses.

Ao comprar os bônus do Tesouro os países entram no “equilíbrio do terror financeiro” e passam a contribuir para financiar um destino não previsto nem desejado: o gasto militar do Pentágono.

Ocorre assim para os países receptores de dólares surgidos dos déficits norte-americanos, uma dupla compreensão. São lesionados ao ver-se estruturalmente empurrados a financiar passivamente a máquina militar norte-americana por meio de um “equilíbrio do terror financeiro” baseado não em sua superioridade econômica, mas no poderio militar. E ao fazê-lo, países como a China e a Rússia estão alimentando o mesmo gasto e poderio militar que aponta armas nucleares para eles.

O maciço gasto militar tem um objetivo geoestratégico hegemônico e sua lógica última é a guerra.

Não poucas pessoas nos Estados Unidos crêem nas virtudes de estímulo econômico que uma guerra pode trazer. Recordam com nostalgia que a guerra hispano-cubano-americana, a primeira guerra da etapa imperialista, serviu em 1898 para que os Estados Unidos escapassem da crise econômica daquela década. O que foi a Segunda Guerra Mundial? Esta finalmente provocou a suficiente destruição de forças produtivas para deixar para trás a Grande Depressão e abrir caminho aos dourados anos 1950. A recessão de finais dos anos 1940 foi superada com a ajuda da guerra da Coréia.

Esta nostalgia, que incrementa o perigo de uma catastrófica guerra nuclear, ignora que aquelas guerras convencionais correspondentes à época pré-nuclear poderiam atuar como estímulos anticrises, mas a guerra atual da era nuclear perdeu essa capacidade.

As guerras com armas convencionais tinham duas virtudes como reanimadoras da economia: mediante a produção maciça de armamento convencional para atender pedidos do Estado em guerra, se gerava emprego nas cadeias produtivas de então, e também a guerra convencional acelerava a destruição de forças produtivas que a crise econômica tinha iniciado, e levava ao nível suficiente para impulsionar a recuperação sobre a base da reconstrução do pós-guerra. A destruição era a suficiente para completar e acelerar o peculiar papel da crise econômica como destruidora de riqueza para iniciar depois outra fase expansiva e não era tanta ao ponto de ameaçar a vida da espécie humana e do planeta. Era possível para o capitalismo não só sobreviver, mas utilizar a guerra como tônico estimulante para a economia.

A guerra nuclear na atual etapa não seria estimulante frente ao principal problema orgânico da crise que é o desemprego, pois agora a tecnologia sofisticada para fabricar armas utiliza muito pouca força de trabalho, mas sua capacidade destrutiva é tão formidável que o destruído não seriam fábricas, capitais financeiros ou algumas cidades, mas o planeta e a espécie humana depois do cataclismo do inverno nuclear.

A guerra atual, se é guerra convencional de desgaste como a do Iraque e do Afeganistão, não pode ser ganha pelos Estados Unidos nem é estimulante para sair da crise econômica, se é guerra nuclear que se estabelece como ameaçadora possibilidade, tampouco serviria para sair da crise porque não eliminaria o grande problema do desemprego, mas serve para fazer grandes negócios a partir do tipo de gasto público que se maneja com total opacidade e falta de critério, o gasto no qual os Bernanke, Geithner, Summers, Strauss Kahn, nada decidem: o gasto militar, o qual é capaz de reunir em si mesmo a ambição hegemônica e o super lucro do grande negócio.

Para os Estados Unidos, debilitado economicamente e com uma cultura produtiva declinante, o recurso de última instância é a ameaça constante de guerra sustentada no gasto militar crescente. Mas, a ameaça constante de guerra e o gasto militar possuem uma dinâmica diabólica que tende a realizar-se na guerra real, quando convergem a mentalidade belicista, os conflitos pela hegemonia em petróleo, gás, água etc., disfarçados de razões humanitárias ou religiosas e a crença de que na guerra nuclear pode haver vencedores.

O declínio da economia da maior potência militar apresenta fortes tensões entre um poderio militar muito superior a qualquer outro e, pela mesma razão, ambicioso de hegemonia, e uma economia em retrocesso, que exportou boa parte de sua capacidade industrial, mergulhou no parasitismo financeiro, se acomodou no consumismo do produzido por outros e perdeu a cultura produtiva que alguma vez foi relevante. Alguns assinalam que seguindo essas tendências, o país que ao terminar a Segunda Guerra Mundial dominava a economia mundial com sua capacidade produtiva, se encaminha a consumir os produtos do exterior e a exportar somente filmes, espetáculos musicais, imagens glamorosas de um consumismo insustentável e armas.

O atraso econômico frente aos ritmos de crescimento da China e não só dela, mas do chamado BRIC+3 (Indonésia, Coréia do Sul, Malásia) é também uma fonte de tensões. Ao ritmo que crescem estes países chamados emergentes, seu PIB chegará em 2020 ao que agora tem o G-7.

As tendências apontam para o retrocesso econômico dos Estados Unidos e a previsível utilização da força militar para manter a posição dominante da segunda metade do século 20.

Essas tensões se manifestam nas guerras no Iraque, Afeganistão, Paquistão, na ameaça de guerra nuclear contra o Irã e a Coréia do Norte e também nos golpes e intentos de golpes de estado na América Latina (Honduras, Venezuela, Equador, Bolívia); adicionalmente, na crescente militarização na forma de instalação de bases militares norte-americanas em escala global e na conformação de uma doutrina de guerra que inclui, entre outras coisas, a perigosa redefinição das bombas nucleares “pequenas” - podem oscilar entre a metade e até 6 vezes a capacidade da bomba de Hiroshima - como armas que fazem parte de um menu de opções cuja utilização pode em teoria, ser decidida pelo comando no teatro de operações. Significa que um general no teatro de operações dispõe de uma “caixa de ferramentas” para escolher, na qual tem disponíveis mini bombas nucleares que poderia utili zar como o faria com os blindados, a artilharia etc.

Rumo à guerra econômica?
Nas últimas semanas a economia mundial está fervilhando com as noticias sobre a guerra das divisas. Esta guerra foi preocupação central da reunião de ministros das Finanças do FMI em 23 de outubro e de novo, assim como em todas as Cúpulas do G-20 realizadas depois do início desta crise global, foram reiteradas as solenes declarações de compromisso com o “livre comércio” e a não aplicação de barreiras ao funcionamento dos mercados.

Nestas primeiras escaramuças de uma possível guerra se vêem com clareza os contendores. Por um lado, os Estados Unidos tratando de reanimar sua economia a todo custo, aproveitando-se do fato de contar com a moeda de reserva internacional que é também sua moeda nacional. Ademais, lança uma torrente de dólares para o exterior a fim de desvalorizar o dólar, melhorar sua posição competitiva e ao fazê-lo, elevar as taxas de câmbio dos demais, prejudicá-los no comércio, fazê-los reciclar os dólares comprando instrumentos da dívida norte-americana. Por outro, o restante das economias do mundo, em especial os exportadores de matérias primas do Sul, os que além do que foi dito acima, sofrem a afluência de capitais especulativos voláteis impulsionados pela baixa taxa de juros que os Estados Unidos mantêm como instrumento sem êxito para reanimar o investimento.

A transformação destas escaramuças em uma verdadeira guerra ao estilo da ocorrida nos anos da Grande Depressão dependerá da profundidade e duração que alcance a crise global. Se ela se agravar, poderá ocorrer que a guerra das divisas venha a ser o prelúdio de uma guerra comercial com a aplicação de políticas nacionais de “empobrecer o vizinho” e o desaparecimento da retórica livre-cambista e os juramentos de fé no multilateralismo.

Para todos se tornou evidente que o governo dos Estados Unidos não faz outra coisa que aplicar o nacionalismo para resolver seus problemas internos, valendo-se do privilegio do dólar e encurralando os demais. Não seria estranho que esta conduta encontrasse a reciprocidade de outros e, no contexto de longa crise agravada, poderia explodir o sistema de regras e instituições que nasceu no pós-guerra prometendo não repetir jamais uma guerra comercial.

Crise econômica e tendências políticas
A crise global tem estado mais ligada com um giro para a direita do que com um fortalecimento das forças anticapitalistas.

A relação entre crise econômica e tendências políticas foi variada no século passado. Considerando somente as maiores crises econômicas e sua tradução em resultados políticos, estas incluíram um movimento de pêndulo para a esquerda nos anos da Primeira Guerra Mundial e para a direita nos anos da Grande Depressão.

A economia russa de 1917 sofria os estragos dos anos de guerra, mas também o impacto da crise econômica européia. O triunfo da Revolução de Outubro de 1917 foi associado à crise, ainda que, obviamente, somente ela não podia gerar esse triunfo histórico anticapitalista. Muitos outros fatores interagiram com a crise econômica, mas o resultado final foi que a situação extrema a que a guerra, a autocracia czarista e a crise tinham levado a população russa, foi captada, interpretada e dirigida por uma organização política que se propunha terminar com o capitalismo e construir o socialismo.

Nos anos 1930 do século passado a Grande Depressão foi a maior crise econômica até então ocorrida, mas o que predominou associado a ela foi o fortalecimento do fascismo. Na Alemanha a combinação de indenizações pagas aos vencedores na guerra anterior, a inflação galopante, eliminada por uma condução centralizada e fortemente controlada pelo Estado fascista, a eliminação do desemprego através de grandes obras públicas e a liderança de um fanático de direita, deu como resultado o fascismo no poder e a Segunda Guerra Mundial.

Nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina houve nesses anos movimentos de esquerda e para a esquerda, mas não alcançaram vitórias estratégicas. Não existe uma determinação mecânica pelo qual o desemprego, a pobreza, a insegurança que uma crise econômica provoca, conduza o pêndulo para a esquerda.

A insegurança e inclusive o desespero que uma crise gera pode ser apropriada e conduzida para objetivos políticos pela esquerda ou pela direita, na dependência da leitura correta ou incorreta que façam as forças em disputa, das ações concretas e da capacidade da liderança.

Na crise atual não tem sido relevante até o momento a resistência aos efeitos e políticas associadas a elas, apesar do forte impacto no emprego e do custo social que alcançou.

A greve geral na Espanha em 29 de setembro e as manifestações francesas contra a política do FMI de ajuste fiscal, são noticias a acompanhar, mas simultaneamente se fortalece a direita nos Estados Unidos e na Europa, enquanto que na América Latina se desenvolve uma contra-ofensiva imperialista contra os governos da Alba.

Nos Estados Unidos o Tea Party avança no controle do Partido Republicano, e Obama sofre um forte voto de castigo, como expressão eleitoral do giro à direita de massas norte-americanas as quais estão se deslocando à direita pelo desemprego, a extensão da pobreza e a perda da habitação.

O Tea Party é um perigoso conglomerado em que se misturam a ignorância, e o primitivismo político com a intolerância, os preconceitos e a crença cega em ser o povo eleito para conduzir o mundo.

Sua ideologia é uma mixórdia fascistóide que inclui unir a Igreja e o Estado, eliminar os subsídios para o desemprego, expulsar os imigrantes, eliminar as ajudas para pessoas deficientes, considerar que a masturbação é equivalente ao adultério e, claro, reduzir os impostos, desmantelar o “grande governo” e destruir pela força a conspiração islâmico-russo-chinesa que obstaculiza o domínio mundial.

A Europa mostra tendências em similar direção. É de registrar que na Alemanha um partido racista e xenófobo poderia alcançar 15% dos votos. Na Itália a Liga Norte possui força. Na Holanda e na Suécia apesar de suas tradições de tolerância, partidos racistas têm chegado ao parlamento. Na França foram expulsos milhares de ciganos para a Romênia e a Bulgária, países membros da União Européia.

O movimento por um outro mundo, do Foro Social Mundial, perdeu força e se encontra atravessado por pugnas entre ONG’s de países do Norte financiadas por interesses políticos nada interessados em conquistar um mundo melhor, e movimentos sociais com posições de luta anticapitalista, em especial na América Latina.

A luta na França e na Espanha contra o ajuste fiscal neoliberal na época do neoliberalismo desprestigiado, pode marcar o início de um movimento de ascensão na resistência popular.

Parece mediar certo período entre a eclosão da crise e o aparecimento da mobilização social frente a elas, como se fosse necessário que o desemprego, a insegurança e a desesperança se aprofundassem suficientemente para lançar as pessoas ao protesto e à mobilização social. Assim ocorreu nos anos da Grande Depressão, pois somente em 1932-33, três anos depois da eclosão da crise, apareceu a pressão dos “de baixo”.

Para lutar por um mundo melhor e deixar para trás o capitalismo, a espécie humana tem que sobreviver e o planeta deve ser salvo. Para que os humanos sobrevivam é preciso deter a ameaça de guerra nuclear e para salvar o planeta deve cessar a agressão do mercado contra a natureza.

Frear a ameaça de guerra nuclear significa em termos imediatos desativar o plano de agressão ao Irã com a participação de Israel e no médio prazo, cortar o gasto militar que se combina de modo perverso com o declínio da economia norte-americana, para sustentar dois equilíbrios de terror: o financeiro e o militar. E para desperdiçar imensos recursos em máquinas, tecnologias e bombas para matar.

(*) Economista cubano
(1) Michel Chossudovsky e Andrew Gavin Marchall. The Global Economic Crisis. (A Crise Econômica Global), em Global Research. 2010. Pág. 47-48.
(2) Michael Hudson: The “Dollar Glut”. Finances America’s Global Military Build Up. (O “Excesso de Dólar”. As Finanças do Crescimento Militar Global da América), em The Global Economic Crisis. Capítulo 10.
Publicado originalmente em Cuba Debate
Fonte: http://www.cartamaior.com.br

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Racismo ontem e hoje: Ilustração p/capa do boletim nº2 da CSP-Conlutas, Novembro 2010 - por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

[Rio de Janeiro] 100 Anos de México Rebelde - ANA

[Rio de Janeiro] 100 Anos de México Rebelde
Em 20 de novembro completam-se 100 anos da eclosão da primeira grande revolução do século XX, que foi fortemente influenciada pelos ideais anarquistas.

Assim, o Núcleo de Pesquisa Marques da Costa convida para o evento “100 Anos de México Rebelde”, a se realizar no dia 18 de novembro, quinta-feira, às 18h30, no auditório do Sindipetro – Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro , localizado à Avenida Passos, 34, 2º andar (no centro da cidade, entre a Avenida Presidente Vargas e a Praça Tiradentes).

Na ocasião falarão sobre o tema Alexandre Samis, da FARJ - Federação Anarquista do Rio de Janeiro e Sérgio Mesquita, do Núcleo de Pesquisa Marques da Costa.

No sábado, dia 20, a atividade deverá se repetir no CELIP- Círculo de Estudos Libertários Ideal Peres no Centro de Cultura Social, rua Torres Homem, 790 (perto da praça Barão de Drummond ou praça 7) às 14 horas.

O imaginário coletivo popular mexicano já incorporou como símbolos de combate por uma sociedade justa, livre e não-vertical a referencia da Revolução de 1910. Falar de lutas sociais e/ou indígenas no México significa falar dos valores e ideais libertários de Ricardo Flores Magón e Emiliano Zapata, que inspiram movimentos sociais que levam seus nomes.

FARJ: www.farj.org

agência de notícias anarquistas-ana
Na soleira do sítio
a graúna canta
ao silêncio do sol.

Anibal Beça

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Alfredo Júlio, reitor da Universidade Federal de Uberlândia, lhes dá boas vindas - por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

Ano Internacional da Biodiversidade é comemorado em São Paulo

Ano Internacional da Biodiversidade é comemorado em São Paulo
Conferência sobre Ano Internacional da Biodiversidade acontece dia 23 de novembro com apoio da ONU e presença de autoridades, empresários, imprensa e acadêmicos.

O Instituto Humanitare realiza, no próximo dia 23 de novembro de 2010, a Conferência sobre o Ano Internacional da Biodiversidade 2010. O evento, que acontecerá no Clube Hebraico (Sala Marc Chagall), tem a cooperação do HSBC e da VALE, é voltado para autoridades, empresários, imprensa e acadêmicos e tem o apoio da Convenção da Diversidade Biológica (CDB) das Nações Unidas.

A Conferência traz o olhar sobre sustentabilidade de empresas como Bosch, HSBC, Siemens e VALE, de entidades como o IBRI (Instituto Brasileiro de Relações com Investidores), de consultorias como a McKinsey e do setor acadêmico (Universidade de São Paulo).

Estarão presentes no evento do dia 23 palestrantes como o Dr. Thomas Lovejoy, especialista em biodiversidade do Banco Mundial; a Embaixadora Vera Machado, Subsecretária Geral Política do Ministério das Relações Exteriores do Governo Brasileiro; a Sra. Cecília Martinez, Diretora Regional para América Latina e Caribe do ONU-HABITAT, entre outros. O patrono da Conferência é o Professor Emérito da Universidade de São Paulo (USP), Dr. Paulo Nogueira-Neto.

A Conferência contará ainda com uma palestra do Professor John Malin, Presidente do Comitê do Ano Internacional da Química, que será comemorado em 2011. Além das palestras, o evento terá mesas redondas e poderá ser acompanhado em tempo real pelo sitewww.humanitare.org/biodiversidade.

A Conferência sobre o Ano Internacional da Biodiversidade 2010 será encerrada com o lançamento do livro “Uma Trajetória Ambientalista – Diário de Paulo Nogueira-Neto” e o lançamento da Cátedra da ONU-HABITAT “Cidades Inovadoras e Sustentáveis”.

A Assembleia Geral das Nações Unidas declarou o ano de 2010 como o Ano Internacional da Biodiversidade, com o propósito de aumentar a consciência sobre a importância da preservação da biodiversidade em todo o mundo. O Ano busca, entre outros objetivos, evidenciar a importância da biodiversidade para nossa qualidade de vida; refletir sobre os esforços já empreendidos para salvaguardar a biodiversidade até o momento, reconhecendo as organizações atuantes; e promover e dinamizar todas as iniciativas de trabalho para reduzir a perda da biodiversidade.

O programa do Ano Internacional da Biodiversidade no Brasil possui o apoio institucional do Governo Brasileiro, do Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio), do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e do Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (ONU-HABITAT). Nesse contexto, o Instituto Humanitare programou ações de conscientização, educação, reconhecimento e incentivo à preservação da diversidade biológica.

Todas as informações sobre a Conferência estão disponíveis em http://www.humanitare.org/biodiversidade

Serviço
Conferência do Ano Internacional da Biodiversidade – Instituto Humanitare
Data e horário: 23 de novembro de 2010 – 08:00 às 20 horas
Local: Associação Brasileira A Hebraica de São Paulo (Rua Hungria, 1.000 – São Paulo, SP).
Site: http://www.humanitare.org/biodiversidade

Fonte: (Envolverde/Nações Unidas no Brasil)