terça-feira, 14 de outubro de 2014

A farsa representativa: Só 36 Deputados Foram Eleitos por Voto Direto e Nominal – por João Paulo Charleaux


Só 36 Deputados Foram Eleitos por Voto Direto e Nominal
Tiririca, na foto felizão, teve tanto voto no domingo que arrastou consigo para o Congresso pelo menos outros dois colegas menos votados. Crédito: José Cruz / ABr

Apenas 36 candidatos a deputado federal foram eleitos por voto direto e nominal no domingo. Os outros 478 “ganharam” votos de candidatos mais expressivos ou se beneficiaram com votos na legenda. A “mágica” se chama “quociente eleitoral”, uma conta que determina quantos votos são necessários para que um deputado se eleja. Isso varia entre os Estados, dividindo o número de votos válidos pelo número de vagas a serem preenchidas. Em São Paulo, por exemplo, são necessários 300 mil votos para que um candidato seja eleito deputado federal. Quando o candidato excede esse quociente, os votos excedentes passam para o segundo colocado na mesma coligação, para o terceiro, quarto ... levando consigo uma corrente de candidatos menos votados.

Tiritica, por exemplo, precisava de quase 300 mil votos para se reeleger deputado federal por São Paulo, mas reuniu cinco vezes isso. O que sobrou, o palhaço deu de presente para pelo menos dois colegas de legenda que entraram na Câmara de carona. O mesmo rolou com Celso Russomano (PRB-SP). Ele também recebeu 1,5 milhão de votos e presenteou pelo menos quatro colegas de menor fama com o excedente. É como naquelas pilhas de taças de champa em casamento: você joga a champa no topo e ela vai descendo pirâmide abaixo, quando enche uma taça, automaticamente escorre para as taças que estão na base. Cada coligação é uma pirâmide de taças: seus "Tiriricas", como ganham muitos votos, ficam no topo e, quando eles têm votos suficientes para encher a própria taça começam a escorrer para as que estão logo abaixo, distribuindo os votos excedentes dentro da coligação. Assim, por exemplo, se você é candidato na mesma coligação do Tiririca e recebeu 299 mil votos, não se elegeria por conta própria. Mas, como é o segundo mais votado, logo abaixo do Tiririca, ele te passa um voto excedente. E segue fazendo isso com todos os que vêm logo atrás de você, até que o excedente esgote. É meio complicado, mas é por aí.
Henrique Alves (PMDB-RN), presidente de um Congresso no qual apenas 35 dos 513 deputados foram eleitos sem a ajuda da legenda ou de outros candidatos da mesma coligação.

“Quando alguém puxa votos para candidatos do mesmo partido não é tão grave porque, pelo menos em tese, deveria haver afinidade de doutrina, de programa. O que está errado, muito errado, é quando isso acontece na coligação. Você vota em alguém de um determinado partido, mas esse votos acabam beneficiando alguém de um outro partido”, diz Antônio Augusto de Queiroz, do Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar), órgão que desde 1983 faz o monitoramento do Congresso Nacional para um grupo de 900 entidades sindicais de trabalhadores.

Toninho cita como exemplo o Distrito Federal, onde o PT recebeu 19 mil votos, o que ajudou a eleger o pastor evangélico Ronaldo Fonseca, do PROS-DF, figura nada alinhada à ideologia petista.
A indignação com o pastor Marco Feliciano em 2014 não se traduziu em votos. Diap diz que bancada dos direitos humanos diminuiu e a dos evangélicos e policiais cresceu.

Em Roraima são necessários apenas 30 mil votos para eleger-se deputado federal. Por isso, candidatos que tiveram votação expressiva, como Roberto Freire (PPS-SP), ficaram de fora da Câmara por São Paulo, mesmo que seu número total de votos – quase 63 mil – tenha sido suficiente para elegê-lo duas vezes por Estados como o Acre, o Amapá ou Roraima.

O cientista político Cláudio Couto, da FGV (Fundação Getúlio Vargas) compara tudo isso a um jogo de futebol – “No jogo, poucos jogadores marcam o gol, mas o time inteiro ganha a partida”. Ele diz que na eleição é assim também: alguns são atacantes goleadores e dividem seus méritos com toda a equipe, do goleiro ao reserva que nem entra em campo. É tudo uma questão de jogar em equipe, ou no partido político, na coligação.

Gente de votação expressiva, como Nilmário Miranda e Domingos Dutra, ambos petistas e ferrenhos opositores ao pastor Marcos Feliciano no Congresso, ficaram de fora esse ano embora tenham recebido nominalmente mais votos que concorrentes de outras siglas. Por essa e por outras, Toninho considera que elegemos desta vez “o Congresso mais conservador desde a redemocratização”. Candidatos ligados aos direitos humanos e ao mundo sindical caíram, enquanto os políticos do discurso da segurança pública e dos evangélicos cresceram em representação, muitos deles puxados por candidatos-estrela como Tiririca e Russomano.

Fonte: http://www.vice.com/pt_br/

2 comentários:

Anônimo disse...

que horror, e ainda querem que eu vote....

joarcokru disse...

Pense no contrário, se elegêssemos somente os mais votados nominalmente e não pelo número de votos obtidos pelo partido ou coligação, quantos eleitores ficariam sem nenhuma representação nas legislaturas? E, nas votações do legislativo, o voto do deputado Tiririca valeria três ou mais vezes o de seu colega? Ou sub-representaríamos seus eleitores?