quarta-feira, 30 de maio de 2018

Estado Assassino - por Latuff

Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons

Michael Löwy: A descoberta do último Marx - Michael Löwy,

Michael Löwy: A descoberta do último Marx
"Karl Marx não era dos que se aposentam da revolução: continuou pensando, escrevendo, lutando, até seu último suspiro. A morte interrompeu um extraordinário processo de reelaboração, de reformulação, de reinvenção do materialismo histórico e da teoria da revolução."

Os últimos anos da vida de Marx costumam ser vistos como um período em que ele já teria saciado a própria curiosidade intelectual e parado de trabalhar. O novo livro de Marcello Musto que a Boitempo lança agora no bicentenário do barbudo chega para desfazer de uma vez por todas essa lenda e abrir novos caminhos para impulsionar o pensamento crítico e a transformação social hoje! A partir do estudo de manuscritos que vieram a público recentemente e ainda não foram traduzidos do alemão nem publicados em livro, O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos (1881-1893) demonstra como Marx passa a se interessar por antropologia, pelas sociedades não ocidentais e pela crítica ao colonialismo europeu. Ele defende que por trás disso, não havia, como se tem dito, mera curiosidade intelectual, mas o propósito teórico-político de alargar e refinar a compreensão do capitalismo. Confira, abaixo, o que Michael Löwy tem a dizer sobre o livro.Marcello Musto vem ao Brasil para uma série de debates de lançamento da obra em três diferentes estados. Saiba mais ao final deste post!

* * *

Karl Marx não era dos que se aposentam da revolução: continuou pensando, escrevendo, lutando, até seu último suspiro. Muitos pesquisadores – inclusive quem vos escreve – se interessaram pelo jovem Marx; outros preferiram estudar a grande obra “da maturidade”, O capital. Marcello Musto, no formidável livro O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos, é o primeiro a analisar com profundidade o “último Marx” (1881-1883), descobrindo as fascinantes pistas que abriu, em seus derradeiros anos, o grande adversário do capitalismo. Conhecido por seus excelentes trabalhos sobre a história da Primeira Internacional, Musto explora o novo material publicado pela MEGA (a nova edição das obras completas de Marx e Engels), assim como documentos e cadernos de notas ainda inéditos, para examinar estas pistas: a antropologia, nos famosos mas pouco estudados Cadernos etnográficos; as formas pré-capitalistas de propriedade comunal; o colonialismo; os desenvolvimentos econômicos e sociais em países não ocidentais, tais como a Rússia, a Argélia e a Índia.

O quadro que esses escritos – certo, inacabados e não sistemáticos – vão desenhando é de um Marx extraordinariamente “heterodoxo”, isto é, pouco conforme com o marxismo pseudo-ortodoxo que tanto estrago fez no curso do século XX. Um Marx que critica impiedosamente o economicismo, a ideologia do progresso linear, o evolucionismo, o fatalismo histórico, o determinismo mecânico. A morte interrompeu um extraordinário processo de reelaboração, de reformulação, de reinvenção do materialismo histórico e da teoria da revolução.

Um dos exemplos mais impressionantes da “heresia” do velho Mouro são seus últimos escritos sobre a Rússia, em particular a carta, com seus rascunhos, a Vera Zasulitch. Em 1881, essa jovem revolucionária russa havia consultado o autor de O capital sobre o futuro da tradicional comuna rural no país dela. Na resposta, Marx manifesta sua simpatia pelos integrantes do movimento Narodnaia Volia (A Vontade do Povo) e avança a hipótese de um caminho russo ao socialismo, que pudesse evitar a esse povo todos os horrores do capitalismo. Um caminho que se apoiaria nas tradições coletivistas “arcaicas” da comuna rural russa para desenvolver um processo revolucionário ao mesmo tempo antitsarista e anticapitalista – em associação com a revolução social nos países industrializados da Europa.

Este belo livro de Marcello Musto confirma, mais uma vez, que a obra de Marx é um arsenal inesgotável de armas não só para entender mas também, e sobretudo, para transformar a realidade. Na verdade, mais que uma “obra” acabada, é um imenso canteiro de obras, que segue aberto e em expansão…

***

“Todos nós estamos rediscutindo Marx. Dentre a vasta literatura existente, o novo trabalho de Marcello Musto se destaca como uma cuidadosa análise contextual dos últimos escritos e contributos de Marx para a nossa compreensão do mundo – ontem, hoje e amanhã. O velho Marx é uma obra excepcional e essencial para todos nós.” – Immanuel Wallerstein

Michael Löwy, sociólogo, é nascido no Brasil, formado em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, e vive em Paris desde 1969.
 
 

FORA TEMER - por Latuff

Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons

Marx, 200 anos: como reinventar a emancipação? – por Luisa Barreto

Marx, 200 anos: como reinventar a emancipação?
Em Berlim, Toni Negri, Michael Hart e novos movimentos debatem: por que “primaveras” de 2011-2013 fracassaram? Pode-se combinar horizontalismo com construção de programas e estratégias?

No início de maio, aconteceu em Berlim o Congresso Marx200: Política – Teoria –Socialismo, na Fundação Rosa Luxemburgo, em cooperação com o Teatro HAU Hebbel am Ufer. Foram quatro dias de extensa programação sobre a vida e obra de Karl Marx, em comemoração dos 200 anos de seu nascimento, em 5 de Maio de 1818. Foram dezenas de workshops, palestras e eventos paralelos como a exposição: Revoltem-se! Maio de 68/Poder e Impotência de uma Utopia (Empört euch! Mai 68/ Macht und Ohnmacht einer Utopie). Autores foram convidados para falar a partir das mais variadas perspectivas dentro da chamada crítica pós-marxista, temas atuais como o colonialismo, o feminismo e os movimentos sociais contemporâneos.

O evento, um painel a demonstrar que Marx revive principalmente na crítica pós-colonial e feminista, não se restringiu aos debatedores europeus. Estiveram lá pensadores árabes, latino-americanos, japoneses, africanos, indianos, chineses, que abordaram uma ampla diversidade de temas em composição com conceitos fundamentais da obra de Marx, como luta de classes hoje, relação entre Estado, sociedade e democracia; trabalho, antropologia. Outros temas presentes: Marxismo e feminismo, Psicanálise e Marxismo, Marx no Japão, Cyber-Marx, Marx na China, na África do Sul, Ecossocialismo e mostraram a força do pensamento marxista hoje.

Kavita Krishnan, secretária da Associação das Mulheres Progressistas da Índia (All India Progressive Women’s Association – AIPWA), membro do Partido Comunista da Índia – Marxist-Leninist (CPI-ML) e editora da revista Liberation falou sobre a revolta dos Dalits e a luta contra o fascismo, resistência e imaginação política, numa mesa sobre Linhas de Fuga da Perspectiva Socialista/Comunista e Utopia (Die Fluchtlinien sozialistisch/kommunistischer Perspektive und Utopie). Discussões sobre como a tradição marxista é transposta para outros contextos e quais os usos que se faz da interpretação sobre as relações entre Estado e sociedade na China, com Zhang Shuangli, da Universidade de Fudan e da Universidade de Shanghai, tiveram destaque na programação, assim como a palestra Marx Global, Classes e Política com Gayatri Spivak. Essas não foram as únicas mulheres; a presença feminina foi marcante em todas as mesas e debates.
 
Hardt e Negri: perguntas que importam

Não por acaso a palestra inaugural foi proferida por Michael Hardt, filósofo político e teórico literário conhecido pelos livros que escreveu com Antônio Negri, especialmente, a trilogia Império (2001), Multidão: guerra e democracia na era do império (2005) e Bem-Estar Comum (2016). Intitulada Assembly (para nós assembleia ou reunião), o assunto pairou em todas as discussões posteriores sobre como pensar resistência, utopia e imaginação hoje, e como desempoar o vocabulário da esquerda marxista trazendo-o para as lutas contemporâneas.

Assembly (2017) também é título do mais recente livro de Hardt e Negri, ainda sem tradução para o português. O livro não deixa de ser contíguo aos outros e nasce da pergunta que permaneceu em suspenso para os autores desde os movimentos globais contra governos autoritários e o neoliberalismo, que eclodiram desde 2011, numa linha temporal que segue até hoje. A onda iniciada com a Primavera Árabe em 2010 e atingiu países como a Tunísia, Egito, Líbia e outros do Oriente Médio e da África; que reverberou no 15-M, na Espanha e no Ocuppy Wall Street, desde 2011; e nas Jornadas de Junho de 2013 no Brasil, para citar alguns, repercutiu nos movimentos estudantis mundo afora, na revolta dos Dalits na Índia, no Black Lives Matter, no Ni Una Menos.

A pergunta que Hardt colocou na inauguração do evento foi: “Por que esses movimentos, que expressaram tantas necessidades e desejos não foram capazes de realizar as mudanças que estavam buscando?”

Ela leva a retomar questões sobre liderança e estratégia, dois pontos críticos na obra dos autores e que vez ou outra retornam na crítica aos escritos deles. Hardt reforçou que, principalmente após a eleição de Donald Trump, a pergunta se tornou inevitável e emergente, já que os protestos não parecem mais suficientes.

Muito se argumenta hoje em dia, a partir do conceito de multidão tal como elaborado por Hardt e Negri, se a falta de projeto claro a ser sustentado pelas revoltas e manifestações não é uma característica da própria horizontalidade dos movimentos atuais, que lutam contra temas diversos, porém imbrincados, sendo extremamente árdua a tarefa de criar um projeto que se efetive e concretize numa reorganização estratégica da esquerda global.

Onde estão os novos Rudi Dutschke, Martin Luther King, Antonio Gramsci, Nelson Mandela, Che Guevara e a própria Rosa Luxemburgo? – perguntou ele. Afinal, precisamos ou não de líderes carismáticos como os de outrora? O sentido de urgência desta pergunta não tem a ver com não reconhecer a potência e as ações dos movimentos que irrompem mundo afora, mas com recolocar a questão sobre o que significa assumir uma posição de liderança e quais seriam os requisitos e perigos de incumbir-se deste lugar, uma vez que ser um líder carismático é assumir uma posição de risco, disse o autor.

Eis aqui o paradoxo que emerge da própria questão e também dos livros escritos pelos autores. A tendência a recusa das formas centralizadas de liderança da esquerda tradicional, associadas ao elogio a multidão resultaram numa rejeição a autoridade, à liderança e, em consequência, na recusa a organização. Nos movimentos sociais dos últimos 50 anos, feministas, estudantis, dos trabalhadores, a posição de liderança foi duramente atacada e criticada, dentro dos próprios grupos, especificamente no que diz respeito à centralização da figura do líder, fato que deu início a uma série de práticas de democratização dentro dos próprios grupos, como garantir que todos falem, organizar assembleias e coordenar narrativas nas redes sociais e meios de comunicação.

Hardt citou o movimento Black Lives Matter, que vem constantemente rejeitando ou ao menos problematizando o modelo do líder carismático masculino, tão celebrado na história do movimento negro nos Estados Unidos, na forma de um acionamento do sistema imunológico do próprio movimento, como mecanismo de proteção e defesa das figuras proeminentes que coreografam ações e discursos através das mídias sociais. E não somente, mas também como estratégia de contenção do avanço de alguma figura, em particular, que se torne a representação do grupo como um todo, suprimindo a comunicação democrática e horizontal.

A relevância deste ponto na fase atual da obra de Hardt e Negri demonstra a necessidade de desatar o nó, até então amarrado, sobre a confusão entre criticar a posição de liderança e disto ter sido traduzido muitas vezes como recusa da organização, das instituições ou como falta de projeto político. Afinal, o lugar da liderança pressupõe uma certa expertise, capacidade de monitoramento sobre os movimentos da polícia e da própria multidão, de comunicação, de ouvir e aplicar ideias discutidas em comum, estratégias de defesa e de proteção, ou seja, ainda que esta capacidade que se aplicava geralmente a figura do líder seja generalizada pelo próprio intelecto geral, a multidão precisa se tornar multidão estratégica, disse Hardt.

Estratégia, nesse sentido, como uma forma de entender a própria liderança e como habilidade de tomar decisões, ter uma visão ampliada das questões em disputa, buscar uma continuidade para projetos de longa duração. Diferente, portanto, de tática, cujo campo de ação tende a ser temporal e espacialmente limitado. A questão da generalização da habilidade é fundamental, pois ainda que se tenha como pressuposto a democratização dos movimentos e a não concentração da tomada de decisão ou da definição da estratégia na figura do líder, é a generalização da habilidade de criar e de dar continuidade às estratégias criadas coletivamente que estão em jogo. Ou seja, o movimento centrífugo da multidão, que teria como partitura e ponto de partida o próprio intelecto geral, seria ou deveria ser radicalizado a partir da capacidade de criar estratégia.

Logo, a multidão estratégica seria a fundação da assembleia, estrutura e base das ações de resistência hoje, tendo como ponto de partida a inversão das funções comumente associadas a estratégia e a tática. A estratégia, nas palavras de Hardt, deveria ser função da multidão e dos movimentos e a tática deveria limitar-se à liderança. Multidão-estratégica e liderança-tática seriam os polos constitutivos de movimentos como o chamado municipalismo espanhol e o partido político Podemos, fundado na Espanha em 2014, o movimento Ni Una Menos na Argentina e o Diem25, Democracia na Europa 2025, movimento político pan-europeu de esquerda fundado por Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças da Grécia.

No Brasil crescem não só os movimentos organizados como a Frente Povo Sem Medo (FPSM) e o MTST, mas lideranças como Marielle Franco, Sônia Guajajara, Davi Kopenawa Yanomami, Raoni Metuktire, Guilherme Boulos, Manuela D´Ávila, Jean Wyllys e tantos outros mais ou menos populares, mais ou menos escondidos. Seriam eles líderes estratégicos e carismáticos?

Após um breve apanhado das questões que motivara os primeiros livros, como os conceitos de produção social ou biopolítica, multidão, comum, Hardt tocou no conceito de empreendedorismo da multidão, “o mais irritante do último livro”, segundo ele. O termo, que nos transformou em empreendedores de si endividados, saturado pelo discurso neoliberal e pilar da crítica ao capital humano, foi reformulado pelos autores com novo sentido. Hardt afirmou a necessidade de restaurar o vocabulário da esquerda capturado pelo discurso econômico, como democracia e amor, fazer novo uso de conceitos que vem sendo apagados, negativizados ou substituídos. Empreendedorismo, longe de ser um vocabulário da esquerda, traz em si a ideia de empreender, criar. Segundo o autor, não há nada em comum com preencher um lugar deixado vazio pelo Estado; empreender, nesse sentido, não tem a ver com iniciativa privada, inovação, nem com uma forma de ascensão do precariado.

Como organizarmo-nos contra o avanço conservador e como empreender novos mundos? São as perguntas antigas com as quais estamos lidando em momentos como o atual. A palestra, muito bem amarrada e dentro do tempo, acabou com a dúvida também antiga: protesto e resistência são suficientes do ponto de vista estratégico e da construção de novos modos de vida?

As perguntas feitas ao autor ao final levantaram questões importantes sobre como estamos lidando com a ascensão dos líderes carismáticos de direita, e com o crescimento do conservadorismo em tempos de revolta da multidão. O papel do intelectual público, o qual Hardt e Negri exercem, foi questionado e colocado como forma de ausência de responsabilidade e de criação de estratégia. Ao final, com todos já cansados e sem respostas, pairou uma atmosfera de dúvida onde havia, de fato, mais perguntas que respostas. Michael esboçou uma justificativa, dizendo que seu lugar é o de trabalhar com os movimentos e aprender com eles, working with e learning from. Serão os próximos conceitos a serem tratados pelos autores os de risco e de responsabilidade?

FORA TEMER E PARENTE - por Latuff

Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons

No triplex do juiz - por Jota Camelo

 

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Resistir é preciso, Palestina Vive !!!

Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons

Israel: 70 anos de brutalidade - por Greg Shupak

Israel: 70 anos de brutalidade
Desde a criação do Estado hebreu, palestinos são expulsos de suas casas, presos, torturados, mortos e submetidos a violência econômica grosseira. É a “nakba”. Poderia ser a “solução final” de Hitler

Em 14 de maio de 1948, setenta anos atrás, Israel lançou sua “declaração de independência”. Desde então, todo dia 15 de maio tem sido o Dia Nakba quando os palestinos marcam a limpeza étnica sofria por seu povo depois da criação de Israel. [Nakba é uma palavra árabe que significa “desastre” ou “catástrofe”, termo similar a shoá em hebraico, que os judeus utilizam para designar o massacre nazista – nota OP]. Este Dia Nakba foi marcado pela Grande Marcha de Retorno, uma grande mobilização em massa até a cerca que Israel ergueu para separar Gaza e Israel, para manifestar seu desejo de passar pela barreira. Até o momento, Israel já matou pelo menos 52 manifestantes palestinos, no que a Anistia Internacional chamou de “uma violação repugnante da lei internacional”, envolvendo “o que parecem ser assassinatos intencionais, que constituem crimes de guerra”.

Como outros estados coloniais, Israel pretende asfixiar a vida social das populações dos territórios ocupados que procura dominar. Esse imperativo é particularmente urgente no caso de Israel, onde as populações judias e não-judias são de tamanho equivalente e a terra em questão é relativamente pequena. A negação discriminatória de direitos estende-se aos palestinos em outros países -são cidadãos de segunda classe em Israel, sob ocupação, na diáspora ou em campos de refugiados. Todos são impedidos de retornar às suas casas através do uso da violência e com a ajuda decisiva dos EUA.

A mensagem inconfundível para os palestinos de todas as gerações, desde antes da Nakba até a Grande Marcha de Retorno, é que a menor resistência ao etnoestado erigido em sua terra natal será combatido com prisões e mortes.

Anatomia da repressão
A violência israelense permeia todos os aspectos da vida dos palestinos, com estratégias de controle que assumiram uma variedade de formas ao longo do tempo. Para criar o Estado em 1948, as forças sionistas expulsaram 750.000 palestinos de suas casas. No processo, realizaram cerca de dez massacres em grande escala, cada um com pelo menos cinquenta vítimas, juntamente com cerca de cem massacres menores. As forças dos paramilitares israelenses  mataram palestinos em quase todas as suas aldeias, despejando repetidamente os corpos das vítimas em covas, antes da oficialização do Estado de Israel. Em várias ocasiões, milícias sionistas mataram crianças e estupraram mulheres palestinas.

Atrocidades semelhantes continuaram nos primeiros anos do Estado de Israel. Em 1953, as forças israelenses massacraram 69 aldeões palestinos em Qibya, depois de alegarem “infiltração” do território israelense por refugiados palestinos. Durante o conflito de Suez, três anos depois, eles mataram 48 trabalhadores palestinos em Kafr Kassim; 275 civis palestinos em Khan Yunis e num campo de refugiados próximo; em seguida, mais 111 palestinos no campo de refugiados de Rafah.

Depois de 1967, com o estado de Israel consolidado, o governo começou a perseguir o que Tariq Dana e Ali Jarbawi chamam de “sonho de uma ‘Grande Israel’ com o máximo de terra e o mínimo de árabes”. Mais de 350.000 palestinos foram expulsos de suas casas, enquanto Israel ocupava a Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental (assim como as Colinas de Golan da Síria e o Sinai do Egito). Quase 600.000 colonos adentraram ilegalmente nos territórios ocupados com o apoio do Estado. E os massacres de palestinos em Israel continuaram desde então: no verão de 2014, Israel matou 2.251 palestinos – incluindo 1.462 civis e 556 crianças – durante a fúria assassina chamada Operação Margem Protetora. Como observou o estudioso canadense Nahla Abdo, a violência dos palestinos deve ser vista no contexto dessa “relação assimétrica” entre os dois lados.

Enquanto isso, aos palestinos nos territórios ocupados é sistematicamente negado o devido a processo legal: mantidos sem julgamento em detenções administrativas ou submetidos a processos militares e rotineiramente torturados. Tal tratamento estende-se às crianças palestinas, sujeitas a práticas que, nas palavras da UNICEF, “resultam em tratamento ou punição cruel, desumano ou degradante, de acordo com a Convenção sobre os Direitos da Criança e a Convenção contra a Tortura”, incluindo ameaças de “morte, violência física, confinamento solitário e agressão sexual, contra si mesmos ou um membro da família”. Atualmente, existem mais de 6.000 presos políticos palestinos em prisões israelenses.

Quando os palestinos não estão sendo algemados, torturados, bombardeados ou abatidos, eles vivem sob a ameaça contínua de tais ações. Depois da guerra de 1967, Israel estabeleceu um regime para examinar tudo, desde oficinas palestinas que fabricam móveis, sabão, tecidos, produtos de azeitonas e doces, até listar quantos televisores, refrigeradores, fogões a gás, pomares, animais e tratores os palestinos possuem, muitas vezes censurando livros, romances, filmes, jornais e panfletos políticos.

Expropriação econômica
A violência econômica – a expropriação da riqueza palestina e a destruição da capacidade dos palestinos de se sustentarem – marcou o tratamento de Israel aos palestinos desde o início do Estado israelense. Nos anos imediatamente posteriores a 1948, Israel adotou políticas destinadas a confiscar e controlar a terra palestina, destacadamente com a Lei da Propriedade Desocupada de 1950, pela qual Israel garantiu para si 90% da terra, designando como “desocupada” toda terra que os palestinos tivessem sido obrigados a abandoar devido repartição conduzida pelas Nações Unidas em 1947.

Os assentamentos israelenses são construídos em áreas ricas em recursos, projetados para explorar a água palestina e a terra arável – uma política que aumenta os recursos de Israel e priva os palestinos de desenvolvimento econômico. Após a ocupação de 1967, Israel construiu um regime econômico destinado a incorporar a economia palestina à economia de Israel, tornando seu governo colonial um empreendimento barato e, ao mesmo tempo, frustrando o desenvolvimento econômico palestino. Entre as medidas adotadas estavam o fechamento de instituições financeiras e monetárias árabes, a imposição da moeda israelense, a proibição de exportações e importações, exceto através de fronteiras controladas por Israel, a imposição de altos impostos (alfândega, imposto de renda, IVA), quase nenhum investimento em infraestrutura nas áreas palestinas, licenciamento restrito para atividades industriais e controle sobre comunicações, recursos de eletricidade, água e recursos naturais. As políticas israelenses transformaram o mercado palestino num mercado cativo, que se tornou um conveniente lixão para produtos industriais israelenses de má qualidade que não podiam competir com os fabricantes dos países industrializados da Europa e EUA. Isso não só trouxe grande lucro para a economia israelense, mas igualmente formou uma nova classe de capitalistas israelenses, cujas principais atividades industriais foram projetadas para os territórios ocupados.

Assim, as políticas israelenses provocaram uma deterioração da base econômica palestina e criaram uma dependência estrutural à economia de Israel, na medida em que o Estado ocupante controla os principais pontos nodais da atividade econômica, como fronteiras, terras, recursos naturais, comércio, movimentação de mão-de-obra, gestão fiscal e zoneamento industrial. Por mais de uma década, além disso, um brutal cerco militar combinado entre EUA e Israel e o Egito dizimou Gaza, a ponto de em breve a região ser inabitável. Militares e colonos de Israel arrancaram centenas de milhares de oliveiras palestinas na Cisjordânia e na Faixa de Gaza e nos primeiros anos do milênio o exército israelense arrasou quatro milhões de metros quadrados de terra cultivada.

A Grande Marcha do Retorno
Desde o início da Grande Marcha do Retorno, em 30 de março, Israel matou dezenas de palestinos e feriu quase 4.000. Nenhum israelenses foi morto ou ferido. O poder da Marcha é que ela chama a atenção para a ilegitimidade de manter artificialmente uma maioria demográfica judaica na Palestina histórica. Enquanto massas de palestinos aproximam-se da cerca entre Gaza e Israel, os manifestantes personificam a “ameaça” de palestinos retornando a seus lares e vivendo em uma Palestina-Israel que não pode ter como premissa manter os palestinos fora e perpetuamente apátridas -como refugiados ou como uma minoria oprimida dentro de Israel.

Os manifestantes estão, em suma, tentando afirmar, pelo menos temporária e simbolicamente, seu direito à sua terra, identidade, nacionalidade, liberdade -o que as negociações com Israel e seu patrono norte-americano não produziram até hoje.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Largo do Paissandu: quem precisa de ordem de despejo afinal? por Latuff

Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons

O ano em que o velho mundo balançou - por Jean Tible

O ano que o velho mundo balançou 
Estudantes manifestam-se na Cidade do México, em setembro de 1968. Protesto espalhou-se pelo mundo, na forma de lutas da juventude e do acirramento das guerras de libertação, no Terceiro Mundo

Há meio século, um vírus de desobediência contagiou o planeta. Todas as hierarquias foram postas em xeque. Mas 1968 está sendo? Onde foi parar sua explosão inventiva?

A barricada fecha a rua, mas abre caminhos.
Uma das frases símbolos dos muros de Paris em
maio de 1968.
68, uma revolução mundial.
Um vírus da desobediência contagiou todo o planeta: Paris, Senegal, Japão, Vietnã, Cidade do México, Praga, Estados Unidos, Palestina, dentre outros pedaços.
Uma explosão de vida. A palavra-chave: experimentação. Novos desejos, aspirações e conexões brotam e desabrocham em todos os cantos do mundo. Um novo espírito do tempo, tempo do mundo.

O que parecia sólido se desmanchou no ar, o que parecia estável vazou (ainda que somente por alguns dias, semanas, meses – mas os efeitos ainda nos atingem). Colonialismo, patriarcado, supremacia branca, capitalismo e socialismo autoritário bambearam. Ou pereceram ou se reorganizaram – e continuam sendo questionados por inúmeras ações. Apesar da diversidade de situações e países, um elemento comum: o anticonformismo – seja encarando uma ditadura militar, poderes coloniais, sociedades capitalista ou socialista. Tratou-se de uma irrupção em defesa do direito de discordar, da multiplicação de vozes, da polifonia.

Abrir as portas dos asilos, das prisões e das escolas foi outro lema-pixo forte. Ninguém mais quis cumprir seu papel social habitual, embarcando num êxodo de libertação e busca de novas vias: operários (ocupando fábricas e locais de trabalho), estudantes (tomando universidades), artistas e criadores (dando outros significados para seus espaços e práticas), camponeses (se levantando), negros (se sublevando), mulheres, gays, lésbicas e muitas outras (afirmando novos corpos). Fuga do trabalho e busca da vida. Isso tudo já vinha ocorrendo, mas em 68 se acelerou e se reforçou, encontrou e produziu novos caminhos, pessoas, coletividades. Inspirações.

Todas as autoridades foram questionadas e hierarquias postas em xeque: patrões, professores, pais, chefes, tiranos, colonizadores, padres, pastores, rabinos, irmãs, representantes culturais e midiáticos… Uma viralidade do dissenso, um deslocamento das dominações e opressões e uma afirmação das singularidades. Desejos de autonomia, de novas vidas: o levante de uma nova geração político-existencial. Político e existencial: quem separou um dia essas esferas? A revolução é uma eztetyka (Glauber Rocha, 1967). Política e vida, política e arte – a busca pelo fim da representação em ambas. Impossível separar. Política e jogo, política e humor, política e festa, política e prazer, política e psicoativos. Política é criação – o resto é burocracia. Só interessa o que é inventor: “o trabalho criador propõe uma nova sociedade” (Helio Oiticica).

1968 é também (e sobretudo!) uma insubordinação anticolonial nos países da periferia (Argélia, Vietnã, Angola, Cuba…) e nos do centro (Panteras Negras e muitas outras nos EUA e outras partes). O Vietnã (e sua heroica resistência de camponeses pobres contra o maior Império) constituíram um poderoso catalisador das imaginações subversivas. Criar, um, dois, mil Vietnãs, declamava Che Guevara. Reforçando os nexos política-cultura, Zé Celso desloca essa frase ao dizer que o “objetivo é abrir uma série de Vietnãs no campo da cultura, uma guerra contra a cultura oficial, de consumo fácil”. O oposto da morte é o desejo – práticas de descolonização dos corpos. No Brasil, 1968 são as lindas e corajosas greves de Osasco e Contagem, as irrupções estudantis e, também, uma busca coletiva para se libertar definitivamente do complexo colonial – conectando-se com a busca de Oswald de Andrade pela exportação de poesia (e não mais sua importação enlatada). Consideramos 1922 como início de uma revolução cultural no Brasil, nos disse Glauber Rocha em 1969.

1968 marca o início do nosso mundo contemporâneo. Uma revolução sempre acompanha-se das reações, da contrarrevolução, daí a reação-repressão por todos os lados nos anos seguintes. A economia se reorganizou e buscou capturar a inventividade expressada, os poderes viram um excesso de democracia (onde ela existia minimamente) e de demandas sociais e existenciais. A partir daí, as desigualdades entraram numa perigosa espiral de aumento generalizado, tendo o Chile de Pinochet como laboratório desse novo modelo (neoliberalismo). No Brasil, o contragolpe veio bem rápido: o golpe civil-militar de 1964 reforçou ainda mais seu autoritarismo com o AI-5 de 13 de dezembro de 1968, e, na sequência, milhares de pessoas punidas, cassadas, presas, torturadas e centenas de filmes, peças, livros, programas de rádio, letras de música, revistas censurados.

1968 está sendo? Continua sua explosão inventiva? Vive, creio, numa nova sensibilidade, numa transesquerda (Zé Celso), num protagonismo negro, feminista, dos trabalhadores e criadores, em sua rebelião sempre renovada. Os tempos são outros mas guardam semelhanças, no Brasil contemporâneo e alhures, e nos pedem: criemos com alegria e cuidemo-nos – só nos resta resistir e criar, reexistir.

SP - Vídeo independente do desastre na ocupação do Largo do Paissandu - por Juliano Angelin

SP - Vídeo independente do desastre na ocupação do Largo do Paissandu
“Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça”.

Foi a frase que ficou na minha cabeça ao longo do dia.

Fiquei pensando sobre como é estar do lado detrás da câmera registrando um desastre desse.

Como registrar e comunicar o acontecimento e a situação sem chover no molhado e sem explorar a condição delicada dessas pessoas? Muitas vezes tive vergonha de mim por estar ali numa situação de privilégio, preocupado em pegar bons takes e entrevistas, enquanto as pessoas acabaram de perder sua moradia, seus pertences e seus entes queridos.

Por um momento tive a impressão de ser o único ali incomodado com esse comportamento carniceiro da mídia. Quer dizer, único não, havia um grupo de crianças revoltadas gritando para não serem filmadas ou fotografadas. Ainda assim, a mídia fez (e está fazendo) seu papel: espreme a ferida para o sangue jorrar.

Isso sem contar com as especulações e boatos sobre a causa do incêndio. Histórias confusas e até com requintes de crueldade. Cheguei a ouvir que um casal brigando ateou fogo num bebê de 5 meses e o incêndio começou (!!!).

Claro, para o senso comum, as pessoas que moram em ocupações são maníacos selvagens capazes dos atos mais terríveis.

E a história do aluguel… Realmente, aquelas pessoas pagavam para uma galera, que se dizia do movimento e que na hora do desastre evaporou, ninguém sabe onde está. E mais uma vez, depois de tudo, quem leva a culpa é o pobre. Já que essa história do aluguel vai ser mais um argumento para criminalizar os movimentos sociais e combater as ocupações.

Conversei com uma repórter que pediu para não aparecer no vídeo. Quando perguntei para ela “Será que a corda não vai estourar novamente para o lado mais fraco”, ela me respondeu com a pergunta “Você trabalha para quem?”

Quando questionei um jornalista que filmava, sem autorização e de forma bastante invasiva algumas crianças dormindo, ele se escondeu atrás da câmera e focou em mim, como se o equipamento de filmagem fosse ao mesmo tempo um escudo e uma arma que o tornasse invencível contra qualquer lei ou ética.

O cenário é bastante desolador e triste. Na volta para casa, passei pelo show da CUT (Central Única dos Trabalhadores), e não entendi como era possível haver aquilo ali, enquanto a poucos metros trabalhadores e trabalhadoras estavam sem ter onde dormir ou queimavam debaixo dos escombros.

Em entrevista, uma das sobreviventes disse chorando: “…Mas a vida continua“.

Voltei pensando: “Continua, mas nunca será como antes”.

> Assista o vídeo (06:42) aqui:


agência de notícias anarquistas-ana

que flor é esta,
que perfuma assim
toda a floresta?

Carlos Seabra

A tragédia no Largo do Paissandu, no centro de São Paulo, por @LatuffCartoons

Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons

quinta-feira, 26 de abril de 2018

IDF, o exército mais moral do mundo ... mas, com exceções.

Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons

“A liberdade não se concede, conquista-se. Que a conquistem os negros!” - por Lucinda Canelas

“A liberdade não se concede, conquista-se. Que a conquistem os negros!”
A Mário Domingues devem-se, nos anos 20, os primeiros textos da imprensa portuguesa a defender abertamente a independência das colônias. Hoje são poucos os que conhecem a obra deste anarquista, que denunciou as brutalidades cometidas pelo império na África e que, com o Estado Novo, trocou os jornais pela ficção. Um breve ensaio volta agora a recuperar parte da sua história.

O bilhete de identidade basta para que comecemos a falar de uma história singular – a de um rapaz que nasceu na ilha do Príncipe no final do século XIX, filho de um homem branco e de uma angolana que para lá tinha sido levada para trabalhar nas plantações de cacau da roça Infante D. Henrique. Quem lhe faz o registro, já em Portugal, onde chegou com apenas 18 meses para viver com a família paterna numa casa onde não faltava nada, não tem sequer a certeza do dia exato em que nasceu – Junho ou Julho de 1899 –, nem do nome da sua mãe – “Congala” ou “Manga” é o que consta no espaço que lhe é destinado, assim, sem quaisquer apelidos, ao passo que o pai tem direito a nome completo (António Alexandre José Domingues).
“Isto era o que acontecia com os escravos, não se lhes conheciam apelidos”, diz José Luís Garcia, sociólogo que há mais de 20 anos reúne informação sobre o jornalista e escritor Mário Domingues (1899-1977), um dos primeiros que em Lisboa levantou a voz pela independência das colônias na África, na década de 1920, numa série de artigos que são verdadeiros manifestos de defesa dos direitos humanos sustentados pelas leituras que fazia do movimento de libertação dos negros norte-americanos e pelos ideais anarquistas e, ao mesmo tempo, notas de denúncia das barbaridades cometidas pelo império português, sobretudo em São Tomé e Príncipe e em Angola.

No artigo de 20 páginas que agora publica no volume Media and the Portuguese Empire(coord. de José Luís Garcia, Chandrika Kaul, Filipa Subtil e Alexandra Santos, Ed. Palgrave Macmillan, 2017), uma edição em inglês que reúne 17 ensaios que analisam as relações entre o poder e a informação e olham para o império português tomando os meios de comunicação como agentes das lutas sociais, políticas e culturais, José Luís Garcia concentra-se em alguns dos 30 artigos que Mário Domingues escreveu nos anos 1920 nas páginas do diário anarquista A Batalha.
Estes artigos, escreve o sociólogo, revelam três atitudes de base: uma oposição sistemática a todas as formas dissimuladas de escravatura, que continuava a existir nos territórios portugueses na África sob o rótulo de trabalho forçado; a denúncia do racismo que atravessava toda a política e administração coloniais, e a que as instituições eram também altamente permeáveis; e a consciência da importância da independência africana.
A Batalha é, a partir de 1919, um jornal que critica abertamente a estratégia republicana para os territórios africanos e apoia as reivindicações da população negra em Portugal continental e nas colônias.
É neste quadro, em que se “começa a consolidar uma consciência anticolonial em alguns setores”, que Mário Domingues escreve os seus artigos “absolutamente visionários inspirados pelas leituras que faz sobre o movimento identitário dos afro-americanos”, diz José Luís Garcia.
“Vários jornalistas do Batalha começam a escrever sobre a corrupção entre os funcionários administrativos das colônias, sobre o tratamento privilegiado que é dado a muitas empresas que têm lá atividade, o racismo, a perseguição aos negros que reivindicam os seus direitos e que têm jornais próprios (O Angolense ou A Verdade) para o fazer e, sobretudo, sobre o trabalho escravo”, explica, expondo um regime de servidão que não é muito diferente daquele em que milhares viviam antes da abolição da escravatura em todo o território português, em 1869.
O regime republicano persegue todo aquele que ousa resistir às regras impostas ou manifestar-se contra as condições degradantes em que se vive, enquanto os altos-funcionários inescrupulosos vão abusando do seu poder e enriquecendo à boleia de negócios com as multinacionais e com as minas da antiga Rodésia (Zimbabwe) e da África do Sul, ex-colônias britânicas, para onde enviam grandes contingentes de trabalhadores negros. As prisões estão cheias de pessoas que ficam detidas durante longos períodos sem saberem sequer do que são acusadas – prisões onde os castigos físicos são severos e o jejum uma imposição recorrente.
“Outros escrevem sobre estas situações degradantes, mas o Mário Domingues é o primeiro a defender claramente a independência das colônias portuguesas de forma coerente num jornal português de grande popularidade”, diz este sociólogo, que tem na cabeça uma exposição e na gaveta um livro sobre este jornalista que desde cedo mostrou ter uma inclinação para a escrita e uma apetência invulgar para as línguas (inglês, alemão e francês). “O fato de ler jornais e revistas internacionais e de estar a par das mais atuais reivindicações de direitos humanos que vinham dos Estados Unidos fazem dele um caso muito singular.” Domingues saúda a criação, em 1921, do Partido Nacional Africano (PNA), naturalmente anticolonial, que A Batalha apoia de imediato, e acompanha o pensamento de ativistas da justiça racial como o norte-americano W.E. Burghardt Du Bois e o jamaicano Marcus Garvey, uma das figuras mais importantes do movimento nacionalista negro.
“Ele tira partido da sua diferença racial e politiza-a. Ele é um mulato que pega nas leituras que faz sobre a identidade e os direitos dos negros a que muitos não tinham acesso e adapta-as à realidade que conhece.” E fá-lo escrevendo e escrevendo na primeira pessoa ou inventando personagens para ilustrar pontos de vista.
Liberdade pela luta
Para melhor compreender os artigos de Domingues n’A Batalha importa olhar para o contexto em que são publicados, só brevemente enunciado no ensaio que Garcia assina no volume Media and the Portuguese Empire.

A República empenha-se em dar continuidade à política colonial da monarquia, que iniciara uma nova fase nas relações com África nas duas últimas décadas do século XIX, com a ocupação militar e administrativa dos territórios ultramarinos, escreve muito antes este investigador do Instituto de Ciências Sociais no artigo “A Batalha e a questão colonial”, que publica com o colega José Castro em 1995 na revista acadêmica Ler História.
É a República que cria o Ministério das Colônias, logo em 1911, e que nomeia para a sua administração figuras importantes dos seus quadros (Norton de Matos e Brito Camacho). É também com a República, nas décadas de 1910 e 1920, que os brancos se começam a estabelecer em força nas colônias portuguesas na África e que a presença militar se consolida, abrindo caminho a uma administração civil cada vez mais abrangente e incisiva, que beneficia da aprovação do “estatuto jurídico das populações indígenas”, lembram os autores.
“Os vetores fundamentais desta construção ideológica são a ideia da vocação colonial civilizadora dos portugueses e o paternalismo humanitário em relação aos negros”, defendem Castro e Garcia, falando de uma “missão civilizadora” que não passa de um falso pretexto para pôr em prática um projeto político que tem sobretudo grandes motivações econômicas.
“O que eles queriam de fato era garantir, tal como a monarquia já queria, que as colônias continuavam a dar matérias-primas baratas e a servir de destino aos produtos que se faziam em Portugal continental, e isto sem levantar problemas. Os militares e administração estavam lá para isso”, diz Garcia, lembrando que não se olhava a meios para atingir estes fins. “A escravatura já tinha sido abolida formalmente, mas ela continuava nas colônias, sob a forma de trabalho forçado [criado em 1890]. Ninguém tem dúvidas disso hoje ou ninguém devia ter. A forma como se trabalhava nas roças do cacau em São Tomé e Príncipe é típica de um quadro de escravatura.”
O aumento da população branca nos territórios africanos alimentou, naturalmente, o racismo. A República, lembram Castro e Garcia, dividia a população negra entre “crioulos ‘assimilados'” e “indígenas”, e recusava-se a que os primeiros servissem de mediadores entre os colonos e os segundos. Ora, isso fez crescer entre os “crioulos” o sentimento de pertença à raça negra e a necessidade de combater o racismo.
É neste quadro que Mário Domingues assina no jornal anarquista uma série de artigos denunciadores, alguns deles verdadeiros manifestos, ainda que apoiados em fatos, em que desmonta o sistema colonialista da República e o que o sustenta, defendendo a independência da África.
Escreve o primeiro desses artigos (“O ideal da independência”, 5 de Julho de 1922) depois de ler outro que o deixou indignado, assinado pelo seu colega Cristiano Lima (“Na Feira Mayer. Uma exibição cruel e aviltante”, 28 de Junho de 1922), e nele assegura que “o espírito separatista” existe em quase toda a África portuguesa, “revigorado a cada perseguição, robustecido pela própria tirania de alguns brancos sem escrúpulos”.
Cristiano Lima parte de uma barraca de feira em que um homem branco com o rosto pintado de preto serve de alvo aos que lhe atiram bolas de pano e serradura para ganhar um charuto – por cima desta “diversão” havia “um dístico chamariz” onde se podia ler “o preto que resiste a todos os portugueses” – para denunciar uma “brutal e inútil selvajaria” com que compactuam todos os que permanecem em silêncio perante tamanho ataque à dignidade humana que evoca “épocas longínquas de escravidão e despotismo”, mas sem nunca se referir às condições em que vivem os negros nas colônias.
O que escreve Mário Domingues logo no primeiro título da série, por seu turno, não deixa dúvidas sobre o que pensa do domínio colonial na África, garantindo ser missão de todos proclamar a verdade corajosamente: “(…) O separatismo alojou-se definitivamente no cérebro e no coração do negro escravizado e vexado por uma colonização iníqua. (…) Porque não houve ainda quem, público e raso, afirmasse desassombradamente que talvez não tardem dez, 15 ou 20 anos que Portugal corra o risco de ficar sem colônias para explorar, sem negros para tiranizar?” E continua: “Às infâmias praticadas pelo despotismo branco, na África, só um ideal de independência se pode opor com eficácia.” E insta os negros a lutarem pela sua liberdade, “unidos numa consciência rácica” e com a certeza de que as suas reivindicações são mais do que justas. “A liberdade não se concede, conquista-se. Que a conquistem os negros!” “Têm ou não os negros direito à independência? Têm. Como alcançá-la? Lutando.”
E termina, num artigo carregado de interrogações e exclamações que parece destinar-se mais a ser ouvido que lido, apelando a uma grande manifestação dos negros de Lisboa como forma de tornar pública a urgência da libertação das colônias. “Desejamos ardentemente a independência do povo negro, porque somos partidários da independência de todos os povos, porque queremos ver a humanidade livre, absolutamente livre, vivendo em paz e harmonia!”
Noutro texto, o último desta série a que deu o nome Para a história da colonização portuguesa, apela a que os “organismos negros” exijam de imediato o fim dos castigos corporais, a anistia para todos os presos políticos, a equiparação de salários entre brancos e negros e a liberdade de trabalho e imprensa, em consonância com outros movimentos revolucionários que vão surgindo no plano internacional. “É preciso que o negro português ingresse também nesse movimento colossal… que tem por objetivo a independência da África.”
“Ele não escreve sobre a libertação das colônias portuguesas na África como se fosse uma utopia distante e eternamente inalcançável. Nem o faz como se este movimento se pudesse isolar de outros que se opõem ao imperialismo europeu e ao seu sistema de dominação”, sublinha José Luís Garcia. “O Mário Domingues faz exigências muito concretas e quer ver resultados.”
O guarda-livros contrariado
Mário Domingues não seria o único na redação do A Batalha a defender estes ideais independentistas e a denunciar as atrocidades cometidas pelo colonialismo português, atrocidades que a República perpetuara, apesar de (algumas) boas intenções iniciais, mas é o primeiro a escrever abertamente sobre a total libertação dos territórios ultramarinos.
Tudo isto é publicado por um diário claramente vinculado aos ideais anarquistas e não está isento de contradições. São artigos que defendem os direitos humanos em geral e o direito dos negros a serem livres em particular, mas não podem ser isolados de um contexto em que as reivindicações do proletariado também estão muito presentes. “Mas o Mário Domingues fala muito mais de raça e da emancipação dos negros” do que os seus colegas Cristiano Lima e Ferreira de Castro, por exemplo. “Quase todo o seu trabalho jornalístico tinha que ver com o fato de ele ser um homem negro a trabalhar num meio dominado por homens brancos e a viver numa sociedade em que aos negros não eram reconhecidos os mesmos direitos que aos brancos”, acrescenta José Luís Garcia.
Domingues chegou a Lisboa com apenas 18 meses para viver com os seus avós paternos num ambiente de classe média. O pai queria que recebesse uma educação séria e a casa dos avós proporcionou-lhe um ambiente seguro.
Nunca mais viu a mãe e, durante anos, por causa da informação que lhe era transmitida pela família paterna, acreditou que morrera quando ele era ainda bebê.
Há uma passagem em O Menino entre Gigantes – romance autobiográfico que publica em 1960 numa edição cuja capa é assinada pelo seu filho, o pintor surrealista António Domingues – em que a avó do protagonista foge às perguntas que ele lhe faz sobre a mãe ao pegar numa camisa de bebê que estava guardada numa gaveta.
“Havia nele uma tristeza que vinha da ausência da mãe e do fato de ter descoberto que as pessoas que lhe mentiram sobre ela foram das que mais amou na vida. Essa mágoa ficou. Falava muito da mãe, do fato de ela ser negra”, diz José Luís Garcia, que chegou a conversar com pessoas que o conheciam bem e a quem a nora do escritor, Adelina Domingues, confiou muitas das suas fotografias e documentos.
Em Lisboa acaba por fazer, contrariado, o Curso Comercial no antigo Colégio Francês, começando a trabalhar como ajudante de guarda-livros, mesmo tendo consciência da atração que sentia pela escrita desde sempre. Foi pela ficção, aliás, que chegou ao jornalismo, carreira que viveu intensamente durante quase 20 anos. Publicou o seu primeiro conto no diário A Batalha quando tinha apenas 19, tendo escrito e até ajudado a criar outros jornais e revistas (ABC, Ilustração, África Magazine, Imprensa Livre, Repórter X, Detective). Se o entusiasmo pela escrita não bastasse para abandonar a contabilidade, bastaria o salário – Alexandre Vieira, o então diretor do Batalha, prometeu pagar-lhe o dobro do que ganhava e cumpriu, contou Domingues num programa da RTP, em Agosto de 1970.
Sempre no meio
Até ao final de 1919, começos de 1920, Mário Domingues assinou sobretudo ficção e crítica de arte (era um entusiasta de modernistas como Amadeo de Souza-Cardoso e Almada Negreiros), escreve Garcia, embora defendendo que é natural que alguns dos artigos contra a política colonial que já antes disso A Batalha publicava sob anonimato fossem, na realidade, do jornalista. “É o estilo dele, a ironia com que escreve”, diz o sociólogo, fazendo referência a um em particular, em que o autor aborda o problema da escravatura nas roças de São Tomé, descrita como a mais próspera das colônias portuguesas, procurando desmontar o sistema falacioso de contratação dos chamados “serviçais”, completamente explorados e deixados à mercê das vontades dos proprietários das grandes fazendas de cacau, trabalhando das seis da manhã às seis da tarde e vendo os seus contratos renovados automaticamente, sem que fosse essa a sua intenção. Mas depois, e até ao começo dos anos 1930, assina a série da colonização portuguesa, transformada num apelo ao “belo ideal da independência africana”.
São 30 artigos em que denuncia mortes e violações, em que ataca as grandes companhias que usam a abusam da força para disciplinar os seus trabalhadores que tratam como escravos, em que contesta as limitações à liberdade de imprensa e em que expõe a falsidade da “missão civilizadora dos portugueses” na África. “Falar de brancos e negros implica falar da colonização, e a colonização, mesmo hoje, não pode ser definida senão numa palavra – crime”, escreve num dos textos desta série em que passa em revista 500 anos de império.
“O primeiro artigo em que fala de uma África independente é de uma falta de cautela deliciosa e vai pagar o resto da vida por ela.” Porquê? “Porque fica eternamente no meio – vê-se inicialmente arredado pelo Estado Novo e pelo salazarismo e, depois, é menosprezado pelo anti-salazarismo e por aquela parte da elite portuguesa que se habituou a menorizar o jornalismo e a literatura de aventuras e de cordel, coisas muito importantes para a criação de imaginários.”
Domingues viveu sempre esta condição de quem está “no meio”, uma condição que começa na cor da sua pele: “Não podemos esquecer que ele fez tudo o que fez sendo um mulato, com tudo o que isso implicava no Portugal do seu tempo.” Por isso, e sobretudo pelo caráter visionário e pela qualidade da sua escrita, José Luís Garcia não podia deixar de o incluir no volume que a Palgrave Macmillan lançou em Dezembro (disponível em papel e em versão digital): “Eu não podia perder a oportunidade de o apresentar no plano internacional que ele merece, já que em Portugal está ainda muito longe de ser devidamente reconhecido.”
Um não-alinhado
Entre artigos de opinião e a reportagem, gênero a que dedica boa parte da sua energia em jornais como o Detective, chegando a disfarçar-se de mendigo, pedindo esmola e dormindo nas ruas para depois poder escrever, a partir de dentro, sobre o apoio aos mais pobres e sobre as condições de vida nas prisões, Mário Domingues continuou a ter tempo para a ficção, publicando o seu primeiro livro em 1923, Audácia de Um Tímido, a que se seguiram Anastácio José (1927), O Preto do Charleston (1930), Uma Luz na Escuridão (1937) ou já referido O Menino entre Gigantes (1960), romance que dedica à mãe e em que, dando voz a Zezinho, um menino mulato educado em Lisboa por uma família burguesa que não pode ser outro se não o próprio autor, escreve: “Eu ficara sucumbido como se me vibrassem uma bofetada à traição. Era a primeira vez que me faziam sentir, de maneira humilhante, a cor negra da minha pele. Talvez não acredites, Marisa adorada: eu nunca fizera até então reparo em que era muito diferente das pessoas que me cercavam.”
“Percebi a dada altura que persistir na minha carreira jornalística era prejudicar a minha carreira nas letras”, diz na mesma entrevista à televisão pública, justificando o abandono dos jornais. Em momento algum do programa em que a RTP o acompanha pelas ruas e praias da Costa da Caparica, onde vivia, se lhe houve qualquer comentário às limitações à liberdade de imprensa impostas pelo Estado Novo, o que é natural, já que o programa passa quatro anos antes da revolução que depõe a ditadura.
Trocado o jornalismo pela ficção, Mário Domingues passa a dedicar-se aos romances policiais e de aventuras, sob pseudônimo – Os Mistérios da Índia, Segredos da Espionagem Oriental, Perdidos na África –, conseguindo viver da sua escrita, como queria desde a adolescência: “Durante dez, 15 anos escrevi uns 160 ou 170 livrinhos desses de cerca de 200 páginas, recheados de aventuras, cheios de imprevistos, com índios e cowboys, viagens extraordinárias por regiões do mundo que eu nunca tinha visto.”
A estes romances seguiram-se as biografias de grandes vultos da história de Portugal (D. Manuel I, Padre António Vieira, Nun’Álvares Pereira), figuras que serviam na perfeição a retórica do Estado Novo. E isto tendo ainda no “currículo” traduções de obras de Charles Dickens e George Eliot.
“Mário Domingues era um escritor notável. Primeiro foi um jornalista incrível, repórter impressionante, e depois transformou-se no nosso Emilio Salgari [o escritor italiano que criou o corsário Sandokan]. Nunca parou de escrever, porque sempre quis viver da escrita”, diz Garcia.
Mas, se foi autor de uma obra tão vasta quanto diversificada, e sobretudo de uma série de textos absolutamente pioneiros no que toca à defesa da independência das colônias portuguesas, por que razão permanece Mário Domingues praticamente esquecido e, com raras exceções, confinado a publicações acadêmicas? Porque durante o Estado Novo troca os artigos revolucionários nos jornais por livros de cowboys e de aventuras? Porque a dada altura decide escrever sobre os “heróis” que tanto agradavam ao regime e acaba por ele condecorado?
“Fica oculto, porque não alinha com o PCP. Termina a vida pouco crítico, mas sem deixar o anarquismo, nem a ideia de viver apenas da escrita, condição típica e desgraçada do intelectual do século XX. É um não-alinhado”, acrescenta este investigador que está habituado a estudar as relações entre os meios de comunicação e o poder político – Garcia coordenou, com Tânia Alves e Yves Léonard, a obra Salazar, o Estado Novo e os Meios de Comunicação, que saiu no ano passado com a chancela das Edições 70 –, e que gosta de tratar os jornais como “arquivos da realidade” e não como meras ferramentas instrumentalizáveis ao serviço de determinado programa que lhes é exterior. “Os meios de comunicação influenciam estilos de vida, comportamentos, opiniões, e são, nessa medida, atores de primeiríssimo plano da história, pelo menos a partir da segunda metade do século XX. (…) A política faz-se com ideias, linguagens, correntes de opinião, e isso coloca os meios de comunicação no coração do processo.”
agência de notícias anarquistas-ana

por uma só fresta
entra toda a vida
que o sol empresta
Alice Ruiz