quarta-feira, 14 de julho de 2010

Nuvens negras sobre o Irã - por Noam Chomsky

Nuvens negras sobre o Irã


Que o Irã não tem uma política agressiva nem pretende avançar para a bomba nuclear, até o Pentágono reconhece em um relatório ao Congresso dos EUA de abril passado. No entanto, isso não impede os EUA de ameaçarem o país com uma invasão devastadora, recorrendo até ao armamento nuclear.

A grave ameaça do Irã é a mais séria crise da política externa que enfrenta a Administração Obama. O Congresso acaba de endurecer as sanções contra aquele país, com penas mais pesadas às companhias estrangeiras que ali negociarem. A Administração expandiu a capacidade ofensiva dos EUA na ilha africana Diego Garcia, reclamada pelo Reino Unido, que expulsou a população a fim de que os EUA pudessem construir uma grande base para atacar o Médio Oriente e a Ásia Central.

A Marinha estaduniense informou que tinha enviado para a ilha equipamento para apoiar os submarinos dotados de mísseis Tomahawk, com capacidade para transportar ogivas nucleares. De acordo com o relatório de carga da Marinha, apanhado pelo Sunday Herald, de Glasgow, o equipamento militar inclui 387 destruidores de bunkers para fazerem explodir estruturas subterrâneas reforçadas. "Estão ativando a engrenagem para destruir o Irã", disse a esse jornal o diretor do Centro de Estudos Internacionais e Diplomáticos da Universidade de Londres, Dan Plesch. "Os bombardeiros e os mísseis de longo alcance dos EUA estão preparados para destruir 10.000 objetivos no Irã em poucas horas". A imprensa árabe informa que uma frota estadunidense (com um navio israelense) passou recentemente o canal do Suez a caminho do Golfo Pérsico, com a missão de fazer "aplicar as sanções contra o Irã e supervisionar os barcos que entram e saem desse país". Alguns meios de comunicação britânicos e israelenses informam que a Arábia Saudita está a providenciar um corredor aéreo para um eventual bombardeamento israelense ao Irã (o que os sauditas negam).

No seu regresso de uma visita ao Afeganistão para tranquilizar os seus aliados da Otan depois da demissão do general Stanley McChrystal, o almirante Michael Mullen, responsável máximo da Junta de chefes de Estado-Maior, visitou Israel para se encontrar com o chefe de Estado-maior das Forças de Defesa israelenses, Gabi Ashkenazi, e continuar um diálogo estratégico anual. A reunião centrou-se na "preparação de Israel e dos Estados Unidos perante a possibilidade de um Irã com capacidade nuclear", de acordo com o Haaretz, que, além disso, informou que Mullen tinha enfatizado: "Procuro sempre ver os desafios numa perspectiva israelense".

Alguns analistas descrevem a ameaça iraniana em termos apocalípticos. "Os EUA deverão enfrentar o Irã ou entregar o Oriente Médio" adverte Amitai Etzioni. Se o programa nuclear se concretiza, disse, a Turquia, a Arábia Saudita e outros Estados "mover-se-ão" em direcção á nova "superpotência" iraniana. Numa retórica menos acalorada, isso significa que poderia dar forma a uma aliança regional independente dos EUA.

No jornal do Exército estadunidense Military Review, Etzioni pressiona os EUA para um ataque não só contra as instalações nucleares do Irã, mas também contra os seus ativos militares não nucleares, incluindo infra-estruturas – isto é, sociedade civil. "Este tipo de ação militar é semelhante às sanções: provocar danos com o objetivo de mudar posturas, ainda que por meios mais poderosos", escreve.

Uma análise autorizada sobre a ameaça iraniana é dada pelo relatório do departamento de Defesa dos EUA apresentado ao Congresso em abril passado. Os gastos militares do país são "relativamente baixos em comparação com o resto da região" sustenta o documento. A doutrina militar do Irã é estritamente "defensiva (…) concebida para atrasar uma invasão e forçar uma solução diplomática das hostilidades". O relatório diz ainda que "o programa nuclear do Irã e a sua vontade de manter aberta a possibilidade de desenvolver armas nucleares (são) uma parte central da sua estratégia de dissuasão".

Para Washington, a capacidade dissuasória do Irã é um exercício ilegítimo de soberania que interfere nos desígnios globais dos EUA. Concretamente, se ameaça o controlo estadunidense dos recursos energéticos do Oriente Médio. Mas a ameaça do Irã vai mais além da dissuasão. Teerã também está procurando expandir a sua influência na região, o que é visto como um fator de "desestabilização", presumivelmente em contraste com a "estabilizadora" invasão e ocupação militar estadunidense dos vizinhos do Irã. Para além desses crimes – prossegue o relatório do Pentágono –, o Irã está apoiando o terrorismo com o seu apoio ao Hezbollah e ao Hamas, as maiores forças políticas do Líbano e da Palestina (se é que as eleições contam).

O modelo de democracia no mundo muçulmano, apesar dos seus sérios defeitos, é a Turquia, que tem eleições relativamente livres. A Administração Obama indignou-se quando a Turquia se aliou ao Brasil na procura de um compromisso com o Irã para que restringisse o seu enriquecimento de urânio. Os EUA minaram rapidamente o acordo promovendo uma resolução do Conselho de Segurança da ONU com novas sanções contra o Irã, tão carentes de sentido que a China logo as apoiou alegremente, assumindo que, quando muito, impediriam os interesses ocidentais de concorrer com a China nos recursos do Irã. E sem qualquer surpresa, a Turquia (tal como o Brasil) votou contra a iniciativa dos EUA. O outro membro do Conselho de Segurança da região, o Líbano, absteve-se.

Estas atuações provocaram ainda maior consternação em Washington. Philip Gordon, o diplomata mais prestigiado da Administração Obama em assuntos europeus, advertiu a Turquia que as suas acções não são compreendidas nos EUA e que deveria "demonstrar o seu compromisso de parceiro do Ocidente", segundo informou a Associated Press. Uma admoestação rara a um aliado crucial da Otan. A classe política também assim pensa. Steven A. Cook, um perito do Conselho de Relações Exteriores, defende que a pergunta crítica é: "Como manter os turcos dentro dos carris?" - ou seja, como bons democratas obedecerem às ordens.

Não há indícios de que outros países da região sejam mais favoráveis às sanções promovidas pelos EUA que às posições da Turquia. O Paquistão e o Irã, reunidos em Ancara, assinaram recentemente um acordo para um novo gasoduto. O mais preocupante para os EUA é que o gasoduto possa estender-se à Índia. O tratado de 2008 entre os EUA e a Índia, apoiando os seus programas nucleares, pretende evitar que este país se una ao gasoduto, de acordo com Moeed Yusuf, um assessor em assuntos subasiáticos do Instituto da Paz dos EUA.

A Índia e o Paquistão são dois dos três países que recusaram assinar o Tratado de Não Proliferação (TNP). Israel é o terceiro. Todos eles desenvolveram armamentos nucleares com o apoio dos EUA, e continuam a fazê-lo.

Ninguém de bom senso quer que o Irã, ou qualquer outro país, desenvolva armas nucleares. Uma maneira óbvia de mitigar ou eliminar esta ameaça consiste no estabelecimento de uma zona livre de armas nucleares no Médio oriente. Este tema foi levantado (uma vez mais) na conferência do TNP nas Nações Unidas no início de março passado. O Egito, como presidente do Movimento dos Não Alinhados – constituído por 118 países – propôs que a conferência apoiasse um plano de início das negociações em 2011 propôs um Oriente Médio livre de armas nucleares, como foi acordado pelos países ocidentais, incluídos os EUA, na conferência do TNP de 1995. Formalmente, Washington ainda está de acordo, mas insiste que Israel fique isento – e não há qualquer elemento que permita dizer que as deliberações do pacto se apliquem aos EUA.

Em vez de dar passos efetivos para a redução da escaldante ameaça de proliferação de armas nucleares no Irã ou em qualquer outra parte, os EUA movimentam-se no sentido do seu controle das vitais regiões produtoras de petróleo do Médio Oriente, de forma violenta, se não puder ser de outra maneira.

* Noam Chomsky é professor de linguística do MIT (Massachusetts Institute of Technology).
Este texto foi publicado no diário espanhol Público e pode ser consultado em http://blogs.publico.es/noam-chomsky/10/nubes-de-tormenta-sobre-iran/
Tradução de José Paulo Gascão para ODiario.info.
Fonte: http://www.revistaforum.com.br/

Ativista contra a caça às baleias é condenado no Japão - por Tomi Mori

Ativista contra a caça às baleias é condenado no Japão

Bethune, capitão do Ady Gil, uma embarcação da Sea Sheperd Conservation Society, organização ecológica que luta contra a caça às baleias, foi preso e julgado por atacar uma embarcação japonesa no Oceano Antártico.

Por Tomi Mori
O ativista Peter Bethune, da Nova Zelândia, foi condenado, na quarta-feira, pelo tribunal de Tóquio a dois anos de prisão, suspensa por cinco anos. Bethune, capitão do Ady Gil, uma embarcação da Sea Sheperd Conservation Society, organização ecológica que luta contra a caça às baleias, foi preso e julgado por atacar uma embarcação japonesa no Oceano Antártico. Ele foi condenado por ter lançado, junto com outros membros da organização, uma garrafa de ácido butírico no Shonan Maru 2, embarcação da frota que caçava baleias, obstruindo as atividades e ferindo um tripulante de 25 anos, no dia 11 de fevereiro. No dia 15 de fevereiro, Bethune cortou uma rede de um barco com uma faca e subiu a bordo.

O ativista recebeu suspensão da pena por afirmar que não participará de outras atividades no Oceano Antárctico e por ter pago a rede danificada. Bethune alegou que não tinha intenção de ferir ninguém. Mas o juiz disse que o ativista tinha consciência de que a garrafa poderia ferir os tripulantes. No veredito final, o juiz Takashi Tawada proferiu: “O incidente fez parte do comportamento violento e obstrutivo da Sea Sheperd, em desafio a resoluções e linhas da International Whaling Comission, que não permite tais acções obstrutivas.”

Após o julgamento, Peter Bethune foi transferido para instalações da imigração japonesa como suspeito de entrada ilegal, já que não portava passaporte quando subiu na embarcação nipônica. Após passar pela imigração, o ativista foi deportado.

Práticas e tradições
O Japão é um dos poucos países que continua a caçar baleias cinicamente, alegando que são para pesquisas cientificas. Mas a utilização da carne de baleia, que faz parte da cultura japonesa e era consumida anteriormente pela população de mais baixa renda, continua ainda a ser praticada no país. Encontra-se carne da baleia em mercados e existem restaurantes especializados nessa duvidável iguaria.

Não se pode passar por cima das tradições culturais de um pais de maneira irrefletida ou ditatorial, como acontece em muitos casos. Mas também as tradições existem para serem mudadas, principalmente com a evolução social e as mudanças de época. Nos dias de hoje, ninguém conseguiria defender o canibalismo alegando que fez parte da tradição desta ou de outra tribo. Também não se justifica, com o avanço da consciência ecológica na sociedade atual, continuar a comer baleias, cães, macacos e outros animais.

O Japão tem fome voraz não só em relação às baleias, como também tem dizimado a população mundial de atuns do planeta. O atum é uma alimentação popular e faz parte da dieta japonesa, mas chegamos a uma situação em que esse peixe pode ser exterminado da face do planeta, se se continua a comê-lo indiscriminadamente.

Tempos atrás, também se falou de que a fome pelas enguias, que são bastante consumidas no país, estava acabando com as populações europeias, que estavam sendo pescadas e exportadas para a China, para lá serem processadas e exportadas para o Japão.

Não conheci uma pessoa em toda a minha vida que defenda um tubarão, mas no Japão essa espécie sofre um violento crime, já que milhares são mortos, retiram-lhes apenas as famosas barbatanas, utilizadas nos restaurantes de comida chinesa e o restante é atirado para o lixo. Pode-se defender tal prática, mesmo alegando que a sopa de barbatana de tubarão é um prato que faz parte da cultura chinesa e também do cardápio japonês? Infelizmente, os tubarões, que possuem má fama, não têm amigos que os defendam.

O resultado do julgamento, se é que se pode dizer isso, foi recebido com alívio pelas organizações ecológicas. Na Nova Zelândia, e em outras partes do globo, os ativistas consideram Bethune um herói.

Fonte: Esquerda.net.

FALUJA , PIOR QUE HIROSHIMA - Por Layla Anwar

FALUJA , PIOR QUE HIROSHIMA - Por Layla Anwar


http://arabwomanblues.blogspot.com/%E2%80%A6

A informação que me acaba de chegar é demasiado importante para ser deixada de lado, nem um segundo… me ponho pois a elaborar este escrito aceleradamente.
Acabo de ver, na o-Jazeera Arabic, no programa de Ahmad Mansour a entrevista com o Professor Chris Dusby.
O Professor Busby é cientista e Diretor de Green Audit, bem como secretário científico do Comité Europeu sobre Riscos Radioactivos.
Para conhecer mais dados sobre o Professor Chris Busby e seus trabalhos, digitem em Google “Chris Busby Uranium“.
O Professor Busby publicou muitos artigos sobre a radiacão, o urânio e a contaminação em países tais como Líbano, Kosovo, Gaza e, por suposto, Iraq.
Seus últimos trabalhos, são os temas que se ocupou o programa emitido na Al Jazeera, e serão os que eu abordarei nestas linhas:

Faluya é uma cidade proibida. Foi submetida a intenso bombardeios em 2004 com bombas de urânio empobrecido e fósforo branco, e desde então declararam-na zona perigosa, o que significa que nem as autoridades fantoches de Iraque nem as forças invasoras/ocupantes de EEUU permitem que ninguém possa realizar nenhum estudo real do que ali sucede.

Faluya está basicamente sob assédio. É óbvio que os estadounidenses e os iraquianos sabem algo e que tratam do ocultar ao conhecimento público. E aí é onde o Professor C. Busby entra em cena.
Mas ele foi/é inflexível na busca da verdade do que ocorreu em Faluya em 2004. Por ser um dos melhores cientistas em seu campo, conseguiu uma pesquisa e passou a dirigir uma investigação em Faluya, cujos resultados preliminares publicar-se-ão em duas semanas, confio…

O Professor Busby encontrou muitos obstáculos para poder levar a cabo este projeto. Nem ele nem nenhum membro de sua equipa se lhes permitiu aceder a Faluya para realizar as entrevistas. Mas ele disse que quando a porta principal se fecha, um tem que tentar que outras portas se abram. E isto foi o que fez. Conseguiu reunir uma equipa de iraquianas de Faluya para que dirigissem as entrevistas por ele.
O projecto de investigação baseou-se em 721 famílias de Faluya com 4.500 participantes, que viviam tanto em zonas nível de radiação alto como baixo. Os resultados compararam-se com um grupo de controle: uma mostra composta pelo mesmo número de famílias que vivem numa zona não radiativa em outro país árabe. Para o estudo, elegeu outros três países para levar a cabo tal comparação: Kuwait, Egito e Jordânia.
Antes de entrar nos resultados preliminares, devo assinalar o seguinte:
As autoridades iraquianas ameaçaram a todos os participantes desta investigação com prisões e detenções se cooperassem em participar das entrevistar. Isto é, ameaçou àqueles que respondessem aos terroristas com leis anti-terroristas.
As forças estadunidenses proibiram ao Dr. Busby que recolhesse qualquer dado, sustentando que Faluya é uma zona insurgente.
Os doutores de Faluya recusaram sair ao vivo no programa de Ahmad Mansour porque tinham recebido ameaças de morte e temiam por suas vidas.
Isto é, o estudo levou-se a cabo em condições muito difíceis e com ameaças de morte. Não obstante, seguiu-se adiante.

Como não se tem descargado o programa em Youtube, não posso transcrever a entrevista palavra por palavra. Tomei breves notas a mão e memorizei o resto. Mas farei o melhor para apresentar todos os fatos que se relataram hoje.

O que os EEUU e seus fantoches iraquianos não querem que a gente saiba? E por que não permitem que se realize nenhuma medição dos níveis de radiação em Faluya e por que, inclusive, proibiram à Agência Internacional de Energia Atômica que entre em Faluya? O que se passou exatamente em Faluya? Que tipo de bombas utilizaram? Foi só urânio empobrecido ou teve algo mais?
Um aspecto que é muito característico de Faluya é que os índices de câncer têm aumentando de forma espetacular num espaço muito curto de tempo desde 2004. Exemplos oferecidos pelo Dr. Busby:
· O índice de leucemia infantil é 40 vezes mais alto desde 2004, que em anos anteriores. E comparado com Jordânia, por exemplo, é 38 vezes mais alto.
· A taxa de câncer de mama é 10 vezes superior à de 2004.
· A taxa de câncer linfático é também 10 vezes maior desde 2004.

Outra peculiaridade de Faluya é o imenso aumento nas taxas de mortalidade infantil. Comparadas com outros dois países árabes como Kuwait e Egito, que não têm contaminação radiativa, estas são as cifras:
A taxa de mortalidade infantil em Faluya é de 80 meninos em cada mil nascidos, em comparação com Kuwait, onde se dá a cifra de 9 em cada mil e no Egito é de 19 em cada mil (por tanto, a taxa de mortalidade infantil iraquiana é quatro vezes mais alta que a do Egito e nove vezes mais alta que do Kuwait).

A terceira peculiaridade de Faluya é a cifra de deformidades genéticas que tem aumentado desde 2004. Esta é uma questão que já me referi no passado. Mas hoje aprendi algo mais. A radiação com qualquer dos agentes utilizados pelas “forças de libertação” não só causa deformidades genéticas em massa senão também e isto é muito importante:
· Causa mudanças estruturais a nível celular.
· O que por sua vez provoca, devido à composição genética dos bebes masculinos (carência do cromossomo X), que os meninos corram maior risco de morte, enquanto é mais provável que as meninas sobrevivam ainda que com deformidades graves.

E há outro exemplo oferecido pelo Dr. Busby:
Antes de 2003, as taxas de nascimento em Faluya eram as seguintes: 1.050 meninos em frente a 1.000 meninas. Em 2005, só nasceram 350 meninos em frente a 1.000 meninas, o que significa que os bebes meninos não estão a sobreviver.
Quanto às meninas e aí é onde a tragédia aumenta… a radiação causa mudanças a nível de DNA, o que significa que essas mesmas meninas, se conseguirem sobreviver e se reproduzem-se mais tarde, darão a luz meninas geneticamente deformadas e meninos mortos.
Os dados expostos apoiam-se em outros estudos realizados com meninos e netos dos sobreviventes de Hiroshima (no ano de 2007), que mostram que inclusive a terceira geração apresenta malformações genéticas, incluídas diversas doenças (câncer, cardíacas, etc…) numa proporção 50 vezes superior.
Por outra parte, em Chernobyl, os estudos realizados com os animais nessa área mostraram que os efeitos da radiação modificaram geneticamente 22 gerações.

Em resumem, a radiação transmite-se de gene a gene e tem uma efeito acumulativo com o tempo (não vou entrar aqui em como essas células se acumulam e guardam memória e afetam ao sistema imunológico).

(Poderão ler mais detalhes sobre o tema uma vez que se publique o documento do professor Busby.)

Algumas das deformidades que apresentam os bebes são tão grotescas que tanto Al -Jazeera como a BBC, que produziram um documentário sobre o mesmo tema, se negaram a mostrar as fotos a seus telespectadores. Os exemplos de deformidades dos que Ahmad Mansour tem fotografias são:
Bebês nascidos sem olhos.
Bebês nascidos com dois e três cabeças.
Bebês nascidos sem orificios.
Bebês nascidos com tumores malignos no cérebro e nos olhos.
Bebês nascidos sem determinados órgãos vitais.
Bebês aos que lhes faltam extremidades ou têm mais das normais.
Bebês nascidos sem genitais.
Bebês nascidos com malformaciones cardíacas.
E mais casos ainda…

Sobre esse mesmo assunto, com motivo do estudo, pediu-se-lhes aos doutores de Faluya que indicassem as taxas de defeitos de nascimento no espaço de um mês e que o comparassem com o mês anterior e este é o resultado:
no espaço de só um mês, os nascimentos com defeitos aumentaram de um por dia (no mês anterior) para três por dia (no mês objeto do estudo, que foi o de fevereiro de 2010).
O urânio transmite-se a corrente sanguínea através da ingestão e a inalação. Se estudou e se controlou, também, o nível em massa de urânio encontrado nas pessoas de Faluya, devido ao aumento vertiginoso de gânglios linfáticos e pulmonares e câncer de mama em adultos.
Com estes achados preliminares, o Professor Busby e sua equipa chegaram à conclusão de que, em comparação com Hiroshima e Nagasaki, a situação de Faluya era pior.
E aqui cito textualmente ao Dr. Busby: “A situação em Faluya é terrível e horrenda, é mais perigosa e pior que a de Hiroshima …”
Por outra parte, e muito relacionado com o anterior, mencionei que estes são resultados preliminares, por que?

Porque o Professor Busby foi perseguido e os fundos da pesquisa foram cortados, fundos necessários para a investigação, deram-lhe com muitas portas no nariz, ameaçaram-lhe (o mesmo se passou com outros cientistas que tentaram levar a cabo estudos similares na década dos noventa em Iraque) e a comunidade científica lhe abandonou, todo isso devido à natureza de seu trabalho em Iraque.

Os envolvimentos políticos são enormes e perigosos para EEUU e seus aliados. Significa que as provas científicas de crimes de guerra estão aí, ao nosso alcance…

A vida do Professor Busby converteu-se em algo cheio de dificuldades.
Enviou à revista Lancet o documento de investigação que tantas penas lhe custou dirigir e elaborar para que o revisassem a nível de Comitê científico, mas Lancet devolveu-lhe dizendo que não tinham tempo do revisar.
Os laboratórios que cooperaram no passado para examinar as mostras, as recusaram quando souberam que vinham de Iraque. Só dois laboratórios estiveram dispostos a examinar as mostras do AGENTE/MATERIAL EXATO UTILIZADO EM FALUYA, e foi só em função de um preço exorbitante, preço justificado pela causa da natureza sensível do estudo. Também devido à carência de fundos, o Professor Busby tem 20 mostras de Faluya para examinar, que guarda zelosamente, esperando receber os fundos necessários para poder faze-lo.

Quando Ahmad Mansour, o entrevistador, lhe perguntou sobre o que lhe fazia perseverar ante os enormes obstáculos enfrentados, sua resposta foi esta: “Durante toda minha vida não fiz senão procurar a Verdade, sou um caçador da Verdade numa selva de mentiras. Também tenho filhos. Os filhos não são só nosso futuro, são os transmissores das gerações futuras. Levamos cinqüenta anos contaminando o planeta (com radiações) e essa é a herança que estamos transmitindo a nossos filhos e netos. Devemos isso ao povo de Faluya, temos que encontrar a Verdade.”
Quando perguntou como consegue se arranjar sem fundos e com todas as portas se fechando para ele, sua resposta foi:

“Confio na boa vontade da gente que envia pequenas somas por aqui e por lá, e também creio firmemente que se uma porta se fecha, outras se abrem, ainda que sejam mais pequenas. Quando há vontade para fazer algo, se encontra algum caminho.”
Tiro o chapéu para o Professor Busby. Insto a todas as pessoas que envie este escrito, a toda a gente de consciência, insto a todos para que contatem com o Professor Busby e doem-lhe o que possam para que as mostras de Faluya sejam examinadas e possa se descobrir a Verdade. E acabarei estas linhas com uma cita final deste grande homem lutador:“A Verdade tem umas asas que ninguém pode cortar”

Tenho que acabar aqui. Já está amanhecendo. Queria mostrar isto ao mundo… a pergunta que me levo à cama, se é que posso fechar os olhos, é a mesma que me estou a fazer desde 2003, por que? Que fez o povo iraquiano, que fizeram os meninos iraquianos para merecer todo isso…? As conseqüências são aterradoras…

URL del artículo : http://www.cubadebate.cu/noticias/2010/07/08/faluya-peor-que-hiroshima-video/

"Rompa el aislamiento. Vuelva a sentir la satisfacción moral de un acto de libertad... Haga circular esta información".
Rodolfo Walsh

Retirado: http://somostodospalestinos.blogspot.com/

Estado Assassino: Israel derruba casas de palestinos em Jerusalém Oriental - por Pedro Aguiar

Israel derruba casas de palestinos em Jerusalém Oriental - por Pedro Aguiar

Crianças palestinas observam local onde ficava uma das casas destruídas por Israel-EFE

Autoridades de Israel destruíram três casas de famílias palestinas em Jerusalém Oriental nesta terça-feira (13/7), um dia depois que foi aprovada a construção de 32 novas residências de judeus no lado da cidade que fica dentro dos territórios ocupados.

As três moradias palestinas eram barracos humildes - duas delas, ainda em obras - e na remoção foram usadas escavadeiras. Em uma das casas vivia uma família de sete pessoas. De acordo com o jornal israelense Yedioth Ahronoth, todas vinham sendo erguidas irregularmente no bairro de Jabel Mukaber, lado leste da cidade. No total, seis estruturas ilegais foram demolidas em Jerusalém Oriental na terça-feira.

Em outro bairro, Beit Hanina, um fotógrafo da Reuters assistiu a uma família palestina retirar seus pertences da casa antes de a escavadeira israelense invadir e destruir a residência.

A ordem para a remoção partiu da câmara municipal de Jerusalém, administrada pelos israelenses, mesmo órgão que, na véspera, aprovou a construção de 32 apartamentos para judeus em um enclave judaico em Jerusalém Oriental.

"Eles podem construir centenas de assentamentos, mas eu não tenho o direito de morar em um barraco?", questionou a moradora palestina Linda al-Rajabi, citada pelo jornal israelense Haaretz.

Em reação, segundo o Yedioth Ahronoth, os moradores da comunidade Silwan, em Jerusalém Oriental, atiraram pedras contra um veículo israelense no Jardim do Rei, causando pequenos danos. Um jipe da guarda de fronteira também foi atacado com pedras. Não houve feridos.

De acordo com o Haaretz, desde o final de 2009 não ocorriam demolições de casas palestinas na cidade, ações que são internacionalmente condenadas.

Todos os assentamentos em terras que Israel ocupou em 1967 são ilegais sob a lei internacional.

Mais assentamentos
Ontem, o jornal noticiara que autorização para novos assentamentos judaicos fora dada pela comissão de planejamento municipal de Jerusalém, apesar da oposição declarada do governo dos Estados Unidos a novas construções na parte leste da cidade, além da chamada "linha verde".

A autorização foi para o assentamento de Pisgat Ze'ev, em Jerusalém Oriental, que é isento do congelamento. A mais 48 unidades habitacionais deverão ser aprovadas na próxima semana.

"Vamos continuar a planejar e construir em todos os bairros desta cidade e não vamos permitir que forças externas para intervir", disse Eliseu Peleg, um membro da Secretaria Municipal de Planejamento de Jerusalém e do comitê de construção.

Fonte: Opera Mundi

terça-feira, 13 de julho de 2010

Sartre ou a liberdade - por Eliades Acosta Matos (Cubarte).

Sartre ou a liberdade

Em uma entrevista concedida por Jean Paul Sartre a Serge Lanfaire [*], publicada por Le Nouvel Observateur, em seu número 188, correspondente à semana do dia 19 a 25 de junho de 1968, o menos importante é sua análise do Maio francês, dessa versão pop daquelas barricadas e daqueles comuneiros que talvez podiam filosofar mal, mas sabiam morrer bem, parafraseando José Martí, quando escrevia sobre os poetas da guerra de 68. Por Eliades Acosta Matos (Cubarte).


Em meio à sua análise do que chamou “a contra-violência”, estudantil e seus implacáveis adjetivos contra De Gaulle (O Velho, o chama), Sartre nos oferece certas definições, quase em chave, do que é, e o que há de ser, a liberdade e o pensamento crítico. Como se trata, do mesmo modo que há 40 anos, de uma assinatura pendente para o socialismo que pretende ser a alternativa do capitalismo decadente, essas palavras em sua boca adquirem um novo brilho, como se tivessem sido pronunciadas para debater hoje, entre as guerras genocidas que Obama continua e as notícias de que a crise econômica global, longe de estar concluída, entra em uma nova fase.

“Se se julga ao que não é julgado – afirma, referindo-se aos professores da Sorbonne, mas intuímos que a toda autoridade – não há verdadeira liberdade”. E não mente.

Sobre o saber, ou seja, o conhecimento, afirma:

“Todo saber que não é constantemente criticado, superando-se e reafirmando-se a partir desta crítica, não tem nenhum valor… O que é o saber? Sempre é alguma coisa nova, que já não é o que se acreditava, porque se realizaram novas observações e novas experiências com métodos e instrumentos melhores. E portanto, estas novas experiências são, por sua vez, discutidas por outros sábios, alguns retardatários e outros mais avançados…“

O caráter eminentemente conflitivo, ou seja, dialético, da cultura, define-se na próxima definição, tão sensível como rotunda. “A cultura só pode transmitir-se, se se deixa que as pessoas, em todos momentos, tenham possibilidade de discuti-la… A única maneira de aprender é discutir. É também a única maneira de fazer-se homem. Um homem não é nada senão um ser que cumpre isto: alguém que é fiel a uma realidade político-social, mas que não deixa de colocá-la em dúvida. Claro está que pode se apresentar uma contradição entre sua fidelidade e sua dúvida, mas isto é algo positivo, é uma contradição frutífera. Se há fidelidade, mas não há dúvida, a coisa não vai bem: deixa-se de ser um homem livre.”

Longe de admitir a domesticação da idade e dos costumes, Sartre nos anuncia:

“A universidade está feita para formar homens capazes de duvidar… Estou seguro de que Raymond Aron nunca duvidou de si mesmo, e, por isso, na minha opinião, é indigno de ser professor… O que Aron faz é pensar sozinho frente à secretária, e pensar o mesmo durante 30 anos… Agora que toda França viu completamente desnudado o Sr. De Gaulle – conclui – é preciso que os estudantes possam olhar Raymond Aron nu. Só lhes devolverão sua roupa se aceitar a crítica…“

Foram ditas as palavras inteligentes, conclusivas. Sartre, o míope, diverte-se e zomba: trata-se de um tema essencial, inevitável: o da Liberdade.
Pois, como se maneja o socialismo com esta santa palavra?

Há respostas vociferantes e também silenciosas. O importante é a constatação de que o normal é a liberdade e o estranho é a tirania. Disso falava Sartre.

O tema da liberdade é um dos temas mais centrais de nossa época. Trata-se de um antes e um depois, como se anuncia. Não haverá paz, nem delicadeza, nem processo natural, senão se tem em conta seu perfil, sua origem, seu desejo…

Não há mais. O socialismo ou é libertário ou não será. Por isso seus inimigos encarniçados tudo fazem para que caiamos na armadilha de limitá-la, na miragem do controle excessivo, da asfixia.

Liberdade e socialismo são a mesma coisa. Por isso nós, socialistas, temos sido, como dizia Martí, portadores de toda a justiça. Seria imperdoável, por carência, mediocridade ou covardia, ficarmos a meio do caminho.

[*] Jean Paul Sartre: “El movimiento estudiantil: una crítica radical de la sociedad , del (entrevista) “68 francés: 40 mayos después”. Editorial Ciencias Sociales y Ruth Casa Editorial
Fonte: http://www.cubarte.cult.cu/paginas/actualidad/conFilo.php?id=15038
Tradução: Lucas Morais.
Fonte: http://passapalavra.info/

[EUA] Novo ataque sinistro e venenoso contra Mumia Abu-Jamal - por ANA


[EUA] Novo ataque sinistro e venenoso contra Mumia Abu-Jamal

Neste ano, 2010, as manobras para matar o jornalista revolucionário afro-americano Mumia Abu-Jamal está se acelerando num ritmo alarmante. Como se não bastasse que, em janeiro, a Suprema Corte dos Estados Unidos revogasse a anulação da pena de morte dele e que procuradores na Filadélfia apresentasse o seu argumento inicial para executá-lo, ademais de um clima de linchamento na Filadélfia com a intensa promoção da estréia (em 21 de setembro) do documentário anti-Mumia “Do cano de uma arma”, agora há um novo ataque sinistro e venenoso contra Mumia Abu-Jamal. E você pode imaginar de onde vem esta ofensiva? De certos líderes do movimento para a abolição da pena de morte nos Estados Unidos!

O Comitê Internacional de Amigos e Família de Mumia Abu-Jamal (ICFFMAJ) e a Coalizão pela Liberdade de Mumia Abu-Jamal em Nova York denunciaram publicamente esta vilania em meados de junho passado, durante o Fórum Social, em Detroit, e em outros locais.

Pessoas como Renny Cushing e Kate Lowenstein consideram Mumia como “uma ameaça ao ‘seu movimento’". Você consegue imaginar por quê? Porque estes falsos líderes abolicionistas procuram cultivar o apoio da Ordem Fraternal da Polícia (FOP) em sua campanha para abolir a pena de morte! Sim, a mesma FOP cujos policiais quase mataram Mumia na noite de sua detenção, em 1981. A mesma FOP que conduz uma campanha de calúnias contra ele e de ameaças e intimidações contra qualquer pessoa ou grupo que revele o mais mínimo apoio a Mumia, e até contra os abolicionistas da pena de morte. A mesma FOP que tem comprado juízes, promotores, deputados, senadores, prefeitos, governadores e presidentes durante 28 anos e meio para assegurar a execução de Mumia.

E quem é este homem que pretendem sacrificar? O autor de seis livros, incluindo o “Ao Vivo do Corredor da Morte”, que tem atraído a atenção internacional para os assassinatos legais cometidos pelos governos estaduais e federal dos Estados Unidos. O autor que, em seus ensaios semanais, coloca um rosto humano nas horrorosas estatísticas sobre a destruição oficial da vida. O preso político mais emblemático do mundo no que diz respeito à aplicação injusta e racista da pena de morte nos Estados Unidos. O preso político responsável pela mobilização de centenas de milhares de pessoas em oposição à pena de morte.

Em seu recente artigo "A política da morte: Puxar Mumia Abu-Jamal para debaixo do carro”, publicado no site "Isto não pode estar acontecendo" http://www.thiscantbehappening.net/node/117, o escritor Dave Lindorff disse que em 4 de março passado, Cushing e Lowenstein deixaram o IV Congresso Mundial Contra a Pena de Morte, em Genebra, na Suíça, em protesto contra a participação, por telefone, de Mumia.

Ele explica o que quase ninguém sabia, que em dezembro de 2009 estes líderes e outros - às costas dos seus órgãos diretivos e membros - tinham assinado um memorando “confidencial" dirigido aos organizadores franceses do Congresso Mundial, que afirma: "Como representantes internacionais do movimento abolicionista estadunidense, discordamos com a participação de Mumia Abu-Jamal, ou dos seus advogados no Congresso Mundial..." Os signatários descrevem-se como "membros estadunidenses do Comitê de Direção da Coligação Mundial Contra a Pena de Morte".

Segundo o mesmo, uma nota da FOP tem "anunciado um boicote de organizações e indivíduos que apóiam Mumia Abu-Jamal”, e por isso qualquer coisa que o Congresso faça para apoiar a sua causa seria "perigosamente contraproducente para o movimento abolicionista nos Estados Unidos".

Lindorff explicou ainda que ao dar conhecimento da nota para alguns membros das Mesas Diretivas cujos líderes o assinaram, as reações variavam entre a consternação e a raiva. Entre aqueles que não tinham conhecimento da nota e que apóiam Mumia Abu-Jamal estão Robert Meeropol, Bill Babbitt, Bill Pelke e Heidi Beghosian do Grêmio Nacional de Advogados, que disse: "O caso de Mumia Abu-Jamal é emblemático das falhas inerentes ao sistema de castigo capital… O fato de que ele está sendo punido por alguns líderes do movimento abolicionista mostra precisamente o que está errado com o sistema - é um sistema escravizado aos caprichos e prejuízos pessoais da polícia, procuradores, juízes e jurados…”

Ao ser entrevistado por telefone, sobre as manobras secretas destes líderes e dos seus planos para conquistar o apoio da FOP, Mumia condenou firmemente os seus esforços para isolá-lo e excluí-lo do movimento abolicionista. "Eles estão fazendo um pacto com o diabo", contou ele. "Como eu sou da Filadélfia, meus instintos me dizem que devem ter recebido dinheiro de alguém, mas ainda não tenho provas disso... Esta ação secreta é uma ameaça para todo o movimento abolicionista. Estão dizendo que não deveríamos lutar, porque a oposição (à Abolição) é demasiado forte. Se você tem essa atitude, por que deveríamos ter um movimento abolicionista?”

E continuou: "Se os abolicionistas da escravatura tivessem adotado essa atitude em 1860, e se tivessem dito, bem, vamos liberar todos os escravos MENOS os rebeldes que tenham um preço sobre a sua cabeça, como Harriet Tubman e Frederick Douglass, ainda teríamos a escravatura hoje em dia".

Mumia comentou, também, que parece que o movimento abolicionista perdeu o seu norte e que deveria ser mais amplo para refletir a população dos corredores da morte dos Estados Unidos, onde quase todos são pobres e onde 53% dos presos condenados à morte não são brancos.

Neste momento crítico, mostre o seu apoio à liberdade de Mumia Abu-Jamal.

• Ajude a organizar uma concentração em frente à embaixada ou consulado estadunidense ou outro local apropriado em sua cidade.

• Participe das atividades de coleta de assinaturas e de divulgação em praças públicas.

• Organize uma projeção do filme “In Prison My Whole Life" ou um evento cultural em sua escola, local de trabalho ou outro espaço. Para adquirir uma cópia do filme com legendas em castelhano escreva para: a_n_a@riseup.net

• Ajude a divulgar os seus escritos.

• Para pressionar Barack Obama a tomar medidas a favor de Mumia:

http://www.petitiononline.com/Mumialaw/petition.html

• Para pressionar o procurador federal Eric Holder a abrir uma investigação sobre as violações dos seus direitos:

http://www.freemumia.com/petitions.html

Fonte: Amigos e amigas de Mumia Abu-Jamal - México

Tradução > Liberdade à Solta

agência de notícias anarquistas-ana

lua alta
céu claro
o som da folha caindo

Alexandre Brito

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Enquanto isso...


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Anticapitalismo e experiência piquetera (1): Genealogia e recuperação das lutas - por Alex Hilsenbeck Filho e Cássio Brancaleone

Anticapitalismo e experiência piquetera (1): Genealogia e recuperação das lutas

Alguns anos após o que pode ser considerado o ápice do conjunto de experiências piqueteras, como se encontra a situação destas organizações e suas lutas atualmente? Que lições preliminares podemos apreender daquilo que pode ser rastreado desta experiência ainda em curso? Por Alex Hilsenbeck Filho e Cássio Brancaleone

Argentina piquetera

A experiência das lutas piqueteras e dos Movimentos de Trabalhadores Desempregados (MTDs) na Argentina, e seus desdobramentos, em finais da década de 1990 e início dos anos 2000, foram percebidos por alguns setores de esquerda como “um dos raios de esperança mais importantes no mundo nos últimos anos” [1], animando leituras que exploravam desde a idéia de um suposto ressurgimento da combatividade (adormecida) do tradicional operariado até à expectativa de inéditas formas de ações coletivas, articuladas por novas matrizes organizativas e identitárias, levadas adiante pela conformação de outras formas de subjetivação social dos grupos subalternos e explorados, em suas demandas por distintas formas de vida.

Mas alguns anos após o que pode ser considerado o ápice deste conjunto de experiências, simbolizado pelas palavras de ordem “Que se vayan tod@s”, em referência direta ao estatuto de degenerescência da classe política institucional, e na sequência dos governos Kirchner, como se encontra a situação destas organizações e suas lutas atualmente? Que lições preliminares podemos apreender daquilo que pode ser rastreado desta experiência ainda em curso?

A economia argentina nas últimas décadas vem sofrendo momentos cíclicos de crise e crescimento, e a classe trabalhadora tem criado seus mecanismos de sobrevivência e resistência, às vezes de forma mais ativa e coletiva, outras de forma passiva e individual, combinando ainda estes tipos de ações [2]. Assim, quando o país mergulhava na dívida externa e na hiperinflação (1987), os grupos mais empobrecidos passaram a usar repetidamente o saque como estratégia de sobrevivência. Já com a conjuntura vivida na segunda metade dos anos 1990, com a onda de privatizações e desempregos, claramente estruturais (e não apenas conjunturais), e a consequente crise de mecanismos tradicionais de contenção da luta social, como o pacto corporativo que uniu sindicato e governo/capital desde os anos 1940, os trabalhadores (ainda que, ou, sobretudo por estarem) desempregados, de forma sistemática ou simplesmente reativa, passaram a se pautar por “novas formas” de ação política e social [3].

Muitas dessas ações se caracterizaram por reunir determinados traços, como a espontânea explosividade da tomada das ruas, a conexão entre distintos setores sociais marginalizados, inter e intra-classes, que por circunstâncias se viam como grupos antagônicos ou com doses particulares de aversão recíproca (como o que poderíamos denominar por lumpen no velho linguajar marxista, e os grupos radicais juvenis de classe média, por exemplo), o rechaço à presença ou atuação de lideranças de caráter permanente, que incorporassem funções de mando e disciplinamento, entre outros.

Esses traços justificariam a categorização dessas ações, de um lado, em especial na interpretação de alguns intelectuais de esquerda e ativistas, como uma (nova) onda de combatividade e radicalidade instilada nas lutas sociais e, de outro lado, na visão das forças e intelectuais da ordem, como um emergente ciclo de descontrole social e desarmonização da “normalidade pública”, com manifestações claras de violência que pedem sua imediata contenção a partir da repressão pelo uso de forças policiais e militares [4].

No caso particular dos piqueteros, dada as formas de mobilização que tentam superar as dificuldades de ação no interior das empresas, como os cortes de ruta – que bloqueiam rodovias com barricadas, paralisando a circulação de mercadorias e isolando cidades – o governo se viu forçado a controlar a administração da ação policial, lançando mão de novos contornos de clientelismo com vistas a conter a revolta social. Foi nessa estratégia de assistencialismo e de cooptação política das camadas populares mais combativas que em meados dos anos 1990, durante o governo Menem, principia o pagamento dos planes – subsídios estatais – através de projetos realizados pelas municipalidades e/ou ONGs.

O curioso é que, mesmo sendo uma tentativa governamental de cooptar as lutas dos trabalhadores argentinos, os planes se tornaram um dos elementos da base material que possibilitou a criação dos movimentos de desocupados, ou piqueteros.

Subsídios: entre a cooptação e a criação
Criados como forma direta de assistencialismo e parte de uma estratégia eleitoral, com o duplo objetivo de arrefecer as lutas e criar capital político, os planes foram, num primeiro momento, concentrados na figura dos punteros – uma espécie de sindicalista pelego [fura-greves] – que se tornaram os agentes do governo responsáveis pela sua aplicação nos municípios (pois cabia exclusivamente às prefeituras o pagamento dos planes) e utilizavam critérios arbitrários para o recebimento do benefício.

Somente com a chegada do presidente De la Rua ao poder (1999-2000) operou-se uma mudança nessa situação, pois os piqueteros se aproveitaram dos conflitos entre as forças políticas que apoiavam De la Rua e os peronistas. O novo presidente, para enfraquecer o poder do Partido Justicialista, peronista, descentralizou as políticas sociais e permitiu a muitas ONGs a tarefa de formular projetos comunitários para receber e distribuir os planes. Neste momento, as organizações piqueteras iniciaram um processo para se constituírem como pessoa jurídica e passaram elas mesmas a se encarregar de negociar diretamente com o Estado e distribuir os planes entre seus integrantes, a partir de critérios próprios, conquistando assim uma autonomia relativa que permitiria, através de práticas autogestivas, a superação do uso clientelar da rede peronista, ao utilizar os planes para atender as necessidades básicas do coletivo e o desenvolvimento de empreendimentos produtivos horizontalizados, implementando ou aprofundando estratégias nos bairros, com o propósito de articular a luta por aspectos reivindicativos com aspirações políticas maiores [5].

Através da ação direta e coletiva e a eficácia em forçar negociações por meio dos cortes de ruta e obtenção e controle dos planes, os grupos piqueteros passaram a adquirir relevância no contexto político [6]. Neste sentido, é interessante perceber como os subsídios governamentais foram, e são, utilizados pelas organizações mais radicais não enquanto objetivo final, mas como meio para o desenvolvimento de projetos produtivos e da própria luta pela construção de novas formas de vida, na medida em que “(…) alguns grupos estão passando da luta por trabalho para a criação de trabalho. Ou seja, de formas de vida novas” [7].

O que significa ir para além de explicações simplistas, e demagógicas, de que qualquer auxílio governamental aos setores populares leva consigo necessariamente a passividade e a apatia política e, consequentemente, a diminuição das bases dos movimentos e partidos de esquerda, como se apenas a miséria extrema pudesse mobilizar as pessoas. As causas para o debilitamento e enfraquecimento das lutas sociais e populares devem ser procuradas em questões mais profundas como, por exemplo, a própria falta de um trabalho de base mais duradouro e orgânico às comunidades e às pessoas, ou a perpetuação de estruturas organizativas hierárquicas e burocratizadas, além da fragmentação e incapacidade de união dos grupos de esquerda.

Dentre o conteúdo das práticas desenvolvidas por algumas organizações piqueteras (primordialmente as que se encontram na linha denominada autonomista, por não estarem ligadas e dependentes de partidos políticos, sindicatos ou governos), podemos resumir três eixos básicos, que se articulam em torno da apropriação dos planes. Os piquetes: a ação direta via paralisações de ruas e rodovias como tática de luta reivindicatória e, até mesmo, visando revitalizar espaços públicos[8]; o trabalho autogestivo e comunitário no bairro: como modo de produção material, para estabelecer uma nova relação de trabalho / produção / consumo, alterando o custo / qualidade de vida dos trabalhadores / desocupados / vizinhos, e geralmente ligado às necessidades alimentares (como refeitórios coletivos, granjas comunitárias, padarias); e a dinâmica das assembléias: como forma de organização política interna. As assembléias constituem mecanismos de democracia direta que penetram a maior parte das organizações de desempregados na Argentina, e através delas se produz potencialmente a participação decisiva de todos os membros da organização sobre os temas que lhe são inerentes [9].

Um fator extremamente relevante é que o trabalho nos bairros e comunidades se propõe como produção de novos valores de solidariedade que reconstituam os laços sociais e interpessoais, solapados pelo desemprego, pelo individualismo e por diversas formas de autoritarismo e controle social. Uma das discussões existentes entre distintos grupos de trabalhadores desempregados é em relação ao significado mesmo do trabalho.

No bojo da discussão sobre o papel e a apropriação dos subsídios estatais por parte dos movimentos sociais, encontramos, por um lado, movimentos mais ligados aos partidos de esquerda e sindicatos que reivindicam o “trabalho genuíno”, ou seja, empregos fixos nas fábricas ou em setores de serviço público; e, por outro lado, os movimentos “autônomos” que lutam pelo que denominam “trabalho digno”, isto é, o desenvolvimento de práticas autogestionárias de trabalho, de relações horizontais e igualitárias, em que o trabalho seja executado em decorrência das necessidades concretas da coletividade [10].

Muitos grupos de piqueteros têm claro que não querem voltar a ser como os operários de antes, entre outras razões, porque rechaçam a idéia de trabalhar para um patrão. Tampouco aceitam organizar-se como o fazem os sindicatos, com dirigentes permanentes e uma estrutura piramidal [11].

É significativo o fato de essas organizações serem protagonizadas por trabalhadores desempregados que encontraram como resposta, criativa, para fazer valer suas reivindicações econômicas e políticas, a paralisação da circulação de mercadorias, uma vez que eles não estão no centro do processo produtivo e não podem se valer do recurso de paralisar a produção, num momento no qual o capitalismo, como lógica de mercantilização de coisas e pessoas, se estende por quase todas as regiões da vida social, inclusive o ócio. Talvez, mais que a emergência de novas formas de ação política, o que esteja em curso seja a (re)configuração de outras disposições identitárias, com suas respectivas formas de apropriação e re-significação das organizações existentes e a criação de relações sociais de novo tipo [12].

Pois a perda da identidade de empregado, em decorrência da crise do emprego formal clássico e da incredulidade de que seja possível se re-inserir de forma estável no “mundo do trabalho” traz a questão qualitativa de como se vive essa situação, através de quais formas e estratégias. Adquire relevância, portanto, pensarmos como nessa direção emergem novas formas de vínculos sociais, relações afetivas e comunitárias, no sentido da conformação da autonomia e da horizontalidade como práticas e princípios que passam a (re)organizar as estruturas da vida cotidiana, em suas dimensões social, cultural, econômica e política.

Institucionalização e recuperação das lutas
Na sequência das ações mais radicalizadas de 19 e 20 de dezembro de 2001, e após a renúncia de cinco presidentes, o governo de Eduardo Duhalde universaliza os planos Jefas y Jefes de Hogar Desocupados, que passam então a ampliar seu atendimento de 1% da População Economicamente Ativa em dezembro de 2001, para no ano seguinte atingir 18% desta população, isto é, 2,5 milhões de argentinos [13].

A máquina assistencialista e as políticas de recuperação se mantiveram a todo o vapor durante o governo de Néstor Kirchner (2003-2007), mas ganharam algumas cores diferentes: com o crescimento econômico, a relativa diminuição do desemprego (a partir de sua contenção em massa via políticas de promoção de cooperativas [14]), a retórica antineoliberal, a condenação da violação dos direitos humanos durante a última ditadura militar, a fragmentação e apropriação das lutas a partir da criação de MTDs kirchneristas, adotando a tática de negociações diretas com grupos e dirigentes piqueteros e a liberação de subsídios para os grupos pró-governo, em contrapartida à redução de subsídios e a intolerância e repressão aos grupos autonomistas e opositores [15].

Estes pontos, aliados à criminalização do protesto social, com a estigmatização midiática e política dos piqueteros numa demanda por ordem e normalidade, e a institucionalização governamental do discurso crítico ao neoliberalismo (que fez com que vários militantes se deslocassem para a órbita do governo, alegando uma disputa de poder por dentro do aparato político), somados a erros de análise de organizações de esquerda, fez com que houvesse um acentuado isolamento, deslegitimação e refluxo dos MTDs e das expectativas de uma recomposição política “a partir de baixo” [16].

O capitalismo, como sistema e lógica social, encarnado em determinados atores e grupos sociais, possui mecanismos diversos para se apropriar, controlar, frear e domesticar as lutas sociais, indo da cooptação à repressão mais direta, se valendo, inclusive, da sua combinação em distintas formas. O fato é que para além dos representantes diretos do Estado, dos patrões e gestores de empresas, é comum que ocorra o entrelaçamento destes com os dirigentes sociais, que se transformam em burocratas do movimento e passam a se identificar com, e a representar mais, os interesses do capital do que os dos trabalhadores, dos de baixo. Esta é uma das formas das quais o Estado e as classes dominantes se utilizam para a neutralização das lutas sociais. E o caso argentino é emblemático neste sentido.

Assim, a lógica dos planes, dos punteros e das manzaneras [17] serviu também para instrumentalizar as pessoas e suas lutas, suas aspirações e carências, para a capitalização e promoção de lideranças, que não poucas vezes estão ligadas às estruturas estatais, seja como representantes de políticos ou como candidatos diretos a políticos. Não só pelo assistencialismo se deu a neutralização das lutas, outro meio foi através da incorporação das organizações na própria lógica e estrutura administrativa, fazendo com que sirvam de gestores e intermediadores entre empresas e o Estado (e dependentes do financiamento empresarial-estatal) ou mesmo através da participação direta de seus dirigentes em órgãos governamentais [18].

Desta forma, muitas organizações piqueteras se encontram na delicada relação dialética entre a assimilação via assistencialismo e cooptação, e a capacidade de organização e construção de algo novo a partir dos subsídios governamentais e o autofinanciamento.

Novos caminhos (velhas resistências) para a luta política
As novas formas de ação social e as experiências vividas no ápice da rebelião argentina deixaram suas marcas e lições na vida cotidiana dos setores subordinados e na sociabilidade popular. Mesmo que a rebelião não se encontre vigorosa e reluzente neste momento, deixando de atrair os olhos do turismo militante e da atenção acadêmica de esquerda, no imenso território subterrâneo da sociabilidade popular, no campo da política que James Scott e Barrington Moore Jr. [19] identificaram entre a submissão e a revolta, é possível mapear energias e forças potenciais, pois não se passa de uma rebelião generalizada do nada (como nos dias 19 e 20 de dezembro de 2001, com a experimentação de novas práticas de vida e relações sociais), que derrubou cinco presidentes, para a total subordinação.

De todo modo, na opinião de muitos ativistas e analistas desse processo, existe uma coincidência de opinião acerca do refluxo das lutas piqueteras a partir dos governos Kirchner. Alguns elementos que poderiam ter provocado essa recomposição das organizações e lutas dos desempregados na Argentina de algum modo foram pontuados ao longo deste texto. Nos interessa agora, para a próxima parte, no entanto, dirigir nossa atenção para alguns desses movimentos de desempregados em particular, e, mobilizando essa análise mais específica, avaliar alguns meandros desse processo de reacomodação e reconfiguração das forças anti-sistêmicas tendo no horizonte a experiência piquetera.

Notas
[1]: HOLLOWAY (apud Raul Zibechi. Genealogia de la revuelta – Argentina: la sociedad en movimiento. Buenos Aires: Nordan; Letra Libre, 2003).
[2]: Conferir organograma das formas e combinações de resistência em João Bernardo. Economia dos conflitos sociais. São Paulo, Expressão Popular, 2009.
[3]: Obviamente, são vários os motivos deste processo, como fraturas dentro dos grupos no poder, a mobilização dos de baixo e a incapacidade de respostas dos de cima, a criação de novas redes clientelares, as políticas de alianças dos movimentos etc. (ZIBECHI, 2003).
[4]: É interessante perceber na experiência argentina, em Neuquén, a radicalidade demonstrada por grupos de jovens que sofrem constantemente a repressão policial. Os fogoneros, como ficaram conhecidos, apesar de não participarem assiduamente das assembléias, era o setor mais sólido dos piquetes, fazendo com que, não poucas vezes, as forças repressivas do Estado recuassem. Algo semelhante se passou recentemente com os protestos de jovens franceses filhos de imigrantes, que praticamente não têm ilusões de integrar estavelmente a sociedade européia. E não esqueçamos a “Batalha de Tegeler Weg” na Berlim de 1968, quando em decorrência do julgamento de quatro jovens que haviam incendiado uma loja em protesto contra a guerra do Vietnã (que formariam depois a Facção Exército Vermelho), ocorreu “(…) a pior pancadaria de rua já vista na Alemanha Ocidental. Pela primeira vez, roqueiros unem-se aos estudantes, e a polícia leva a maior surra de toda sua existência. Depois da batalha de Tegeler Weg, os policiais passaram a usar escudos, capacetes e cassetetes maiores, adequados para tumultos” (Tom Vague, Televisionários – A história da Facção Exército Vermelho, mais conhecida (por engano) como Grupo Baader Meinhof. São Paulo: Conrad, 2001. p. 27). Ou as batalhas que protagonizam os jovens dos Panteras Negras, pelos direitos civis nos EUA. O que queremos ressaltar não é a propensão à radicalidade combativa e à rebeldia de uma juventude em abstrato, mas essa potencialidade em um momento histórico concreto no qual seus anseios e aspirações não encontram lugar na estrutura social. O curioso é que os grupos de esquerda não procuram fazer trabalhos de base com essa juventude que é reprimida constantemente nas periferias das grandes cidades, talvez pelo seu teor demasiadamente “autônomo” e “heterodoxo”, que dificulta sua submissão a dirigentes e organizações demasiadamente hierárquicas, e pela total ignorância dos setores intelectualizados e acadêmicos sobre as próprias condições de vida destes grupos de jovens.
[5]: DELAMATA, G. Los barrios desbordados – Las organizaciones de desocupados del Gran Buenos Aires. Universidad de Buenos Aires: 2005.
[6]: SWAMPA, M; PEREYRA, S. Entre la ruta y el barrio. La experiencia de las organizaciones piqueteras. 2ª. Ed. Buenos Aires: Biblos, 2004.
[7]: ZIBECHI, 2003, p. 131(tradução e grifo nosso).
[8]: MANZANO, V. “Piquetes” y acción estatal en Argentina: Un análisis etnográfico de la configuración de procesos políticos. In: GRIMBERG et al. (org.) Estado y movimientos sociales – estudios etnográficos en Argentina y Brasil. Buenos Aires: Editorial Antropofagia, 2009. p. 15-36.
[9]: Ainda que, em concreto, o funcionamento das assembléias admita variantes no tocante às estruturas de autoridade que ali se gestam, bem como distintas formas de entender a participação e o envolvimento individual das bases sociais na organização e graus diferenciados de democracia mais ou menos plasmadas com os princípios de democracia direta.
[10]: FERNANDES, Marco. Quando o desemprego dignifica o homem e a mulher – Lições piqueteras sobre a difícil arte de organizar movimentos populares nas metrópoles neoliberais. Texto enviado por e-mail pelo autor, 2005.
[11]: ZIBECHI, 2003, p. 131 (tradução nossa).
[12]: SWAMPA, M (ed). Desde abajo. La transformación de las identidades social. Buenos Aires, Universidad Nacional de General Sarmiento/Editorial Biblos, 2000.
[13]: SORAIA, C. Lutas sociais, piqueteiros e autonomismo: a experiência político-ideológica da Frente Popular Dário Santillán, Dissertação de Mestrado na Universidade Estadual de Londrina, 2008.
[14]: NOVAES, H (et al) A filosofia da política pública para a promoção do cooperativismo na Argentina (2003-2007): Lições preliminares. s/d. Disponível aqui. Acesso em 09/06/2010.
[15]: Conforme um dos integrantes de um grupo autônomo “durante o governo de Néstor Kirchner, todos podiam fazer piquetes e paralisar as rodovias, menos os grupos piqueteros genuínos e combativos”.
[16]: SWAMPA, 2000.
[17]: Uma das máquinas eleitorais do peronismo, na qual as mulheres eram recrutadas nos bairros, duas a cada quarteirão, e formaram uma rede assistencial que distribuía, todos os dias, gêneros alimentícios para um milhão de pessoas em 50 cidades (SORAIA, 2008).
[18]: Um exemplo emblemático vem a ser a “coligação” entre a Fundação Mães da Praça de Maio e os governos de Néstor e Cristina Kirchiner. Ver aqui.
[19]: MOORE-JR, B. Injustiça: As bases sociais da obediência e da revolta. São Paulo: Brasiliense, 1987; SCOTT, J. Domination and the arts of resistancy, New York, London: Yale University, 1990.
Fonte: http://passapalavra.info/

domingo, 11 de julho de 2010

Observador!


Foto by: Nema Herrero

Imagina isso presidente!

Pedágio derruba mais um jornalista da TV Cultura
08/07/2010

Há uma semana, Gabriel Priolli foi indicado diretor de jornalismo da TV Cultura.

Ontem, planejou uma matéria sobre os pedágios paulistas. Foram ouvidos Geraldo Alckmin e Aloízio Mercadante, candidatos ao governo do estado. Tentou-se ouvir a Secretaria dos Transportes, que não quis dar entrevistas. O jornalismo pediu ao menos uma nota oficial. Acabaram não se pronunciando.

Sete horas da noite, o novo vice-presidente de conteúdo da TV Cultura, Fernando Vieira de Mello, chamou Priolli em sua sala. Na volta, Priolli informou que a matéria teria que ser derrubada. Tiveram que improvisar uma matéria anódina sobre as viagens dos candidatos.

Hoje, Priolli foi demitido do cargo. Não durou uma semana.

Semana passada foi Heródoto Barbeiro, demitido do cargo de apresentador do Roda Viva devido às perguntas sobre pedágio feitas ao candidato José Serra.

Para quem ainda têm dúvidas: a maior ameaça à liberdade de imprensa que esse país jamais enfrentou, nas últimas décadas, seria se, por desgraça, Serra juntasse ao poder de mídia, que já tem, o poder de Estado.

Fonte: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/

Chomsky: os Estados Unidos e a ameaça iraniana

Chomsky: os Estados Unidos e a ameaça iraniana
A capacidade de dissuasão do Irã é vista por Washington como um exercício ilegítimo de soberania que interfere nos desígnios globais dos Estados Unidos. Ameaça, especialmente, o controle dos EUA sobre os recursos energéticos do Oriente Médio, uma alta prioridade dos estrategistas desde a Segunda Guerra Mundial, recursos que rendem frutos como o “controle do mundo”. Além disso, o Irã também estaria buscando expandir sua influência, o que provocaria a desestabilização da região. A invasão e ocupação militar do Irã seriam a estabilização. O artigo é de Noam Chomsky.

Noam Chomsky - ZNET


A ameaça calamitosa do Irã é largamente reconhecida como a crise política mais séria da administração Obama. O Congresso dos EUA acaba de ratificar as sanções contra o Irã, com medidas ainda mais severas contra as empresas do país. A administração Obama tem expandido rapidamente sua capacidade ofensiva na ilha de Diego Garcia, território da Grã Bretanha, que expulsou a população do local para que os EUA pudessem erguer a grande base militar que usa para atacar o Oriente Médio e a Ásia Central. A Marinha informa da oferta de envio de um submarino equipado com mísseis teleguiados de potência nuclear e com mísseis Tomahawk, os quais podem carregar ogivas, à ilha. Cada submarino desses é reportado como tendo o poder de fogo de uma frota de guerra.

De acordo com um documento descritivo de carga obtido pelo Sunday Herald (Glasgow), o equipamento militar que Obama despachou inclui 387 “bunker busters” [bombas destruidoras de bunkers] usadas para atacar estruturas subterrâneas fortificadas. Os preparativos para esses “ataques maciços de bunker busters”, as mais poderosas bombas no pequeno arsenal de armas nucleares, foram iniciados na administração Bush, mas se enfraqueceram. Ao tomar posse, Obama imediatamente acelerou os planos, e eles devem ser desenvolvidos por vários anos ainda, visando especificamente o Irã.

“Eles estão em marcha acelerada para a destruição do Irã”, diz Dan Plesch, diretor do Centro de Estudos Internacionais e Diplomacia na Universidade de Londres. “Bombardeiros e mísseis de longo alcance estão prontos hoje para destruir 10.000 alvos no Irã em poucas horas”, afirmou. “O poder de fogo das forças dos EUA quaduplicaram desde 2003”, tendo sido acelerado durante a administração Obama.

A imprensa árabe reporta que uma frota norteamericana (com um navio israelense) atravessou o Canal de Suez em direção ao Golfo Pérsico, onde sua missão é “implementar as sanções contra o Irã e supervisionar os navios que chegam e partem do Irã”. A mídia israelense e a britânica reportam que a Arábia Saudita está providenciando um corredor para o bombardeio israelense do Irã (negado pela Arábia Saudita). Em seu retorno do Afeganistão para reassegurar aos aliados da OTAN que os EUA continuam no comando depois da substituição do General McChrystal por seu superior, General Petraeus, o chefe de Estado-Maior conjunto, almirante Michael Mullen visitou Israel para se encontrar com o chefe das Forças Armadas e militar sênior do staff de inteligência e planejamento de unidades de combate, Gabi Ashkenazi, continuando o diálogo estratégico anual entre Israel e EUA, em Tel Aviv. O encontro esteve focado “na preparação de ambos, Israel e EUA para a possibilidade de o Irã tornar-se uma potência nuclear”, de acordo com o Haaretz, o qual reporta, além disso, que Mullen disse: “eu sempre tento ver os desafios da perspectiva israelense”. Mullen e Ashkenazi estão em contato permanente por telefone.

O aumento das ameaças de ações militares contra o Irã está, é claro, violando a Carta das Nações Unidas, e especificamente violando a Resolução 1887 de setembro de 2009 do Conselho de Segurança, que reafirmou a convocação de todos os estados para resolver as questões nucleares pacificamente, em acordo com a Carta, que bane o uso ou a ameaça do uso da força.

Alguns analistas respeitados descrevem a ameaça iraniana em termos apocalípticos. Amitai Etzioni alerta que “Os EUA terão de se confrontar com o Irã ou desistir do Oriente Médio”, nada menos. Se o programa nuclear iraniano prosseguir, ele diz, Turquia, Arábia Saudita e outros estados vão “se mover em direção” à nova “superpotência” iraniana. Numa retórica menos fervorosa, uma aliança regional pode tomar forma independentemente dos EUA. No jornal das forças armadas dos EUA, o Military Review, Eztioni defende um ataque dos Estados Unidos que mire não apenas as instalações nucleares iranianas, mas também alvos não nucleares, inclusive da infraestrutura – quer dizer, na sociedade civil. “Esse tipo de ação militar é semelhante às sanções – causando 'pânico' para mudar o comportamento, embora por meios muito mais poderosos”.

Deixando de lado esse tipo de pronunciamento estreito, qual é exatamente a ameaça iraniana? Uma resposta autorizada foi dada em abril deste ano, no estudo do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, Balanço Militar 2010. O regime clerical brutal é sem dúvida uma ameaça ao seu próprio povo, embora não seja particularmente mais alta em comparação aos aliados dos EUA na região. Mas não é isso o que preocupa o Instituto; o Instituto está preocupado com a ameaça que o Irã oferece à região e ao mundo.

O estudo torna claro que a ameaça iraniana não é militar. O gasto militar iraniano é “relativamente baixo em comparação com os demais gastos na região”, e menos de 2% do estadunidense. A doutrina militar do Irã é estritamente defensiva... desenhada para protelar uma invasão e forçar uma solução diplomática às hostilidades”. O Irã tem apenas “uma capacidade limitada de projetar forças para além das suas fronteiras”. No que concerne à opção nuclear, “o programa nuclear iraniano e sua vontade de manter aberta a possibilidade de desenvolvimento de armas nucleares são parte central de sua estratégia de dissuasão”.

Mesmo que a ameaça iraniana não seja militar, isso não significa que deva ser tolerável para Washington. A capacidade de dissuasão do Irã é um exercício ilegítimo de soberania que interfere nos desígnios globais dos EUA. Especificamente, ameaça o controle dos EUA dos recursos energéticos do Oriente Médio, uma alta prioridade dos estrategistas desde a Segunda Guerra Mundial, recursos que rendem frutos como o “controle substancial do mundo”, segundo um influente conselheiro (A.A. Berle).

A ameaça do Irã vai além da dissuasão, contudo. O país também está buscando expandir sua influência. Como o Instituto de Estudos formula a ameaça, o Irã está “desestabilizando” a região. A invasão e ocupação militar estadunidense do Irã é “estabilização”. Os esforços do Irã para expandirem sua influência nos países vizinhos é “desestabilização”, logo, é claramente ilegítima. Deve ser anotado que esse tipo de uso revelador dessas expresssões é rotineiro. Então, o proeminente analista de política externa, James Chace, ex-editor do principal jornal do establishment, o Foreign Affairs, estava usando o termo “estabilidade” adequadamente, em seu sentido técnico, quando explicou que, para se obter “estabilidade” no Chile seria necessário “desestabilizar” o país (por meio da derrubada do governo eleito de Allende e da instalação da ditadura Pinochet).

Além desses crimes, o Irã está dando apoio ao terrorismo, segundo o informe do mesmo Instituto; por meio do suporte ao Hezbollah e ao Hamas, as mais importantes forças políticas no Líbano e na Palestina – como se eleições importassem. A coalizão do Hezbollah venceu facilmente as eleições no Líbano no último (2009) pleito. O Hamas venceu a eleição de 2006 na Palestina, levando os EUA e Israel a instituírem o rude e brutal bloqueio de Gaza, para punirem os infiéis por terem votado errado nas eleições livres. Essas foram as únicas eleições relativamente livres no mundo árabe. É normal a opinião da elite temer a ameaça da democracia e agir para dissuadi-la; mas este é, antes, um caso notável, particularmente porque se dá junto ao forte apoio dos EUA às ditaduras regionais, e particularmente notável diante do forte elogio de Obama ao ditador brutal do Egito, Mubarak, a caminho de seu famoso discurso ao mundo islãmico, no Cairo.

Os atos terroristas atribuídos ao Hamas e ao Hezbollah tornam-se opacos em comparação com o terrorismo estadunidense e israelense, na mesma região, mas ainda assim eles merecem mais atenção.

Em 25 de maio o Líbano celebrou seu feriado nacional, o Dia da Liberação, comemorando a retirada israelense do sul do Líbano depois de 22 anos de ocupação, como um resultado da resistência do Hezbollah – descrita pelas autoridades israelenses como “agressão iraniana” contra Israel na área ocupada pelo Líbano (Ephraim Sneh). Este também é um uso imperial comum. Assim, o presidente John F. Kennedy condenou o “ataque a partir de dentro, manipulado pelo Norte”. O ataque da resistência sul-vietnamita contra os bombardeiros de Kennedy, armas químicas que levaram camponeses a virtuais campos de concentração, e outras medidas benignas do gênero foram denunciados como “agressões internas” pelo embaixador dos EUA de Kennedy, o herói liberal Adlai Stevenson. O apoio dos norte-vietnamitas aos seus compatriotas no sul ocupado pelos EUA é agressão, interferência intolerável na honrada missão de Washington.

Os conselheiros de Kennedy, Arthur Schlesinger e Theodore Sorenson, considerados pombas da paz, também elogiaram a intervenção de Washington para reverter a “agressão” no Vietnã do Sul – da resistência indígena, como eles ficaram sabendo, ao menos se se lê os informes da inteligência dos EUA. Em 1955 a Junta dos Chefes das Forças Armadas estadunidense definiu vários tipos de “agressões”, incluindo “agressões que não as armadas, isto é, ações políticas ou subversão”. Por exemplo, um levante interno contra uma política de estado imposta pelos EUA, ou eleições cujos resultados deram errado. O uso também é comum nos comentários de acadêmicos e analistas políticos, e faz sentido com base na aceitação da tese de que Nós Temos o Mundo.

O Hamas resiste à ocupação militar israelense e a suas ações ilegais e violentas nos territórios ocupados. É acusado de se recusar a reconhecer Israel (partidos políticos não reconhecem estados). Em contraste, os EUA e Israel não só não reconhecem a Palestina como têm agido por décadas para assegurar que ela nunca venha a existir em qualquer forma que tenha sentido; o partido do governo em Israel na sua plataforma de campanha de 1999 barrava a existência de qualquer Estado palestino.

O Hamas é acusado de lançar foguetes nos assentamentos israelenses da fronteira com Gaza, atos sem dúvida criminosos, embora uma fração da violência de Israel em Gaza, isolada num outro lugar. É importante ter em mente, nessa conexão, que os EUA e Israel sabem exatamente como eliminar o terror que eles deploram com tanta paixão. Oficialmente Israel concede que, não haveria foguetes do Hamas caso Israel cumprisse parcialmente com o acordo de trégua de 2008. Israel rejeitou a oferta do Hamas de renovar a trégua, preferindo lançar o ataque assassino e destrutivo na Operação Chumbo Fundido contra Gaza em dezembro de 2008, com pleno apoio dos EUA, uma exploração da agressão assassina sem o menor pretexto crível ou mesmo bases legais ou morais.

O modelo de democracia no mundo muçulmano, a despeito das falhas graves, é a Turquia, que tem eleições relativamente livres, e também tem sido alvo de críticas severas nos EUA. O caso mais extremo foi quando o governo seguiu a posição de 95% da sua população e se recusou a participar da invasão do Iraque, obtendo a condenação brusca de Washington por seu fracasso em compreender como um governo democrático deve se comportar: sob nosso conceito de democracia, a voz do Mestre determina a política, não a quase unânime voz da população.

A administração Obama ficou mais uma vez enfurecida quando a Turquia se juntou ao Brasil na tentativa de acordo com o Irã para que o país restrinja seu enriquecimento de urânio. Obama elogiou a iniciativa numa carta ao presidente Lula, do Brasil, aparentemente dando de barato que o acordo fracassaria, fornecendo assim armas de propaganda contra o Irã. Quando a tentativa ocorreu, os EUA ficaram furiosos, e rapidamente minaram o acordo, chamando através do Conselho de Segurança uma resolução com novas sanções contra o Irã, que eram tão sem sentido que a China concordou alegremente pela primeira vez – reconhecendo que ao menos as sanções iriam impedir os interesses do Ocidente em competirem com a China pelos recursos iranianos. Mais uma vez, Washington agiu diretamente para assegurar que ninguém interferisse no controle dos EUA sobre a região.

Não foi uma surpresa o voto de Turquia e Brasil contra às sanções propostas pelos EUA no Conselho de Segurança; o outro membro regional do Conselho, o Líbano, absteve-se. Essas sanções levantaram novas preocupações em Washington. Philip Gordon, o diplomata da administração Obama para assuntos europeus alertou a Turquia de que as suas ações não tinham sido entendidas nos EUA e que o país deve “demonstrar seu compromissode parceria com o Ocidente”, reportou a AP, “uma rara advertência de um aliado crucial da OTAN”.

A classe política entende da mesma maneira. Steven A. Cook, um acadêmico do Conselho de Política Externa, observou que a questão crítica agora é “como mantemos a Turquia no seu lugar?” - seguindo as regras, como um bom democrata. Uma manchete do New York Times capturou o ânimo geral: “O Acordo do Irã é visto como uma marca do legado da liderança brasileira”. Em resumo, faça o que eu digo, ou arque com as consequências.

Não há sinais de que outros países na região estejam mais favoráveis às sanções dos EUA do que a Turquia. No lado dos opositores ao Irã, por exemplo, o Paquistão e o Irã, reunidos na Turquia recentemente assinaram um acordo para a construção de um novo oleoduto. Ainda mais preocupante para os EUA é que esse oleoduto deve se estender até a Índia. O Tratado de 2008 dos EUA com a Índia apoiando seus programas nucleares – e indiretamente seus programas de armas nucleares – visava impedir que a Índia fizesse parte do acordo para esse oleoduto, segundo Moeed Yusuf, um conselheiro do sul da Ásia para o United States Institute of Peace, expressando uma interpretação comum. A Índia e o Paquistão são duas das três potências nucleares que se recusaram a assinar o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, o terceiro é Israel. Todos os três países desenvolveram armas nucleares com o apoio dos EUA, e ainda o fazem.

Nenhuma pessoa em sã consciência quer que o Irã desenvolva armas nucleares; nem o Irã nem ninguém. Uma maneira óbvia de mitigar ou eliminar essas ameças é estabelecer uma Zona Livre de Armas Nucleares [NFWZ em sua sigla em inglês] no Oriente Médio. A questão foi levantada (mais uma vez) na Conferência de Exame do Tratado de Não Proliferação Nuclear na sede das Nações Unidas no início de maio de 2010. O Egito, como representante de 118 nações do Movimento Não-Alinhado propôs que a conferência apresentasse um plano para dar início às negociações em 2011 ou uma NWFZ no Oriente Médio, como foi acordado pelo Ocidente, inclusive pelos EUA, na Conferência de Exame de 1995.

Washington concorda formalmente, mas insiste que Israel se mantenha isento – e não tem dado pistas de que esses dispositivos sejam aplicados a si mesmo. Ainda não chegou o momento de se criar uma zona, disse a Secretária de Estado Hillary Clinton nessa Conferência. Ao mesmo tempo, o Washington insistia que nenhuma proposta voltada para que o programa nuclear israelense se sujeite aos auspícios da Agência Internacional de Energia Atômica [IAEA em sua sigla em inglês] poderia ser aceita. Também não aceitou as exigências de que os signatários do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, especialmente os EUA, liberassem informações sobre “as instalações e atividades nucleares israelenses, incluindo informações pertencentes a transferências nucleares prévias a Israel”. A técnica de evasão de Obama visa adotar a posição israelense segundo a qual uma proposta dessas deve estar condicionada por um amplo acordo de paz, que os EUA podem adiar indefinidamente, como vem fazendo há 35 anos, com raras e temporárias exceções.

Ao mesmo tempo, Yukiya Amano, chefe da Agência Internacional de Energia Atômica pediu aos ministros de relações exteriores de seus 151 países-membros que trocassem opiniões a respeito de como implementar uma resolução demandando a Israel que “faça parte” no Tratado de Não-Proliferação Nuclear e que deixe suas instalações nucleares abertas à supervisão da IAEA, reportou a AP.

Raramente é registrado que os EUA e a Grã Bretanha têm uma responsabilidade especial em trabalhar para estabelecer uma NWFZ no Oriente Médio. A fim de concederem alguma aparência legal para sua invasão do Iraque em 2003, eles apelaram à Resolução 687 do Conselho de Segurança (1991), que exijiu do Iraque que desse fim ao desenvolvimento de suas armas de destruição em massa. Os EUA e a Grã Bretanha disseram que não fizeram isso. Não precisamos esperar os pedidos de desculpas, mas essa Resolução obriga os seus signatários a se engajarem na constituição de uma NWFZ no Oriente Médio.

De maneira patente, podemos acrescentar que a insistência dos EUA em manter instalações nucleares na ilha Diego Garcia mina a Zona Livre de Armas Nucleares (NFWZ) estabelecida pela União Africana, bem como Washington continua a bloquear a constituição de uma NFWZ ao excluir suas dependências.

O compromisso retórico de Obama com a não-proliferação tem recebido muitos elogios, até um prêmio Nobel da Paz. Um passo prático no estabelecimento dessa direção é o estabelecimento de uma NFWZ. Outro é a retirada do apoio a programas nucleares dos três não-signatários do Tratado de Não-Proliferação [Paquistão, Índia e Israel]. Como sempre, retórica e ações raramente se alinham, de fato estão em contradição direta neste caso, fatos que ocorrem com pouca atenção.

Em vez de dar passos práticos na direção de reduzir a verdadeiramente calamitosa ameaça de proliferação de armas nucleares, os EUA devem dar passos maiores na direção do reforço do seu controle das regiões produtoras de petróleo no Oriente Médio, por meio da violência, caso outros meios não sejam bem sucedidos. Isso é compreensível e até razoável, sob a prevalência de uma doutrina imperial; embora as consequências sejam sombrias, é ainda mais uma ilustração da “injustiça selvagem dos Europeus” que Adam Smith deplorava em 1776, com o centro de comando então alterado para seu assentamento imperial do outro lado dos mares.

Tradução: Katarina Peixoto
Noam Chomsky's ZSpace Page
Fonte: Carta Maior

Catástrofe do Golfo: BP restringe o acesso dos media - por Dahr Jamail

Catástrofe do Golfo: BP restringe o acesso dos media
por Dahr Jamail

NOVA ORLEANS, (IPS) – Na semana passada, a Guarda Costeira dos EUA, que está a agir em coordenação com a gigantesca empresa petrolífera BP, impôs novas restrições em toda a Costa do Golfo americano que impedem os media de se aproximarem a menos de 20 metros das barreiras de contenção (booms) ou dos barcos de limpeza, tanto na costa como no mar. Mas a astúcia destas restrições vai ainda mais longe.

“Não pode vir cá", disse Don, o guarda de segurança contratado pela BP no Centro para a Reabilitação da Fauna Contaminada pelo Petróleo, em Fort Jackson, Louisiana.

Lá dentro, o Centro Internacional para Investigação e Salvamento de Aves, uma das companhias contratadas pela BP para limpeza dos animais, encarrega-se de limpar o petróleo das aves antes de as devolver ao seu habitat natural. O Centro tem limitado o acesso aos media. Antes estava aberto às segundas, quartas e sextas durante duas horas por dia. A IPS chegou ao Centro numa quarta-feira, e foi informada que os dias para os media tinham sido reduzidos de três para dois dias, e já não abria às quartas-feiras.

Quando a IPS perguntou ao guarda de segurança privada para quem é que trabalhava, ele respondeu, “Trabalho para a HUB, uma companhia de segurança contratada pela BP”. A Hub Enterprises, de Broussard, Louisiana, tem um contrato com a BP para fornecer “funcionários de segurança” e “supervisores”. Don está a receber entre 13 a 14 dólares por hora para manter a imprensa afastada do maior desastre ambiental provocado por uma fuga de petróleo de toda a história dos EUA. Continuam a jorrar mais de 60 mil barris de petróleo por dia no Golfo, mais de dois meses depois da explosão de 20 de Abril na plataforma Deepwater Horizon operada pela BP.

MULTAS ATÉ 40 MIL DÓLARES
As restrições da semana passada que a Guarda Costeira impôs aos meios de comunicação sujeitam os jornalistas e os fotógrafos a uma multa até 40 mil dólares, e à pena de cadeia de um a cinco anos como um crime de classe D, se violarem a regra dos 20 metros, que o Comando Unificado designa por “zona de segurança”.

Tem havido muitos indícios de um amordaçamento maior e mais profundo dos meios de comunicação na região, de muitas outras formas. Na semana passada, a IPS tinha uma entrevista agendada com o Centro de Ciências da Saúde da Universidade Estadual da Louisiana, em Nova Orleans. A entrevista devia ser com um especialista das estratégias de investigação da Universidade, sobre o possível impacto na região do desastre petrolífero da BP. Na manhã em que se devia realizar a entrevista, o entrevistado, que pretende manter-se anónimo, enviou um email à IPS declarando: “Disseram-me para cancelar a entrevista. Lamento quaisquer inconvenientes que vos possa ter causado”. Quando a IPS lhe perguntou se havia alguma razão especial para o cancelamento da entrevista, respondeu, “Não”. Uma fonte anónima revelou posteriormente à IPS que a decisão de cancelar a entrevista fora tomada pelo chanceler Larry Hollier, que chefia o Centro de Ciências da Saúde da Universidade.

A BP disponibiliza a maior parte do financiamento para estudar os efeitos do desastre petrolífero e prometeu 500 milhões de dólares para projectos de investigação e de reabilitação. Robert Gagosian é o presidente do Consórcio para a Direcção Oceânica, que representa instituições de investigação oceânica e aquários e administra um programa de investigação sobre perfuração marítima. Geoquímico marítimo, Gagosian está preocupado com a forma como vai ser utilizado o dinheiro, e espera que seja gerido através de doações aprovadas pelos pares. A sua preocupação, partilhada por outros cientistas e investigadores, tem origem no interesse da BP em preservar o seu negócio. Também têm dúvidas quanto aos critérios adequados para determinar que tipo de investigações é que devem ser feitas.

Jeff Short, um antigo cientista da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, que é actualmente membro do grupo de preservação Oceana, disse que, ao aceitar que a BP pague a investigação, o governo abre mão do controlo sobre que tipo de estudos devem vir a ser feitos. “Pergunto a mim próprio porque é que a BP quer dar dinheiro para projectos que demonstrarão claramente um prejuízo ambiental muito maior do que se viria a saber, se não fossem esses estudos?”, disse.

Os primeiros 25 milhões de dólares dos fundos da BP foram rapidamente distribuídos pela Universidade Estatal da Louisiana, pelo Instituto de Oceanografia da Florida na Universidade da Florida Sul e por um consórcio chefiado pela Universidade Estatal do Mississípi. Muitos cientistas e jornalistas independentes receiam que isto faça parte de uma tentativa para influenciar quais os estudos a fazer e a disponibilidade dessas instituições públicas para falar com os meios de comunicação sobre o desastre da BP.

Num outro incidente, a 2 de Julho, Lance Rosenfield, um repórter fotográfico da publicação de investigação sem fins lucrativos ProPublica, foi detido por breves instantes pela polícia quando tirava fotografias perto da refinaria da BP na cidade do Texas. Rosenfield declarou que foi confrontado por um funcionário da segurança da BP, pela polícia local, e por um homem que se identificou como agente do Departamento da Segurança Nacional. Rosenfield foi libertado depois de a polícia ter analisado as fotografias e registado a data do seu nascimento, o número da segurança social e outras informações pessoais. Depois o agente da polícia entregou essas informações ao guarda da segurança da BP, alegando, segundo disse Rosenfield, “procedimento normal de funcionamento”.

Também foram instituídas restrições no espaço aéreo sobre as zonas onde estão a decorrer operações de limpeza e de contenção. A Administração da Aviação Federal proibiu voos dos meios de comunicação a menos de 900 metros sobre as áreas afectadas pelos lençóis do petróleo.

07/Julho/2010
O original encontra-se em http://dahrjamailiraq.com
Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

“A camiseta celeste tem muita energia” - por Edurado Galeano

“A camiseta celeste tem muita energia”

Em entrevista ao jornalista Gerhard Dilger, Eduardo Galeano fala sobre o Mundial de Futebol da África do Sul, o desempenho sulamericanos frente aos europeus e as chances de seu Uruguai. "Não sei se chegará á final, mas volta a ser milagrosamente certo que um país com menos habitantes que um bairro de Buenos Aires pode ser capaz de conquistar o troféu mundial. Festejamos isso, os poucos que somos, porque o Uruguai é um país muito futebolizado e aqui todos os bebês nascem gritando goooooool!!! A camiseta celeste tem muita energia dentro"

Gerhard Dilger (*)

Em entrevista ao jornalista Gerhard Dilger, correspondente para a América do Sul do jornal "taz, die tageszeitung", de Berlim, Eduardo Galeano fala sobre o Mundial de Futebol da África do Sul, o desempenho sulamericanos frente aos europeus e as chances de seu Uruguai. "Não sei se chegará á final, mas volta a ser milagrosamente certo que um país com menos habitantes que um bairro de Buenos Aires pode ser capaz de conquistar o troféu mundial. Festejamos isso, os poucos que somos, porque o Uruguai é um país muito futebolizado e aqui todos os bebês nascem gritando goooooool!!! A camiseta celeste tem muita energia dentro", diz Galeano.

Dom Eduardo, quem será campeão deste mundial – e por quê?
Sou um péssimo profeta. E além disso, para completar, te confesso que não quero conhecer o futuro. Quando uma cigana pega a minha mão e me oferece lê-la, eu rogo: “Senhora, por favor, não seja cruel”. Eu não quero saber o que ocorrerá, nem sequer pressenti-lo, por que o melhor da vida está sempre esperando à volta da próxima esquina. E te acrescento algo mais: por sorte. Os prognósticos falham. O tempo brinca com quem pretende adivinhá-lo.

Qual sua opinião sobre a equipe alemã?
Assombrosa. Tem a força e a velocidade dos velhos tempos, mas uma elegância e uma alegria que talvez seja o aporte de tantos jovens incorporados em suas fileiras, em sua maioria imigrantes ou filhos de imigrantes. No futebol, como na vida, a mestiçagem melhora.

Por que os argentinos não conseguiram, finalmente?
Eles brilharam em várias partidas da Copa e agora se foram, humilhados por uma goleada. Isso me entristece, ainda que a vitória alemã tenha sido totalmente justa. Em que falhou a Argentina? Obviamente não cuidou do meio campo, faltou articulação entre a vanguarda e a retaguarda e Messi foi limpamente bloqueado, na boa lei, pela defesa alemã. Talvez isso tenha algo a ver com a “messidependência”. Quando há um jogador de qualidade tão extraordinária, inevitavelmente se produz uma realidade assim. De todos os modos, diga-se de passagem, Messi jogou, durante toda a Copa, muito melhor do que outra superestrela, Cristiano Ronaldo, que esteve no Mundial mas ninguém viu.

Pele disse que Maradona não é um bom técnico: Está de acordo?
No futebol atual, o treinador desempenha um trabalho insalubre. Altamente tóxico, eu diria: é o bode expiatório das derrotas, e o mesmo povo que o eleva aos céus, num momento, o expulsa para o inferno logo em seguida. Há alguns anos, as pessoas sequer sabiam qual era o nome do treinador, que depois passou a ser chamado de diretor técnico.

A grande maioria das estrelas sulamericanas está jogando na Europa. Há chances de que essa exportação de recursos futebolísticos seja revertida?
Não. Nós, dos países do sul do mundo, seguiremos exportando mão de obra e pé de obra para o norte do mundo.

Qual é o seu balanço do mundial, até agora?
Meu bom amigo Pacho Maturana, que foi diretor técnico de duas seleções e de várias equipes de diversos países ,costuma dizer, e não se equivoca: “O futebol é um reino mágico, onde tudo pode ocorrer”. Nós, latinoamericanos, estávamos felizes, pois pela primeira vez na história quatro seleções nossas chegavam à antepenúltima etapa e, subitamente, paf, ficou o Uruguai solito contra a Europa. E, salvo essa exceção,o Mundial se converteu em uma eurocopa. Um pouco antes, já não havia africanos competindo. Toda África ficou fora neste Mundial que é o primeiro Mundial africano da história. Os irmãos Boateng brindam a dramática metáfora do que ocorreu: um Boateng se foi, o que jogava em Gana, e ficou o Boateng que joga na Alemanha.

Foi justamente a Celeste que acabou com o sonho africano. Como viveu os momentos finais da partida contra Gana?
Foi um filme de Hitchcock. Me cortou a respiração. A minha e a de todos que assistiram à partida mais emocionante deste mundial. Ganhou o Uruguai, como se sabe, e assim ficou selada a derrota de toda a África. Eu festejei e, ao mesmo tempo, senti uma funda tristeza. No futebol, como na vida, há alegrias que doem.

O Brasil, com sua “receita Dunga” fracassou. Que conselho daria a seus vizinhos com vistas a 2014?
Eu não gosto de dar conselhos, nem de recebê-los, mas nós, latinoamericanos, não vamos bem quando copiamos as receitas do êxito europeu. Nem no futebol, nem em nada. E não precisamos copiar. Li e escutei várias vezes, a propósito desta seleção alemã, a que compete agora, o seguinte elogio: “Parece uma equipe sulamericana”. A receita Dunga não era a melhor para o mais sulamericano dos sulamericanos: de que estava doente o Brasil para precisar desse tipo de remédio?

E por que a seleção uruguaia está tão forte?
Por que acredita no que faz, e o entusiasmo compensa o que lhe falta. Não sei se chegará á final, mas volta a ser milagrosamente certo que um país com menos habitantes que um bairro de Buenos Aires pode ser capaz de conquistar o troféu mundial. Festejamos isso, os poucos que somos, porque o Uruguai é um país muito futebolizado e aqui todos os bebês nascem gritando goooooool!!! A camiseta celeste tem muita energia dentro. E a história também ajuda. Este nosso paisito soube ganhar duas Olimpíadas de futebol, quando o Mundial ainda nem existia, e dois campeonatos mundiais, o primeiro aqui em Montevidéu, e o de 1950, quando derrotamos o Brasil na estréia do maior estádio do mundo, o Maracanã, diante do rugido de duzentos mil torcedores.

Eduardo Galeano, 69 anos, é o autor de "El fútbol a sol y sombra" y de
"Espejos – Una historia casi universal".


Gerhard Dilger é correspondente para América del Sur do diário
"taz, die tageszeitung", de Berlim


Fonte: Carta Maior