terça-feira, 13 de outubro de 2020
Estamos a viver o período mais perigoso na história humana, alerta Chomsky – Esquerda Net
Estamos a viver o período mais perigoso na história humana,
alerta Chomsky
A convergência da crise climática, ameaça nuclear e avanço do autoritarismo tornam o atual momento histórico mais perigoso do que o dos anos 1930, alerta o intelectual norte-americano em entrevista à New Statesman.
Aos 91 anos, Noam Chomsky continua ativo na intervenção cívica e política, este fim de semana ao lado de Bernie Sanders, Naomi Klein e Yanis Varoufakis no encontro online da “Internacional Progressista”. Entrevistado pela New Statesman(link is external) Chomsky alertou que o mundo está perante uma “impressionante confluência de crises muito graves”, cuja dimensão ficou patente no último acerto do famoso “Relógio do Juízo Final”. “Tem sido ajustado todos os anos desde o bombardeamento atómico, o ponteiro dos minutos tem avançado e recuado. Mas em Janeiro passado, abandonaram os minutos e passaram aos segundos para a meia-noite, o que significa a extinção. E isso foi antes da escalada da pandemia”, recorda.
Para o linguista norte-americano, a ameaça de guerra nuclear nos dias de hoje “é provavelmente mais grave do que era no tempo da Guerra Fria”. Por outro lado, há as ameaças da catástrofe climática e da deterioração da democracia, “que à primeira vista parece que nada tem a ver com as outras, mas na verdade tem muito, porque a única esperança de lidarmos com as outras duas crises existenciais, que são mesmo uma ameaça de extinção, é através de uma democracia vibrante, com cidadãos informados e empenhados que participem na construção de respostas a essas crises”.
Chomsky sublinha o papel de Donald Trump no agravar destas três crises, ao destruir os mecanismos de controlo do armamento e investir em novas armas mais perigosas, ao maximizar o uso de combustíveis fósseis e enfraquecer a regulação ambiental e ao afastar todas as vozes dissidentes no executivo, formando na prática uma “internacional reacionária” ao lado de figuras como o brasileiro Bolsonaro, o egípcio al-Sisi, o indiano Modi ou o húngaro Orbán.
“Ele já disse e repetiu que se não gostar do resultado das eleições não sairá do lugar”, lembra Chomsky, afirmando que nesse caso existe um dever dos militares, nomeadamente da 82ª Divisão Aerotransportada, de o remover à força. O facto de este tema estar em cima da mesa não só não tem precedentes no regime norte-americano, como pode ter consequências graves. No plano de transição presidencial, altos responsáveis democratas e republicanos têm colocado a questão de o que pode acontecer se Trump se recusar a sair e “todos os cenários que eles levantaram conduzem à guerra civil. Isto não é uma piada”, avisa Chomsky.
A mensagem de Chomsky para a esquerda dos EUA é que faça o que “deve fazer sempre: reconhecer que a política verdadeira é o ativismo constante”. O que no caso de uma eleição num sistema bipartidário significa ter de votar no candidato que se opõe a Trump. “Mas logo depois o que há a fazer é desafiá-lo, manter a pressão para o empurrar em direção de propostas mais progressistas”, acrescenta o intelectual que se define como anarquista, “tal como o é toda a gente se parar um pouco para pensar, tirando as pessoas que são patológicas”.
Fonte: https://www.esquerda.net/artigo/estamos-viver-o-periodo-mais-perigoso-na-historia-humana-alerta-chomsky/70276
quarta-feira, 30 de setembro de 2020
A pedra de Edward Said contra o colonialismo – por Fernando Pureza
A pedra de Edward Said contra o colonialismo
O destacado intelectual palestino Edward Said faleceu neste dia em 2003. Para Said, o intelectual deveria ter compromisso político com suas teses – e as dele demoliam o arcabouço ideológico que sustentava o imperialismo no Oriente Médio.
Edward Said arremessando uma pedra contra uma torre de vigia israelense na fronteira com o Líbano em 2000.
No dia 7 de julho deste ano, uma articulista do periódico americano Newsweek publicou uma estranha “homenagem” a Edward Said, chamando-o de “profeta da violência política nos Estados Unidos”. O texto, repleto de clichês pejorativos contra muçulmanos – embora Said viesse de uma família de cristãos protestantes – acusava o crítico literário palestino, apontado como uma “super-estrela da esquerda radical”, de “niilismo intelectual” e de “manipular os estudantes para que eles se engajassem em violência política”. O que leva a articulista da Newsweek arremeter contra Said é um incidente na fronteira entre Israel e Líbano, no ano de 2000, quando o intelectual foi fotografado arremessando uma pedra contra uma torre de vigia israelense. A pedra de Said contra Israel seria um prenúncio dos protestos confrontacionais que tomaram as ruas das grandes cidades dos Estados Unidos nos últimos tempos.
O texto da Newsweek é horroroso, mas ao mesmo tempo serve como um bom pretexto. Pensar Said como um profeta de mobilizações massivas como as do Black Lives Matter é de fato inspirador, mesmo que a sua figura não seja explicitamente reivindicada nos protestos. Há um curioso detalhe esquecido nesse evento. Desde 1991, Edward Said lutava contra uma leucemia crônica, que acabou abreviando a sua vida em 2003. Um homem enfermo, nos seus últimos anos de vida, lançando uma pedra contra uma estrutura militar de um poderoso exército de ocupação é o pretexto perfeito para falar sobre o que significava ser um intelectual para Said.
A pedra de Rosetta e o orientalismo
A trajetória de vida de Edward Said, como intelectual de origem árabe palestina, marca sua obra profundamente. Ao estudar os cânones da “literatura ocidental”, Said pode experimentar como seu espaço de “não-ocidental” era constantemente demarcado. No fundo, uma questão o inquietava: enquanto árabe, os seus pares anglo-saxões só lhe permitiram escrever sobre a cultura árabe? Esse era um mundo acadêmico em que, diante do contexto de Guerra Fria, as universidades norte-americanas viram proliferar os chamados “area studies”, ou os “estudos de área”, campos multidisciplinares que se debruçavam sobre uma região ou país estrategicamente importante para os EUA. Dessa forma, muitos intelectuais ao redor do mundo foram atraídos pelas universidades norte-americanas, tornando-se especialistas.
Said sabia que, por muitos anos, muitos intelectuais europeus e norte-americanos se sentiam seguros para falar sobre a cultura árabe, reconhecidos como especialistas no tema – os chamados “orientalistas”. Os estudos “do Oriente”, afinal de contas, eram uma tradição antiga em grandes universidades como Oxford, Cambridge, Sorbonne etc. Museus como o Museu Britânico e o Louvre incorporavam a memorabília e os artefatos dos mais diferentes povos e impérios ao redor do globo. Diante disso, o que cabia aos árabes, ao adentrarem o espaço acadêmico norte-americano, era somente falar da cultura árabe, legitimando a posição dos “especialistas”? Na esteira dessas reflexões, a questão primordial para Said era: afinal, o que permitia que o Ocidente tivesse tamanha primazia sobre os estudos do chamado “Oriente”?
Com base nessas reflexões e mergulhando na crítica literária ocidental, Said lança em 1978 a sua principal obra, O Orientalismo, uma reflexão devastadora sobre como o chamado Ocidente construiu uma noção de “Oriente” que, em última instância, serviu para construir e referendar a posição de dominação imperialista de países como Inglaterra, França e EUA. O imperialismo, por sua vez, não pode ser entendido somente em sua dimensão econômica, mas também cultural: o domínio sobre diferentes povos, a acumulação de riqueza, a espoliação de sociedades e impérios tradicionais, tudo isso veio acompanhado de uma imensa quantidade de novos “especialistas” que se davam o direito de dizer o que pensavam os chineses, os indianos, os árabes, enquanto saqueavam suas riquezas e exploravam sua mão-de-obra. Esse caráter duplo do imperialismo, econômico e cultural, pode ser visto na dominação inglesa em Bengala, já no final do século XVIII: o início do imperialismo britânico na Índia, que culminou na morte de 10 milhões de bengaleses por fome, foi marcado também pela impressionante proliferação de traduções inglesas sobre textos clássicos do hinduísmo. Dessa forma, os primeiros orientalistas que surgiram no Ocidente nasceram tendo de omitir os brutais crimes que os ingleses cometiam em abundância na Índia.
Não se trata de mero detalhe que a narrativa de Said dê ênfase na famosa pedra de Rosetta. A estela de pedra que traduzia hieróglifos das pirâmides e dos templos do Egito antigo para o grego, foi capturada pelos franceses, na conquista napoleônica na região. Com a derrota das tropas de Napoleão, o artefato foi levado para o Museu Britânico, em 1802, onde se encontra até hoje. Para Said, o roubo dessa relíquia foi um divisor de águas, pois permitiu que, por meio do saque e da pilhagem, o Ocidente pudesse estudar o Oriente como um “objeto”, definindo-o de forma restrita e singular, segundo seus próprios interesses. No final das contas, era como se agora o Ocidente pudesse contar a própria história desse outro não-ocidental, dizer como era sua história, sua cultura, sua língua e seus costumes. Em outras palavras, não eram apenas as riquezas que estavam sendo saqueadas, mas a própria história dos povos do chamado “Oriente”.
Dessa forma, o século XIX viu as universidades europeias se tornaram centro de produção do que Said chamou de “orientalismo”, o estudo sistemático sobre o outro “Oriental”, convertido agora em objeto da ciência moderna europeia. A produção desse discurso era tanto causa como efeito do imperialismo ao longo dos séculos XIX e XX, na medida em que legitimava e validava ideologicamente o papel dominante das potências capitalistas ocidentais.
Ao afirmar que o “Oriente” é uma construção ocidental amparada na dominação imperialista – e que tem como propósito justamente embasar um campo de estudos cujo enfoque era legitimar essa relação – Said escandalizou parte do mundo acadêmico anglófono. Para muitos deles, era inaceitável que seu “amor” pelo saber sobre as sociedades e culturas do “exótico Oriente” pudesse ser questionado. Por trás dessa sensibilidade afetada, estava a recusa em reconhecer, de onde se falava sobre o outro, ou dito de outra maneira: de reconhecer privilégios, omissões e até mesmo a cumplicidade com os crimes do imperialismo. A recusa em aceitar que o saque das metrópoles à história das colônias havia sido determinante na construção de todo um campo de conhecimento era uma prova cabal do quanto o argumento de Said foi certeiro.
As pedras dos exilados
Se a atividade intelectual exigia que os sujeitos tomassem partido e indicassem de onde falavam (sem usar de mistificações como “amor” ou “neutralidade”), a pergunta que os críticos de Said fizeram era justamente de onde falava esse intelectual, nascido na Palestina, mas que viveu boa parte da sua vida nos EUA. A resposta para a pergunta é suficiente para nos fazer pensar sobre algo crucial na obra de Edward Said, que sempre se reconheceu como um exilado. Ao nascer em Jerusalém antes da criação do Estado de Israel, passou parte de sua infância entre Egito e Palestina até 1951, quando se muda para os EUA. Said nunca deixou de reafirmar sua condição de exilado – em especial em sua obra de caráter autobiográfico, Reflexões sobre o exílio. Sua formação acadêmica, em instituições onde dominava a perspectiva anglo-saxã, não fez dele um inglês ou um norte-americano. No final das contas, sempre se reconheceu como árabe, experimentando uma espécie de antagonismo com seus professores.
Estudando no Egito, Said refletiu sobre sua dependência da educação dada pelo já moribundo império britânico – no que ecoava sempre a máxima chauvinista de Thomas Macaulay, que dizia que “uma única prateleira de uma biblioteca inglesa tem muito mais valor do que toda a literatura indiana e árabe”. Essa formação intelectual, movida pelo sentimento de estar sempre “fora do lugar”, o tornou um intelectual público capaz de reafirmar sempre o seu não-pertencimento – em especial a partir de 1967, quando passou a criticar abertamente a cobertura da imprensa norte-americana às guerras árabe-israelenses.
A postura política pública o aproximou da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), reafirmando assim seu compromisso com a independência palestina. Said considerava que a própria criação de Israel, movida pelo sionismo de Theodor Herzl, precisava ser repensada. Como expresso em seu livro A Questão da Palestina, defendia uma solução binacional para o conflito árabe-israelense. O reconhecimento de duas nacionalidades no mesmo território, seria a única forma de conceber um Estado verdadeiramente secular na região, capaz de alcançar uma real democracia.
A militância política de Said pela causa palestina e pela necessidade da solução binacional fez com que se envolvesse diretamente com partidos e instituições palestinas nos anos 1970 e 1980. Foi eleito membro independente do Conselho Nacional Palestino em 1977 e manteve sua posição até 1991, quando foi diagnosticado com leucemia. Defendeu a Primeira Intifada em todas as suas manifestações públicas e criticou duramente as representações sobre o Islã e o mundo árabe que emergiram na mídia norte-americana, em especial após 1967 e os acordos de Camp David. Para Said, a luta pela liberdade palestina exigia um compromisso político de um intelectual que, mesmo exilado, sentia a obrigação política de posicionar-se em qualquer espaço que ocupasse.
Em 1992, frente às negociações para os Acordos de Oslo,
anunciou-se uma ruptura de Edward Said com a OLP. Sua objeção derivava da
posição a favor de um Estado bi-nacional. O efeito, contudo, foi nulo: os
acordos foram assinados e Said tornou-se persona non grata pela
Autoridade Palestina, chegando a ter a venda de seus livros temporariamente
banida em território palestino. O exílio seguiu, portanto, sendo uma constante
em sua trajetória de intelectual e militante.
Da perda às novas pedras
A partida precoce de Said nos obriga a retomar sua obra. Vários de seus livros foram traduzidos no Brasil, mas muitos dos seus ensaios tardios ainda não receberam atenção por aqui. Foi um intelectual que até nos últimos anos de vida produziu incansavelmente. A sua luta pela Palestina foi registrada em diversos livros e artigos, assim como a paixão pela música e literatura. São elementos cruciais para entender que tipo de intelectual Said procurou encarnar: alguém engajado com um projeto contra-hegemônico até as últimas consequências.
Said já não estava vivo para ver George W. Bush levar a “guerra ao terror” para o Iraque, dando continuidade à obra de destruição iniciada por Bush pai. A partir de 2004, os livros e artigos de Said passaram a ganhar mais destaque na imprensa, mas gradualmente foram esquecidos de novo. Suas teses, infelizmente, seguem vivas. As chamadas “democracias liberais” nunca abandonaram os vícios orientalistas, alimentados pela propaganda imperialista, parte de um esforço de pilhagem global para acesso a petróleo e gás natural barato. Os estereótipos orientalistas continuaram se avolumando nos países capitalistas ocidentais.
É curioso que um dos críticos de Said, o célebre orientalista britânico, Bernard Lewis, o acusasse de “politizar” os estudos sobre o Oriente Médio. Possivelmente essa acusação daria orgulho a esse intelectual palestino em constante exílio. Said ousou perguntar para os saberes instituídos dos grandes impérios: o que os legitimava a falar sobre o outro? A simbólica pedra de Said contra a máquina de guerra colonialista israelense não é, portanto, nada menos do que uma manifestação de uma intelectualidade que transcendia os limites da academia e não aceitava os “modos de dominação inerentes” a ela. Que as classes dominantes considerem essa pedra tão perigosa a ponto de, décadas depois, encontrá-la refletida na mobilização insurgente da juventude que toma as ruas e derruba estátuas de antigos senhores de escravos, só dá mais valor ao ato insubmisso de Edward Said. Quando se compara um intelectual que, já no fim da vida, arremessa uma pedra em protesto à violência da ocupação contra o povo palestino, com movimentos de massas como o Black Lives Matter, que se levantam contra o racismo e o sumpremacismo branco, vemos a potência de um pensamento a serviço da emancipação. O vigor de um intelectual não reside apenas em suas palavras. Afinal, parafraseando o poeta, na luta de classes vale tudo: poemas, paus… e pedras.
Fernando Pureza é professor do Departamento de História da Universidade Federal da Paraíba.
Fonte: https://jacobin.com.br/2020/09/a-pedra-de-edward-said-contra-o-colonialismo/
A verdadeira história dos anarquistas negros - Por Livia Gershon (A.N.A.)
A verdadeira história dos anarquistas negros
Com frequência nas notícias atuais, o anarquismo é totalmente mal compreendido. Um dos mitos é que se trata de um movimento para pessoas brancas
Os opositores dos protestos por justiça racial que acontecem por todo país geralmente condenam os ativistas como “anarquistas”. Trata-se de uma falsa caracterização que pretende difamar os manifestantes como violentos e niilistas. E ainda, como o sociólogo Dana M. Williams escreve, o anarquismo moderno – uma filosofia política que geralmente se opõe à coerção, hierarquia e desigualdade, tanto no interior de movimentos ativistas quanto no mundo em geral – tem uma história de décadas na organização antirracista liderada por negros.
Williams escreve que houve alguma interação entre a organização dos direitos civis nos anos 1950 e os amplos grupos anarcopacifistas liderados por brancos. Mas o anarquismo negro realmente tem início no final da década de 1960, surgindo principalmente por fora da tradição anarquista americana branca.
Os movimentos de Direitos Civis e Black Power dos anos 1960 dependiam amplamente de estruturas centralizadas. Lorenzo Kom’boa Ervin, que ajudou a criar a Black Autonomy Network of Community Organizers (BANCO) [Rede Autônoma Negra de Organizadores Comunitários] e a Federation of Black Community Partisans (FBCP) [Federação de Partidários da Comunidade Negra], escreveu que o Partido dos Panteras Negras, influenciado pelo marxismo-leninismo, “falhou, em parte, por causa do estilo de liderança autoritária de Huey P. Newton, Bobby Seale e outros no Comitê Central… Não havia muita democracia interna no partido e, quando as contradições emergiam, eram os líderes que decidiam sobre a resolução, não os membros.”
No final da década de 60, o Partido dos Panteras Negras estava se fragmentando sob o peso da violência da polícia e do FBI, divisões internas e a contínua resistência branca em relação à mudança antirracista. Alguns ex-membros se voltaram para o nacionalismo cultural, comunismo ou a política do Partido Democrata. Mas outros se tornaram anarquistas.
Alguns negros radicais – incluindo Ervin, Ashanti Alston, que hoje atua no comitê diretor do National Jericho Movement para libertação de presos políticos dos EUA, e Kuwasi Balagoon, um ex-membro do Black Liberation Army – encontraram pela primeira vez as ideias anarquistas na prisão. Como alguns anarquistas europeus brancos, eles enxergaram na ideologia um antídoto contra a influência corruptora do poder no interior das organizações de esquerda. Como Alston escreveu em 1999:
Organizações de-cima-para-baixo [e] organizações de liderança são relações baseadas em alguns terem cérebro e a maioria não ter cérebro, e, por consequência, PRECISAM daqueles com cérebros. Eu rejeito isso. Eu me amo e amo o Povo e, por conta disso, todos nós temos cérebros e juntos somos mais espertos do que qualquer pequeno grupo de filhos da puta que afirmam ser meus/nossos líderes.
Balagoon, que se identificou como um Novo Anarquista Africano, salientou que a orientação antiestatal dos anarquistas os tornava anti-imperialistas. Ervin, por outro lado, argumentava que o anarquismo se opõe a todas as formas de opressão, incluindo “patriarcado, supremacia branca, capitalismo, comunismo de estado, ditames religiosos, discriminação contra gays, etc.” Ele apoiou sociedades de ajuda mútua baseadas na comunidade, sistemas de alimentação controlados por trabalhadores, recusa a impostos, greves de aluguel e oposição à brutalidade policial.
Embora o anarquismo nunca tenha se tornado central para o pensamento radical negro, Williams observa que muitas das figuras mais importantes, incluindo Angela Davis, bell hooks e Audre Lorde, analisaram questões políticas de modo antiautoritário. Estas ideias continuam a influenciar os atuais protestos antirracistas liderados por negros, muitos dos quais abrangem estratégias locais de apoio mútuo, metas políticas como a abolição da polícia e das prisões, e estruturas não hierárquicas de “liderança”.
Tradução > Erico Liberatti
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agência de notícias anarquistas-ana
A lua da montanha
Gentilmente ilumina
O ladrão de flores.
Issa
sexta-feira, 25 de setembro de 2020
O verdadeiro Winston Churchill – por Richard Seymour
O verdadeiro Winston Churchill
Durante os protestos em maio de 2.000 nada enfureceu mais o
establishment britânico – imprensa, políticos, tribunais, e opinião respeitável
– do que a profanação da estátua de Winston Churchill na Praça do Parlamento. O
sangue selvagem vermelho pintado com spray em torno da boca de Churchill, a
lívida marca verde que sugeria um corte de cabelo mohawk, transformando o
estoico pai da nação em palhaço, era inconcebível.
É difícil transmitir o valor simbólico e emocional deste homem para a classe
dominante britânica e um número significativo, embora em declínio, de cidadãos.
Aqueles cuja consciência nacional é moldada pelas memórias da Segunda Guerra
Mundial, provavelmente o último momento de “grandeza” do império, salvo a
vitória na Copa do Mundo de 1966, conhecem principalmente Churchill como o
homem que esmagou a ameaça nazista. Dirigindo um governo de coalizão ele
exortou o que tinha sido uma nação mal-liderada e esgotada para ousar e vencer.
Ele salvou o estado britânico, orientando-o através de uma de suas piores
crises. Churchill foi o último líder britânico verdadeiramente amado; ninguém
se aproximou disso.
Quando eu estava na escola, na década de 1980, no norte da
Irlanda, a joia esmeralda do Império, este ainda era um sentimento poderoso.
Nosso professor de história, explicando a Segunda Guerra Mundial, contou com
orgulho uma história apócrifa em que Hitler, depois de ter ouvido que Churchill
estava liderando o esforço de guerra, disse: “O que faremos agora?” E nós, com
as pupilas e olhos brilhantes, ficamos muito satisfeitos pensando nisso. O que
você vai fazer agora?
Churchill é, além de mito nacional, objeto de uma pequena indústria artesanal e
fonte interminável de nostalgia. Livros comemorando sua sagacidade perversa,
canecas enfeitadas com sua imagem, toalhas de chá citando o grande homem,
intermináveis historiadores da corte – e quando se trata de Churchill, quase
não há outro tipo de historiador – recapitulando suas glórias. Há um filme
sobre ele agora, com Gary Oldman? Jogue-o na pilha com o último filme com Brian
Cox, e aquele anterior com Brendan Gleeson, e outro antes dele com Albert
Finney e o anterior com Michael Gambon. É uma indústria dos “tesouros
nacionais”, e um mini-boom agora está em andamento, já que certos sentimentos
que o Brexit colocou em circulação alimentam um retorno cultural ao Império.
Para mim, no entanto, seu brilho desapareceu há muito tempo,
e fui à Praça do Parlamento para admirar aqueles manifestantes. O que deu
errado?
A indústria cultural não é sempre um lugar tão ruim para
descobrir a verdade sobre Churchill. O ator Richard Burton, ao se preparar para
representar Churchill em um drama de televisão, escreveu para o New York
Times:
Durante a preparação, percebi de novo que odeio Churchill e
todos de seu tipo. Os odeio fortemente. Eles tiveram um poder infinito ao longo
da história. ... O que um homem são diria ao ouvir sobre as atrocidades
cometidas pelos japoneses contra prisioneiros de guerra britânicos e do ANZAC:
“Nós os destruiremos, cada um deles, homens, mulheres e filhos. Não haverá uma
esquerda japonesa na face da terra”? Essa ânsia de vingança me deixa com
horror, devido à sua ferocidade simples e implacável.
Por essa iconoclastia, Burton foi impedido de trabalhar novamente na BBC,
acusado de “agir de forma não profissional” e, evidentemente, considerado como
traidor. No entanto, ele trouxe algo sobre Churchill que muitas vezes
constrange a sensibilidade britânica, de tal modo que geralmente não se fala
nisso: o gosto pelo massacre. Em todo canto, parece que Churchill baba sangue.
Ele era um fanático da violência.
Churchill vinha da alta aristocracia; era filho do chanceler Lord Randolph
Churchill, foi um menino destinado aos altos cargos. É importante notar que o
jovem Churchill não era um reacionário total. Membro do Partido Conservador,
ele se considerava liberal. Defendia o livre comércio, a democracia e algumas
melhorias suaves para a classe trabalhadora – refletindo a ideologia Whiggy
(White Guy Groupie), e um liberalismo que estava em declínio. A única exceção
foi sua rejeição da ideia de Irish Home Rule – um governo autônomo irlandês.
Mas ser um liberal na época não era de modo algum incompatível com o
imperialismo, o racismo, o antisemitismo, o apoio à eugenia e o desdém
patriarcal pelo sufrágio universal. Como Candice Millard sugere em Herói do Império, onde conta a história da participação de
Churchill na Guerra dos Boer (na África do Sul), ele foi um político criado e
formado pelo Império Britânico. Atingiu a idade adulta com um senso avançado de
sua grandeza potencial, como alguém que apreciava sua reputação de coragem
diante da morte. O Império Britânico tinha milhões de pessoas dispostas a
viajar a todo o mundo para dominar pessoas que não tinham a chance desse tipo
de aventura. Era um império que dominava 450 milhões de pessoas, cujas revoltas
e lutas ocorriam no sul da África, no Egito e na Irlanda. Millard escreve:
Para Churchill, tais conflitos distantes ofereciam uma
oportunidade irresistível para a glória e o avanço pessoal. Quando entrou no
exército britânico e finalmente se tornou um soldado, com a possibilidade real
de morrer em combate, o entusiasmo de Churchill não vacilou. Pelo contrário,
ele escreveu para sua mãe que aguardava a batalha por causa dos riscos que
oferece.
Churchill conseguiu provar-se um homem dos padrões imperiais, lutando na Índia
e no Sudão, ajudando os espanhóis a reprimir os lutadores pela liberdade de
Cuba e, após uma breve carreira parlamentar na África do Sul, lutando na
Segunda Guerra dos Boers. Esta experiência preparou-o para buscar soluções
semelhantes em problemas domésticos. Quando se uniu ao governo liberal de 1906,
defendeu medidas agressivamente autoritárias para controlar a desobediência
social. A promoção de Churchill no governo, quatro anos depois, ocorreu em um
momento de turbulência política crescente no Reino Unido: a luta irlandesa pelo
Home Rule, sufragismo, etc. Churchill se opôs a todos com violência.
Há muita ênfase, na hagiografia de Churchill, para refutar a ideia de que ele
ordenou o ataque das tropas contra mineiros em greve no País de Gales, algo
pelo qual é desprezado na região até hoje. O que de fato aconteceu foi que
Churchill enviou batalhões de polícia de Londres e manteve tropas em reserva em
Cardiff, caso a polícia não conseguisse fazer o trabalho. Nunca houve dúvida de
que Churchill estava ao lado dos patrões, e preparou-se para mobilizar toda a força
do estado britânico para resolver as questões. Durante uma disputa com
anarquistas armados em Stepney, foi dele a decisão incomum de assumir o comando
operacional da polícia durante o cerco; e, finalmente, optou por matar o
inimigo ao permitir que eles fossem queimados em uma casa onde estavam presos.
No entanto, esse papel foi de curta duração. Churchill foi nomeado para uma
posição militar sênior, que o colocou no comando político da Marinha Real. Um
tecnófilo, ele a empurrou para a modernização, o combate aéreo e, mais tarde,
os tanques. Mas nada em sua experiência poderia prepará-lo mais para a glória
na Primeira Guerra Mundial: “Meu Deus!”, exclamou em 1915. “Isso é história
viva. Tudo o que estamos fazendo e dizendo é emocionante – será lido por mil
gerações, pense nisso!”.
A natureza guerreira de Churchill pode ter sido culpada pelo desastre militar
em Gallipoli em 1915. Num esforço para tomar o Estreito Dardanelos e manter a
Turquia fora da guerra, ele foi responsável por uma operação que enviou
britânicos, franceses, neozelandeses e australianos – principalmente
voluntários, mal treinados – para a derrota na Península de Gallipoli. A
debacle que se seguiu destruiu essas unidades e resultou no rebaixamento de
Churchill, que deixou o governo e se juntou ao Exército para comandar um
batalhão.
Se suas credenciais de classe dominante fossem menos estimáveis, ele teria sido
afastado devido àquele fracasso. Em vez disso, retornou ao parlamento em 1916 e
mais uma vez subiu nas fileiras do governo – ministro de munições, secretário
de guerra, e depois secretário do Ar.
Ele foi um feroz defensor da intervenção para reprimir a Revolução Russa, e
escreveu furiosamente sobre o perigo dos “Judeus Internacionais” (comunistas) e
sua “sinistra confederação”, contra os quais ele invocou o “judeu nacional” (o
sionismo), muito mais aceitável – e isso foi interpretado de maneira
mistificada por biógrafos como Martin Gilbert, como prova de seu
filossemitismo.
Além de ser motivado por uma dicotomia profundamente antissemita – “bom
judeu-mau judeu” – os fundamentos colonialistas do apoio de Churchill ao
sionismo foram mais tarde esclarecidos quando se dirigiu à Comissão Real da
Palestina, sobre a autodeterminação palestina. Recorrendo ao bestilógico em
suas imagens, ele comparou o autogoverno a um cão correndo em seu próprio canil
– e ele não reconhecia esse direito. “Eu não admito”, continuou, “que um grande
erro tenha sido cometido com os índios da América, ou os negros da Austrália...
pelo fato da forte disputa, uma raça de grau mais alto... tenha entrado e
tomado seu lugar”.
Como um tático imperial, Churchill recomendou combater a insurgência contra o
Mandato Britânico no Iraque com o uso de gás. Na verdade, ele fora pioneiro no
uso de armas extremamente mortais na Rússia, contra os bolcheviques. É
importante reconhecer que, com o seu apoio ao combate aéreo, ele justificou
isso como uma alternativa “humana” e de alta tecnologia a métodos mais brutais.
“Sou fortemente a favor do uso de gás envenenado contra tribos não civilizadas”,
escreveu e explicou: “O efeito moral deve ser tão bom que a perda de vidas deve
ser reduzida ao mínimo”.
Quando alguns no governo britânico da Índia criticaram “o uso de gás contra os
nativos”, ele considerou essas objeções “irracionais”. “O gás é uma arma mais
misericordiosa do que bombas de alto poder e obriga o inimigo a aceitar uma
decisão com menos perda de vida do que qualquer outra arma de guerra”. Essa
lógica, como o historiador Sven Lindqvist lembra, tem sustentado algumas das
novidades mais bárbaras da guerra. Mesmo o uso de bombas atômicas em Hiroshima
e Nagasaki foi justificado em parte como um meio para salvar vidas.
Churchill, como conservador liberal, deveria ter ficado alarmado com a ascensão
do fascismo na Europa. No entanto, ele era fortemente otimista e acreditava que
Mussolini era um bom governante para a Itália, e o fascismo era útil contra o
comunismo. Seu nacionalismo, militarismo e apoio à ordem e à tradição social
marcavam sua interpretação do movimento fascista emergente.
“Com o fascismo como tal... ele não teve objeções”, escreve o historiador Paul
Addison. "Em fevereiro de 1933 ele elogiou Mussolini... como 'o maior
legislador entre os homens'". Paul Mason acrescenta que Churchill
agradeceu a Mussolini por ter "prestado um serviço ao mundo" em sua
guerra contra o comunismo, sindicatos e a esquerda. Visitando a Itália em 1927,
ele declarou: “Se eu fosse italiano, tenho certeza de que deveria ter estado de
todo coração com você desde o início para terminar sua luta triunfante contra
os apetites e paixões bestiais do leninismo”. Ele escreveu sobre suas “relações
íntimas e fáceis com Mussolini, acrescentando que “no conflito entre fascismo e
bolchevismo, não havia dúvidas sobre as condolências e convicções”.
Em 1935, Churchill expressou sua “admiração” por Hitler e “a coragem, a
perseverança e a força vital que lhe permitiu... superar todas as...
resistências em seu caminho”. Addison explica que, enquanto Churchill não
aprovava a perseguição do nazismo aos judeus, foram as “ambições externas dos
nazistas, e não sua política interna, que causaram o maior alarme de
Churchill”.
Mas quais eram as ambições externas que o preocupavam? A invasão da Etiópia
pela Itália não perturbou a Churchill. Estava longe, numa zona considerada
legítima para a disputa colonial. Quanto ao Terceiro Reich, muitas das suas
concepções estratégicas e territoriais inspiraram-se no Império Britânico. Na
verdade, o fetiche mais sagrado, “a raça ariana”, foi inventado pelos
britânicos, por seus filólogos e arqueólogos que trabalhavam no sudeste
asiático. Hitler queria tomar os motivos do império e aplicá-los à Europa.
Isso pode implicar uma guerra de aniquilação contra o “bolchevismo judeu”, e é
difícil acreditar que Churchill ou qualquer outra pessoa na classe dominante
britânica teria tido algum problema com isso. Mas a expansão no continente
europeu era outra questão. Em outras palavras, o fascismo só se tornou um
problema quando Churchill reconheceu nele uma ameaça para o Império Britânico e
a ordem européia de estados-nação dominante. Só então, e somente a esse
respeito, o fascismo se tornou pior do que o comunismo.
Churchill tornou-se um proeminente advogado do rearmamento e um adversário da
maioria do establishment militar e político britânico, que queria apoiar Hitler
em sua guerra contra a Rússia. No entanto, ele continuou pensando que os
nazistas poderiam ser isolados e que um eixo poderia ser criado com os
fascismos italianos e espanhóis e, como tal, continuava a lisonjear Mussolini e
se opunha a qualquer apoio à Espanha republicana, antifascista. Na Guerra Civil
Espanhola, que foi, em muitos aspectos, um prelúdio para a Segunda Guerra
Mundial, ele considerou a República como uma “frente comunista” e os fascistas
apoiados por Hitler, um “movimento anti-vermelho” apropriado. Certamente,
Churchill não poderia ter tido nenhuma objeção a Franco bombardear seus
inimigos com gases venenosos, trazendo para território espanhol os métodos de
combate usados no Marrocos, uma vez que eram métodos que ele próprio
considerava humanos e condignos.
Em última análise, a agressão de Hitler forçou a classe dominante britânica a
abandonar sua preferência majoritária pela colaboração com o Terceiro Reich
(“apaziguamento”). A invasão da Polônia convenceu o governo de Neville
Chamberlain a entrar na guerra. Mas o julgamento do governo sobre a guerra em
breve resultou em uma crise, levando-o ao colapso e à sua substituição por uma
coalizão liderada por Churchill.
Mesmo após sua nomeação, Churchill persistiu em buscar uma aliança, menos
ambiciosa, com os regimes fascistas. A historiadora Joanna Bourke relata o
pedido desesperado de Churchill a Mussolini em maio de 1940:
É tarde demais para impedir que um rio de sangue flua entre
os povos britânico e italiano?... Os herdeiros comuns da civilização latina e
cristã não devem ser voltados uns contra os outros em conflitos mortais. Olhe
para isso, eu imploro em toda honra e respeito antes que o sinal de medo seja
dado.
No mesmo ano, ele abordou Franco em um tom semelhante:
A política e os interesses da política britânicas são
baseados na independência e na unidade da Espanha e estamos ansiosos para vê-la
assumir o devido lugar como um grande poder mediterrâneo e como um dos
principais membros da família da Europa e da cristandade.
Embora isso não tenha acontecido na Itália, Churchill chegou
a uma aliança com Franco que prolongou a vida de seu regime.
É claro que, como muitos sugeriram, a Segunda Guerra Mundial não era apenas uma
só guerra. Ernest Mandel argumentou que eram pelo menos cinco guerras: ao lado
da guerra entre poderes imperialistas, havia também uma guerra popular
anti-colonial envolvendo assuntos coloniais do sul da Ásia e África, a
autodefesa da Rússia, a luta da China contra o imperialismo japonês e uma
guerra antifascista popular. Havia lutas populares contra o fascismo na Grécia,
Espanha, Jugoslávia, Polônia e França, enquanto na China, Vietnã, Índia e
Indonésia a resistência era contra o imperialismo japonês. Mesmo na
Grã-Bretanha, houve uma forte radicalização após 1940, e esforços concertados
para transformar o esforço de guerra em uma guerra popular e antifascista.
Para Churchill, no entanto, era apenas uma guerra imperialista, e a dirigiu
como tal. Foram os britânicos que primeiro bombardearam civis durante o
conflito, atacando-os nos subúrbios de Berlim. A Grã-Bretanha não conseguiu
derrotar o Terceiro Reich através de um enorme exército continental, afirmou,
mas “deve destruir o regime nazista através de um ataque absolutamente exasperante
e exterminador de bombardeiros muito pesados”. A grande maioria das bombas foi
voltada para edifícios e áreas residenciais, em vez da infraestrutura
estratégica. De acordo com o diretor da Air Intelligence, citado pelo
historiador Richard Overy, as bombas foram direcionadas para “as casas, a
cozinha, o aquecimento, a iluminação e a vida familiar daquela parte da
população que, em qualquer país, é menos móvel e mais vulnerável a um ataque
aéreo geral – a classe trabalhadora". Isso culminou, notoriamente, no
bombeamento de Dresden.
A tática de incineração de civis apostou, absurdamente, na
ideia de que isso desmoralizaria a população e eliminaria a resistência – uma
ideia que o Império britânico devia ter repetidamente aplicado nas guerras
coloniais. Uma guerra antifascista poderia ter poupado a população civil, em
busca de apoio para um movimento de resistência antifascista que aceleraria o
colapso do nazismo. Mas para Churchill, isso era simplesmente impensável. Ele
foi o homem que se juntou à carga de cavalaria em Omdurman para se vingar do
general Gordon, e cuja carreira militar foi marcada por um entusiasmado amor
pelo perigo e pela morte.
Churchill foi o homem que lutou para reprimir os insurgentes em todos os
lugares, o homem que considerou adequado bombardear “nativos” onde quer que
eles recusassem o domínio britânico. A guerra total foi a culminação lógica.
Após a guerra, quando houve um debate entre os Aliados sobre o uso da
dependência de Franco sobre o petróleo para persuadir o regime a moderar,
Churchill ficou indignado com raiva, declarando que era “pouco menos do que
revolver uma revolução na Espanha”. Você “começa com o petróleo, e acabará
rapidamente com o sangue”. Os comunistas, disse,”se tornariam mestres da
Espanha” e a “infecção se espalharia muito rapidamente pela Itália e pela
França”. Derrotada a agressão nazista, o comunismo era de novo o principal
inimigo, e ele daria o sinal disso no discurso onde forjou a expressão “cortina
de ferro”, em março de 1946, que anunciou a Guerra Fria.
Quando a guerra acabou Churchill estava enfraquecido. Ele fora extremamente
popular durante o conflito, e continuaria a ser muito respeitado por sua
decisão de lutar, e sua implacável energia na luta. Mas havia forte demanda por
grandes reformas sociais, e isso significou uma mudança entre os trabalhadores.
Churchill gozou de mais um período como primeiro ministro, a partir de 1951 e
durante ele, manteve a maioria das reformas implementadas pelo Partido
Trabalhista, mas foi principalmente brutal contra a revolta do Mau Mau, no
Quênia, e a insurgência malaia. Na da Malásia, Churchill voltou a ser um
“modernizador” bélico: a Grã-Bretanha foi o primeiro país a usar o agente
laranja e herbicidas do mesmo tipo, e adotou com alegria a mesma política de bombardeio
de saturação que os Estados Unidos aplicariam no Vietnã. E então, ficando
decisivamente doente, Churchill se aposentou.
Tendo passado grande parte de sua vida repelindo ameaças “nativas” ao Império
Britânico, ele ajudou a salvá-lo do Terceiro Reich. Mas as pessoas que julgou
aptas para governar, na maioria dos casos conseguiram derrubar essa regra, em
parte por causa da mobilização mundial contra Hitler.
Faz sentido que o estado britânico idolatre Churchill. Sua história é a
história do império. Mas quem, sabendo o que é essa história, pode participar
da reverência a ele?
Richard Seymour é o autor de vários livros, incluindo Corbyn: The Strange Rebirth of Radical Politics. Ele mantém o blog Lenin’s Tomb.
Fonte: https://gz.diarioliberdade.org/artigos-em-destaque/item/341727-o-verdadeiro-winston-churchill.html
David Graeber, 1961-2020 | “É inacreditavelmente doloroso acreditar que ele se foi” – por Debbie Bookhin (A.N.A.)
David Graeber, 1961-2020 | “É inacreditavelmente doloroso acreditar que ele se foi”.
Eu conheci David depois que meu pai, Murray Bookchin, faleceu, em 2006. Meu pai, embora um orgulhoso revolucionário, tornou-se um crítico severo de certos aspectos do anarquismo, e ele próprio se declarava um comunalista. Procurei David como parte de um sentimento incipiente de que era necessário construir pontes onde meu pai havia às vezes (na minha cabeça, pelo menos) criado abismos desnecessariamente grandes. Anarquistas e comunalistas compartilham muito de suas visões por uma sociedade livre, e parecia certo discutir esses assuntos com David.
Eu sabia que David era brilhante e um dos escritores mais
talentosos de sua geração, mas eu não tinha como prever que amigo sincero,
leal, e gentil ele seria. Ele era profundamente modesto e profundamente
generoso: quando você dava um presente a David, ele tentava te retribuir com
três. E ele era divertido. O humor de David era irresistível, porque para ele a
irracionalidade do mundo era algo para se rir – e combater.
Então, havia sua generosidade intelectual. Ele parecia
projetar seu próprio brilho nos outros, pegando o núcleo latente de uma ideia
não reconhecida por um palestrante e seguindo sua lógica, e então costurando-a
junto com seu próprio conhecimento de história, antropologia, e teoria política
até ele tecer uma bela síntese, uma análise compreensiva do objeto em questão,
pelo qual ele sempre estava inclinado a dar o crédito ao orador original.
Antes de sua morte, comecei a ler o manuscrito de seu novo
livro com David Wengrow, The Dawn of Everything (“O amanhecer de
tudo” em tradução livre). Ele o enviou para mim com seu eufemismo
característico, dizendo: “Este é, hmmm, meio longo”. Mas quando respondi a
mensagem, pasmo com o quão elegante sua escrita era — como se fosse possível
para ele ser ainda mais eloquente do que em seu trabalho anterior — ele se
iluminou com entusiasmo. “Você já chegou à parte sobre Kandiaronk?? É incrível
que ninguém tenha ouvido falar dele…” E ele ia embora.
David sempre me dizia que seu livro favorito escrito pelo
meu pai era Post-Scarcity Anarchism (“Anarquismo Pós-Escassez” em
tradução livre). Isso não era coincidência. David era um verdadeiro utópico: e
aquele trabalho do início da década de 1970 estava transbordando da promessa de
um novo mundo possibilitado pelos saltos extraordinários na tecnologia e pelo
idealismo de uma contracultura que exigia que fizéssemos o impossível. Todos os
dias, David concretizava essa visão pessoal, durante uma vida inteira de
estudos, análises e ativismo. Essa visão se mostrava especialmente em seu intenso
comprometimento com o projeto curdo em Rojava, uma sociedade em grande parte
sem Estado que para David provava que a democracia de assembleia poderia
funcionar até em grande escala. Ele ficou profundamente frustrado porque a
esquerda mais ampla não incluiu Rojava com mais força, também.
A bondade de David surgiu naturalmente para ele, e ele nos
presenteou com muito. É inacreditavelmente doloroso acreditar que ele se foi.
Ele tinha uma crença vibrante nas possibilidades inexploradas da imaginação humana
e nunca perdeu seu otimismo de que nós teríamos sucesso em criar uma sociedade
digna do melhor em nós. Acho que ele poderia nutrir esse sonho até nas piores
circunstâncias, porque em suas próprias ações, ele exemplificava a própria
humanidade com que ele sonhava. A abertura e a vontade de David de estar
presente com quem quer que estivesse na sala eram como um alívio, uma bondade
que ele projetava inocentemente para o mundo. Parecia que ele poderia sozinho
corrigir as injustiças da sociedade simplesmente sendo quem ele era. Esse sonho
vai viver em sua enorme obra. Cabe ao resto de nós trazê-lo à vida.
Tradução > Brulego
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agência de notícias anarquistas-ana
As águas silentes
E a névoa sobre o capim —
Entardece agora.
Buson
segunda-feira, 21 de setembro de 2020
O neoliberalismo e a falácia da modernização - por Beatriz Contelli
O neoliberalismo e a falácia da modernização
Sustentado pela fábula do empreendedorismo, é conveniente ao
neoliberalismo que o trabalhador tenha a ilusão de não estar sendo explorado e
carregue em si a promessa de uma suposta autonomia e independência. Sob o signo
da flexibilidade, os trabalhadores estão cada vez mais subordinados ao capital,
o vínculo empregatício e a proteção social desaparecem e mascara-se a
exploração da mais-valia.
Encabeçado pela retórica do laissez-faire, o neoliberalismo
propaga uma suposta liberdade individual e econômica que aos olhos de muitos
entusiastas chega quase a ser perfeita. Aliada de políticas antipopulares, esta
doutrina dissemina uma modernização que além de excludente, agride diretamente
a ampliação da oferta de serviços públicos, a preservação dos povos
originários, a conquista de direitos trabalhistas, entre outros segmentos
essenciais da sociedade.
O neoliberalismo, ao imprimir uma marca não apenas na esfera
econômica, mas também na forma como se vê o público em relação ao privado,
reconfigura uma noção de que o primeiro é ineficiente e oferece serviços
precários, enquanto o segundo é sinônimo de eficiência e qualidade.
Os ataques sistemáticos à educação, do ensino básico ao
ensino superior, sob a escusa do desenvolvimento tecnológico e da necessidade
de adaptação do ensino às demandas do mercado, é uma ofensa à educação pública,
gratuita e de qualidade, direitos estes reservados pela Constituição.
Em 2012 falava-se da aprovação da Lei de Cotas nas
universidades. Em 2019 o assunto já era sobre um tal programa Future-se,
que ao usar terminologias como “inovação” e “incubadoras de startups”, escondia
seu real objetivo: ser o primeiro
passo para a privatização das universidades e contribuir
para a mercantilização da educação.
Assim como o ensino, o transporte público está entre os
segmentos mais afetados pelas políticas de privatização. Diferente do que foi
defendido por muitos, o setor privado não garante mais conforto e eficiência
aos passageiros dos transportes coletivos. Com uma arquitetura que não comporta
o número de usuários – observado principalmente nos horários de pico – as
estações do Metrô decorrentes das parcerias público-privada (PPP) não só
tiveram suas obras atrasadas, como exigiram gastos públicos exorbitantes,
favorecendo a degradação de estações que não fazem parte das PPP.
Caminhando ao lado da educação e dos transportes, as
questões ambientais tiveram seus problemas aprofundados e suas soluções
invisibilizadas pelo neoliberalismo. Poluição acentuada, extração elevada de
recursos naturais, desmatamento crescente e até mesmo extermínio de povos
nativos e negação de direitos básicos como acesso à água potável, se mostram
interessantes para a doutrina neoliberal que aprofunda a problemática ambiental
e social.
Com a privatização da água vem junto o aumento de preço, o
que impede o acesso da população mais pobre. Com o aumento da desigualdade
social, quem tem dinheiro compra água potável, quem não tem se contenta com
água contaminada. E não para por aí: a privatização da água resulta em
consequências para o meio ambiente. Característica de países subservientes, a
redução de leis ambientais torna a privatização ainda mais atrativa aos olhos
dos investimentos estrangeiros.
O sucateamento das regulações ambientais tem efeitos
perversos. Ela provoca um aumento contínuo de garimpeiros, madeireiros e
conglomerados estrangeiros ilegais, que envenenam solos e rios, e traz consigo
o genocídio de tribos como os yanomamis, os kanamaris e os guaranis, tratados
com descaso por autoridades federais.
No campo do trabalho não seria diferente. Dotado de uma
busca brutal por produtividade, o neoliberalismo destrói a força humana que
trabalha ao difundir a desregulamentação, a flexibilização e a terceirização. A
nova dinâmica do desenvolvimento do capitalismo cria uma condição de
insegurança e um modo de vida e de trabalho precários, produzindo o incremento
da informalidade associada à perda de identidade individual e coletiva.
Sustentado pela fábula do empreendedorismo, é conveniente ao
neoliberalismo que o trabalhador tenha a ilusão de não estar sendo explorado e
carregue em si a promessa de uma suposta autonomia e independência. Sob o signo
da flexibilidade, os trabalhadores estão cada vez mais subordinados ao capital,
o vínculo empregatício e a proteção social desaparecem e mascara-se a exploração
da mais-valia.
Assim como tudo o que é sólido desmancha no ar, o
neoliberalismo e sua falaciosa modernização devastam subjetividades e economias
por onde passam. Palco de experimentos fracassados, a América Latina sofre os
efeitos desse discurso que ao propagar a modernização, na verdade reforça sua
servidão em relação aos países centrais.
O desmonte dos serviços públicos, a degradação do meio
ambiente, a precarização do trabalho, o aumento da concentração de renda, a
hegemonização dos monopólios, a disseminação de preconceitos e violências, o
desprezo pelas políticas sociais, fazem parte da lógica da austeridade fiscal,
que característica da agenda neoliberal, valorizam a liberdade em detrimento da
igualdade.
Aproveitador de cenários instáveis, o neoliberalismo
perpetua a herança colonial dos países subdesenvolvidos e torna os interesses
do capital como essencial para o seu desenvolvimento e efetivação. O
neoliberalismo é perverso, é genocida, é
agressivo, é totalitário, é produto de governos e empresas que
concentram privilégios, excluem a voz das maiorias nas decisões e colocam o
Estado cada vez mais a serviço de objetivos elitistas, que deliciam-se com uma
bonança sem precedentes enquanto os povos das nações mais atrasadas do mundo
são arrasados por pobreza e opressão absolutas.
Fonte: https://lavrapalavra.com/2020/09/17/o-neoliberalismo-e-a-falacia-da-modernizacao/









