segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A guerra financeira mundial - por Fernando Moreno Bernal

A guerra financeira mundialOs diferentes países tentam superar a sua crise aumentando as suas exportações, dada a queda da procura interna, mas os mercados estrangeiros estão estagnados, à exceção dos emergentes BRIC. O sistema financeiro internacional é baseado na supremacia econômica e na posição privilegiada do dólar americano como moeda mundial de comércio e reserva. E essa supremacia desmoronou-se.
Por Fernando Moreno Bernal, da ATTAC Andaluzia

No dia 22 de outubro de 2010, com a presença de ministros das Finanças, governadores de Bancos Centrais e chefes das principais instituições internacionais, teve início, em Gyeongju (Coreia do Sul), a reunião preparatória da cúpula de chefes de Estado e de governo do G20, que vai se realizar em 11 e 12 de novembro em Seul. De acordo com o que foi dito, o objetivo é parar com a guerra de divisas desencadeada no verão e tentar aproximar as posições das economias emergentes e das ricas, para não pôr em risco a recuperação econômica.

Não participam nesta reunião nem o ministro da Fazenda, nem o presidente do Banco Central do Brasil. Para que, se os Estados Unidos não cedem? No último 4 de outubro, o Brasil aumentou o imposto aos especuladores da sua moeda, o real, de 2% para 4%, e um novo aumento foi anunciado para 6% a partir de 25 de outubro. A China, a Rússia, o Brasil e a Turquia já assinaram acordos para utilizar as suas próprias moedas à margem do dólar e do euro.

Vivemos o colapso do sistema de relações monetárias e comerciais multilaterais vigente, e o colapso também das probabilidades de ser criada uma coordenação multilateral para sair da crise do capitalismo financeiro. Os diferentes Estados-nação tentam superar a sua crise aumentando as suas exportações, dada a queda da procura interna, mas os mercados estrangeiros estão estagnados, à exceção dos emergentes BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) que crescem entre os 5% e os 9,6% da China. O sistema financeiro internacional é baseado na supremacia econômica e na posição privilegiada do dólar americano como moeda mundial de comércio e reserva. E essa supremacia desmoronou-se.

Em 2010, o sistema capitalista em crise agudiza as suas contradições, sem que esteja sequer no horizonte qualquer alternativa estratégica para o mesmo. Os processos lógicos e previsíveis levaram-no ao beco sem saída onde se move a economia-mundo deste sistema capitalista que agoniza. As operações de resgate da banca privada especuladora e os estímulos condenaram-nos ao endividamento fiscal, à dívida sem sustentação real e à falência dos Estados, que só os Estados Unidos podem evitar abusando do dólar como moeda internacional, mas agudizando com isso as tensões no sistema financeiro internacional. Ao suspender os incentivos, a queda vertiginosa do consumo e da produção aprofunda a crise social, devido ao desemprego, e a crise das prestações e serviços públicos que a acompanham. É uma luta de todos contra todos, combinada com um ataque geral em cada país contra os cidadãos, que são forçados a pagar com a redução dos salários diretos, com os aumentos da idade da reforma e com a perda de direitos do Estado social, denominadas “medidas de austeridade”, devido ao colapso da ordem econômica capitalista global.

As greves e conflitos sociais generalizados em todo o mundo estão apenas começando. Quebrando-se todas as alianças, o ano de 2010 está sendo o ano da solidão e da angústia para os Estados-nação. A desconfiança e a insegurança generalizam-se. Ninguém confia em ninguém. Todos se confrontam. A própria União Europeia já se deparou com grandes confrontos no seu seio, que puseram em perigo a sobrevivência da Zona Euro e que ainda podem chegar a fraturá-la. Os principais ataques aos países periféricos da Zona Euro provêm da Alemanha e da França e têm como objetivo debilitar o euro e melhorar as suas posições de países exportadores nesta batalha mundial comercial e de divisas.

Aqueles que contrapõem as medidas adotadas pelos Estados Unidos às da UE, esquecem-se da posição diferente em que se encontram as suas oligarquias. Todas elas favorecem os seus próprios especuladores, mas partindo de posições hegemônicas ou subalternas no ainda vigente sistema financeiro internacional.

Os planos de salvação da banca privada, após a explosão da bolha de 2008, inundaram o sistema de liquidez. Necessária, diziam, para que continuasse a fluir o crédito às empresas e às famílias. Não tendo utilizado estes fundos para nacionalizar consequentemente a banca e deixando-a agir sem qualquer controle, este excesso de liquidez fluiu não para a economia real e produtiva que cria emprego e satisfaz necessidades sociais, mas para a especulação internacional de divisas, aumentando as suas taxas de câmbio e prejudicando as exportações ao encarecê-las. Fluiu também para os títulos da dívida soberana dos Estados, criando crises artificiais para obter lucros substanciais com a sua especulação. Longe de ajudar a recuperação global, a “maré de liquidez” procedente do Federal Reserve e do Banco Central Europeu está causando o caos nos mercados de divisas e no sistema financeiro internacional.

O Federal Reserve dos Estados Unidos anunciou o início de outro plano de incentivos de cerca de um bilhão de dólares. Desde o início de setembro, o preço do ouro disparou, os investidores institucionais vendem dólares, baixando a sua cotação e melhorando a sua posição exportadora, e as restantes nações e divisas têm de adotar medidas tendentes que protejam as suas próprias economias. Especialmente os BRIC que, ao crescerem e oferecerem juros mais altos, atraem os fundos de investimento como refúgio.

Assim, o atual sistema financeiro internacional favorece a especulação e obriga os bancos centrais dos outros países a efetuar empréstimos aos Estados Unidos. Os especuladores obtêm lucros em dobro: por um lado da margem entre empréstimos a 0,25% ou 1% contraídos nos Estados Unidos ou na UE e os rendimentos dos títulos de dívida soberana dos países a quem concedem empréstimos; e, por outro, dos ganhos no mercado resultantes da revalorização da taxa de câmbio da divisa utilizada nos empréstimos.

O crescimento dos dólares nas reservas dos Bancos Centrais transfere para o resto do mundo o financiamento do déficit orçamental dos Estados Unidos, provocado maioritariamente pelas guerras do Iraque e do Afeganistão, pela multiplicação de bases militares por todo o mundo e pelos planos públicos para salvar os especuladores internacionais. Face à entrada massiva de dólares, todos os países se vêm obrigados a manipular a cotação das suas divisas como forma de autodefesa.

O sistema financeiro global está destruído. As possibilidades de ação são três: 1) reciclar os dólares entrados, comprando títulos de dívida dos EUA, coisa que está a fazer-se; 2) controlar os movimentos de capital, como fez a Malásia em 1998 e como Lula fez no Brasil, por via fiscal; 3) Evitar a utilização do dólar e do euro, como estão fazendo a China, a Rússia, o Brasil, a Turquia, a Índia e cada vez mais países.

Tanto a possibilidade 2 como a 3 vão na direção contrária à seguida até agora e levam ao fim do FMI, do Banco Mundial e da OMC.

É neste contexto que teve início a reunião de ministros e governadores do G20. O secretário norte-americano do Tesouro, Timothy Geithner abriu-a com uma comunicação, na linha do esboço preparado pela organização, que é um ataque aos BRIC e que já foi rejeitada por estes, pelo Japão e pela Austrália. Na segunda-feira, dia 18, a reunião preparatória entre o FMI e a China, em Xangai, terminou sem conferência de imprensa, com os seus principais dirigentes revelando a manutenção dos desacordos e dos confrontos verificados nas reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial de 9 e 10 de outubro em Nova York.

A alternativa é clara: ou se apoia com bom senso e coerência a economia produtiva, normalizando o comércio internacional e regulando as finanças internacionais num sistema financeiro internacional que corresponda ao interesse partilhado por todos ou, pelo contrário, se criam e mantêm as oportunidades para os especuladores institucionais, beneficiando não mais de 200 mil pessoas em todo o mundo, e com o proveito exclusivo do complexo industrial-militar dos EUA e da Grã-Bretanha, mantendo o atual sistema financeiro com retoques que, na sua essência, nada mudam.

E é neste contexto que a ATTAC Espanha lança a sua Campanha por um Imposto sobre Transações Financeiras (ITF) JÁ. Porque existe uma saída na direção correta do “bem viver”, que passa por obrigar os que causaram a crise a pagá-la, por meio da aplicação de um imposto aos especuladores, tanto nas transações financeiras em divisas comuns, como internamente nos Estados-nação, e por fazer aflorar o dinheiro sujo dos paraísos fiscais.

A luta pela criação de um ITF é muito mais do que conseguir algumas receitas para financiar os Objetivos do Milênio (ODM). Tal como estão as coisas, os ODM são inatingíveis e ficarão cada vez mais distantes, tal como hoje o estão mais que em 2000. Os poucos êxitos foram conseguidos nos países do BRIC que deixaram de acatar as diretivas neoliberais.

Criar um ITF é lutar contra a especulação que destrói o emprego e o bem-estar dos cidadãos, razão pela qual tem de ser suficientemente elevado para impossibilitar esta especulação. Criar um ITF é defender o sistema democrático, que implica sair da crise colocando-nos na perspectiva de solucionar em primeiro lugar as necessidades das pessoas, o que exige necessariamente a regulação e o controlo do sistema financeiro especulador. Criar um ITF é apostar na saída da crise, porque o cenário possível sem ele é um ano de 2011 recessivo, de ruptura e de contração até ao esgotamento e ao cansaço final.
Fonte: http://www.revistaforum.com.br

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