A radicalização deles e a nossa
Participante da Ocupação Santa Luzia, em São Gonçalo, Rio de
Janeiro
Derrotada nas urnas, direita reage contra PT e projeto de
mudanças superficiais. Dilma contemporiza. E se entrarem em cena os movimentos
sociais?
Acabou a batalha do segundo turno. Dilma foi reeleita para a
presidência da República em votação apertada. Ao final, a vantagem no Norte e
Nordeste foi suficiente para compensar a derrota em São Paulo e no Sul do país.
A campanha deste segundo turno foi marcada por uma
polarização que não víamos desde 1989. Mas diferente de 1989 — quando Lula falava
em suspender o pagamento da dívida pública e em fazer reformas estruturais —
agora não estavam em jogo projetos políticos tão antagônicos.
O PT manteve desde 2003 as linhas mestras da política
econômica tucana. O controle da inflação às custas de juros e câmbio
sobrevalorizado, a política de superávit primário para pagamento da dívida e as
concessões da infraestrutura nacional e da exploração de petróleo para grandes
empresas privadas.
Na política, ambos governam alicerçados no que há de mais
atrasado na sociedade brasileira. Ambos mantiveram o PMDB como eminência parda
da política nacional.
O PT nem ensaiou nestes 12 anos levantar a bandeira das
reformas populares — bloqueadas no país desde João Goulart. Reformas urbana e
agrária, reforma tributária progressiva, reforma política e do sistema
financeiro. Auditoria da dívida pública, desmilitarização das polícias e
democratização das comunicações. Estas são as pautas populares e de esquerda
para o Brasil. Alguém as viu nos últimos governos?
Porém, a disputa entre Dilma e Aécio foi extremamente
polarizada, tendo a elite brasileira e todos os setores mais conservadores se
alinhado com o candidato do PSDB. Por que isso, se as diferenças não são tão
grandes assim?
Quem polarizou as eleições de 2014 foi a direita. Ao PT não
interessava a polarização, afinal governou durante 12 anos com discurso de um
pacto social, de que todos se beneficiariam. Mas os setores mais atrasados
da sociedade brasileira -assanhadinhos desde o ano passado- resolveram tomar o
antipetismo como razão de existência.
Na linha mais conservadora, construíram um discurso racista,
antipopular e de ódio aos pobres. As manifestações pró-Aécio fizeram lembrar a
Marcha da Família com Deus de 1964. Os protagonistas inclusive foram os mesmos:
a classe média de São Paulo e a fina-flor da elite urbana brasileira.
Até dirigentes do PSDB entraram na onda. José Aníbal evocou
Carlos Lacerda, o maior golpista da história da República, para dizer que,
tomando posse, Dilma não poderia governar. FHC enterrou algum resquício de
credibilidade intelectual -se é que tinha- com sua fala sobre o voto dos
nordestinos. Dizem que o governo Dilma não terá legitimidade. Legitimidade para
essa gente significa o apoio da classe média do Sudeste.
Mas o segundo turno acabou e o PT levou a fatura. A eterna
turma do deixa-disso, liderada por Michel Temer, já começa a costurar a repactuação
das forças políticas e o fatiamento do novo governo. Polarização foi até
domingo, agora é hora da união republicana pela governabilidade.
Ledo engano! Agora é que vai começar a ficar interessante.
Polarização política, quando levada ao sentimento popular, não se desmonta com
facilidade. E a situação econômica exige decisões que não poderão ser tão
conciliadoras.
É claro que a vontade de Dilma é recosturar alianças e fazer
um governo de unidade. Deixou claro isso em seu discurso da vitoria. Mas ela
sabe que o mar não está para peixe. O crescimento econômico refluiu e isto
impacta no Orçamento. A ideia de governar para todos — com lucros recordes para
os bancos e empresas e algumas melhorias para os trabalhadores — não se
sustenta na nova conjuntura.
A hora é de decisões. Ou se tomam medidas impopulares —
daquelas anunciadas com regozijo por Aécio Neves — ou se enfrenta o desafio de
reformas populares. O modelo lulista de conciliação nacional dá sinais claros
de esgotamento, pois está baseado na combinação de crescimento econômico com
desmobilização social. Junho de 2013 e a polarização eleitoral de 2014 foram
sintomas disso.
Evidentemente, seria ilusório acreditar que o PT resolverá,
de uma hora para outra, fazer as transformações estruturais que tirou de sua
agenda desde antes de 2002. Tem de prestar contas para a JBS Friboi e para a
Odebrecht, para Katia Abreu e Renan Calheiros. Mesmo que desejasse, não teria
condições de dar esta guinada.
Mas é aí que entra o terceiro turno. A polarização da classe
média de direita nas ruas reascendeu o outro polo: os trabalhadores
organizados. Aliás, desde junho de 2013 as lutas populares urbanas e as greves
tiveram um crescimento expressivo e contínuo. Assim como a radicalização da
direita, a crise do modelo de conciliação começa a produzir uma radicalização
popular.
Nesse cenário, se Dilma começar 2015 com cortes
orçamentários e ajuste de tarifas, ela pode pacificar a elite e a turma do
PSDB, mas terá de enfrentar a mobilização das ruas.
Pela primeira vez nesses 12 anos de petismo criou-se um
caldo que pode recolocar na agenda as reformas populares. Não deixa de ser
sintomático que Dilma tenha mencionado o plebiscito pela reforma política em
seu discurso de união nacional. As contradições estão pulsando. É claro que a
construção desta agenda não se dará por iniciativa nem vontade do PT, mas pela
polarização das ruas e pelo fim de um ciclo econômico.
Será o terceiro turno das lutas. Agora sim os grandes
antagonismos da sociedade brasileira poderão entrar em jogo.
Fonte: http://outraspalavras.net/
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